terça-feira, 19 de maio de 2009

Apenas um Suspiro


AINDA QUE SEJA APENAS UM SUSPIRO Mantenha a Cabeça Sempre Fora D'água

"Vou morrer na Praia do Flamengo."
É a primeira coisa que penso, quando noto que estou afundando. Uma onda mais forte me puxou para a parte mais funda e eu não sei nadar. Nunca aprendi. Uma profusão de bolhas me envolve, deixando tudo mais brilhante à minha volta. Fecho os olhos. Estranhamente não estou com medo, apenas sem direção. Embaixo é em cima e vice versa.

Ninguém me viu entrar na água, então não sabem que estou aqui embaixo, afundando. Vir hoje para a praia parecia uma boa idéia, então eu, Luciano, Ivan, Rogério e o irmão do Ivan, resolvemos encarar os dois ônibus e vir para cá.

A Rádio Cidade FM está dando um show muito do mixuruca, com algumas bandas que nunca ouvi falar. Uma rampa de skate foi armada e alguns skatistas estão tentando mostrar o que sabem. O Luciano trouxe a máquina fotográfica (aquele que parece mais uma caixa de sapatos em pé), e isso distrai todo mundo que estava comigo. Continuo afundando e ninguém sabe disso.

Quase posso escutar o som da música ainda, ou talvez seja apenas eu começando a perder a consciência. No meio disso tudo sinto uma dor lancinante na coxa: meu furúnculo acabou de estourar. É, eu estava mesmo com vontade de vir à praia, pois mesmo com um furúnculo do tamanho de uma bola de gude, na coxa, eu aceitei. Só para morrer. Eu e o furúnculo.

Sinto que estou girando, como um astronauta dentro de uma nave em gravidade zero. Não paro de girar, não consigo apoio, pois a única direção é o fundo. Talvez eu ainda esteja sendo arrastado para longe da costa. Não sei. Estranhamente não estou engolindo água. Tranquei a boca e nada passa. Mas sinto que a água força passagem pelo nariz.

Eu não sei o que fazer, não sei se devo bater os braços. Tenho medo de que isso apenas piore a situação. Então eu apenas continuo girando e girando indo para o fundo. Sinto uma leve dor de cabeça, e nem mesmo sei como isso é possível, já que tenho problemas piores para me preocupar do que uma simples dor de cabeça, como a morte que se aproxima, por exemplo.

Minha vida não passa diante de mim em poucos segundos. Pelo menos eu acho que não. O que vejo são mais flashbacks separados, sem uma ordem clara:

Estou jogando sinuca com meu avô. Jogando com quem aprendi a jogar. O taco espirra e a bola vai para fora da mesa, atingindo o chão de terra. Meu avô apanha a bola, naquela calma que ele nunca perde. Coloca-a no lugar onde ela talvez teria ficado e faz sua jogada em seguida. Ele termina o jogo em 3 tacadas. Bom, ele construiu a mesa, já era de se esperar.

Alguém me dá cerveja em uma festa de aniversário. Acho que tenho uns 8 anos. A próxima cena sou eu vomitando tudo que já tinha comido, junto com a cerveja, bem na porta da casa do aniversariante. Minha cabeça gira, exatamente como agora. Depois que termino, alguém novamente me oferece cerveja. Eu aceito.

Um rodopio na água e salto para a segunda série na Escola São Cosme e São Damião. Estou no banheiro. Mesmo sendo espaçoso, estar completamente vazio me faz pensar que a mulher de branco, também conhecida como a Loira do Banheiro, possa estar estar escondida em algum recôndito. Esse tipo de pensamento atrapalha minha concentração para mijar. Tento não pensar em nada daquilo, convencendo a mim mesmo de que é tudo bobagem. Um ranger de porta faz com que eu resolva voltar depois.

Afundo um pouco mais e viajo novamente no tempo e espaço. Tenho 3 anos de idade e estou na casa de meus avós. Estou andando de velocípede no quintal. Quando viro a parede que dá para trás da casa, uma cobra está passando, como um pedestre atravessando no sinal. Fico olhando sem entender o que é exatamente aquilo. Ela parece não ligar para minha presença ali e muito menos para meu velocípede. Ela está quase indo embora quando um de meus tios enfia um pedaço de pau pontudo no meio de seu corpo e a levanta mantendo distância dele. Sinto uma certa tristeza.

A água continua me engolindo. Estou olhando para meu dedo indicador que tem um prego atravessado nele. Não consigo lembrar como ele foi para aí. Minha mãe corre de um lado para o outro sem saber como tirá-lo. Sem pensar muito eu puxo o prego de uma vez só, para depois cair no choro. Depois do curativo levo umas palmadas. Continuo me perguntando como o prego foi parar ali.

Como foi parar ali? Como fui parar ali? Eu não sei nadar.

Tenho 11 anos de idade e estou pulando de um lado para o outro em um poço que está sendo escavado no quintal da casa vizinha. A corda é de naylon e quando minha mão fica suada, escorrego e caio de costas por três ou quatro metros. Parece pouco, mas para uma queda de costas acaba sendo demais. Quando vejo as ferramentas (picaretas, cavadeiras e outras) dispostas ao redor do buraco, eu sinto calafrios. Por sorte o poço não tem água nenhuma, ou seria azar?

Água? Me levanto de súbito e começo a subir. Me apoiando nos buracos feitos exatamente para isso. Vou subindo, subindo, desesperado, como se de um momento para o outro, o poço fosse ser inundado. Os buracos escavados na terra vermelha são escorregadios e quase caio novamente. Não consigo alcançar a corda. Respiro com dificuldade. Quando estou quase na boca do poço, alguém me agarra e me puxa.

Alguém me agarra e me puxa. Subo de uma só vez de dentro da água. Sou levado para a areia quase arrastado, mas quando tento ver quem me puxou, não há ninguém. O pessoal ainda está lá adiante, prestando atenção aos skatistas. Olho para as águas atrás de mim, parecendo tão pacíficas, e não entendo bem o que aconteceu.

Minha coxa queima com o furúnculo estirpado à força. Meu nariz arde. Há água em meu ouvido e meus olhos estão turvos. Mas isso é porque estou sem meus óculos.

Olho em volta e não vejo ninguém que possa ter me puxado. Também não me preocupo em saber quem foi. Vou andando com dificuldade até a calçada. Me sento. Olho na direção de onde saí da água e não consigo acreditar que estou de volta, vivo.

Levanto, querendo apenas ir para casa. Talvez um dia escreva sobre isso, já que é óbvio que não vou conseguir esquecer o episódio. Só não sei se vou conseguir lembrar de todos os detalhes.

Todos os detalhes...

É aí que percebo que minhas mãos e pés estão sujos de barro vermelho. O mesmo barro do poço onde caí aos 11 anos de idade. Não muito, pois a água parece ter lavado a maior parte. Sinto um frio no estômago estranho, como se estivesse sendo observado.

Pego minha camisa, amarro-a na coxa e me deito na areia. Certas coisas é melhor não pensar demais. O sol já está começando a se pôr. É bom estar vivo, isso que importa.

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