terça-feira, 13 de abril de 2010

Eu Não Bebo


EU NÃO BEBO



Então, de repente, eu lembrei. Lembrei daqueles 32 minutos apagados de minha vida, há 21 anos atrás.

- Eu não bebo!

Falei, mas já era tarde demais. O pai do Agnaldo - meu amigo DJ - acabara de colocar uma garrafa de batida de limão na minha mesa. Porque diabos ele fez isso? Porque ele teve o trabalho de espremer, sabe-se lá quantos limões, e fazer meia garrafa de caipirinha? Ele nem mesmo me conhece direito ou sequer fala comigo quando vou à casa dele. Era como se ele soubesse que não gosto de nenhum tipo de bebida... a não ser aquela.

Nem sei porque estou nesta festa de casamento. Não lembro quem me convidou. Nem mesmo fui à cerimônia e, a bem da verdade, não sei quem são os noivos. Ainda não os vi. Peguei essa mesa e me sentei aqui, sozinho. Evandro e Ivan - a Dupla Dinâmica - vieram comigo, mas já se misturaram à multidão. Olho para a garrafa, com seu líquido verde claro e fico pensando se bebo ou não. Mas, não posso beber meia garrafa sozinho!

Ainda não entendi porque uma pessoa de quem nem sei o nome, fez isso. Continuo intrigado, mas coloco no copo e bebo um gole. A bebida desce suave, como se fosse uma limonada gelada, para segundos depois queimar como fogo. Nossa! Eu não devia estar fazendo isso. Não com o tipo de remédio que eu tomo. Coloco mais no copo, e tomo um segundo gole. Não devia mesmo.

Paro de pensar no mistério do porque alguém que mal conheço me prepararia meia garrafa de uma bebida que não pedi. As duas doses já parecem surtir algum efeito e o burburinho das pessoas falando ao mesmo tempo parece vir de muito distante. Olho para todas elas e, entre elas, vejo Patrícia. Justamente a filha do cara que dá bebida sem que se peça. Ela é magra e se parece um pouco com o Agnaldo.

Há alguns dias atrás emprestei a ela um texto que datilografei. Era um conto sobre viagem no tempo. Não sei porque fiz aquilo. Nem mesmo somos amigos. Acho que a falta de quem leia o que escrevo me fez entrar em desespero. Eu a chamo, para perguntar o que ela achou do texto.

- Patrícia? - ela me vê e se aproxima. Olha esquisito para a garrafa solitária em cima da mesa, já um pouco mais vazia do que quando chegou e me dá vontade de dizer que foi o pai dela quem colocou aquilo ali, então pare de me julgar! Mas, em vez disso, pergunto:

- Gostou do conto que te emprestei?

- Que conto? Acho que você mencionou alguma coisa, mas não me deu para ler, não.

- Você não lembra? Emprestei a você depois que conversamos sobre vários livros. A história é sobre um cara que viaja no tempo sem perceber que fez isso, e quando se dá conta está preso num looping temporal infinito e enlouquece.

- Ah, desculpa, Eudes. Mas você não chegou a me emprestar não. Acho que pensou em fazer, mas não fez. Já aconteceu isso comigo também.

- É, pode ser. Desculpe.

- Ah, Eudes - perguntou ela meio que rindo - o que é looping?

- Hã... é quando algo se repete...

- Ah, tenho que ir. Estão me chamando.

- Tudo bem.

Ninguém mandou perguntar. Tomo mais um gole para, quem sabe, avivar a memória. Tenho tanta certeza que entreguei o texto que poderia pôr minha mãe no... quer dizer, minha mão no fogo.

As horas passam e tento me segurar para não beber todo o restante da garrafa, mas parece ser algo impossível de se fazer. Quando me dou conta, a garrafa está vazia e eu estou completamente bêbado. Não faço idéia da hora. Estou sem relógio. Fico sentado, pois sinto que se levantar vou cair no mesmo instante.

O tempo passa, a festa vai terminando e sinto como se o mundo girasse ao meu redor. Em certo momento quase pude jurar que vi a Patrícia e o pai conversando e apontando pra minha mesa, ou pra mim, não sei. Talvez fosse para alguém atrás de mim. Mas, não importa mais. Eu só quero ir embora. A música alta que o Agnaldo insiste em colocar, apesar da hora, faz minha cabeça rodar mais ainda. Preciso encontrar Evandro e Ivan, para que possamos ir embora. Sinto que não devo mais ficar aqui, só não sei exatamente porque.

Não demora muito e os dois aparecem. Para minha tristeza, estão tão bêbados quanto eu. Evandro nos trouxe de carro, mas não tem condições mínimas de dirigir. Nem Ivan, nem eu sabemos dirigir, e mesmo se soubéssemos, estamos inutilizados também. Então, Evandro diz:

- Vamos ter de ir a pé pra casa.

- Isso... vai.. ser...impossível, Vando! - digo eu.

