quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Minha Vida, Uma FC


MINHA VIDA, UMA FICÇÃO-CIENTÍFICA

Era um dia daqueles em que nada estava dando certo. Meu trabalho, vigiando as várias realidades alternativas, estava parado devido a uma pane em todo o sistema. Eu estava bloqueado. Nem um único portal se abria, e todo o setor se empenhava em tentar colocar o Controle Vital em funcionamento. Minha tela estava branca. A previsão era de que ainda se passariam horas - ou, se contar o local onde estou, anos - até que tudo voltasse ao normal. Então, abri uma nova tela, e resolvi escrever um pouco. Isso me acalmaria e passaria o tempo, relativamente falando.

Porém, o bloqueio do Controle Vital parecia ter me afetado também e eu não sabia sobre o que escrever. Abri algumas telas de Retro-pesquisa, mas de nada adiantou. Então, resolvi escrever sobre minha vida. Pelo menos até que tudo voltasse ao normal. Só para passar o tempo, relativa... ah, você sabe, aqui não podemos nos referir ao tempo como vocês aí. Bom...

... eu nasci em um mundo árido, seco, em que o sol castigava cada centímetro do chão. Não que eu me lembre, eu descobri pelos arquivos neurais, quando estava mais crescido. Fui o primeiro de quatro filhos, e numa confusão de registros meu pai me deu um nome e minha mãe me deu um codinome.

Assim que eu completei seis ciclo-meses de idade, meus pais tiveram de abandonar meu mundo natal. Não, não. Ele não explodiu, nem nada. Meu pai apenas precisava encontrar um lugar melhor para ganhar o sustento, já que onde estávamos não oferecia muitas opções. Novamente, isso criou uma certa confusão em meus dados. Agora, eu estava codificado como tendo nascido no novo planeta ao qual chegamos. Assim sendo, acabei com duas datas e locais de nascimento. Tanta tecnologia e mesmo assim a burocracia ainda era impenetrável.

Lembro que cheguei ao novo planeta sob uma chuva torrencial. Aquilo era um verdadeiro paradoxo, vindo de onde eu vinha. Mas, como era apenas um organismo em desenvolvimento ainda - mais conhecido como bebê - eu não pude registrar tal idiossincrasia. Mas, estranhamente, lembro da chuva. Nada que tentássemos nos protegeu dela.

Em nosso novo planeta o tempo parecia passar mais rápido. Minha mãe logo deu a luz a meus irmãos: mais duas meninas e um menino. E éramos agora uma família interespacial de 6 indivíduos. Isso também significava mais trabalho para meu pai. No entanto, eu mesmo desconhecia qual era seu trabalho, do qual ele não falava muito. Mesmo assim, eu não entenderia. Não ainda.

Logo me acostumei ao modo como o tempo passava no novo planeta que, apesar de ter tanto sol quanto nosso antigo lar, não era todos os ciclo-dias do ano. E, a cada ano que se passava, eu me sentia mais consciente de tudo à minha volta. Muitas vezes, essa consciência acabava me metendo em sérios problemas.

Minha relação com o tempo parecia que sempre voltava à minha mente. Alguns anos pareciam ciclos maiores que os outros, isso se aplicando com toda força aos meus 8 anos de idade. Sempre me pegava pensando como se fosse um adulto, ou imaginando o futuro, mesmo sem ter idéia de como ele seria. Não tínhamos essa tecnologia, ainda. Se tivéssemos, talvez o que veio a seguir pudesse ser evitado, ou não.

Meu pai foi desintegrado. Só fomos notificados desse fato, não de como ou onde aconteceu. Claro, foi no trabalho e isso era só o que saberíamos. Minha mãe agora era uma jovem senhora, com a tarefa de cuidar de quadro unidades carbono ou, em outras palavras, de quatro pirralhos.

Ela se saía bem, mas eu não me conformava com que ela trabalhasse sozinha. Quando estava com 11 anos, em um ciclo-solar completo, disse a ela que iria trabalhar, e ela riu pensando que era brincadeira ou algo assim. Mas, perto havia um depósito de alimentos ainda em estado natural, onde acabei conseguindo uma colocação. Apesar de ser um garoto entre adultos, eu procurava trabalhar, ou pelo menos fazer a minha parte, como se fosse um deles, e ganhei o respeito de todos. E a amizade.

