terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Cine São Francisco


O CINE SÃO FRANCISCO NO LOTE XV Minha infância passada numa sala de cinema


Lá estava eu, naquela sala escura, iluminada apenas pela tela, assistindo a um filme chamado Barracuda. Na época eu não sabia que era apenas mais um filme que aproveitava o sucesso de Tubarão, de Steven Spielberg. Na verdade, eu ainda não havia assistido Tubarão, então tentava me divertir com aquilo mesmo. Mas, era quese impossível. Mesmo criança ainda, eu sabia que o filme era ruim de doer. Que porcaria de peixes assassinos eram aqueles? Mas isso não importava. Nada importava. Bastava eu estar ali, curtindo o que eu mais gostava: cinema. O local? O Cine São Francisco, no bairro Lote XV.

Muito antes de eu ir a cinemas de "verdade", ver filmes lançados recentemente, eu ia ao Cine São Francisco, onde via filmes que eram qualquer coisa, menos lançamento. Os motivos para eu ir eram vários:

1) Era uma diversão barata. Não lembro agora quanto era cobrado, mas não duvido que fosse algo equivalente a, quem sabe, R$ 3,00 hoje em dia, para se assistir a DOIS filmes. A minha constância se dava por esse motivo, entre outros.

2) Não havia restrição de idade. Quer dizer, pelo menos não para minha idade. Eu devia ter de 11 para 12 anos quando comecei a ir e não parei mais. O dono do cinema (coincidentemente - ou não - de nome Francisco) era quem ficava na bilheteria, e deixava todos nós, moleques, passar, fosse que filme fosse.

3) O terceiro motivo era que eu não fazia idéia de que aqueles filmes não eram lançamentos. Para mim, caía na rede era peixe. Creio que ele tinha apenas o cuidado de não colocar filmes que já estivessem passando na TV. Fora isso, qualquer filme da década de 70 (e quem sabe até mais antigo) era lançamento ali, no início da década de 80.

4) E, por último, sempre tinha um filme ou outro de mulher pelada. E, novamente, a restrição era nenhuma.

Image and video hosting by TinyPic

Não faço idéia de quantos filmes eu assisti lá. Dezenas, talvez mais de uma centena. Mas, infelizmente, nao lembro o título da maioria, como gostaria. Lembro de cenas - algumas bizarras - soltas de filmes que não sei quais são. Também, o fato de ter assistido muitos filmes na TV, na mesma época, faz com que me confunda e não saiba se vi o filme no cinema, ou em casa mesmo. Mas três desses filmes me marcaram e lembro bem o título deles até hoje.

Um deles é o já citado Barracuda. Esse título ficou na minha mente por toda minha vida. Não sei bem o porque. Talvez seja a sonoridade do nome ou o absurdo de um filme com um título desses. Ou talvez seja o simples fato de eu ter detestado o filme com todas as minhas forças e isso tenha feito com que eu nunca mais o esquecesse. Ainda assim, eu o assisti até o final . Se hoje em dia eu acredito que ele existiu é graças a sites como o IMDB, que me proporcionou encontrá-lo em seu banco de dados e ver que eu não sonhei - tive pesadelo - com aquilo.

Outro filme foi Zumbi: O Despertar dos Mortos. Na época eu não fazia idéia de quem era George Romero, e nem de que o filme era parte de uma trilogia. E mais, até aquele momento, eu nunca assistira a um filme de zumbi. Meus filmes de terror eram aqueles da TV, água com açucar se comparado. No máximo um Abominável Dr. Phibes, que já era suficientemente assustador para uma criança. Gente comendo gente só tinha visto em revista de sacanagem.

O fato é que quando eu vi um zumbi tirando um naco de carne do braço de uma pessoa, eu fiquei de olhos estatelados. Acho que acreditei que a cena era real, de tão bem feita, para a época (ou seria, para meus olhos?) Por um bom tempo aquela cena e aquele filme, com as pessoas presas dentro daquele shopping, ficou na minha mente. Na verdade, ficou por tanto tempo, que não esqueci até hoje, e estou aqui escrevendo sobre ela.

Mas, o terror só perdia para o quesito, filmes de sacanagem.

