terça-feira, 29 de dezembro de 2009

JJ: Ano Novo


FINALMENTE 1870 CHEGOU, JERUSALEM JONES


"Detesto Ano Novo", pensou consigo mesmo o velho Jerusalem Jones. "Todo fim de ano é a mesma coisa". J. J. não se sentia nem um pouco feliz com a chegada de um novo ano. Pensava apenas em encher a cara de tal forma que só acordasse no dia seguinte, em 1870.

O ano que terminava não foi nada agradável para Jones. Foi mordido por uma morta-viva, e só não morreu porque passou por uma humilhante seção de cura indígena. Por outro lado, agora não sabia mais o que era, com aquela cicatriz no pescoço e...

- Capitão, interferência. Canal ponto .9 bloqueado. Vamos ter de interromper a viagem até a pré-história para buscar mais da matéria compacta existente apenas no período cretáceo e teremos de fazer um pouso de emergência. Mas, um problema maior se faz presente, a Intercorder, ao passar pelo setor T-800 do setor V do quadrante Vendetta, entrou em uma guerra intergaláctica fora de nossa jurisdição espaço-temporal, arrastando uma de suas naves. Cadetes San e Holo, preparem a nave para um pouso forçado na Terra, no território e época do Velho Oeste. Vamos ter de cavalgar se quisermos ficar vivos.
Desde que virou sabe-se lá o que, J. J. se tornara um verdadeiro imã de coisas estranhas. E, até mesmo, passou a entender que isso já fazia parte de sua vida. Ele só não tinha percebido ainda. Parecia que tudo para Jones agora acontecia como nos livretos que lia em suas horas de folga. Daí que ele nem mesmo estranhou quando aquelas duas coisas caíram do céu, a alguma distância. A noite virou dia.

- Alferes Lucas, fomos atingidos por essa maldita nave que não consigo identificar se vem da Tríade Rebelde. Fomos arrastados por seu raio trator sem a menor cerimônia até este mísero planeta desconhecido, onde eu, Dark Saber, fincarei minha bandeira, depois de explodir com esses desgraçados que nos trouxeram até aqui.
J.J. se escondeu entre as pedras e viu que das duas coisas saíram um grupo de pessoas, cada uma parecendo ter um líder. Uma batalha esquisita se seguiu, com luzes brilhantes e coloridas cortando a noite e fazendo os olhos de Jerusalem Jones doer. O barulho era tão alto que ele se perguntava se a cidade mais próxima não escutaria. Estava no deserto, tentando passar o maldito Ano Novo sossegado, mas era pedir demais.

- Tenente Schock, tem alguma informação de quem é esse cara todo de preto que está com essa espada flamejante? (quem usa espada em um guerra interplanetária?) Ele tá acabando com nosso contingente. Temos uma missão de paz, indo onde pessoa alguma jamais esteve antes. Protejam-se!

Um dos fachos de luz chegou até J. J. e explodiu metade da pedra onde ele estava escondido. A briga estava muito feia e ele só queria sair dali, mas tinha medo que um movimento em falso seu o denunciasse e ele acabasse como a pedra onde estava antes. Foi para outra pedra que ainda estava inteira e continuou observando. Esse Ano Novo prometia começar bem.

- Aquele, com aquela camisa azul ridícula parece ser o Capitão deles. Consegui que o poder da Vontade me dissesse quem ele é. Seu nome é Quirch. Jake B. Quirch. Ele pode ser um Vedy perdido que escapou durante as Guerras Copiantes. Matem-no. Matem a todos. Não posso perder tempo aqui. Tenho que voltar e matar meu filho que é o líder da Tríade Rebelde, Jack Heavenrunner. Porque diabos eu estou narrando essas coisas enquanto estamos batalhando, eu não sei.
J.J. sabia que não ia conseguir ficar fora do problema por muito tempo. Era sempre assim. Talvez tivesse que ser assim, morrer na virada do ano. Começar 1870 como um cadáver e entrar para a História como... Ah, a quem ele queria enganar. Ninguém saberia quem foi Jerusalem Jones.

- Alferes Roddenberry, estamos sendo massacrados. Precisamos de ajuda. Tente contatar a Confederação Intergaláctica dos Planetas Unidos e os Não-Tão Unidos, para que enviem reforços. Sei que daqui o sinal pode não chegar a fonte. O espaço-tempo pode interferir e talvez morramos aqui, nada heroicamente. Esse cara de preto é assustador. Ele me lembra meu pai.

