domingo, 10 de julho de 2011

O Astronauta Perdido


O RETORNO DO ASTRONAUTA PERDIDO


Eu voltei! Eu consegui.

Há mais de um mês terrestre vagando pelo espaço, consegui retornar à base. Não foi simples. Os insurgentes me arremesaram ao infinito, certos da minha morte. Porquê será que eles nunca, mas nunca fazem do modo mais fácil: um tiro na cabeça. Pra minha sorte, existem os clichês.

Quando fui lançado, eu consegui apertar o botão no meu traje que acionou um módulo de navegação experimental. Era arriscado, mas entre morrer e morrer, não havia muita escolha. Assim que acionei o P.R.O.B.E. (Não me pergunte o que significa, eu não sei) e saltei. Entrei em uma via de acesso que eu nunca poderia imaginar: a estrada do Conhecimento.

Me agarrei às bordas da sabedoria e me alcei até sua superfície. Ela me levava por entre as estrelas numa velocidade assustadora e, ainda assim, fiquei tranquilo. A sabedoria sempre sabe onde nos levar, calma e tranquilamente. Mas, obviamente, não seria uma viagem tão confortável assim. Chuvas de grandes meteoros de ignorância eram constantes e eu me pegava imaginando de onde eles poderiam estar vindo. Estranhamente, mesmo isso, me fez sentir falta da Terra.

Quando fui jogado para fora da Cargo XIII, eu, um simples imediato fiel ao Capitão, não poderia imaginar vir parar aqui, tão longe e tão perto de casa. Foi durantes estes devaneios que um meteoro bem maior, de Intolerância Religiosa, acertou a superfície da Sabedoria onde eu viajava. Esta se manteve intacta, mas eu fui arremessado novamente para o espaço.

Fui atingindo por uma chuva de Dèja Vu e de repente me vi observando a três cópias de mim mesmo, em seus devidos trajes espaciais, exatamente iguais aos meus. Não era uma viagem no tempo. Era um encontro in loco. Todos eles pareciam não se dar conta uns dos outros e tampouco de mim. Aquela sensação de dèja vu era a mais diferente que já senti. Ver a mim mesmo, tão próximo. Por um instante senti um pouco de pena deles, pois estavam tão perdidos quanto eu.

Então, como poeira espacial, minhas cópias se dissiparam. E a chuva de Déja Vu cósmico cessou. Eu comecei a ser levado pela gravidade da estrada do Conhecimento, que parecia ter algum tipo de propulsão. Ou seria apenas eu?

Fui arremessado para as profundezas da Filosofia, mas sentia que minha rota continuava firme. Aliás, graças a muito da Filosofia é que o módulo P.R.O.B.E. pôde ser inventado e, aqui estou eu, servindo de cobaia para comprovar seu funcionamento. Este é apenas um de três módulos. Me apresentei como voluntário e o governo aprovou. Não teria nada a perder e uma aventura a mais sempre é bem-vinda. É a minha filosofia de vida.

Um vento platônico corrige meu curso e entro na corrente aristotélica. A estrada da Filosofia é longa e com muitas direções, preciso manter o curso para chegar em casa. Mas, não fico por ali muito tempo. Um redemoinho de Teologia quase me engolfa, mas sou salvo por um pedaço de Raciocínio Lógico. Procuro então os ventos mais calmos da Ficção-Científica. Me distraio um pouco e quase sou acertado pelos devaneios de H. G. Wells.

A viagem é longa, e meu alimento é todo tipo de saber que a estrada me proporciona, assim me fortaleço para a fase final: a estrada do Auto Conhecimento. Só assim conseguirei chegar em casa, à base operacional e sair do P.R.O.B.E. sem grande danos. Porém, ao mesmo tempo, ser jogado dentro de si mesmo, pode ser um pouco doloroso e traumático. Mas, é isso ou morrer no espaço.

Pego o desvio e entro na estrada. Ela me leva direto para meu sentimentos mais profundos e alguns até mesmo desconhecidos por mim. Escuto as palavras de meu pai, mas elas são silenciosas. Não há conhecimento, não há conselhos, nem ensinamentos. É como um buraco negro. Um grande nada. Mas, não posso fraquejar, mesmo na falta de uma estrada onde andar, eu busco um desvio, para onde as sábias palavras de minha mãe estão. E não só as suas palavras, mas tudo que aprendi na vida.

Vejo lá embaixo algo como as luzes de um espaçoporto. Cada luz é um sinal, uma representação do aprendizado de uma vida inteira. Estabilizo o corpo, e mesmo com a turbulência da minha ignorância interior - pois estamos sempre aprendendo - eu consigo aterrisar. Como um paraquedista, eu caio de joelhos e saio da estrada do conhecimento, para emergir na base terrestre de Colmar-Temert. O P.R.O.B.E. me trouxe são e salvo.

Eu voltei! Eu consegui.



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