terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gibiografia


GIBIOGRAFIA – MINHA HISTÓRIA EM QUADRINHOS

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Entro na estranha máquina do tempo, uma espécie de divã em formato de uma motocicleta sem rodas, com assento mais largo. No que seria o guidão aciono o memorial-pad. Ele escaneia minhas ondas cerebrais e procura a memória afetiva mais frequente: quadrinhos, é o resultado. O contador passa a procurar a data-momento onde minhas memórias guardam a lembrança mais antiga que tenho sobre quadrinhos. E sou jogado para lá em um vórtice enjoativo. Estou em meados de 1975, na casa em que morei quase a vida toda.

A viagem não é física, mas virtual. Estou lá e não estou. A máquina funciona por datas e temas. Estranhamente ela escolheu quadrinhos. Me vejo sentado no muro da meia-água onde eu morava. Uma das minhas muitas tias – por parte de pai – chega com um monte de revistas em quadrinhos e me entrega. Ela sabe que eu não sei ler ainda, e pouco se importa com isso. Em algum momento ela notou a minha afeição pelos quadrinhos e me trouxe este presente.

Meus dois tios mais novos – irmãos dela – se aproximam e pedem para ver as revistas. Eu deixo. Como já sabem ler, querem emprestado. Vão separando as que querem, uma a uma. Somente as melhores, as de super-heróis. Mas, ainda deixam uma comigo: Riquinho. Nunca mais vi as outras. E tomei uma certa raiva das revistas do Riquinho.

A máquina diverge e me joga mais para a frente. Estou com minha mãe  no ponto de ônibus. É o ano seguinte e já sei ler um pouco. Ao nosso lado uma banca de jornal muito humilde tem alguns gibis. Esta banca é, na verdade, uma pequena filial de uma maior que fica num bairro mais distante. Foi a única banca que meu bairro teve e, depois que ela acabou, alguns anos depois, nunca mais teve outra, até os dias de hoje.

Peço CR$ 1,00 (um cruzeiro) à minha mãe, para comprar uma revista do Pato Donald. Era superfina, pouquíssimas páginas, mas era o que eu podia comprar. Ela me dá o dinheiro e eu a compro, como se estivesse adquirindo ouro puro.

Vou mais para frente um pouco – quase nada – e estou em casa novamente, com minhas irmãs e irmão – esperando minha mãe chegar. Ela foi às compras e parece estar demorando. Ela chega cansada, mas com um certo brilho nos olhos. As bolsas ainda são aquelas de papel, com alças, Ela as deposita no chão e me chama. De dentro de uma delas ela puxa algo.

Olhando de onde estou, parece que tudo se passa em câmera lenta, ou talvez seja apenas ela saboreando a alegria de me ver em expectativa. Ela retira um gibi da bolsa. Eu quase não consigo acreditar. A imagem à minha frente é a mesma que carrego na memória: ela segura uma revista em quadrinhos de O Mestre do Kung Fu. Nunca tinha visto. Não sei se vou gostar ou não, mas sei que é o melhor presente do mundo.

Os anos passam com um pouco mais de pressa e já estou em um tempo que meu pai se foi, separou-se de minha mãe. Ela seguiu sua vida e cria a nós quatro sem nunca reclamar desse fardo. Chegamos a ter um padrasto, mas não deu certo. Então ela procura não se apegar. Quando arranja um namorado, para minha surpresa, ele gosta de gibis, exatamente como eu. Acho que eu nunca tinha visto isso, um adulto que lia gibis.

Seu nome é engraçado, Daguiberto, nunca esqueci.Quando ele mesmo não me dá seus gibis, me dava dinheiro para eu comprar. Numa dessas vezes, eu pego o dinheiro e saio pelo mundo para comprar uma revista. Não encontro a banca que estou acostumado a ir aberta. Então ando mais e mais. Acabo indo muito longe, mas compro o que queria: a Disney Especial – Os Cosmonautas. Era o primeiro gibi com tantas páginas que eu tinha.

Quando chego em casa, quase apanho. Demorei demais, e ninguém sabia onde eu estava. Daguiberto quase apanha também.

A máquina acelera e estou em meu primeiro emprego, aos 11 anos de idade. É 1980. O que aconteceu foi que perguntei minha mãe se eu podia trabalhar. Ela reluta um pouco, mas decide que posso, e consegue emprego para mim num armazém de um senhor para que ela trabalha de faxineira em sua casa: o Seu Joaquim. Para minha surpresa é o pai de uma de minhas primeira – ou talvez a primeira – professora, de muitos anos atrás. Anos depois iria trabalhar para seu filho, no bar dele. O dinheiro não dá para comprar muitos gibis.