Jerusalem Jones viu que os dois lados estavam se matando, mas o do cara de camisa azul estava perdendo e o cara de preto, com uma espécie de balde preto na cabeça é que estava em vantagem. Aquela espada flamejante dele fazia um estrago. Fora que ele levantava a mão e voavam uns três ou quatro pelo ar. Foi vendo que o cara parecia do mal e o outro do bem que Jerusalem Jones pensou com cuidado na situação. Arrumou suas armas no coldre, chamou seu cavalo, pulou na sela e... foi na direção oposta, cavalgando para um Novo Ano. 1870, aí vou eu. Que se dane se é novo ou velho, só quero saber de me dar bem.

- Não sobrou quase ninguém vivo, Capitão Quirch. Espero que se entregue pacificamente para que eu possa quebrar seu pescoço com o poder da Vontade.

- Saber, é seu nome, não é? Dark Saber... cof... cof... Eu... eu acessei informações sobre você e, devido as muitas viagens no tempo que fiz, descobri uma coisa inesperada sobre ... cof... cof... sobre nós dois. Eu sou... eu sou.. eu sou seu pai, Saber.

- NÃAAAOOOOOOOOOOOO!!!

- Tá, eu não sou seu pai, só estava te distraindo para que desse tempo do dispositivo de auto-destruição ser ativado. Vamos morrer juntinhos.


BUMMMMMMMMMMMMM

Jerusalem Jones olhou para trás e só viu duas bolas de fogo se erguerem no meio do deserto numa explosão que chegou a lançar seu calor até onde ele estava. Era meia-noite e aquilo parecia anunciar a chegada do novo ano.

Jones só queria chegar em uma estalagem e descansar como não fazia há muito, muito tempo, em alguma cidade bem distante.



Technorati :

sábado, 5 de dezembro de 2009

Projeto Branca de Neve


PROJETO SECRETO: BRANCA DE NEVE

As luzes da sala do cinema particular do Fuhrer foram apagadas. Um facho de luz se projeta para a grande tela e cores vivas começam a pulular. Adolf volta a ser criança novamente, presenciando a magia de um conto de fadas tomar forma. Apesar de estar quase que sozinho ali, na escuridão - um guarda da SS está a poucas cadeiras atrás dele - Adolf sente como se estivesse na companhia dos deuses. Ele só lamenta que tal gênio - Walt Disney - não seja alemão. Adolf deixa por um instante seus pensamentos de grandeza e se torna quase humano, quando o filme realmente começa. Estamos em 1937.

Enquanto isso, em algum lugar do ano 2009...

Bernstein. Joseph H. Bernstein também está sentado em uma sala escura. Um zumbido irritantemente incessante se faz ouvir, mas isso não parece incomodá-lo. Bernstein tem agora 74 anos e pouca coisa na vida pode incomodá-lo de verdade. Ele já passou por muita coisa, já viveu vidas demais. Já foi prisioneiro de campo de concentração, em seguida órfão, depois filho adotivo de alemães, depois se tornou americano, já foi mendigo e se tornou bilionário. A história de Bernstein daria um livro. Na verdade, deram 3 livros e um não-autorizado ao qual ele processou, e ganhou.

Bernstein sempre foi taxado de recluso, sombrio e antipático. Mesmo suas boas ações não criavam nenhum tipo de carisma nas pessoas para com ele. E, para a dizer a verdade, Bernstein preferia que fosse assim. Ele não queria criar vínculo com ninguém. Não queria se apegar a ninguém. Nunca casou e nunca teve filhos. Os relacionamentos que teve, sempre foram pagos e qualquer uma que tentasse provar que ele possuía algum filho bastardo, ele sabia como provar o contrário. As pesquisas no campo do DNA tiveram a ajuda generosa de Bernstein, já prevendo sua utilidade.

1937. Hitler se move na cadeira e o soldado da SS pensa ter ouvido o Fuhrer chorar, mas descarta essa possibilidade. Não que seja algo impossível, o soldado apenas não vê na tela motivo para isso.

2009 - Bernstein perdeu toda a família - pai, mãe, duas irmãs mais velhas que ele - nos campos de concentração. As pessoas que ele mais admirava no mundo, que ele mais amava. Seu pai dizia que qualquer coisa no mundo era possível, bastava querer e ter força de vontade para transformá-la em realidade. Bernstein aprendeu a ter. Ele aprendeu isso quando escutou os gritos de terror da última pessoa de sua família a morrer na câmara de gás. Não, ele não esteve lá. Ele escutava na sua mente, e as escutou por toda a sua vida dali em diante.

