terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

JJ e o Caledonian Circus


JESUSALEM JONES E O CALEDONIAN CIRCUS A Lona Cobre o Bizarro Espetáculo da Vida


Jones, você está ficando velho, pensava consigo mesmo JJ ao relembrar, ali sentado naquela arquibancada, que faziam 35 anos que ele não sabia o que era estar dentro de um circo. Na verdade, há 35 anos atrás ele não entrara. Seu pai, sem a mínima explicação, não o deixara ir. Mas, isso não impediu que Jerusalem fosse aos arredores de onde ele estava montado, apenas para...

O pistoleiro é arrancado de seus pensamentos justamente por aquilo que ele menos queria ver ali, mesmo sabendo que está em um circo: um palhaço. Aliás,no caso ali, um profusão deles. Jones odiava palhaços tanto quanto Rangers ou índios trapaceiros. Estar ali faz com que ele se arrependesse de ter desobedecido seu pai e ido até onde o circo estava.

Passeando pelo terreno onde o Caledonian Circus estava sendo armado, o jovem Jones andava como quem não quer nada, sem entender que mal haveria em ir ao espetáculo daquela noite. Vestido com seu macacão surrado, o menino observava atentamente todo o agito que faziam aquele bando de trabalhadores itinerantes. Pensou com seus botões que eles eram mais livres que qualquer outra pessoa no mundo. Mais livres que ele, preso naquela cidadezinha. Talvez ele fugisse com o circo e fosse viver andando pelo Velho Oeste e, quem sabe, pelo mundo.

Jery (seu pai o chamava assim) andou tanto que não notou que a tarde foi embora e a noite caía. Não notou também que ele era a única pessoa da cidade ali por perto e que ninguém mais parecia poder ultrapassar as imediações e entrar na área onde o circo estava sendo levantado. Mas, porque ele podia? Isso não parecia ter uma resposta lógica. Ele lembrou que durante suas andanças por ali, ninguém parecia nem mesmo tê-lo notado. Mas, Jery também não viu mais nada além de trabalhadores braçais erguento pilastras de madeira e arrumando a lona. Notou que o sol ja havia ido embora totalmente, quando esbarrou em algo felpudo:

- Garoto, como você conseguiu entrar aqui antes do tempo? - um urso enorme, fitava Jerusalem Jones com olhos de fogo e... falava! - Como conseguiu entrar aqui antes do tempo? Diga!

O menino ficou estático. O urso falava! Falava e... agarrava! Quando o enorme animal o agarrou, Jones, sem nem saber como, se desvencilhou e começou a correr o mais que pôde, apenas para trombar com um palhaço.

- O garotinho que chegou antes da hora, hein? Gosta de malabarismo? - Jones, que caíra sentado no chão, não respondeu nada. Apenas ficou olhando quando o palhaço com aquela pintura macabra e sorriso diabólico, começou a tirar de uma sacola algo com que fazer malabarismos. Aquilo o acompanharia o resto da vida. Aquilo e a risada cada vez mais alta do palhaço ao ver Jones correndo, chorando e gritando.

Ele queria chegar em casa, mas parecia nunca conseguir sair de dentro da área do circo, por mais que corresse. Era como se ele estivesse preso, ou como se todo aquele terreno se expandisse. O pequeno Jerusalem sentia as outras criaturas do circo atrás dele, mesmo sem olhar. Ele não queria olhar, não precisava.

Seu coração queria sair pela boca, suas pernas pareciam de concreto. Jones sentia o bafo do capeta, ou seja lá o que fosse, soprar em sua direção. Uma coisa quente e pegajosa, como vapor saindo de cadáveres putrefatos. Aquilo não era um circo. Não era um lugar de diversão, mas de morte. Ou talvez algo muito pior.