Image and video hosting by TinyPic

Assisti muito filme de mulher pelada no Cine São Francisco. Creio que alguns até com sexo explícito. Lembro bem de uma cena que hoje em dia não parece verdade, de tão surreal. Mas não aconteceu em um filme, mas fora do cinema. Lembro que um dos filmes (eram sempre dois filmes exibidos) tinha um cartaz todo preto com letras brancas, pois era considerado pesado demais até para ter alguma imagem no pôster. Infelizmente não lembro o título.

O fato é que, quando chegou a vez de uma menina - eu nunca tinha visto uma menina tentando ver aquele tipo de filme, até aquele momento - ela foi barrada. O dono do cinema, obviamente, não a deixou entrar. Os meninos podiam, mesmo com pouca idade, mas menina, não! Foi o suficiente pra garota armar um escândalo na porta do cinema. Esperneava e gritava que queria porque queria ver o filme, pois todos nós estávamos entrando, então ela também podia. Mas não adiantou, o Seu Francisco não deixou. E ela se sentou na calçada em frente e ficou ali, emburrada, não sei por quanto tempo.

Apesar de não lembrar o título da maioria, sei que assisti coisas como Histórias Que Nossas Babás Não Contavam, Mulher Objeto entre outros. Porém, um título que me marcaria a ferro e fogo a memória seria Promiscuidade: Os Pivetes de Kátia. As pessoas se espantam com Amor Estranho Amor, e a cena de Xuxa Meneghel com o garoto é conhecida até no Usbesquistão, devido à fama da mesma. Porém, das cenas deste filme, nada se fala hoje em dia.

Feito dois anos depois de Amor Estranho Amor, ele levou o que hoje é totalmente politicamente incorreto, a um patamar acima. Um dramalhão com um fiapo de história para embrulhar as cenas de Kátia (uma loiraça gostosa) com um bando de garotos. Alguém como eu, na mesma idade que os moleques, hormônios a flor da pele, vendo uma cena daquela, entrava em parafuso. Era como uma fantasia daquelas que povoavam meu tempo no banheiro, se realizando. Só que não comigo!

O filme, diferente de muitos outros filmes eróticos nacionais, sumiu do mapa e duvido muito que ele seja exibido no Canal Brasil. Os tempos são outros e dona Kátia não pode ficar por aí mexendo com pivetes.

Image and video hosting by TinyPic

O fato é que o Cine São Francisco moldou meu gosto para filmes bizarros e de sacanagem. Me dava chance de ver filmes que talvez eu só visse muitos anos depois, quem sabe quando adulto. Tudo bem que muita coisa "proibida" eu já via na Sala Especial, mas no Cine São Francisco eu já ia na certeza do que queria assistir.

O tempo foi passando, a chegada do VHS foi diminuindo minhas idas ao cinema. Fora o fato de que eu começava a ir aos cinemas de "verdade", mais distantes. Até que, um belo dia, passando pela rua do cinema me deparo com a triste visão do prédio ter sido comprado pela Igreja Universal. Era o fim de uma era. Me senti estranho, vazio, chateado. Mas, o dono tinha de seguir em frente. Obviamente ele não tinha mais o mesmo apelo que no início. Os tempos estavam mudando. Ele também era dono de uma casa de material no mesmo bairro.

Relembrando do cinema e de seu dono, lembro até mesmo da casa onde ele morava, uma quadra em frente a do cinema. E puxando a memória mais um pouco, lembro que sua esposa foi minha professora de matemática. Ela parecia um pouco com a Odette Roitman e sua índole era quase parecida com a da personagem de Vale Tudo.

O tempo passou e, assim como seu cinema, Seu Francisco também se foi. Ele provavelmente não soube o quanto me influenciou. Seu cinema foi tão parte de minha vida que às vezes me pego sonhando que estou novamente lá, de volta. Mas não entro, apenas olhos os pôsteres. Fico olhando os filmes diferentes, estranhos, insólitos, que eu só podia assistir ali. Eu não entro, porque sei que se eu entrar, o cinema desaparece, então fico ali mesmo, esperando que aquele momento nunca acabe. Esperando que o rolo de filme jamais termine.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Grandes Coincidências


GRANDES COINCIDÊNCIAS TRAZEM MUITOS GIBISIndo de Glowfoto Para E-Mail Perdido
Image and video hosting by TinyPic

Como muitos visitantes já devem ter reparado aqui no blog (ou mesmo no Aspas Noir) as imagens postadas no Glowfoto foram pro espaço, pelo simples fato de que agora, depois de tantos anos de serviço gratuito, eles estão cobrando para alojar as imagens. Consequentemente apagaram as imagens já estocadas de quem não vai pagar, como eu por exemplo. Aos poucos vou trocando as imagens dos outros blogs, que realmente é necessário. Já aqui no RA, não vou poder fazer isso, são 8 anos de posts. Eu ficaria louco. O jeito é apenas seguir em frente.