Bernstein não morrer se deu por uma sucessão de enganos e coincidências que o colocou nas mãos de uma família alemã que estava de partida para os Estados Unidos. Sem filhos, e com uma posição política contrária a vigente, o casal preferiu sair do país e, quem sabe, para aliviar a consciência pelo que seu país estava fazendo, salvar alguém no processo.

Por mais estranho que pareça, sua nova família acabou sendo morta nos EUA num acidente de carro. Bernstein estava com eles, e sobreviveu. parecia ser sua sina sobreviver. Ficar vivo por alguma razão.

1937 - O longa metragem na tela segue com Adolph cada vez mais maravilhado e absorto em tudo, como uma criança num parque de diversões. O projetista tenta não se distrair e não errar com os rolos do filme. Ele nunca antes vira uma animação tão longa assim. Os americanos e suas manias de grandeza, pensava ele. O soldado da SS não se mantinha relaxado o suficiente para curtir o que se passava na tela. Ele era um soldado, e precisava agir como tal.

2009 - Bernstein teve problemas com a herança que receberia. Sim seus pais eram ricos, mas Bernstein chegou a viver como mendigo antes que tudo que era seu por direito chegasse às suas mãos. Viveu em abrigos, sem nunca mais ter uma família de verdade. Mas, quando tomou posse de sua herança, Bernstein trabalhou para duplicá-la, triplicá-la, quadruplicá-la. Mas não era no dinheiro que Bernstein pensava. Era na utilidade que este teria para ele. Transformar coisas impossíveis em realidade.

Desde que aprendeu a ler, já nos EUA, Bernstein se interressou por Ciência, fosse ela a da vida real, ou aquela dos filmes de Ficção-Científica. Estudava sobre as implicações da ciência no nosso mundo e em como ela nos afetava. Procurava sempre estar dentro de todas as teorias que apareciam: Fractais, Caos, Curvas, Cordas, Supercordas e etc. E, em quase todos esses estudos, ele inseriu de seu capital. Bernstein tinha suas próprias ideías, mas não poderia divulgar o que pensava. Ririam dele.

Bernstein assistiu ao filme A Máquina do Tempo, do diretor George Pal, baseado no livro de H.G. Wells, e sorriu de um jeito malicioso, como quem diz, se fosse tão simples assim. Ah, se fosse tão simples assim. E foi para casa (na época um barraco que alugava), e dormiu pensando nas infinitas possibilidades. Adormeceu, no entanto, com apenas uma delas na cabeça.

Sentado naquela sala escura, com aquele zumbido incessante, Bernstein entendeu o que seu pai quis dizer sobre tornar qualquer coisa possível. O que fazia a mágica acontecer era o dinheiro, apenas o dinheiro. Afinal, foi por isso que sua família original morreu, para que os alemães pudessem dominar o mundo, e fazer dinheiro. Era simples assim. Tão simples quanto o que Bernstein teria de fazer agora. Tão simples quanto a decisão que ele tomaria agora.

1937 - Branca de Neve canta alegremente com os sete anões e o Fuhrer sorri, como se ele mesmo estivesse ali, não se sabe se querendo ser um dos anões, ou quem sabe, talvez a própria Branca de Neve, alguém maior, dominando menores aos quais nem mesmo conhecia antes. E, no entanto, eles dançam conforme a música. Adolph não entende como o soldado lá atrás consegue ficar tão impassível a tudo isso. Mas, tudo bem, é o trabalho dele.

2009 - Bernstein comprou aquele uniforme há décadas atrás. Foi algo barato para ele. Nem mesmo o vendedor entendeu porque um judeu iria querer um uniforme da SS. E, mesmo um tão rico, já que poderia mandar fazer um. Mas, Bernstein alegou autenticidade histórica, estar pensando em um museu e etc. Ele acreditou.

Mas, o uniforme era uma parte tão ínfima do todo. Os 30 anos para construir uma máquina do tempo, sim, esse foi o verdadeiro desafio. 30 anos aprendendo e aprendendo, para que ele mesmo, com seu próprio conhecimento pudesse sozinho, transformar em realidade, uma fantasia, esta sim, foi a parte complicada. Bernstein talvez tivesse mais conhecimento agora do que a maioria de muitos cientistas juntos. Talvez ele pudesse até salvar a humanidade de si mesma, se ele quisesse. Mas, Bersntein queria outra coisa muito mais comum ao ser humano, e talvez, muito mais inútil, apesar dele não exergar isso: vingança.