Claro que o que eu ganhava não ajudava tanto assim, mas me bastava aquela espécie de ilusão holográfica de que eu ajudava em algo. Ao mesmo tempo, também podia comprar, sem aporrinhar minha mãe, algumas das aventuras em hologravuras de super-seres, às quais me afeiçoei mesmo antes de aprender a decodificar algarismos. Aquilo me influenciaria por toda a vida.

Os ciclos foram passando e meus estudos avançados se mostraram não tão avançados assim, e eu tive de interrompê-los, para dar mais atenção ao trabalho, agora já como um adolescente. Só voltaria aos mesmos muitos ciclos mais tarde.

Quando, já adulto, estava em uma unidade de fabricação alimentícia, adquiri uma espécie de disruptura temporal, que me tirava do espaço-tempo por vários minutos. Era um mal complicado de se diagnosticar e isso me fez levar nada menos que 12 anos-ciclos para que, enfim, aquilo parasse de me interromper. Porém, quem sabe, isso deve ter influenciado minha vida no que passei a fazer mais tarde: criar universos alternativos. Certo, não é tão sério assim, mas é quase isso.

A tecnologia avançou e eu cresci junto com ela. Nem sempre nos damos bem, como amantes inconstantes, mas ela me dá o que preciso para continuar esse trabalho. Não é algo grandioso, nem me deixou rico, porém sinto como se fizesse parte de algo, mesmo que não seja uma galáxia muito distante. Eu gosto da minha, próxima mesmo.

A função no Controle Vital, com os portais e tudo mais, é como um desafio a cada investida, a cada painel que se abre e ...

Um alarme avisa que estamos em funcionamento. Foi mais rápido do que eu pensava. Um novo portal se abre e meu trabalho tem início. Recebo um aviso de realidade alternativa em andamento, e uma mensagem chega à tela: "minha vida, uma ficção-científica"... certo. Aperto "Enviar" e temos um novo início. Ou fim.



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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A História de Lucy


A HISTÓRIA DE LUCY

Eu nunca tive cachorro, propriamente dito. Sempre foi minha mãe quem teve. Cachorro e gato. Se eles se iam, logo apareciam outros pra substituir, mesmo que cada um tivesse seu lugar em nossas memórias, até os dias de hoje. O caso mais marcante com certeza foi o de Murdock, que já relatei aqui.

Já se ia bem uns 10 anos que eu não sabia o que era ter um bicho de estimação por perto quando Lia (minha esposa) cismou que queria ter um. E quando ela cisma...`

Vasculhou a internet à procura de um maltês ou poodle toy, já que para ficar em apartamento seria bom que fosse pequeno. Ou apenas porque ela queria que fosse sempre como um filhote. Não sei.

Eu já estava surtando com suas constantes procuras que eram sempre frustradas ou pelo preço exorbitante ou pela impossibilidade causada pela distância onde se encontrava algum com um preço razoável. Nas pet shops próximas, os preços eram obscenos.

Tudo ia muito bem, com ela falando constantemente que queria um cachorro, queria um cachorro, queria um cachorro e... queria um cachorro, quando fomos ao Botafogo Praia Shopping, como sempre fazíamos e, assim que saímos pela porta que dava na direção da praia, uma moça estava vendendo alguns filhotes. Nós mesmos já havíamos passado por ali justamente procurando alguém que estivesse vendendo, como acontecia algumas vezes, porém sem sucesso. Neste dia não estávamos procurando.

A moça tinha vários filhotes, aparentemente de raça, em uma caixa de papelão. Era noite, estava um pouco frio. A maioria deles estava acordada, acesos. Lucy dormia encolhida bem no canto da caixa. Foi amor à primeira vista.

Perguntamos a raça e a moça disse que era poodle toy. Acho que Lia teria dado 1.000 reais se tivesse, mas não era tudo isso. A moça disse o preço e não tínhamos o dinheiro, que só serviria ao vivo e a cores, claro. O caixa eletrônico mais perto ficava a algumas quadras. Bom, tive de correr. E eu não estou acostumado a correr. Mas fui mesmo assim.