Mas, é engraçado como algumas coisas acontecem. Há alguns dias atrás, indignado com o trabalho brutal de mexer com dezenas de posts que o Glowfoto está me proporcionando, fui comentar com a minha esposa sobre isso. Eu dizia o quanto detesto quando serviços da internet que são gratuitos, de repente começam a cobrar. Então citei o caso do Glowfoto e comparei ao do IG, há alguns anos. O IG era Internet Grátis e de repente virou Internet Generation, agora pago.

Quando citei o IG, ela se lemrbou de um e-mail nosso, conjunto, lá mesmo no IG, há muito abandonado em detrimento do Yahoo e/ou Gmail, bem melhores que este. Na verdade, eu nem lembrava mais do e-mail, e não achava que ele existisse ainda. Eu cheguei a usá-lo nos primórdios do Rapadura Açucarada. Devia fazer uns 7 anos que eu não o abria mais. Lia disse que ele ainda funcionava e foi abrir para provar isso.

Como era de se esperar, estava entulhado de spam. Muito mesmo. Mas, o último e-mail a chegar, o primeiro do topo da lista, era interessante. Alguém estava tentando entrar em contato comigo, porque queria se desafazer de sua coleção de quadrinhos antigos e queria enviá-los para mim. Bom, pensei eu, esse e-mail deve estar aqui a pelo menos uns 5 anos ou mais. Quando olhei a data, o e-mail era daquele dia, enviado a apenas 5 horas antes!

Eu fiquei sem saber se pirava com a possibilidade de ganhar gibis de graça ou com a incrível coincidência de não abrir um e-mail há 7 anos e ao abri-lo descobrir um e-mail daquele mesmo dia, com um assunto realmente importante. Mesmo que nada acontecesse, que os gibis realmente não viessem, ainda seria uma história para se contar. Afinal, já recebi muitos e-mails com promessas parecidas que nunca se concretizaram.

Enviei o e-mail para minha conta no Yahoo e respondi por lá. O rapaz respondeu relatando as revistas que queria enviar, e dizendo que era por gostar muito do Rapadura Açucarada e por este ter proporcionado ele ler e conhecer outros quadrinhos. Notei que na lista já havia muita coisa que fora escaneada, mas ele disse que eu poderia fazer o que quisesse com as revistas, vender, trocar, e etc. Também notei que haviam revistas que existiam em scans na rede, mas de péssima qualidade e que eu poderia refazer os scans, coisas difíceis de encontrar em sebos. Fiquei bem animado.

Depois de mais alguma troca de e-mails, vi que ele falava sério mesmo e enviei meu endereço e ontem ele me avisou que já estava no correio, enviando até mesmo a prova disso, sem eu nem ter pedido.

Fiquei feliz com essa incrível coincidência. Também com o envio dos DEZ QUILOS de revistas, que o visitante do RA se dispôs a enviar de forma tão generosa. Mas, fiquei mais feliz ainda de que tudo feito aqui gere esse tipo de resposta, como já gerou outras vezes, quando precisei escanear Akira completo e recebi números da revistas pelo correio, e scans feitos por outros. Também fui bastante ajudado para completar Preacher e outras HQs. Também lembro dos e-mails que eu recebia contando as histórias de como os que aqui visitavam tiravam algum tipo de proveito, fosse lendo os scans em lugares remotos como a selva amazônica ou retornando a ler quadrinhos há muito abandonados.

Agradeço ao visitante do RA e a todos que acham que o blog merece algum tipo de resposta positiva. Não há nada melhor para um blogueiro do que receber esse apoio desse e de outros modos. Quer dizer, há, é se tornar rico escrevendo blog, mas aí já é outra história.

