quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

10 Anos de Século XXI


DEZ ANOS DE SÉCULO XXI Ou "Cadê a Porra do Meu Carro Voador"?

Estamos terminando 2010, um ano futurístico. Porém, indo contra todas as previsões literárias e cinematográficas, eu ainda não tenho um carro voador, nem posso ser teletransportado para Fernando de Noronha, nem ao menos uma mísera arma de raio laser foi possível conseguir. Alguém pode argumentar que essas coisas já existem, mas não estou falando de protótipos nem de alguns poucos trilionários que possam ter essas coisas, nos porões de suas mansões. Falo de algo comum ao dia-a-dia, como em Metrópolis ou De Volta Para o Futuro 2.

Bom, o fato é que o futuro agora é presente e o mundo ainda gira no mesmo lugar. Tudo bem, temos coisas hoje em dia que ninguém imaginava para nosso século: Internet, para nos deixar totalmente sedentários e viciados; celulares, que mesmo que possam ter sido remotamente profetizados, ninguém imaginava que eles fariam quase tudo, às vezes servindo até mesmo para telefonar; temos iPods, iPads, iMeuSaco; não temos carros voadores, mas temos GPS que faz o carro conversar com você, e em breve, um modelo que discute a relação.

Temos cinema em 3D, que faz com que você pareça estar dentro do filme... hã... o quê?! Ah, desculpa, me disseram aqui que isso já existe desde a década de 50. Foi mal. Ok, mas temos TV 3D, isso é uma inovação. Tudo bem que eu com meu salário 2D eu nunca poderei comprar uma. Falando em TVs, quem poderia dizer que um dia teríamos TVs de plasma. Nem o mais louco dos Kubricks pensaria em algo assim. Para quem não pode comprar a de plasma, nosso mundo futuristico inventou a de LCD. Para quem não curte TV ainda temos o LSD, que existe há tempos.

A sociedade ainda é a mesma. Não mudou muita coisa. Os mesmos corruptos de sempre, sem nenhuma inovação tecnológica. Política só não é a profissão mais antiga do mundo porquê as prostitutas é que deram a luz aos que estão nela. No cotidiano não temos o Grande Irmão como previsto em 1984 de George Orwell, pelo menos não tão escancaradamente como no livro. Ainda nos deixam ter uma ilusão de liberdade. o Big Brother mais assustador é o da Rede Globo mesmo.

Neste nosso mundo do futuro, ainda não foi encontrada a cura para o câncer, pois os cientistas estão mais preocupados em colocar orelhas nas costas de ratos e fazer melancias sem caroço. Não há cura para doenças degenerativas como o Mal de Parkinson, no entanto o futuro nos trouxe o Viagra. Assim você pode ter uma ereção mesmo aos 80 anos, só que se for segurar o bilau, vai chacoalhar demais e ter uma ejaculação precoce. O futuro é gozado.

A maior inovação tecnológica do nosso século tem nome: pirataria. Se não temos carros voadores, ao menos temos música de graça, evitando assim comprar CDs a preços exorbitantes. Sim, é proibido baixar músicas, mas é totalmente legal vender mídias virgens e iPods para você armazená-las. Assim sendo, não podemos deixar a indústria de CDs e DVDs virgens e nem a Apple falir, por isso compramos tais acessórios a rodo. Também podemos ter de graça, filmes, revistas, livros e podemos ler as reportagens da Playboy, totalmente sem custo adicional. Quem precisa de armas de raio laser?

Outra grande inovação tecnológica que veio na esteira da internet é a pornografia. Certo, certo, pornografia existe desde que o primeiro homem das cavernas acertou a cabeça do pau na mulher das cavernas. Quer dizer, acertou o pau na cabeça da mulher... desculpem. Mas, a pornografia do futuro é democrática. Qualquer um pode acessá-la e não depende mais de meras revistas que o pai guarda escondidas sobre toneladas de roupas. Claro que há medidas de segurança, é só clicar em "Não Aceitar" e menores de idade não terão acesso. Essa ferramenta dá acesso a outra que, de tão tecnológica, nem mesmo é visível, chama-se o "Botão do Foda-se".

O futuro se modernizou e evoluiu em alguns campos. Os Estados Unidos tem um presidente negro pela primeira vez em sua história e o Brasil uma presidente mulher. Logo, logo teremos um presidente homossexual e dentro de alguns anos, quem sabe, um presidente totalmente digital, feito nas empresas de efeitos especiais do James Cameron (e em 3D). A tecnologia só não consegue mesmo nos trazer um presidente que cumpra promessas de campanha. A tecnologia não faz milagres impossíveis.