Bernstein tentava enxergar nisso um bem para a Humanidade. Livrar o mundo de um carrasco dos infernos, de um câncer que corrompeu a História. Mas, em seu interior, tendo pesquisado tanto sobre as incogruências temporais, ele não sabia se seria realmente um bem, e não queria nem saber, na verdade.

A máquina fora criada para o enviar para um lugar e uma hora específica, onde ele pesquisou o suficiente para saber que o algoz da humanidade estaria lá. Assistindo o desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões. O uniforme de guarda da SS era tudo que precisava. Todas as informações necessárias para que a máquina o colocasse no ponto exato, estavam já embutidas na memória do computador central.

Bernstein fez pequenos testes, coisa de segundos, e os resultados sempre foram variáveis. O teste final seria também o último. A maquina só teria capacidade para tamanho deslocamento temporal, uma única vez, prendendo-o na Alemanha Nazista, novamente. Mesmo que os erros fossem de milissegundos ou milésimos de centímetros, ele poderia acabar fundido a uma parede de algum prédio alemão, ou até mesmo a uma pessoa. Seria a ironia das ironias se ele acabasse fundido a Hitler.

Ele apelidou seu projeto de Branca de Neve. E ele estava pronto. Bersntein se levantou, com seu uniforme impecavelmente vestido e sua Luger funcionando perfeitamente, como fez questão de verificar. Entro na máquina, trancou, respirou fundo e digitou as coordenadas. Deixou as questões morais e temporais de lado e saltou no tempo e espaço. Bernstein deixou o prédio.

1937 - A animação chegava ao fim, e Adolph se sentia triste e feliz ao mesmo tempo. Estava mais que contente consigo mesmo, como se o desenho tivesse lhe dado uma nova perspectiva sobre o que tinha de fazer. Seu príncipe encantado era o Terceiro Reich e ele o levaria a um reinado de mil anos. Foi pensando nisso que viu o soldado da SS atrás dele se levantar e,sacando a arma, gritar:

- FUHRER!

A explosão do tiro ecoou dentro da sala, ensurdecendo a todos. Bernstein fora atingido. Maldito desenho animado longo demais. Bernstein entrou no lugar do soldado projetista e não esperava que o desenho fosse tão longo. Um homem como ele não poderia se ocupar assistindo a essas coisas inúteis e ele não previu que fosse algo tão demorado. Tomar o lugar do soldado que projetaria o filme já foi complicado, mas deixar se deter por questões morais foi pior.

O plano era para que assim que entrasse, ele atirasse no soldado na platéia e depois matasse o Fuhrer cara a cara. deu tudo errrado. A única coisa que ele conseguia fazer agora era sangrar. Seu ombro estava um desastre só. A droga do desenho animado fez com que ele ficasse divagando sobre se o Bem deveria se converter em Mal.

Antes que fosse alvejado novamente, com uma agilidade fora do comum para sua idade, Bernstein acertou o soldado na testa. E este caiu quase derrubando seu amado Fuhrer.

Ninguém percebera, mas Bernstein dispensara todo os soldados que ficariam de guarda na porta, alegando que ele e o outro lá dentro seriam suficientes.

Adolph foi pegar a arma do soldado, mas Bernstein consegui inutilizá-la com um único tiro. Ele agradecia pelas aulas de tiro e por todo treinamento que fez para este dia, o seu dia.

Bernstein, mesmo ferido, forçou o Fuhrer a se sentar e, como um velho vilão de filmes B, contou todo seu plano para o ditador, que o ouviu sem esboçar nenhum tipo de espanto ou mesmo de julgamento da sanidade mental de Bernstein. Na verdade, ele parecia até bem calmo para quem estava prestes morrer. E, depois de dar uma olhada para o ombro sangrando de Bernstein, falou:

- Então... você veio do futuro? A Alemanha perde a guerra em 1945, eu me suicido, e os EUA e a Rússia dividem o que sobrou do mundo, entre si? Mas, você quer me matar agora, em 1937, para que seus pais sejam salvos em 1940? É isso, foi o que o senhor quis dizer? Aliá, meus parabéns, para um velho o senhor tem bons reflexos e atira bem.

Bernstein sabia que o desgraçado estava tentando ganhar tempo e, por alguma razão, ele estava se deixando levar.

- Eu não sou fã de H.G. Wells, acho um escritor medíocre. Portanto, não sei nada disso sobre viagem no tempo, e percebe que não acredito você, não é? Parece apenas que alguns judeus conseguiram se infiltrar em meus domínios com sucesso. Por que inventar toda essa história para me matar é que ainda não entendi. Mas, como já disse, não entendo de viagens no tempo. mas entendo de destino.