Numa caminhada normal, são 25 minutos a pé até onde moramos. Bêbados não vamos chegar nunca. Todos estão com os carros lotados. Inclusive meu "amigo" que fez a gentileza de me dar bebida sem eu pedir, e ninguém mais vai naquela direção. Não podemos ir a pé. O caminho é beirando a rodovia. Vamos morrer antes de chegar em casa. E a pergunta final é:

- Quem vai carregar quem?

Desistimos de tentar encontrar alguma solução e simplesmente nos apoiamos uns nos outros. Três caras bêbados, parecendo trigêmeos siameses saem pela madrugada indo para casa. Ou pelo menos tentando.

Não faço idéia de como sabíamos que estávamos indo na direção certa, apenas seguimos adiante. Entramos na reta que vai na direção de nosso bairro. Reta essa que é justamente a que beira a rodovia. O silêncio só é quebrado por um carro que passa velozmente por nós. É o carro do desgraçado do pai da Patrícia e Agnaldo. Estão todos lá dentro e mais alguma pessoas. Mesmo com o carro lotado e com a velocidade com que ele passou, eu juro que vi o coroa olhando para trás, com uma cara muito esquisita. Parecia que tudo estava em câmera lenta. De repente tudo acelera e o carro some noite adentro.

Para um observador desatento, a impressão que se tinha era que Ivan e Evandro me carregavam, já que eu estava no centro. Mas não era verdade. Todos carregavam todos. Se é que três bêbados podem carregar alguém. Mas era o que estava acontecendo. E, aparentemente, estava dando certo. Também, falávamos os três ao mesmo tempo. Conversa de bêbado:

- Eu engoli 8 brigadeiros de uma vez, escondido... fui pego e cuspi dois - dizia o Ivan

- Pedi pra colocarem Amado Batista e me expulsaram da mesa do DJ - dizia o Evandro.

- Eu nunca mais quero ver um limão em toda minha vida - disse eu.

- Nossa, a Delma vai me matar quando souber que fiquei bêbado assim - falava o Evandro sobre a namorada.

- Delma? Bem... eu... - esse era eu prestes a fazer uma merda.

- Que foi, Eudes? - Evandro perguntava, mas parecia não prestar atenção. E não estava. Afinal, estava bêbado.

- Eu tô a fim da Delma, Vando. Tô a fim da sua namorada. - eu disse, sem saber porque fiz aquilo.

O silêncio que se fez em seguida deve ter sido o mais silencioso de todos os silêncios. Todos paramos. Ivan me olhou, mas parecia estar vendo através de mim. Evandro me encarou.

E, a partir daí eu não lembrava mais de nada. Tudo havia sido apagado de minha memória. Eu poderia ter sido esmurrado e desmaiado, mas não foi isso, já que não acordei no dia seguinte machucado. Tudo foi apenas... apagado. Até hoje, quando me lembrei de tudo.

Evandro me encarou. Fez isso por um tempo que parecia uma eternidade. E disse, em tom bem sério:

- Eudes, vou falar algo que não queria dizer, pois estava tentando me manter calmo. Mas...

- Vando, calma cara, ele não quis... - Ivan começou a dizer.

- Ivan, cala a boca! Vocês dois, não notaram que não passou mais nenhum carro desde que o do pai do Agnaldo passou por nós?

Eu senti meu estômago revirar. Mas não sei dizer se de medo ou se era apenas a bebida tentando sair. Mas era verdade. Nenhum carro, nenhuma pessoa. E mesmo ao redor, as casas estavam de luzes apagadas. Tudo bem que, pela hora, deveria ser normal. mas não parecia ser.

A embriaguez parecia impedir que nós sentíssemos um medo real. Afinal, conhecíamos aquele caminho e sabíamos que ele era movimentado, com carros passando a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada. Podia ser apenas coincidência, mas nós três sabíamos que não.

Estávamos apenas na metade do caminho ainda e andar mais rápido não era uma opção. Era tentar e cairíamos todos.

Senti como se o vento mudasse de direção e uma brisa morna começou a ir e vir, nos envolvendo como se tentasse nos abraçar, nos conter dentro de um invólucro invisível. Estávamos parados. Paralisados, na verdade. Mas eu sabia que precisávamos seguir em frente e foi o que fiz. Comecei a andar, ainda me apoiando nos dois, e os dois fizeram o mesmo. Lentamente. Foi quando vimos.

Longe, tão longe que parecia um vagalume, mas que não piscava. Não piscava e sua luz se movia em todas as direções. Senti como se tudo mais esfriasse, mas era apenas o medo que nós três estávamos sentindo. Um medo contido pela bebida. A luz aumentava, vindo em nossa direção. E, em seguida a luz, veio o som. O barulho também começou a aumentar. Eram cascos. Era um galopar. A luz galopava e aumentava. Então veio o calor.

O barulho já estava ensurdecedor quando nos demos conta de que aquilo era um cavalo em chamas correndo em nossa direção. Não adiantaria correr e nem pensávamos em tentar isso. O cavalo parou.

Parou em nossa direção e o calor de suas chamas era insuportável. Ivan começou a chorar e resmungava algo sobre "cavalo do cão". Evandro estava hipnotizado, como que em transe. Não falava, não chorava, parecia apenas estar conformado com o que quer que acontecesse. Já eu, bem, eu achava que o álcool e os remédios finalmente cobraram sua dívida por se misturarem.