Já no meu futuro pessoal, eu ainda faço café com papel Mellita e uma cafeteira velha, usando pó de café Pimpinela. Ainda não tenho uma máquina que eu diga "me dá café" e apareça instantaneamente. Nem uma que faça hamburgueres ao toque de uma tecla, como em Os Jetsons. Enfim, nada que faça a comida e me traga, sem eu precisar sair do lugar. Até tem, se chama esposa, mas ela disse que hoje em dia, os deveres são iguais. O futuro pode ser decepcionante.

Enfim, estamos saindo de 2010, e não fomos atacados pela Skynet, mas temos o aquecimento global. O mundo não é um pesadelo pós-apocalíptico depois de uma Terceira Guerra Mundial, mas temos ameaças de gripe aviária, gripe suína, gripe animal-da-vez. O índice de analfabetismo ainda é grande e ninguém nasce sabendo ler, como um futuro futurístico decente deveria ser, mas temos políticos semi-analfabetos se elegendo, mesmo sendo palhaços e nos fazendo de.

O futuro nos trouxe emos, Eclipse, bandas coloridas de "rock", e músicas ruins. A juventude de hoje, se é o futuro de amanhã, ele é meio desolador. Carros voadores não virão nesse futuro, mas teremos cortes de cabelos que nos farão querer desintegrar os usuários com uma pistola de raios. Mas, nada que nos tire o bom humor, que não depende de tecnologia.

O futuro continua vindo a uma velocidade incrível, e 2011 já está quase aí. Não colonizamos outros planetas, nem viajamos no tempo. Mas, podemos continuar fazendo bons amigos por aqui mesmo, e colhendo lembranças que nos permitam viajar até elas quando quisermos. No mais, o futuro é agora e que todos os leitores do RA tenha um excelente 2011. Feliz Ano Novo a todos.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Histórias de Natal

HISTÓRIAS DE NATAL


Tenho poucas lembranças de Natal. Nunca tivemos grandes festas natalinas e, em sua maioria, eram reuniões informais, como é até hoje. Talvez o Natal mais natalino que já tive, tenha sido ano passado, onde tivemos presentes embaixo de árvore e tudo mais, na casa de minha mãe. Só que ainda prevalecia um certo clima de informalidade.

Também já fiz parte - mesmo que por um curto período - daquela parcela que procura ignorar o Natal, porque "é apenas uma festa para estimular o consumismo". Dane-se, consumimos o ano inteiro, sem nenhum objetivo específico. Então que consumamos com uma ilusão tola em mente. Hoje em dia apenas relaxo e compro.

Querendo ou não, o natal tem uma aura que se impôs, depois de tantos séculos. Com mais informação a cada dia, seja pela TV, internet, e até mesmo livros, muitos até mesmo já sabem que o 25 de Dezembro não tem nada a ver com o nascimento de Jesus... e estão se lixando pra isso. É o mesmo que questionar o que coelho tem a ver com ovos, durante a Páscoa.

Mesmo que a data gere esse tipo de gentileza meio formal, que se requer apenas por força de um hábito aprendido e quase que imposto, ainda assim, no meio do joio, ainda se acha trigo, e às vezes, desejamos Feliz Natal, de coração, a algumas pessoas. E, mesmo quando se é formal, se pode ser formal com sinceridade.

É uma época de reuniões, muitas vezes com pessoas que pouco se vê. Então, não é de todo um desperdício. A troca de presentes reforça algum tipo de interação. As crianças podem exercer seu direito de ser criança e acreditar em coisas que nós mesmos acreditamos um dia, mesmo que por pouco tempo.

O Natal é um pequeno livro de memórias. Algumas que se tornam permanentes.

Minha história com meu pai foi breve e eu não criei vínculos com ele, ou simplesmente perdi o pouco que criei. Mas, umas das grandes lembranças que tenho sobre ele, é de um Natal:

Já era noite, e estávamos no quintal onde ele tinha armado uma pequena fogueira. Não sabia o que ele pretendia fazendo fogo ali, aquela hora. Ele pegou uma placa fina de metal e fez vários furos. Espalhou alguma coisa, que ele me disse serem castanhas. Eu nunca tinha ouvido falar. Colocou sobre a fogueira e esperou até que elas virassem carvão. Pegou uma daquelas coisas totalmente pretas e bateu na calçada aquele pretume se esfarelou e revelou algo dentro, uma castanha menor, assada. Ele me deu para comer e tinha um gosto bom.

