domingo, 4 de janeiro de 2009

O Pelotão Jerusalem Jones


O PELOTÃO JERUSALEM JONES
A Guerra dos Mortos Que Não Tinham Túmulo

O soldado Richard Baker já tinha ouvido muitas histórias acerca do Pelotão Morto-Vivo - os índios os chamavam de Mortos Que Não Tinham Túmulo - mas, obviamente, descartava qualquer possibilidade da existência real do mesmo. Sempre pensou que fosse historinha de soldados que queriam receber baixa por insanidade ou coisa do tipo. Alguns mostravam as marcas de mordidas, mas Rick sabia que em uma guerra valia tudo.

Mas, naquele momento, com as garras daquele morto-vivo em sua garganta, os olhos injetados de vermelho e a boca se abrindo em direção à sua cabeça, ele tinha de admitir que o Pelotão Morto-Vivo era uma dura realidade. Antes que pudesse ser morto, no entanto, o Sargento Selkirk acertara o monstro bem na cabeça. Pena que logo em seguida foi engolido por uns seis mortos-vivos, logo em seguida.

Rick escapou, pegou sua arma e continuou atirando, mirando as cabeças, coisa que só entendeu depois que seu pelotão sofrera várias baixas. Na verdade, naquele momento, Rick achava que só ele estava vivo e não sabia o que seria de sua miserável existência.

Dois anos atrás.

O Doutor incumbira Fletcher de conseguir mais espécimes para o que ele chamava de Excesso de Contingente. Os Estados Unidos estavam em guerra e, um dos lados solicitara ao Doutor uma tarefa no mínimo inusitada: soldados para morrer. A idéia inicial era "recrutar" indigentes e, digamos, motivar-lhes a lutar pelo bem dos EUA. Mesmo que eles não quisessem isso. Fletcher, grande e forte, conseguia isso bem facilmente. Mas foi com aquele cara esquisito, com a cicatriz no pescoço, que as coisas mudaram completamente.

O Doutor ficou fascinado com a cicatriz. Parou de apenas "fabricar" soldados, injetando soluções que deixavam os espécimes coletados por Fletcher sem vontade própria e apenas se resignavam em morrer na linha de frente da batalha, fazendo com que os verdadeiros soldados tivessem tempo de traçar uma ofensiva surpresa.

Mas, quando o homem da cicatriz no pescoço chegou, o Doutor, depois de examiná-la, vislumbrou maiores possibilidades. Fletcher não sabia o que ele tinha descoberto, mas o que quer que fosse, ele adcionara à solução e agora os soldados eram mais violentos e não morriam. Ou pelo menos eram bem mais dificeis de matar. Fletcher descobriu isso da forma mais difícil, quando o Doutor o largou em um quarto fechado, com um revólver e uma daquelas coisas junto com ele. Fletcher ficou sem balas, quase foi morto, e só entendeu o que tinha de fazer quando não tinha mais munição. Então ele enfiou o cano da arma na cabeça do monstro. E ele morreu.


Rick se alistara pensando em viver algumas aventuras para contar aos netos, se sobrevivesse. Se morresse, pelo menos seria como um bom soldado. Naquele momento, no entanto, ele não queria nem viver, nem morrer, só queria acordar daquele pesadelo. Todo um pelotão de mortos-vivos estava em seu encalço e ele não tinha a mínima esperança de sair vivo.

Rick nunca fora religioso, e sua mãe, May Baker já desistira de tentar incutir isso nele. Rick era algo um tanto quanto teimoso para as coisas de Deus. Mas, naquele instante, Rick rezava mais que todos os pastores de sua cidade Trench City. Ele não tinha mais medo da morte, seu medo era de terminar como seus colegas de pelotão. Os mortos-vivos faziam exatamente aquilo que as histórias que ele ouvia e achava que era mentira, contavam: devoravam as pessoas vivas.