O cavalo apenas resfolegava, como se o inferno saísse de suas narinas. Eu queria continuar e arrastar os outros dois, mas não conseguia me mover também. E a coisa parecia só piorar. Um vulto começou a se formar em cima do cavalo. Um vulto de fogo. Um homem.

Era como ver um nascimento, mas de algo que nunca nasceu antes. A forma humana se revelava aos poucos, sem pressa, como se dissesse, vocês não vão a nenhum lugar mesmo, bêbados cretinos.

Quando a cabeça se tornou visível, dois olhos se abriram, e me senti como se estivesse olhando para dois mundos mortos, num universo morto. Senti medo, mas não queria mais saber de nada. Assim como o Evandro, eu parecia me resignar que era o fim. Ao me lembrar do Evandro, me lembrei de Ivan também, e só aí me dei conta que os dois estavam desacordados, no chão. Só eu ainda estava de pé.

O Homem de Fogo, no cavalo em chamas parecia ter feito aquilo, ou foi apenas a cachaça, sei lá. Mas, logo em seguida eu soube. O Homem de Fogo estendeu algo na minha direção, quase batendo na minha cara. Senti como se o calor fosse me queimar, mas isso não aconteceu. Tentei ver o que ele estendia pra mim e consegui, finalmente, ver o que era.

Era meu texto. Meu conto sobre o homem que fica preso no looping do tempo. O que tinha certeza que emprestara a Patrícia. O papel estava intacto e não queimava, mesmo sendo segurado por mãos de fogo. Tendo visto que entendi o que era aquilo, o Homem de Fogo disse apenas:

- Não faça isso novamente. Não vou salvá-lo outra vez.

E tendo dito isso, meu texto se queimou em sua mão. Ele lançou um último olhar, com sua órbitas mortas, rodeadas por fogo, como se me avisasse novamente, ou reprovasse, e foi embora galopando, apenas continuando seu caminho para dentro da escuridão. Não sei dizer se o fogo se consumiu ou se ele apenas virou a curva.

Meu coração batia forte. Uma vontade estranha de chorar se apoderou de mim. Como se eu não quisesse ser privado de algo que era meu por uma criatura que parecia vinda do próprio inferno, que eu nem mesmo sabia porque estava dizendo e fazendo aquilo. Era minha criação. Meu texto. Meu mundo. Não dele. Senti meus olhos arderem de raiva e as lágrimas brotaram. Senti também a bebida começar a voltar e vomitei. Vomitei tanto que pensei que minhas tripas fossem sair junto. Senti que todo o peso do que aconteceu estava começando a se fazer presente. E apaguei.

Só acordei de novo no dia seguinte, em uma beliche, na parte de cima. Ivan e Evandro me levaram até ali, à casa de um amigo, pois não ia dar pra subir até onde eu morava, e também, minha mãe não ia gostar nada de me ver bebaço.

Não mencionaram nada sobre cavalos e homens de fogo e eu também já não lembrava mais.

O dia estava bonito, com um sol aconchegante, às 9 da manhã. Estranhei não sentir nenhum efeito posterior por causa da bebida. Ou, em outras palavras, eu não estava de ressaca. Fui até em casa, mostrei que estava vivo e bem e depois fui até a rua, encontrar Ivan e Evandro no bar.

Queria ver se Evandro lembrava de eu ter dito que estava a fim da namorada dele. Depois que o encontrei pude ver que ele não estava diferente comigo, e não parecia mesmo se lembrar dessa única parte que eu ainda lembrava antes de começar tudo aquilo que agora me lembro.

- Ah, me lembrei de uma coisa, Eudes - disse Evandro, e me sobressaltei - ia te contar e esqueci. O pai do Agnaldo sumiu. Parece que se mudou, com a esposa e a filha. Só ficou o Agnaldo aí, na casa, que não parece querer falar no assunto.

- Assim, de repente? Logo depois de uma festa de casamento?

- Acho que a mudança vai depois. Talvez já estivesse planejado pra hoje, sei lá. - e tendo dito isso, Evandro voltou a jogar sinuca com Ivan.

Naquele momento pensei apenas em como não ia mais recuperar meu texto que tinha certeza que estava com Patrícia. E, ao pensar no texto, senti um deja vu esquisito, que agora entendo porque aconteceu. Será que a mudança repentina deles teria algo a ver com os eventos da madrugada? Não sei, talvez nunca saiba. Mas de uma coisa eu sei, nunca mais os vi desde então e Agnaldo nunca mais foi o mesmo comigo.

Fiquei ali, olhando Evandro e Ivan jogando sinuca. Um tão ruim quanto o outro. Nenhum de nós três lembrando o que passamos de madrugada, até que fui despertado das minhas tentativas de lembrar o que aconteceu, por alguém que colocou uma garrafa no balcão do bar, pra mim. Era meia garrafa de batida de limão, caipirinha. Quando fui ver quem o fez, não estava mais lá. Então falei alto na direção da porta de saída, onde ainda vi um vulto indo embora:

- Eu não bebo!

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