A noite estava fria, mas o calor da fogueira, meu pai ali comigo e o gosto bom daqueles troços, me faziam querer que aquilo não acabasse nunca. Acho que nunca acabou. Vez ou outra me pego relembrando aquela noite.

Alguns presentes não custam nada. Acho que Natal é isso.

FELIZ NATAL A TODOS OS LEITORES DO R.A.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Vertigem


QUATRO ANOS "SOFRENDO" DE VERTIGEM

Acesse o blog, clicando aqui

Quando eu li as HQs do Monstro do Pântano, escritas por Alan Moore, publicadas lá na longíngua Superamigos e Superpowers, da Editora Abril, eu não fazia idéia (e talvez nem eles) do que aquilo traria no futuro: um dos melhores selos de quadrinhos adultos de todos os tempos.

Quando a Vertigo chegou à maturidade, eu estava longe dos quadrinhos, por motivos idiotas. Porém, quando voltei, o selo proporcionava HQs do mais alto nível e títulos a dar com pau. Pra melhorar tudo, tal selo era da editora que eu mais gostava, DC Comics. Ou seja, era a fome com a vontade de comer.

Quando voltei a ler quadrinhos, era quase impossível acompanhar tudo que estava sendo lançado: Preacher, Invisíveis, Livros da Magia, Hellblazer. E olha, que tudo isso pela maldita Brainstore, que o fazia de modo porco. Imagina se tudo estivesse sendo lançado por aqui da forma correta. Eu enloquecia.

A história da Vertigo, em papel, aqui no Brasil, sempre foi conturbada. Atualmente está nas mãos da Panini, e existe uma revista mensal e muitos encadernados, como por exemplo o Sandman Ultimate Edition Porradation. Tudo muito lindo, se o seu bolso deixar.

Quando comecei com scans, obviamente Vertigo era uma das minhas preferidas. Eu tentava, com a ajuda de amigos, consertar o estrago feito em Hellblazer, lançava alguns Livros da Magia e até mesmo alguns Invisíveis. Mesmo tendo completado Preacher, ainda assim, era impossível acompanhar o ritmo... vertiginoso do selo. Principalmente porque nunca fui bom em montar equipes.

Quando eu parei com scans de vez (ao que parecia), eu mesmo fiquei sem fonte para scans do meu selo preferido. Via a maioria dos grupos fazer um título aqui e ali, de preferência o mais popular, e depois dar atenção ao feijão com arroz de sempre. Até que surgiu O blog, aquele que fez o inesperado, se especializou em HQs do selo Vertigo: o
Blog Vertigem.

E, o melhor de tudo, estava fora das picuinhas scanísticas que inundavam a internet. Com Von Dews encabeçando a turma, o grupo fazia aquilo que sabia de melhor, e o que eles faziam era, e é, bonito: traduziam e/ou escaneavam os títulos do selo, continuando a colocar em ordem os números que ainda faltavam em muitos títulos, e começando inúmeros outros.

Nesses 4 anos, fica dificil para mim, dizer a importância do blog. Faltam palavras. Afinal, o blog tinha uma linha a seguir, que era fazer HQs da Vertigo e HQs que fossem adultas em seu conteúdo, mesmo que não fossem Vertigo.


Cativado pelo grupo, cansei de "roubar-lhes" scans e colocar aqui, e até mesmo lendo muitos deles. A continuação de títulos como Hellblazer, Livros da Magia, Fábulas, foi essencial, e não estava pensando apenas em mim, mas nas pessoas que queriam continuar lendo-as e não tinham lugar para baixar, até eles chegarem.

Um traço do blog também, é incentivar a compra e a leitura das revistas no papel. Afinal, estamos vivendo um tempo melhor, editorialmente falando, para o selo, aqui no Brasil. E, se lançassem os encadernados de Preacher do ínicio, eu compraria com todo prazer! Não o blog, claro, mas a editora.

Fico imaginando quantas pessoas devem ter conhecido o selo através dos scans despejados incessantemente no blog Vertigem, capitaneado por Von Dews.