- O que diabos quer dizer com isso? - Pergunta Bernstein.

- Escutei toda sua história, e a única coisa que me chamou a atenção nela, foi que o nome de seu pai é o mesmo do soldado morto aí no chão. Obviamente ele não usava esse nome. Eu o conheço por Carl Unger. Ele estar na SS foi um favor a um amigo a quem eu devia muito. Um ariano com sentimentos paternos demais. Ele disse que Carl era um bom soldado, apesar de ser... você sabe. E que ele passaria bem por um ariano. Não posso negar, ele passou no teste. Enganou até você. Eu nem mesmo precisei esperar mais um ano ou dois para enviá-lo para os campos de concentração, como era o previsto.

- Que... que... que tentiva patética de ganhar mais tempo de vida, Adolph. Posso chamá-lo de Adolph, não é? Acho que não estamos muito para formalismos agora. Se eu não o conhecesse por toda a minha vida, poderia até acreditar em tanta asneira.

- Pelas suas teorias de viagem no tempo, você só está ainda na minha frente porque já havia nascido, não é? Quantos anos você tem agora? Dois, três? Porque não vira o corpo e vê o quanto eu estou mentindo. Por que não atira em mim primeiro e depois vê se falo a verdade. A vida é simples Joseph, nós é que a complicamos.

Bernstein esquecera do ombro sangrando, da dor, ele sentia apenas como se estivesse anestesiado, como se a realidade estivesse anestesiada. Ele não acreditava naquele imbecil, mas ainda assim sentia como se o chão fugisse aos seus pés. Talvez fosse apenas o medo de mudar os rumos de toda a História apenas por vingança. Talvez ele quisesse quem sabe, voltar no tempo e desistir de tudo, começar sua própria família e...

Hitler se mexeu e desvirou o corpo do soldado ele mesmo. Quando Bernstein viu o rosto, sentiu uma ânsia de vômito. Parecia ser um efeito da viagem que se manifestava tardiamente. Olhou de novo para o rosto e seus olhos estavam embaçando, ele não via mais com clareza. Não sabia se era ou não seu pai. Na verdade, como ele poderia saber, ele tinha 5 anos quando seu pai morreu, e ele nunca viu fotos dele. Seu pai poderia ser qualquer um, qualquer rosto. Quanta idiotice. Nem todo seu dinheiro foi capaz de recuperar uma foto de família.

Bernstein vomitava e tentava se manter em pé, tentava mirar em Hitler e terminar o que viera fazer. Este, por uma razão muito estranha, não saía de seu lugar, nem tentava se proteger. Talvez ele o achasse apenas um doente mental. O enganou tão facilmente. Meu pai, que cretino. Meu pai nunca seria um soldado SS.

Quando Bernstein atirou a esmo na direção de Hitler, aí ele entendeu que corria perigo, mesmo que ele fosse um maluco qualquer. Correu e se protegeu entre as poltronas da sala de cinema. Bernstein não entendia o que estava acontecendo, mas tinha um teoria. Seu tempo de viagem estava acabando. Planejando uma viagem apenas de ida e que tudo acabaria em algumas horas, não previu que seu corpo não permaneceria naquele espaço tempo para sempre. A máquina lhe dera um relógio interno.

Atirando uma última vez, mesmo sem ver, podia jurar que acertara o Fuhrer. Seu corpo pareceu inflar e depois se retrair e Bernstein foi jogado de volta no futuro numa viagem extremamente dolorosa. Caiu ao lado da máquina e não dentro dela. Caiu e deve ter permanecido ali por várias horas. Quando finalmente levantou. ele sentiu que não havia bala em seu ombro mais, nem sangue, nem nada. Estava ainda de uniforme, como saira dali.

Bernstein levantou, foi até a janela de seu prédio, do qual ele era o único dono e morador. O dia estava claro, e tudo parecia normal. Nada mudara, o mundo ainda estava em seu lugar.

Aproximou de seu computador pessoal, olhou as notícias mundiais e nada estava fora do lugar. Digitou "Hitler" no Google. e sim, nada mudara. Sentiu-se desolado. mas, ao mesmo tempo, feliz, sabe-se lá porque. O mundo é um lugar difícil de se viver, e talvez tenha que permanecer assim. Aprendizado.