No ano seguinte a coisa toda muda. É como se fosse a Era de Ouro dos quadrinhos para mim. Estou com 12 anos e consegui emprego em uma padaria de bem pouco movimento no tal bairro onde a banca de jornal matriz, que mencionei lá em cima, fica. Junta a fome com a vontade de comer.

Me vejo acordar todo dia bem cedo e, antes de seguir para a padaria, começo a ir a banca. Acelero o tempo e me vejo criar uma relação comercial e de amizade com os dois jornaleiros donos da banca. Até mesmo confiam em mim para comprar fiado. Ganho tano a confiança deles, que já chego e não pergunto mais o que saiu de novo, apenas entro na Kombi, procuro os pacotes, abro e vou pegando o que quero. Pensando nisso hoje, era muito estranho fazer isso.

Com o tempo acelerado, vejo minha coleção de quadrinhos crescer e não caber mais no pequeno armário amarelo onde eu as colocava. Não compro mais apenas Disney ou apenas super-heróis, eu compro TUDO que sai. De Turma da Mônica a Espada Selvagem de Conan. Tomo conta de um grande armário branco que fica na sala e uso toda a parte de baixo para colocar minha coleção. Arrumo em várias pilhas bem organizadas.

Fico sabendo já depois de adulto, que minhas irmãs pegavam quadrinhos da Turma da Mônica que tinha medo de pedir emprestado, quando eu ia trabalhar e colocavam de volta na mesma posição, para que eu não desconfiasse. Ri quando me contaram isso.

O armário branco torna-se pequeno também, e não consigo encontrar solução. A casa não tem espaço, e muito menos eu tenho um quarto meu. Nenhum de nós tem. Uma ideia me vem a cabeça.

Todo domingo, na rua da padaria onde eu trabalho, há uma feira livre e há algo lá que destoa de toda a feira: uma banca de gibis usados, onde eu mesmo comprei alguns. Fico sabendo que eles compram, também, e falo dos meus mais de 500 gibis. Eles aceitam comprar. Então, arranjo três grandes caixas, coloco todos eles dentro e consigo um carrinho de mão, para transportá-los até lá. Eu já começava a exercer o desapego, quando necessário. Com o dinheiro arrecadado, comprei minha primeira bicicleta, mesmo que de segunda mão.

Então, nos anos subsequentes eu não mantenho uma coleção tão vasta como aquela. Sempre compro, guardo, troco ou vendo. Faço muitos amigos por meio da troca de gibis. Também vou crescendo, chegando à idade adulta e um desastre acontece em minha vida: quando chego aos vinte anos me torno religioso, uma Testemunha de Jeová.

A máquina para com um sopetão e eu me vejo parar de comprar quadrinhos, pois a doutrina ensina que é errado lê-los, devido às duas muitas más influências, como por exemplo, personagens baseados em deuses pagão, como Thor, ou no próprio demônio, como Daredevil (Demolidor). E assim, sigo por sete anos, demorando para perceber que tudo é basicamente um discurso para nos fazer sentir culpados, e que muitos fazem e veem o que querem, fora das reuniões religiosas.

Como se para compensar, coleciono muito material de leitura da religião, quase como quando eu colecionava quadrinhos. Mas, não é a mesma coisa, Perto do fim dos sete anos – que por ironia, significa perfeição, na simbologia bíblica – eu já voltei a ler alguns quadrinhos. Quando abandono a religião, o primeiro gibi que leio é O Reino do Amanhã (Kingdom Come, uma alusão ao Pai Nosso), fazendo a ironia estar novamente presente.

Volto para o mundo dos vivos, agora com 28 anos de idade. A máquina do tempo parece navegar em águas mais calmas. Ainda estou meio perdido, mas as coisas vão ganhando foco novamente. A síndrome do Pânico que adquiri antes de me tornar religioso ainda prevalece. E não, não procurei nas Testemunhas de Jeová uma cura. Procurei conhecimento e, de certa forma, eu atingi o meu objetivo.

Na internet conheço outras ex-Testemunhas de Jeová e outras pessoas com Síndrome de Pânico. Essa facilidade em lidar com o mundo virtual faz com que cheguemos ao anos 2000, o alvorecer do século 21 e tudo volte a mudar na minha vida, mais uma vez. Conheço uma pessoa, no mundo virtual que, no ano seguinte se torna minha esposa, minha sempre amada Eliane, ou simplesmente Lia. O que vem pela frente é fruto dessas mudanças que ocorrem aqui.