Não sou bom com as palavras, mas quero aqui agradecer tanto esforço e por tantos títulos e parabenizar pelos quatro anos do blog. Que o Vertigem tenha muitos anos a serem comemorados e que Moore e Gaiman os abençoem, amém!


domingo, 5 de dezembro de 2010

Jerusalem Jones e O Velho


O VELHO
Um Conto de Jerusalem Jones


O velho acabou com todos. Ele se entrincheirou em uma vala seca, e matou cada um dos que vieram atrás dele. O xerife e seus dois ajudantes e 4 voluntários. Eu vim atrás da recompensa, que só entendi porque era tão alta depois que já estávamos a caminho e me disseram o que ele fez. Comecei a rir, quando me contaram que ele havia chacinado uma família inteira, sem poupar nem mesmo duas crianças pequenas. Eu achei que fosse uma piada. Pensei que o auxiliar Bradley estava tentando gozar com a minha cara. Afinal a família era chefiada por ninguém menos que Sanford Couper, caçador de recompensas aposentado, que resolveu casar e construir família. Mas, não deixou de ser o mesmo Sanford por causa disso. Mas, o velho acabou com ele, e com todos o que ele amava. E olha que Sanford nunca amou ninguém. Quando o auxiliar Bradley não riu junto comigo, percebi que a coisa era séria, e fiquei sem jeito.

Quando estávamos quase o alcançando, o velho se entrincheirou e como se estivesse possuído, matou logo dois dos voluntários, Jonesy e Foley. Pulamos para rochas próximas e nos escondemos meio sem entender o que estava acontecendo. Mas, o que esperar de um sujeito que matou Sanford Couper.

Depois de alguns minutos de tiroteio incessante (que aliás, ninguém entendia como a munição do desgraçado não acabava) o xerife Joachim Rose - que detestava ser chamado pelo sobrenome e por isso nós chamávamos - resolveu tentar uma emboscada, indo por trás, com um dos auxiliares enquanto nós dávamos cobertura. Claro, não funcionou. Rose e o auxiliar Potts foram para o inferno. E, sem o xerife no comando, os quatro voluntários não quiseram obedecer as ordens do último auxiliar e tentaram fazer as coisas de seu jeito. Morreram antes de entender o que deu errado. Sobramos apenas eu e o auxiliar Johnson. O velho estava conseguindo me preocupar.

Não pude culpar Johnson quando resolveu que era hora de bater em retirada e foi, de fininho, até o seu cavalo. Tentando se manter fora da visão do velho. Foi quando aconteceu algo estranho. Quando Johnson já havia cavalgado alguns metros, caiu, como que fulminado por algum tipo de ataque do coração ou algo parecido. Tenho certeza que não ouvi nenhum tiro. E, mesmo assim, Johnson estava fora da mira do velho. Se não fosse dia claro, eu teria ficado arrepiado. Agora, eram apenas eu e o velho. E foi quando, depois de matar a todos em silêncio, ele começou a falar comigo, mesmo sem eu entender como diabos ele sabia quem eu era:

- Não vai correr para a mamãe também, Jones? Seria algo assim que o seu pai faria, numa situação dessas. Você é como ele? Faz muitos anos que não o vejo e a você, bom, devo confessar que é a primeira vez que ficamos tão... próximos assim. Ele nunca falou de mim pra você, de seu amado avô, Jericho Jones?

- Seja lá como sabe meu nome, só posso dizer que meu avô morreu bem antes de eu nascer. Se quer se divertir antes de morrer, não tem problema, eu tenho todo tempo do mundo - disse eu, num dos piores blefes da minha vida. O calor estava acabando comigo e eu estava quase desmaiando. Provavelmente não teria chance contra aquele velho dos infernos.

- Jericho Jones, não é irônico? Bom, quem sabe seu pai não me odiasse tanto assim. Mas, dizer que eu morri, certamente foi algo que me magoou. Tudo bem, eu não guardo rancores, Jerry. Seu pai não era dos nossos. Algumas maldições, assim como certas doenças, pulam uma geração. E eu sei que você é amaldiçoado. Já escutei muito sobre suas histórias, de como se mete com as coisas mais estranhas, inclusive irritanto até os demônios. Isso me faz sentir orgulho de que você seja um Jones. Por outro lado, me cria certos problemas.

A única coisa que eu podia pensar era que o velho, de alguma forma, sabia quem eu era, e estava se divertindo, antes de acabar com a minha raça. Ele falava tanta asneira, que eu simplesmente desliguei meu cérebro, enquanto tentava imaginar como matá-lo e receber a maldita recompensa, que agora parecia ser muito pouca. Eu só podia fingir que estava caindo na conversa dele e fazê-lo falar mais. Quanto mais ele falasse, mais tempo de vida eu tinha.