Era melhor voltar a sua vida e viver os últimos anos fazendo algo de produtivo. Antes de desligar o computador, só por diversão digitou Carl Unger no Google. Depois de nomes que nada tinham a ver com a Segunda Guerra, a busca deixou uma entrada em destaque:

Carl Unger, também conhecido como, Abraham H. Berstein.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Twitter

DE TWEET EM TWEET VOU PIANDO

O Twitter é um vício que me pegou de cheio até mais que o café. Aliás, às vezes bebo 140 goles de café, juntando assim os dois vícios. E, além de se tornar um vício, o Twitter cria outros vícios, alguns bons, outros ruins e ainda outros desastrosos. Não tão ruim quando Farmvilles de Facebooks, mas ainda assim ruins. Mas, vou falar de um bom que adquiri: escrever bobagens.

Diferente do blog onde tenho que pensar e repensar para fazer um post, no Twitter, uma abobrinha pode ser "plantada" com 140 caracteres. Se ela vai brotar são outros 500. É legal ver que as pessoas respondem ao que você escreve dando RT (retwitando, ou seja, reenviando a mensagem de seus próprios perfis). Obviamente que o ego entra em ação, fazendo com que sua imaginação tente alçar novos vôos.

Claro que isso é algo que muita gente faz no Twiter, desde fakes de pessoas falecidas, como o genial @mussumalive até escritores que já são tarimbados na arte de escrever pequenas frases para se fazer pensar.

Óbvio que todo mundo quer ser engraçado, mas, dane-se, não estou falando de todo mundo. Aqui vou compilar as baboseiras que escrevi em 140 caracteres durante o tempo que estou por lá. Sejam piadinhas toscas ou reflexões pseudo-filosóficas. No mais, se não gostar é só dar unfollow, ops, aqui não funciona assim. Vamos lá:

- O sentido da vida é cada um dar um sentido à sua.

- Eles namoravam na varanda, mas o namorado sempre dava um jeito e dizia: "Na vara anda!"

- O poema é um dilema, mesmo nos que não são poetas, ele nasce, mesmo que seja de uma semente muito pequena.

- Meta na vida ou meta na vida. De qualquer forma que se leia não deixa de ser um objetivo

- "Estou cagando e twittando para o que você pensa", é algo bem mais verdadeiro que o original.

- Quando você pega um livro de poesia tem que ler prosa, frente e verso.

- Uma professora de inglês pronunciava "grit" (great). Então, toda vez que um aluno acertava ela dizia "grit!", e o aluno falava mais alto.

- Se a Geyse Arruda sair na Playboy, poderemos dizer que acabaram-se os tempos de vacas magras.

- Tenho você na mais alta conta, disse o dono da mercearia sobre minha dívida lá.

- Eu achava que plexo solar fosse algum vilão da Marvel.

- No dia mais claro, na noite mais densa, vou descobrir que não tem nada na despensa (nerd com fome)

- Meu destino era a internet. Lá, no sertão do Ceará, eu já nasci na rede.

- "Diga com toda sinceridade..." é só uma expressão formal, não leve ao pé da letra.

- Dinheiro não traz felicidade, manda vir de jatinho.

- Menino dá um Hot Wheels para o professor. Como é o nome do filme? Ao Mestre Com Carrinho.

- A menor distância entre dois pontos é uma bela duma tropeçada.

- Egocêntrico é o cara que esbarra em alguém e diz "tá desculpado".

- As 3 Leis da Robótica Brasileira 1) Eu, Robô 2) Tu, Robô 3) Nós Robamos

- Chupando bala de café. Agora fiquei com vontade de chupar bala de pão com margarina.

- Hannibal Lecter põe o coração naquilo que faz. Não necessariamente o dele.

- Procure mulher com conteúdo, para todas as outras existe Mastercard.

- A mulher do Coisa é que sofre, tem que tirar leite de pedra.

- Adesivo para carro de ateu: "Dirigido por mim e guiado pela lógica".

- O Homem é um animal que tem idéias, pena que algumas sejam de jirico.

- Sorte de hoje: Não acredite em tudo o que lê.

- Ande pela borda da vida sem perder o equilíbrio, se cair, que seja para o lado certo.

- Deus deu ao Homem o livre arbítrio de amá-Lo incondicionalmente.

- Está tão calor que aqui que vou floodar para refrescar um pouco.

- As 3 Regras da Anarquia: 1) Não temos regras 2) Não faça regras 3) Esqueça que leu isto.

- Se podemos exportar Halloween, devíamos importar Cosme e Damião. Candy with card or not card.