A máquina dá um salto para o ano de 2003. Já estamos casados há mais de dois anos. Desde então, me imiscuí no mundo da internet e por uma espécie de acidente – como em toda boa origem – os quadrinhos voltam com força total à minha vida. Até então eu vinha comprando e lendo de forma esporádica, sem me importar realmente. O baque de ficar tanto tempo afastado ainda cobrava seu preço. Mas, uma conjunção de acontecimentos faria tudo isso mudar de vez.

Eu tinha começado um tal blog, chamado rapadura Açucarada, e não tinha muito o que postar. Blogs eram novidade e eu acabei experimentando o formato. Mas, assim como nas duas vezes anteriores, parecia que este blog também acabaria sendo deletado. Até que alguém me pediu para escanear a página de uma HQ que eu descrevi e tudo se tornou isso, como muitas vezes acabei relatando no próprio blog, em quase cada aniversário.

Eu queria compartilhar, como vi pessoas fazerem antes de mim. E, para compartilhar, eu precisava adquirir, comprar quadrinhos. E eu voltei a fazer isso com todo fervor de muitos anos antes. Como na minha pré-adolescência. E não apenas novos, mas eu comecei a percorrer sebos e comic shops, passei a conhecer pessoas que amavam os quadrinhos como eu amava, tanto no mundo virtual, quanto no real. E, aquilo – isso – se tornou um caminho sem volta. Ou apenas, um caminho que teve uma breve pausa.

A máquina acelera passando por esses quase 13 anos, e mostrando como amadureci como leitor de quadrinhos. Como aprendi a gostar de coisas que antes eu não tinha acesso e, quando tinha, demonstrava certo preconceito: Will Eisner, Chiclete Com Banana, Striptiras, Robert Crumb, Asterix, Circo, Revista Animal, Akira, Lourenço Mutarrelli, Bone, Quadrinhos europeus, mangás, e por aí vai em uma lista muito grande.

Era como se tudo que vivi antes tivesse sido apenas uma preparação para tudo que aconteceu nessa última década. E eu não conseguia parar, mesmo quando queria, porque no fundo, eu não queria. Tive tanta ajuda de tantas pessoas e vi essa coisa de compartilhar sem nenhum interesse financeiro ser tornar algo que eu nem mesmo podia imaginar que seria.

As pessoas já faziam isso com música, acho que até mesmo com mangás. Foi um site que compartilhava quadrinhos bem modestamente que me inspirou, e vi que o que bastava, como sempre, era continuar, não desistir, e outros fariam o mesmo.

Isso tudo me fez ver – ou apenas constatar – que eu e os quadrinhos estamos ligados por mais do que apena um mero gosto pessoal. Estamos ligados desde que eu apenas os abria para olhar os desenhos, sem saber ler ainda. Parece que todos sabiam disso: minha tias, minha mãe, o Daguiberto. Todos.

O que aconteceu aqui – e ainda acontece- foi algo que validou uma paixão que eu nem mesmo sabia que era tão grande. Não fiz porque queria ser ativista de nada, não sou assim. Fiz porque queria compartilhar algo que eu gosto com outras pessoas, como alguém que chama os amigos para ver um filme que já assistiu e quer que eles também curtam. Fiz por empatia.

No fim das contas, ainda sou aquela criança, sentada no muro da meia-água, com uma pilha de gibis ao meu lado, folheando-os um por um, e me imaginando ali dentro. E é assim que eu gosto de ser.

E a viagem nunca termina.

17 comentários:

juliano silva disse...

Muito legal sua biografia, HQ realmente é uma paixão. Parabéns pelo ótimo trabalho aqui no blog!

Javé disse...

Lúdico. Recordar é viver.

mauricio disse...

Uau! que relato amigo. Viajei contigo nessa!

Roger Olivieri disse...

Excelente gibiografia, Eudes! Me fez lembrar quanto tinha 11 anos e economizava dinheiro de lanche na escola pra comprar gibis num sebo no caminho da minha casa nos distantes anos 80.
Parabéns pelo maravilhoso trabalho!

Anônimo disse...

WOW!!!

Weslei disse...

Que texto! Saudades, muita coisa em comum em nossas histórias! Parabéns pelo trabalho e pelas suas iniciativas!

Unknown disse...

Conheço o teu Blog já faz algum tempo, não sei dizer ao certo mas uma coisa é certa que todos que tiveram contato com ele sempre te agradecerão, assim como eu.
Já tive muitos HQ(s), a ponto de minha esposa me pedir para sumir com eles, eu tive ideia de colocar capas plásticas transparentes e numeração em cada um e emprestar cinco HQ(s) e se possível na entrega a pessoa entregava mais um HQ que tivesse em casa. Só para resumir a criançada, os marmanjos tomaram tanto gosto que entreguei o projeto na mão de cinco deles que fizeram seu quartel general de posto de troca e recebimento na garagem sem uso de um deles.