- Meu pai era um homem corajoso a seu modo, Jericho, ou seja lá quem diabos você for. No seu modo de ver, um homem só tem valor se viver como um assassino, matando pessoas sem nenhum propósito.

- Oh, Jerry! Nada é sem propósito nesta vida. Os Couper não morreram em vão. Tudo faz parte de um plano maior. Eu sabia que você estava na cidade, sabia que viria com os outros, atrás de mim. Eu sei como você pensa e age. Somos sangue do mesmo sangue, e é do seu que eu preciso, e devo dizer, não fui eu quem escolheu assim, foi o destino.

"Jerry, Jerry. Eu tenho 637 anos. Sim, pode rir. Seu pai foi meu último filho. E o único propósito dele nesta vida, foi trazer você ao mundo e escolher seu nome. Pra viver tanto tempo é preciso se fazer acordos perigosos. Não posso nem imaginar a quantidade de descendentes que eu tenho por aí, mas nenhum deles era mais esperado por mim, que você. E, de certo modo, foi difícil encontrá-lo em meio a tantos. Pra viver eternamente eu não queria vender minha alma. Afinal, o que eu sou depende de quem eu sou por dentro, depende de minha alma. Era um jogo muito astuto que o demônio estava propondo. Se eu vendesse minha alma, seria um casca vazia que viveria eternamente. Babando, numa cadeira, como um débil mental, para todo o sempre. Mas, uma alma que fosse mais ou menos minha, eu podia vender.

"O demônio gostou da proposta. E concordou. Mas, novamente, tive de me cercar por todos os lados. Eu sabia que podia viver eternamente... se alguém não me matasse. Coisas como, cortar minha cabeça fora e tudo mais. Eu soube de casos assim, me informei. Então, deixei o demônio com água na boca quando prometi ao demônio que seria um descendente meu, vindo da Cidade Santa. Sabe qual é a Cidade Santa, Jerry? Bom, tenho certeza que alguém já lhe disse isso. Jerusalem.

"O problema é que eu nunca estive lá. Mas, podia ser alguém com o nome da mesma. Outro problema era que eu não podia simplesmente dar esse nome a um filho. O demônio não é tão idiota assim. O destino seria meu fiador. E o destino nunca me deixou de calças na mão.

"Meu tempo estava se esgotando. Eu já estava quase me conformando com o fato de que não podemos ter tudo que queremos. Eu estava bem longe daqui, e tinha até mesmo me esquecido de seu pai, entre tantos filhos espalhados. Mas, o destino trabalha de forma organizada. Tinha de ser a semente da minha última semente a trazer minha salvação. E minha vida eterna. Graças a Deus, o demônio também tinha seus interesses pessoais nesta história, já que me parece que você andou mexendo com amigos dele. Se não fosse isso, creio que eu já estaria morto. Agora só precisamos esperar anoitecer, para que as condições certas tragam meu amigo até aqui para podermos acertar nossas contas. Na verdade este é o lugar exato onde fizemos o nosso acordo. Destino, Jerry. Dest..."

- Velho, nossa, você fala demais. Seja ou não meu avô, você ao menos sabe contar histórias pra criança dormir.

Surgi atrás do desgraçado, que simplesmente acreditou que um chapéu e um revólver atrás de algumas pedras não se mexem por tanto tempo. Cravei a faca, que trazia no cinto, em seu pescoço e, com ele se debatendo e atirando pra todos os lados, forcei o máximo que pude, até ele parar de se mexer. Resolvi não me arriscar, e com uma pedra grande, que usei como marreta, bati com firmeza na faca, fincada em seu pescoço, até arrancar a cabeça do desgraçado, seguindo as regras que ele mesmo me ditou. Precisaria dela para receber a recompensa, então estava sendo prático também.

De tão cansado e com medo de ser morto por um velho decadente eu estava, que não registrei quase nada do que ele falou. Eu estava coberto de sangue e depois de enterrar seu corpo, me preparei para ir embora, avisar a quem quer fosse ser eleito o novo xerife, para vir buscar os homens mortos ali naquele deserto maldito.