- Toda foto que vejo da Lady Gaga ela parece o Ozzy Osbourne com o que sobrou do morcego.

- Algumas pessoas que me lerem podem chegar a pensar que não gosto do Paulo Coelho... e estão certas!

- Eu admito: as mulheres são mais inteligentes e os homens mais mentirosos.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

E Se Deus Fosse...


E SE DEUS FOSSE...

- Se Deus fosse nerd teria criado o mundo em 6 edições e na 7a. o Alan Moore assumiria.

- Se Deus fosse geek teria criado o mundo em 6 fases (ou níveis) e na 7a. haveria easter eggs.

- Se Deus fosse George Lucas ele faria o mundo em 6 episódios e o 7o. na verdade seria o primeiro.

- Se Deus fosse o Capitão Kirk ele faria o mundo em 6 datas estelares e na 7a. ele gritaria Khaaaaaaaaaaan!

- Se Deus fosse político faria o mundo em 6 dias de obra superfaturada e no 7o. sairia ileso na CPI.

- Se Deus fosse usuário do Twitter faria o mundo em 6 dias de 140 caracteres e no 7o. só daria RTs.

- Se Deus fosse o Batman faria o mundo em 3 dias, em 2 dias derrotaria sua galeria de vilões e em mais 1 dia derrotaria o Super-Homem descontrolado, e no 7o. ficaria lamentando a morte dos pais.

- Se Deus fosse baiano passaria 6 dias pensando em fazer o mundo, mas no 7o. desistiria e iria atrás do Trio Elétrico.

- Se Deus fosse carioca, manja, faria o mundo em 6 diashhh, e no 7o. recolheria as balas perdidas.

- Se Deus fosse Quentin Tarantino, faria o mundo em 6 motherfucker filmes e no 7o. seria apenas o roteirista.

- Se Deus fosse o Super-Homem faria o mundo em 6 dias e no 7o. giraria a Terra ao contrário para descansar a semana inteira.

- Se Deus fosse gaúcho, tchê, faria 6 churrascos em 6 dias e no 7o. não tinha isso de descansar não.

- Se Deus fosse técnico de futebol faria o mundo em 6 partidas e a 7a. seria um amistoso.

- Se Deus fosse fosse a Xuxa faria o mundo em xeis dias e no xétimo iria embora levando o seu anjo.

- Se Deus fosse o locutor da Sessão da Tarde aprontaria altas confusões em 6 dias cheios de muita loucura e no 7o. reprisaria.

- Se Deus fosse americano faria os EUA em 6 dias e com que sobrasse faria o resto no 7o.

- Se Deus fosse o MacGyver faria o mundo em 6 dias com um clip e um pedaço de papelão e no 7o. escaparia dele.

- Se Deus fosse cubano faria o mundo em 6 revoluções e na 7a. já teria camisas com sua cara circulando por aí.

- Se Deus fosse burocrata faria o mundo em 6 vias e a 7a. teria de ser autenticada em cartório.

- Se Deus fosse brasileiro faria o mundo em 6 dias, ficaria uma droga, mas no 7o. ele continuaria, pois é brasileiro e não desiste nunca.

- Se Deus fosse o Capitão Nascimento faria o mundo em 6 treinamentos e no 7o. ia subir um morro pra relaxar.

- Se Deus fosse camelô ele faria o mundo em 7 dias pelo preço de 6 e você ainda levaria uma caneta BIC quatro cores de grátis.

- Se Deus fosse o Paulo Coelho faria o mundo em 6 livros muito chatos e no 7o. entraria para Academia Brasileira de Letras.

- Se Deus fosse o Hulk esmagaria o mundo em 6 dias e no 7o. se perguntaria como diabos a calça dele não rasga.

- Se Deus fosse o Sérgio Mallandro faria "glu glu" por 6 dias seguidos e no 7o. "I love you yeah yeah".

- Se Deus fosse o Sílvio Santos faria o mundo em 6 rodadas do Pião da Casa Própria e na 7a. abriria as Portas da Esperança.

- Se Deus fosse as Casas Bahia faria o mundo em 6 vezes sem juros e a 7a. prestação você só pagaria em janeiro.

- Se Deus fosse Chuck Norr... hã, oi, errr... como vai seu Norris. Eu sei, eu sei, não tem isso de SE. Não, não vou esquecer.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Além da Linha Vermelha


ALÉM DA LINHA VERMELHA
Viajando Através do Consciente Coletivo



O céu parecia ter saído de uma pintura de Salvador Dali. Mesmo tendo pedalado por horas a fio, eu ainda conseguia apreciar aquilo tudo, apesar do extremo cansaço.