Image and video hosting by TinyPic


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Compartilhamento


COMPARTILHAMENTO OU MEIO DE GANHAR A VIDA?
Image and video hosting by TinyPic

A pirataria, como a conhecemos originalmente, eram homens nos mares abordando outras embarcações para roubar, gerando assim um lucro sem nenhum investimento. O compartilhamento de arquivos pela internet é dividir com outras pessoas, aquilo que se gosta, sem cobrar nada por isso, ou tirar qualquer outro tipo de vantagem financeira. Por quê? Porque aí sim, seria como a antiga pirataria, que é como todo tipo de compartilhamento de arquivos é chamado genericamente. Mas, para piorar, há motivos para isso.

Assim como filmes e softwares piratas vendidos nas ruas, dentro da internet há quem procure tirar vantagem de colocar para download músicas, filmes, scans, softwares. O modo mais comum é entulhar um site ou blog com milhares de filmes e outros arquivos e, quando você clica no link para download, é direcionado para páginas em que é obrigado a se cadastrar em sites que vendem algum produto para celulares. Alguns outros colocam os arquivos em sites que pagam por download, como o Easy Share, por exemplo. Isso não é compartilhar, é ganhar a vida. Isso prejudica aos que compartilham apenas porque gostam. Mas, o mais incrível, quando há uma caça às bruxas, eles permanecem lá, intocados.

Alguns outros apenas poluem seu site com os tais adsense, publicidade paga pelo google. Até aí, não há nada que se possa fazer, é mais uma questão de consciência. Se o cara está gerenciando um blog em que ele coloca apenas textos seus, sua opinião, trivialidades da internet, coisas que não interferem com direitos autorais de ninguém, colocar publicidade é um direito dele. Quando você está compartilhando material com copyright, fica parecendo que quer apenas ter mais visitas para ter mais clicks nos anúncios. O interesse não é realmente compartilhar.

Outros, além dos anúncios, além dos links que redirecionam pra sites de celulares, ainda tem a cara de pau de pedir donativos! A maioria dos blogs de compartilhamento está no blogger.com, que todo mundo sabe, ou deveria saber, é grátis, nunca cobrou por seus serviços. Os filmes, músicas ou scans postados nestes lugares a pessoa apenas baixou via eMule, Torrent, ou mesmo de outros sites. Que diabos de custo essa pessoa tem? No mínimo deve estar querendo pagar sua internet com o dinheiro de quem os visita.

Alguns fóruns também pedem donativos e, em alguns casos, até com razão, já que pagam uma taxa mensal para mantê-los, mas se envolve download de arquivos, o melhor seria manter esses donativos entre os principais membros, do que pedir donativos e arriscar parecer que está cobrando pelos downloads. Nenhum compartilhamento é trabalho. É diversão, é um hobby. Se está sendo um fardo, melhor mesmo é parar e ir viver sua vida. Se a pessoa quer ganhar dinheiro com filmes, por exemplo, que abra uma locadora.

Quando o assunto é compartilhamento, não se pode assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Uma coisa prejudica a outra. Querer ganhar dinehro com isso, prejudica a qualidade do que se faz, se é que isso importa para quem está tentando ganhar com isso. A pessoa depois de passar por todos os entraves colocados para chegar ao download, ainda pode baixar um arquivo danificado. Se a pessoa faz isso de graça, sem custos ou redirecionamentos, mesmo que o arquivo esteja com problema, ela não se sentirá tão lesada assim.

Mas, o pior disso tudo mesmo é que quem faz isso tira vantagem do trabalho feito por pessoas que fazem porque gostam. Pessoas que compraram ou alugaram os filmes e riparam, pessoas que traduziram as legendas (um trabalho cansativo), pessoas que escanearam e assim por diante. Pois, esses tais apenas baixam esse material e tacam em seus blogs comerciais. Quando tal material é apenas redistribuido por outros que também o fazem porque gostam, é recompartilhamento, quando não, é apenas uma "puta falta de sacanagem".

No mais, é óbvio que, assim como o comécio de DVDs piratas vai continuar crescendo, esse tipo de site e blog também. A única solução é quem baixa, procurar os sites "limpos", em que não há tanta propaganda, os links são diretos, sem enrolação, e os sites são confiáveis. Um bom modo é, sempre que possível, usar o torrent, pois lá não tem como você estar pagando por nada além de sua conexão. Digo quando possível, porquem nem tudo está lá, algumas coisas só se encontram nesses lugares. Minha dica é: procure sempre. Use o Google, use todo tipo de ferramenta de busca.