Quando enfim, viu que estava distante daquilo tudo, se sentou debaixo de uma árvore para recuperar o fôlego. A noite parecia mais escura e densa que o norma. A lua não aparecia e as estrelas pareciam ter desaparecido do universo. Jones nunca conhecera o medo, como conhecera aquela noite. Ele estava tremendo tanto que mal sentiu quando sua mão tocou em algo de madeira, jogado ao seu lado, e que ele nao percebera antes. Um boneco. Um boneco de ventriloquo. Ele reconhecia, pois já vira daqueles antes.

O boneco parecia tão mal ajambrado. Uma roupa remendada em vários lugares e uma cartola amassada, enterrada na cabeça de pau. Por um instante ele quase esqueceu de tudo. Até que o boneco virou a cabeça e perguntou de modo ameaçador:

- Por que diabos você veio antes da hora, moleque?!

Nem mesmo Jones acreditou em sua reação, mas ele agarrou o boneco pelo pescoço, e este começou a esmurrá-lo com aquelas mãozinhas de madeira, duras, e gritando:

- NÃO QUERÍAMOS VOCÊ AQUI ANTES DA HORA!

As outras criaturas do circo macabro se aproximavam, e o boneco parecia comandá-los, chama-los, recitando algum tipo de feitiçaria, enquanto esmurrava e arranhava o rosto de JJ. O menino já não aguentava mais, pois estava exausto de medo e cansaço. Ele seria engolido por aquelas aberrações. Quando finalmente caiu de costas, o boneco ficou sobre seu peito, e ia desferir o golpe final, quando um estampido de uma espigarda ecoou na noite, transformando a cabeça do boneco em milhares de farpas. O menino fechou os olhos. Quando os abriu, estava em casa, na cama.

Seu pai conversava com sua mãe, na porta e entregava a ela uma espingarda que ele nunca vira antes. Sua mãe levou-a embora.

- De-desculpa, pai.

- Heheheh, nada disso garoto. Eu sabia que você iria para aqueles lados. Assim que eu disse que não podia, já me preparei para o que iria acontecer. Na verdade eu precisava de você por lá. Só você podia entrar lá antes da hora. Não me pergunte como eu sei disso, ou porque eu sei, já que nem eu mesmo faço idéia. Os filhotes de cruz credo foram embora. Talvez para outra cidade, mas aí não é mais problema nosso. Agora dorme, vai. Um dia você vai entender tudo.

- Pai... a espingarda?

- Ah, ela é sua. Te deram de presente, mas cê ainda não pode usar. É muito criança ainda pra essas coisas. Claro que também é muito criança pra ser usado de cobaia, e acho que sua mãe vai fazer greve de "fazer nenen" pelo resto da vida depois do que fiz. Mas, quando você crescer, ela é sua. Talvez acabe precisdando mesmo.

...

Os pallhaços eram todos idênticos uns aos outros e ao palhaço que JJ viu quando criança. Atrás deles, um urso enorme, com olhos de fogo, isso sem falar nas outras aberrações. Mas ninguém no circo parecia se dar conta disso. Se divertiam como se fosse um circo comum. Mas JJ sabia porque apenas ele enxergava.

Quando o apresentador chegou ao centro do picadeiro, começou a anunciar que agora seria cobrada a entrada que não fora cobrada de início. Ele tirou um pano de cima de algo que trazia no braço e revelou um boneco de ventríloquo, com uma cabeça que destoava do corpo. Parecia maior. Quando o boneco abriu a boca, ele não falou. Tudo parou, um vácuo começou a se formar. As pessoas pareciam estar sendo sugadas, mesmo estando ali sentadas.

Jerusalem Jones se levantou, puxou a espingarda de dentro do seu capote,e disse:

- EI, PESSOAL! DESSA VEZ EU CHEGUEI NA HORA!

Uma série de estampidos preencheu a lona do circo, preencheu a noite e foi se dissipando, cada vez mais. Mais e mais.

Uma gargalhada se fazia ouvir acima daquilo tudo. Jerusalem Jones nunca estivera tão feliz em um circo antes. Agora ele entendia.


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