Demorei mais do que deveria e acabou anoitecendo. O frio que fazia foi substituido por um vento morno e senti que era observado, mesmo que não pudesse ver por quem ou pelo que. Talvez fosse minha imaginação, talvez o cansaço junto com todo aquele sangue em cima de mim. O fato é que levantei o saco com a cabeça do velho e disse em voz alta, para o vento:

- O destino é uma via de mão dupla. - E fui embora daquele lugar maldito, assoviando uma canção que meu pai me ensinou.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Dr. Antônio Carlos Mayall


MÉDICOS E MÉDICOS
Dr. Antônio Carlos Mayall



Em todos os segmentos de profissionais sempre existem os ruins, os bons, os excelentes e os péssimos. Os péssimos se caracterizam apenas por um detalhe: parecem odiar profundamente o que fazem, como se alguém os tivesse arrastado para aquela profissão, apontado-lhes uma arma. Não duvido que alguns pais oprimam os filhos para que sigam certa carreira pela qual não sintam a mínima atração. No entanto, acho que, depois que se tornam adultos, a maioria está apta a escolher seu próprio caminho, ajudando a si mesmo e às pessoas que seriam mal atendidas por alguém que não gostasse da profissão que exerce. Porém, no mundo da medicina, parece que a maioria detesta o que faz. Doze anos de "pesquisas" forçadas, me fizeram chegar a essa conclusão. Mas, toda regra tem sua exceção. Mas, vamos por partes.

Por 12 anos eu estive numa condição complicada de ser diagnosticada. Uma Síndrome do Pânico se associou a uma eplepsia, parecendo, no entanto ser uma doença só. Isso, para um leigo, com certeza é difícil de diagnosticar, para um profissional da área de saúde não deveria ser, na teoria. Demorou 12 anos para que um médico entendesse o que eu tinha, sendo que tive de mentir de início (depois de entender que só assim eu teria uma chance de diagnóstico correto) suprimindo os sintomas de uma das duas condições, no caso, a eplepsia. Depois desse tempo todo é que tive a "brilhante" idéia. Antes, porém, vivi um inferno na mão de médicos incompetentes, indolentes, péssimos e outros adjetivos nada agradáveis.

Ser atendido como se nem estivesse ali presente, com o médico preocupado apenas em rabiscar a receita e me entregar, às vezes nem levantando a cabeça para ver quem estava na sua frente, me deixava cada vez mais cético quanto a qualquer tipo de médico. Quando tentei passar por um atendimento psicológico, a falta de interesse da médica, que não mantinha nem mesmo um prontuário, ou sei lá, um bloco de anotações para se lembrar na semana seguinte do que eu dissera antes, me fez simplesmente abandonar essa idéia para sempre.

Na verdade, esse foi apenas a gota d'água. Eu já havia tentado uma vez anterior, em que fui a uma psiquiatra recomendada por uma chefe minha, que o fez até de muita boa vontade, quando viu uma de minhas crises. Fui lá todo pimpão, me sentei e relatei tudo que acontecia comigo. Depois de me ouvir, ela parou, me olhou bem sério e disse (para minha total incredulidade): "Isso que você tem é apenas algo da sua cabeça, não existe". A tentativa posterior citada acima, só me fez enxergar que ninguém conseguiria me ajudar psicologicamente.

Mas, 12 anos depois de tentar ser honesto demais, fiz o que já disse, menti sobre minha condição, omitindo alguns sintomas e deixando apenas os que indicavam uma Síndrome de Pânico. Assim, consegui fazer com que parassem de me jogar para lá e para cá, para atendimentos cada vez piores. Fui aceito no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, o
IPUB. Apesar do nome, o atendimento é mais medicamentoso. Minha segunda tentativa com a psicologia foi lá e, como falei, não deu certo. Porém, ao omitir a eplepsia, consegui que me administrassem um remédio que eu nunca havia tomado nos 12 anos anteriores, a imipramina. Ele foi conjugado ao remédio que eu já tomava pra epilepsia, a carbamazepina.

Depois de anos tendo crises sucessivas, principalmente durante as refeições, elas foram diminuindo até parar por completo. Eu conseguia comer sem ter uma convulsão. Peguei o telefone, uma tarde em que eu almoçava, e contei a minha nãe que eu estava ali, naquele momento, almoçando tranquilamente. Senti quando ela prendeu a respiração e começou a chorar. Tendo acompanhado e sofrido com a maior parte de minha condição, ela merecia saber o quanto antes de minha melhora.

Porém, penso se eu não tivesse entendido que teria de omitir uma parte do que eu sofria, se teria dado certo. Depois de alguns meses eu contei todo o restante do problema, detalhando os sintomas de eplepsia também. Relatando como a Síndrome do Pânico ativava a epilepsia, mesmo que ela pudesse ocorrer sozinha, em raras ocasiões. Maa, geralmente, a segunda era uma consequência da primeira. Obviamente, não havia mais como me transferir mais para outro lugar e estou em tratamento lá até hoje, já há 8 anos.

