sábado, 10 de dezembro de 2011

A Menina Que Não Gostava de Harry Potter


TINTIN E A MENINA QUE NÃO
GOSTAVA DE HARRY POTTER


Sempre que me dá na telha eu vou até ao que eu chamo de "sebo de luxo" que fica ali no cinema Estação Sesc Rio, o Luzes da Cidade. Não é meu lugar preferido para comprar livros ou gibis. São muito caros para produtos de segunda ou terceira mão. Também só vou na intenção de encontrar alguma HQ antiga, perdida, para que eu possa, quem sabe, escanear. Mas, esse é outro problema: são pouquíssimas e jogadas num canto. Mas, sempre se pode dar a sorte de ter chegado alguma coisa "nova". Então, quando tive de ir ao supermercado, resolvi passar por lá antes.

Já era noite e eu pensava em entrar, olhar e sair. Mas, isso nunca acontece. Sempre me demoro, olhando e olhando, como se, de repente, fossem brotar alguma HQ que eu não vi antes. Quando cheguei, a primeira coisa que notei foi que o volume de material estava bem menor que da última vez que estive lá. Isso é desanimador, pois mostra que eles não se importam muito com quadrinhos.

Muitas MAD em inglês, algumas HQ da EBAL, e um emaranhado de HQs de super-heróis sem muito valor. Quando levantei mais algumas, me deparei com uma meia dúzia de álbuns do Tintin, perdidos por ali. E, nesse momento, como num passe de mágica, materializou-se atrás de mim, uma menina de uns 8 anos de idade, de cabelos pretos e magra, falando uma mistura de português e francês. Ela se adiantou a mim e pegou os álbuns, dizendo: "Eu adoro tan tan" (a pronúncia francesa para Tintin).

Fiquei surpreso com o aparecimento dela e seu interesse nos gibis de Tintin. Mais pela sua idade que qualquer outra coisa. Ela mostrava os álbuns para a mãe e o pai, falando ora em português, ora em francês. Continuei agachado procurando alguma coisa para levar, mas sem muita esperança. Ela agachou ao meu lado e continuou procurando mais álbuns do aventureiro Tintin. Vendo que ela não tinha muita força para levantar os muitos volumes acumulados, retirei-os todos do lugar e procuramos juntos.

Muito comunicativa, ela dizia o quanto sua mãe gostava de Luke Lucky, quando avistou um dos álbuns dele. E, enquanto procurávamos os álbuns, de vez em quando ela soltava algumas frases que me faziam ficar mais admirado. Do nada ela dizia: "Eu não gosto de Harry Potter". A sua pronúncia de "Harry Potter" era divertida. Aquilo me deixou sem muito o que dizer, já que não sou uma das pessoas mais comunicativas do mundo quando pessoas que não conheço conversam comigo tão naturalmente. Só consegui dizer: "Isso é bem difícil de se ver".

O que mais eu admirava era como as coisas que ela dizia, não eram arrogantes, nem afetadas, como algumas crianças que gostam de parecer adultos em miniatura fazem. Ao dizer que não gostava de Harry Potter parecia alguém que diz que não gosta de sorvete de pistache, seja lá qual seja o gosto disso. Não era uma crítica em si, apenas uma constatação. Tanto que ela não se alongou nos motivos de não gostar.

Sua mãe via a atenção que ela me dava e parecia pedir desculpas com os olhos, como quem diz "ela faz isso o tempo todo", mas não disse nada como "deixe o moço em paz, querida".

Ela já estava com uns cinco ábuns de Tintin nos braços e parecia que não íamos encontrar mais nenhum. De repente, encontrei alguma coisa que eu poderia levar. Uma minissérie completa de Glory, uma heroína da Image. Quando peguei ela deu uma olhada e sentenciou, novamente fazendo apenas uma constatação: "É de garotos". Eu quase soltei uma gargalhada. Ela continuou olhando a capa e disse: "Que horrível", se referindo aos desenhos exagerados da Image. Tentei defender o meu gosto, dizendo:

- É, o desenho é feio mesmo, exagerado. Mas olha só esse aqui - e peguei uma Vertigo da Editora Abril, com um Jonah Hex sinistro, mas bem desenhado, na capa. A reação dela foi imediata: "Horrível, também". Se referindo mais à capa ser sinistra, do que ao desenho em si. Eu estava sem opções. Deixei de lado as HQs de "garotos" e perguntei se ela ia levar mesmo todos aqueles álbuns de Tintin. Ela nem piscou ao responder que sim. E arrematou: "Hoje é meu aniversário". Novamente fui pego de surpresa e não soube o que dizer. Ela dizia tudo de uma forma tão natural, como se não fosse realmente importante, que eu não sabia como responder. O máximo que eu disse foi um "que bom".

Quando peguei as minhas HQs, ela novamente me pegou em uma pergunta: "São para seus filhos?" Não pude deixar de rir antes de responder. Ela era uma dama e, diplomaticamente estava dizendo que eu era velho demais para ler aquelas coisas mal desenhadas! Ainda sorrindo, respondi: "Não, são pra mim mesmo. Eu leio desde que tinha a sua idade". Ela pareceu achar justo.

Quando levantei, minhas pernas doíam de tanto tempo agachado. Ela riu de minhas dores e disse que também estava sentindo, se solidarizando. A atenção dela voltou-se para os DVDs que estava empilhados acima dos quadrinhos e escolhia alguns aleatoriamente. Quando vi o "Diário de Uma Princesa", peguei e disse, "Talvez você goste desse". Por incrível que pareça, ela não conhecia o filme e o pegou, olhando com uma certa estranheza. Depois de examinar por alguns segundos, soltou um "é, quem sabe". E senti em sua resposta algo como se ela detestasse estar admitindo que pudesse gostar daquela coisa feita para "garotas". O que esperar de uma menina de 8 anos que lê Tintin, filha de uma senhora que adora Luke Lucky. Eu parecia estar em uma dimensão paralela.

Havia me esquecido completamente do supermercado e, mesmo a contragosto, paguei o que peguei e me preparei para ir embora. Porém, não pude deixar de me despedir dela, que pareceu surpresa. Apertei sua mão, a de sua mãe e de seu pai. Todos tão simpáticos quanto ela. Fui para o supermercado imaginando que se eu tivesse uma filha, gostaria que fosse exatamente igual a ela. Ou ao menos parecida.

Me peguei imaginando como seria compartilhar algo tão bom como a leitura com alguém tão próximo. Ensinar, aprendendo. Bom, ao menos aprendi algo hoje. Nem tudo está perdido. Por mais medíocre que o mundo esteja se tornando, ainda há uma resistência, mesmo que pequena, na figura dos pais dessa menina. Afinal, é como numa frase que li entre as muitas que aperecem no Facebook: se fala tanto em deixar um mundo melhor para os filhos, mas e quanto a deixar filhos melhores para nosso mundo?



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