Cheguei, colocando os bofes pra fora, no caixa eletrônico, saquei e voltei de táxi, claro. Não queria ter uma síncope. Levamos Lucy pra casa, que ganhou seu nome no caminho. Lembrei da Lucy Van Pelt, de Peanuts. Mal sabia eu como ela faria jus a homenagem.

As semanas foram passando e começamos a perceber que Lucy não era toy e provavelmente nem mesmo poodle. Pelo menos não pura. Mas isso não importava mais. Parece que, como casal, estamos fadados a sermos enganados constantemente. Quem, depois de se apegar, vai querer trocar uma criatura que dá tanta alegria.

Alegria e mordidas. Conforme crescia, mais peralta ia ficando. Me mordia (e morde) achando que é brincadeira, mesmo que arranque meu sangue. Qualquer visita que chega ela faz festa como se fosse ter um ataque do coração. Parece que cada pessoa, pra ela, é única e especial, e ela age de acordo. Ainda bem que ela não morde quem não conhece, só a mim, a Lia, e a tia da minha esposa, com quem ela já tem intimidade.

Depois de todas as vacinas ela pôde começar a passear de coleira, na rua. Isso foi um novidade não só pra ela, mas pra nós também. Ela não passeia como os outros cães. Ela quer cheirar cada canto, como geralmente os cães fazem, só que é CADA CANTO mesmo. Às vezes por causa da urina de outros cães, às vezes porque sente qualquer outro cheiro.

E, assim como faz com as pessoas que chegam ao apartamento, na rua ela quer fazer festa com cada pedestre, como se todos gostassem disso. Num bairro movimentado como o nosso, isso cria situações engraçadas e/ou embaraçosas.

Algumas vezes eu simplesmente não consigo segurar o riso, mesmo quando a pessoa passa reto sem dar atenção. Lucy se põe sobre as duas patas e começa a pular na direção da pessoa. Isso porque eu a seguro, para que ela não vá onde não a querem. Então ela fica em pé devido à coleira e começa a pular como uma maluquinha e eu desato a rir.

Ainda bem que algumas pessoas gostam e ficam encantados com a festa que ela faz, pulando em cima delas, depois de um lado pro outro, como se estivesse preparando o bote. Ela fica feliz quando alguém corresponde e isso carrega a pilha Duracell eterna que ela tem dentro de si.

Se saímos por 5 minutos e voltamos, Lucy faz festa como se tivéssemos ficado fora por uma semana. Ela sabe fazer você se sentir querido.

Indisplinada, mordedora (dos donos), bagunceira, destruidora, dá atenção aos brinquedos apenas por alguns minutos, depois volta para nos morder. Às vezes é preciso deixar ela de castigo (como está neste momento), para que não morda e puxe as tomadas pela casa. Nessas horas ela simplesmente se conforma e deita.

Já tentamos todas as dicas para discipliná-la, mas nada funciona. Mas não importa. Ela leva um nome ao qual faz jus, deve ser isso.

Em certos momento do dia, Lucy dá a loucura da disparada, como se tivesse acumulado muita energia e precisasse gastar tudo de uma vez só. Ela começa a correr pelo apartamento como uma louca. Vai até a cozinha, depois pra sala, daí pro quarto, tudo em questão de segundos. Se eu entro na brincadeira, a coisa fica mais rápida. Numa dessas eu a filmei e fiz o vídeo acima.

Postei no Youtube, sem som, pois minha voz é horrível. Depois de postado, fiquei assistindo e me deu um clique. Tinha uma música, um tema, que eu poderia tentar colocar ali, que combinava perfeitamente. O Tema do Cavaleiro Solitário. The Lone Ranger, o seriado, aqui conhecido como Zorro.

Não sei nada de edição de vídeos, então, com o pouco que sei, apenas peguei o vídeo e juntei com a música, cortando o vídeo no tamanho da música. Agora toda vez que vejo caio na gargalhada ao ver como algumas partes caíram perfeitamente, como se eu tivesse planejado isso. Um exemplo é quando o locutor fala "The Looone Ranger" a primeira vez e ela pára, e olha pros lados, como se o escutasse. Eu racho de rir.

Nesse exato momento ela está dormindo, depois de aprontar, tentando puxar as tomadas da TV. Nem parece o diabinho em pessoa.

Bons sonhos caninos.





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