Não posso reclamar do tratamento, mesmo que no fundo ele pareça um tantor formal, sendo que a cada dois anos mudam os médicos, que estão, na verdade, fazendo uma espécie de estágio ali. Uns são melhores, outros piores. Mas, ao menos, dá resultado.

Tive experiências decepcionantes com médicos de outras áreas também, mas cabe aqui apenas mais uma, antes que eu relate a experiência que realmente vale a pena. Quando fraturei alguns dedos do pé esquerdo fui, logicamente, atrás de tratamento. Passei por nada menos que três profissionais nesta área, todos fazendo a coisa errada, até que um quarto, que consegui indo a uma clínica particular, a Ossotrauma,conseguiu dar jeito. Para se ter uma idéia, em um dos hospitais, engessaram minha perna até perto do joelho, me impossibilitando de andar corretamente... E DEIXARAM OS DEDOS FRATURADOS DE FORA!

Bom, esses dias (mais de um mês já) foi minha esposa, a Lia, quem se acidentou, só que muito pior do que apenas alguns dedos quebrados. Na escola onde ela dá aula, alguém derramou detergente em uma escada, sem iluminação (mesmo sendo de dia fica mal iluminado), sem corrimão e ela prestava atenção nas crianças, alunos seus, que ela levava para baixo. Escorregou violentamente e seu pé esquerdo virou num ângulo de uns 45 graus para o lado esquerdo.

Nada podia ser feito com gesso, precisaria sofrer uma cirurgia. Conseguimos que um ortopedista viesse aqui avaliar a situação e ele disse que sim, seria necessário uma cirurgia logo que fosse possível. Para isso, no entanto, exames preliminares precisariam ser feitos. Muitos exames. Entre eles o chamado "risco cirúrgico" que um médico precisaria dar, sendo que não seria ele. Ela teria de fazer exames de sangue, eletrocardiograma e mais algumas radiografias. E tudo teria de ser feito em casa, ela não tinha condiçoes de se locomover, pois mesmo se eu a colocasse numa cadeira de rodas, colocá-la e tirá-la em um táxi poderia acarretar pequenas batidas com o pé que estavam fora de questão, devido a dor.

Então, entrou em cena o Dr. Antônio Carlos Mayall, clínico geral e angiologista. Médico, por assim dizer da família. Mais conhecido por ela como "Dr. Carlinhos". O Dr. Mayall cuidou da avó da Lia - na verdade, sua mãe de criação - que morreu aos 105 anos de idade, algum tempo antes de eu me casar com ela. Lia sempre me contava sobre como ele a atendia bem, e sempre aqui, no apartamento. Até mesmo o atestado de óbito ele emitiu, sem cobrar nada por isso.

Lia sempre o elogiava e, estando casado há 10 anos com ela, eu já a havia acompanhado em algumas consultas a ele. Ela até mesmo pediu que eu me consultasse com ele, sobre minha condição e ele nos indicou um especialista que ele conhecia. Não continuamos o tratamento com ele, devido ao preço exorbitante, fora de nossas codições. Mas, ao menos o Dr. Mayall tentou.

Todo esse tempo, ele até mesmo veio aqui uma ou duas vezes, atender a ela ou à Tia Adhamyr (tia de criação de Lia, filha da avó dela que morreu aos 105 anos), que mora conosco. Mas, nada que fizesse meu ceticismo com médicos ser debelado. Pra mim, não era nada demais o que ele fazia. Até que aconteceu esse acidente com a Lia, e precisamos dele para os exames preliminares. Ele não faria todos, mas daria o laudo final e o risco cirúrgico. Foi então que o Dr. Mayall me surpreendeu.

Novas radiografia tiveram de ser feitas em casa. O sangue para exames vieram coletar. Mas, eu ainda não sabia como se faria o eletrocardiograma aqui. Até que chegou o Dr. Mayall e o vi examinando a Lia, e segurando um aparelho retangular que, quando percebi, estava fazendo o ECG. Além disso, fez os exames de praxe, os quais ele os faz metodicamente. É um exame completo. Quando os resultados das radiografias chegassem e os exames de sangue também, ele viria dar os laudos e o risco cirúrgico. O preço da consulta foi quase simbólico, principalmente se comparado ao preço que o ortopedista cobrou por atender em casa.