Anônimo disse...

Que texto lindo! A nostalgia bateu forte em mim.

BUDU GARCIA disse...

Eudes:
Como contador (triste sina) que sou, permita-me uma pequena correção: 1975 a moeda é CR$, cruzeiro. CZ$ é cruzado, em 1986.
Mas esta sua história não tem preço!
Forte abraço!

Anônimo disse...

Caralho Eudes!

Sempre choro com esses seus relatos de um ano!!!

Mal posso esperar pelo do ano que vem!

Também comecei a ler quadrinhos na infância, e apesar de encontrar vários "motivos" para parar, nunca consegui, e, em parte, o Rapadura é um dos motivos!

Enfim...me diz aí o que você quer ganhar de presente de "aniversário" no Rapadura daqui um ano!

Eudes Honorato disse...

Sem demagogia, meu presente são os leitores do RA que ficaram, os remanescentes. E minha recompensa é saber que faço com que as pessoas não desistam dos quadrinhos. Eu nunca consegui tornar o blog algo mais sofisticado, com recursos visuais melhores. pq realmente não sei, e as vezes que tentei, me atrapalhei, então eu fui compensando em scans melhores, versões 2.0 e até 3.0. Não importa a embalagem, mas o conetudo. E meu presente de todo aniversário, e saber que ainda tem gente aqui para comemorar comigo.

Iolando Valente disse...

Belo texto!Me faz lembrar das primeira!s Hqs que tive em mãos e que me ajudaram a aprender a ler: Dsney,Super heróis da Ebal ,Turma da Mônica e Revista Recreio.

wellington disse...

Foda o texto. Viajei lendo haha.

Tô começando a ler hq's agora, não me interessava muito antes, agora com 19 anos que bateu um interesse (muito por conta dos filmes), lia apenas mangá antes e mesmo assim, poucos.

Minha primeira hq acho que eu tinha 9-10 anos, ou talvez mais novo, meus pais tinham comprado em um bazar pra mim, eles foram lá não sei pra quê, e eu bati o olho nas revistas e pedi pra comprarem, era a mini-série Guerra Infinita, da Marvel. Lia e relia aquilo o tempo todo kk. Hoje só sei onde tá uma delas, e mesmo assim sem a capa, infelizmente eu era meio relaxado com minhas coisas. Hoje tô podendo começar com as HQs graças a coleção da Salvat, e a internet, com blogs como o teu, que vez ou outra dou uma passada para conferir o que tem aqui.

Sickeira disse...

Muito legal a sua "gibiografia" Eudes. Me fez lembrar quando eu comecei a colecionar quadrinhos, em 1989, fazia um curso no centro da cidade, minha mãe me dava o dinheiro do busão e voltava a pé para comprar gibis de super heróis (Marvel em sua maioria), do mesmo jeito que acontece hoje com o povo e seus smartphones, eu voltava lendo o gibi a pé, rsrs. Antes disso eu lia gibis da Turma da Mônica, mas não os guardava, e já era vidrado no Louco. Muito obrigado pelo seu blog, e parabéns pelo trabalho.

Tarso disse...

Caramba Eudes, que maneiro ler tua história. Acompanho o blog silenciosamente desde 2003, quando vc hospedava coisas no kit.net ou coisa parecida. Lembra? O gosto pelos quadrinhos foi crescendo a partir do teu blog e daí pra vários outros que começaram a surgir. Teve aquele primeira baque, quando começaram a apagar os servidores por conta do Denardini (ou coisa parecida) da Panini e eu achei que a coisa ia esfriar mesmo. Mas daí voltou com tudo, os sites de quadrinhos se multiplicaram infinitamente, ainda que depois tenha surgido o F.A.R.R.A, o conteúdo tenha sido apagado, várias outras ameaças surgiram e etc. Mas é como foi com NAPSTER, acabaram com ele e outros surgiram no lugar. Parabéns ae pela trajetória, por compartilhar teu hobby com os outros e vida longa à vc e ao Rapadura!

P.S.: a Lucy (sua poodle, acho que esse é o nome dele, não?) ainda tá vida?

Eudes Honorato disse...

Está viva sim, Tarso, e agora ela tem a cia. de mais um cãozinho e de 3 gatos. E obrigado pelas palavras suas e de todos que comentaram aqui. É o que nos move.

alessandro disse...

Muio legal!Também sinto que tenho uma ligação incompreensível e inexplicável com as revistas em quadrinhos. Desde criança sempre ouvia: quando você começar a trabalhar vai parar de ler gibis, quando você entrar pra faculdade, quando você casar, etc... trabalho como advogado, sou casado, mas continuo lendo gibis desde 1989 até agora... não acredito que isso terá fim...

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