Para ajudar, eis aqui um dos melhores buscadores por links diretos que já encontrei:
Accurate Files. Fico por aqui, deixando abaixo alguns arquivos, de graça, sem nenhum custo e ainda por cima sem pagar nada por isso. Té mais.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Jerusalem Jones: Epifania


JERUSALEM JONES: EPIFANIA
Image and video hosting by TinyPic

Eu nunca tive problemas com os índios. Estava sempre entre eles, e eles me ajudavam e eu a eles. Eu não me metia em suas guerras e nem eles nas minhas. Claro que, algumas vezes, eu quebrava essa regra, e isso quase sempre me deixava em maus lençóis com os meus irmãos brancos. Mas, como geralmente eram meus "irmãos" do lado ruim da família, isso pouco me importava. E, índios salvaram minha vida mais de uma vez, mesmo quando não sabiam nem quem eu era. Coisa que eu nunca entendi o porquê. Quando eu perguntava a algum que falava minha língua, diziam apenas que eu era como um bom cavalo que não podia ser desperdiçado. Vou te dizer uma coisa, eu nunca sabia se isso era um elogio ou algum tipo de piada. Uma coisa ruim nos índios é que eles conseguem ser sarcásticos sem que você saiba.

Se estou vivo hoje em dia, mesmo depois de ter sido mordido por uma maldita morta-viva, agradeço aos meus amigos índios. O fato, é que eu estava passando algum tempo entre os Cherokees. Visitando o chefe Cavalo Cansado, ao mesmo tempo que evitava sua filha, Égua Lépida Que Cavalga os Montes em Busca de Companhia Para os Dias Tempestuosos. Eu a chamava apenas de Alice, que era mais fácil de lembrar. Ela estava tentando me arrastar para um casamento indígena. Principalmente depois que tivemos uma noite de amor, e ela cismou de me chamar na aldeia de Touro Abastado. Eu até gostava do apelido, mas não sou de me gabar. E não quero me casar.

Já era noite, com a aldeia em algum tipo de festa, que eu não sabia exatamente sobre o que era. Cavalo Cansado e outros maiorais da tribo fumavam suas ervas esquisitas e eu apenas perambulava, esperando não esbarrar com Alice. Fui para um canto mais deserto, apenas para dscansar um pouco, para enfrentar a longa viagem que tinha pela frente. Mas eu não estava só. Um indiozinho de uns 4 anos de idade estava me olhando, com cara de pena, como se eu estivesse morrendo de fome, ou algo parecido. Eu estava sentado, tentando cochilar, e ele ficava ali me espiando. De repente, abriu uma das mão e me ofereceu alguma coisa. Parecia uma avelã, só que menor. Para que ele fose embora e eu pudesse dormir, aceitei. Ele saiu correndo, aparentemente contente pela boa ação de alimentar um faminto. Preciso ganhar alguns quilos, essa minha aparência sempre confunde mesmo as pessoas.

Eu ia jogar a coisa que parecia uma avelã fora, mas senti a textura na mão e aquilo me instigou. O cheiro era bom. Não tinha casca. Meti na boca e mastiguei, sentindo estalar de modo bom, dentro da minha boca. Meus dentes trituravam e eu sentia uma espécie de seiva deixando o miolo. Aquilo era realmente bom. Quando terminei de engolir, senti quase que de imediato, minha língua e minha boca começarem a ficar dormentes, anestesiadas. Isso se estendeu para o rosto, pescoço, por todo o corpo. Eu estava me sentindo muito, muito estranho.

Caí de costas e fiquei ali, na areia, olhando para o céu estrelado. Podia sentir um filete de baba escorrendo da minha boca. Eu queria falar, gritar, chamar alguém, mas não conseguia. Estava paralisado, olhando fixamente para cima. As estrelas pareciam brilhar com mais intensidade, como grandes bolas de prata que explodiam. E seguida, uma a uma, elas começaram a riscar o céu, como estrelas cadentes, fazendo um barulho alto, mais ou menos como "vussshhh". Elas iam e vinham, riscando o céu, como se dançassem. Em seguida, uma música parecia estar tocando, dentro da minha cabeça, acompanhando o bailar das estrelas. Eu assistia a tudo imóvel. Mas não por muito tempo.