Um ano atrás

O Doutor fornecia mais e mais "soldados", apesar da guerra civil não avançar nem um pouco. Flectcher achava que até mesmo, o lado para quem o Doutor estava trabalhando, estava perdendo. O homem da cicatriz que fornecia a matéria-prima, permaneceu todo esse tempo em um sono profundo, induzido pelo Doutor. Na verdade não entendia como ele ainda estava vivo.

Já o trabalho de Fletcher estava cada vez mais difícil, conseguir mais e mais homens para morrer ou, pelo menos, demorar a morrer, até que os soldados descobrissem como eles podiam ser mortos. Fletcher já estava tendo que apelar para índios e chineses. A guerra bem que podia terminar logo para ele e o Doutor voltarem às suas atividades normais.


Rick encontrara uma caverna para se esconder, mas assim que entrou, a idéia mostrou-se uma droga. Mesmo ficando muito quieto lá dentro, Rick começou a pensar se os sentidos daqueles monstros funcionariam como os das pessoas normais. Mesmo na escuridão mais profunda, ele começou a desejar que aquelas coisas não tivessem algo como visão ou olfato aguçados. Esperava que fossem estúpidos como pareciam e não entendessem que ele entrara na caverna.

Rick se lembrou da história que uma vez Jerusalem Jones, bêbado, contara para ele, sobre ter enfrentando uma mulher morta-viva e ter ganhado aquela cicatriz no pescoço, que só não o tranformou completamente em um porque uns amigos índios o salvaram. Rick perguntou "como assim 'completamente'"? Jones deu uma risadinha nervosa e disse que se expressou mal. Porém, Rick sabia de histórias acerca de Jones que ele achava que fossem brincadeiras de mal gosto. Piadinhas sem graça. Afinal, o que não faltava era gente que não gostava do J.J. Mas inventar que ele comia carne humana de tempos em tempos, era bobagem demais. Foi pensando nisso que Rick escutou quando as criaturas encontraram a caverna...

11 horas atrás.

Fletcher estava cansado desses dois anos de caça a vagabundos e de conviver com monstros que ele tinha que levar, dopados, até os campos de guerra. Por várias vezes quase morreu. Fletcher queria uma aposentadoria o mais rápido possível. Talvez tenha sido isso tudo que tenha feito ele acabar esquecendo de dar a dose diária de entorpecente do homem da cicatriz. O Doutor dizia que não queria algo permanente com medo de estragar o espécime e perder sua valiosa fonte. Mas foram apenas uns minutos de esquecimento, o bastante para que ele acordasse.

Fletcher foi sua primeira vítima. O homem estava transtornado e a sua cicatriz pulsava horrivelmente e ele se transformara em algo muito pior que os "soldados" do Doutor. Matou todos os espécimes que havia no pequeno laboratório e depois, vagarosamente se aproximou do Doutor, que tentou ainda se salvar, em vão. Sua cabeça voou pelo laboratório, parando junto a Fletcher, que sangrava, terminando de morrer, devido aos tiros que levara do homem da cicatriz. Não era bem esse tipo de aposentadoria que Fletcher queria.


Rick estava encomendando sua alma, sabendo que aqueles eram seus últimos instantes. Sentiu uma mão agarrar seu uniforme e puxá-lo, mas em seguida largar. Um barulho de luta, ossos quebrando, rugidos, carne sendo dilacerada era ouvido por todos os lados. Tiros, grunhidos, gritos abafados. Silêncio.

Rick ainda ficou por várias horas, encolhido no fundo da caverna, antes de pensar em sair. Quando o fez, já era manhã do dia seguinte e, na entrada da caverna, ninguém mais ninguém menos que Jerusalem Jones, estatelado de costas, nu e com tantos ferimentos que não parecia possível estar vivo. Mas, sua respiração denunciava que sim. Ele abriu os olhos, com muito esforço, piscou algumas vezes, olhou para Rick e disse:

- Esses... esses eram... os últimos. R-Rick... é você, garoto? Diabos, acho que agora... nunca mais... tu vai me chamar de... mentiroso...

E desmaiou.

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