Então, assim que todos os exames e radiografias estavam aqui, o Dr. Mayall veio novamente, sempre no horário certo que ele combinava. Novamente examinou Lia totalmente, leus os exames de sangue e as radiografias e deu o risco cirúrgico. Apesar de não ser muito falante, o Dr. Mayall mostra em suas atitudes, como se preocupa com seu paciente. E isso ficaria provado mais tarde, de forma contundente.

Depois de escrever por mais ou menos uma meia hora, os laudos, e de ter aceitado o pequeno lanche que a Tia Adhamyr ofereceu, ele estava já indo embora. Porém, ao se falar em pagar sua nova consulta, nada conseguimos fazer para que ele aceitasse, querendo dizer que essa ainda era uma extensão da primeira visita. E ele não recebeu. Outro médico não teria feito isso. O Dr. Mayll fez uma nova consulta, quisesse ele admitir isso ou não.

Em todo o caos que se formou com o acidente de Lia. Todo o medo do que estava acontecendo do que estava por vir com a cirurgia e com os gastos que só aumentavam, em tudo isso, o único que nos deixava mais calmos, era o Dr. Mayall. Principalmente à Lia, que sempre o admirou, e se fazia bem a ela a mim o fazia.

Por fim, chegou o dia da cirurgia e, apesar do hospital não ser dos melhores, mesmo o atendimento tendo sido particular (Casa de Portugal), tudo correu bem. Para ser ter uma idéia da qualidade do hospital, uma das enfermeiras se escondeu no banheiro no quarto de Lia para nada mais nada menos que fumar. E ainda pediu pra ela não dizer nada. Estupefata como estava e mais preocupada com sua cirurgia do que com qualquer coisa, ela nem registrou a coisa direito.

Bom, quando eu estava em casa, e Lia no hospital, com sua tia, o telefone tocou aqui. Era o Dr. Mayall. Vale dizer aqui que meu ceticismo com médicos, me fazia pensar que o Dr. Mayall achasse que já tinha cumprido seu dever neste caso e que tudo agora estava a cargo do ortopedista. Mas não.

Numa ligação dificil - além do fato de o Dr. Mayall não escutar muito bem - eu escutava ele perguntando, gritando, como se estivesse em meio a muitas pessoas, como estava a Lia, se tudo tinha ido bem na cirurgia. Aquilo em si, me pegou de surpresa, e eu, meio estupefato, disse que sim, que tudo tinha ido bem, foi quando ele disse algo que, confesso, me fez chorar.

- É que estou saindo de um congresso agora, depois eu ligo pra saber mais.

Eu estava sozinho em casa (com Lucy), e era noite já. Guardei o telefone e fiquei meio pensativo. Pensava, que médico lembraria, assim que saísse de um congresso, de um de seus muitos pacientes. Que méidoco lembraria que ela estaria fazendo cirurgia naquele dia e, que tiraria de seu tempo para telefonar e perguntar como tudo correra. Fiquei emocionado por um bom tempo.

Lia veio para casa e hoje faz um mês de sua cirurgia. Nesse meio tempo, o Dr. Mayall não cansa de nos surpreender. Pedimos a ele que indicasse um novo ortopedista de sua confiança, para continuar o tratamento e deixamos com ele as últimas radiografias (bem parecidas com as da figura no topo do post). Na verdade, ele veio aqui buscá-las, sendo que eu poderia ter levado ao consultório dele.

O mais interessante foi que ele apareceu às 7:00 da manhã, pois disse que passaria aqui, já que tinha alguns problemas para resolver em Botafogo. Disse que veria com algum dos ortopedista que conhecia se eles poderiam atendê-la em casa. Ele levaria e mostraria as radiografias e viria aqui dar a respostas ou segunda ou sexta. Ele apareceu 8 da noite no mesmo dia. Sua resposta foi que o médico que ele conseguiu, não atendia em casa, então ele mesmo se comprometeu a fazer a ponte entre Lia e o ortopedista. Creio que isso é quase um abuso da nossa parte, mas ele parece não ver assim.

Analisando estes últimos acontecimentos, comentei com a Lia que um profissional de verdade é aquele faz além do que se é exigido dele. Claro que não precisa ser como o Dr. Mayall, mas ao menos fazer o que se é exigido dele. Ter uma preocupação genuína com cada paciente e não pensar apenas em ser pago. Algumas profissões são verdadeiros sacerdócios, mas alguns parecem que são ateus por excelência.


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