Senti que o solo abaixo de mim começou a se transformar em areia movediça, que foi me engolindo, mais e mais, até me cobrir por completo. Na escuridão, eu ainda respirava, sentia e ouvia. Vozes sussurravam palavras que eu não entendia, e outras se sobrepunham a elas, antes mesmo de terminarem de dizer fosse lá o que estivessem dizendo. A escuridão foi ganhando forma e vi algo se mover, no meio daquele breu. Parecia um vagalume, um pequeno vagalume, no centro daquele nada. Então, escutei uma voz que disse, como se respondesse a uma outra e entendi o que foi dito: "Sim, haja luz".

Senti uma dor terrível nos olhos quando o pequeno vagalume explodiu num bilhão de fachos de luz. mas não fiquei cego. Vi aquela luz toda revolvendo e revolvendo e se transformando em imagens. Mas eram imagens que passavam rápido demais, eu não conseguia distinguir quase nada. Tudo ia nessa velocidade crescente, fulminante, quando de repente parou e vi apenas a mim mesmo, como num espelho, olhando de um outro lugar, de um outro tempo. Meu reflexo abriu a boca para dizer alguma coisa e eu apenas via as palavras, mas não as ouvia. Não eram como palavras escritas, não sei como explicar, mas eu as via, eram sólidas, eu podia senti-las me tocar, passarem por mim. Agarrei uma das palavras e ela se contorceu em minhas mãos, e a palavra era "solte-me".

Ao soltá-la, ela se dispersou pelo ar e meu reflexo também. Quando pisquei, tudo mudou novamente. Eu via o passado a minha frente, e ele lutava com o presente para tentar chegar ao futuro. Era uma batalha épica em que muitos anos e séculos sucumbiram, e o sangue dos milênios manchava o solo. Um pássaro anunciou o fim da guerra às 13:00 de dia nenhum. Ao vencedor os despojos. Um desfilar de eventos históricos se tornou o prêmio e a coroa do campeão, era uma ampulheta. Eu não tinha mais tempo. Tempo tempo tempo tempo.

Sentia um ecoar em mim e me deixei levar. Um sino parecia tocar ao longe e o seu ribombar alterava a realidade. Comecei a me expandir, como um lago onde alguém joga uma pedra. Em ondas. Cada círculo uma nova revelação, tão pungente que eu não saberia expor em palavras. Outra pedra, e outra. Minha consciência se expandia, se alterava, se revelava para si mesma. Todos os significados da vida, e nenhum deles era segredo. Estavam todos ali, o tempo todo. Meus olhos não eram meus.

Afundei como um navio naufragado e fui na direção da racionalidade. Como um tesouro escondido nas entranhas da embarcação, meu eu se tornou algo a ser procurado, esperando que o X que marcasse o lugar não estivesse em um mapa, mas na palma de minha mão, e então, eu a leria como um cigano moribundo, e descobriria o segredo do fogo. Pois naquele momento eu ardia, como fogo, como uma febre e sentia cada segundo passar por sob meus pés. Cada pergunta me era respondida, mesmo antes que eu as fizesse. E o mar me levou novamente. Agora para o alto. Como uma tábua se salvação, emergia sobre a areia que me tragara. O dia estava claro. O sol queimava os meus olhos. E era apenas o sol, como um dia qualquer.

A aldeia vivia uma manhã como qualquer outra. Olhei em volta e, por mais que procurasse, não via o menino da noite anterior. Perguntei a alguns dos índios que passavam por mim, sobre o garoto, descrevia-o e ninguém parecia conhecê-lo.

Fui até Cavalo Cansado e contei-lhe o que aconteceu comigo. Ele me olhou de uma forma estranha. e disse apenas.

- Você bebeu bastante água de fogo antes de ir se deitar, Touro Abastado! He he he he - Fez uma cara enigmátia e foi embora.

Quando ia na direção do meu cavalo, vi Alice correndo na minha direção, gritando em sua própria língua, palavras melosas. Eu dei um salto e montei no Catapulta. Não sei se entendi tudo que me aconteceu, mas sei que as mulheres é que não nunca vou entender. Não quero me casar, raios!

E esporei o cavalo com toda força.


Business

category2