Resolvi parar um pouco e me sentar perto da placa de Proibido Estacionar. Na verdade, após notá-la, é que vi que ela estava num lugar que - creio eu - ninguém faria muita questão de estacionar. Era quase um deserto. Se não fosse pelas belas cores do pôr do sol, o lugar seria bem sinistro. Ainda bem que, com algumas pedaladas, eu logo estaria longe dali, antes que escurecesse por completo.

Encostei a bicicleta na placa e me sentei. Abri a mochila e retirei um sanduíche. Quando eu ia começar a comer, senti alguém me cutucando o ombro com alguma coisa. Olhei para trás e não pude acreditar no que via. Uma policial, com um uniforme similar a dos policiais americanos, de quepe e óculos escuros, estava na minha frente:

- Não sabe ler placas, garoto? O X cobrindo o E grandão quer dizer Proibido Estacionar!

Por um instante fiquei confuso - afinal ela estava falando em português - depois só consegui pensar em uma coisa: isso é uma pegadinha, olha o uniforme dela. Quando eu ia tentar dizer alguma coisa, ela piscou duas vezes e sumiu. Não, não foi piscar com os olhos. Ela inteira piscou duas vezes, como uma imagem de TV tentando se manter fixa, depois sumiu.

Naquele ponto eu já havia esquecido meu sanduíche que, com o susto, residia agora no chão. Pensei um pouco mais na situação e cheguei a conclusão de que devia ter sido uma alucinação. Eu demorei demais pra comer. E agora estava com mais fome. Mas, por incrível que pareça, sem vontade de comer, devido àquilo tudo girando na minha cabeça.

Olhei em volta, e pude sentir o ar esfriando, com a chegada do anoitecer. Sem querer mais entender o que se passava, resolvi pegar minha bicicleta e cair fora dali. Quando fiz isso, notei que, para onde eu pretendia ir, logo depois da placa de Proibido Estacionar, havia uma linha de trem. Podia jurar que aquilo não estava ali antes. Porém, eu não estava em condições de jurar nada.

Montei na bicicleta e já ia embora quando escutei o barulho e senti o chão tremer com a aproximação de um trem... quer dizer, uma locomotiva, ou seja lá como se chamam esses trens antigos. Ele passou bem ali, na minha frente, e pude ver que reluzia como novo. Pessoas dentro dele estavam vestidas como se estivessem num filme de época.

Depois que o trem passou, um cheiro bom ficou no ar, e a ferrovia simplesmente sumiu junto.

Eu só sabia que não estava em um sonho porque não lembro de ter sentido cheiro em sonho antes. Acho que não é possível. Também li em algum lugar que não é possível ler em sonhos, e o que estava diante de mim agora, fazia eu ter certeza de que não estava em um sonho mesmo, por mais que parecesse. Onde antes estavam os trilhos de trem, se estendia agora uma praia - que, para piorar, molhou meus pés com uma água gelada e bem real - e um barco navegava um pouco adiante, com um nome pintado ao lado, Heloísa.

Eu não sabia se era um barco antigo ou não. Não sou um grande conhecedor de náutica. Ele tinha velas e tudo mais e era de tamanho médio, acho eu. Algumas pessoas que estavam nele me viram na "praia" e acenaram. Acenei, aturdido, de volta. A água continuava a bater nas minhas pernas, mas eu não me importava mais. Era tudo surreal demais. Uma viagem de ácido... sem ácido. Eu não sabia se estava com medo ou fascinado. Talvez as duas coisas.

Sem que eu notasse, uma onda maior me atingiu, e só fui perceber o desastre quando era tarde demais. Quando parei de observar o barco indo embora foi que vi: a bicicleta havia sumido. Provavelmente levada pelas ondas. Mas, era impossível! Se aquilo tudo era algum tipo de visão...

Minhas pernas molhadas me contradiziam. Tirei minha mochila e corri para dentro d'água, na esperança de encontrar a bicicleta. Mas, ao fazer isso, senti a água escorrendo, indo embora, fugindo de mim, assim como o barco sumindo na noite e no tempo. Por mais estranho que possa parecer, minhas pernas continuaram molhadas e um pouco da minha roupa. E minha bicicleta perdida.

Eu jogara a mochila pra longe da água, pra poder correr em busca da bicicleta, e agora não a encontrava também. Eu estava ficando desolado e com um pouco de medo.

Procurei ao redor, mas não precisei ir muito longe. Um homem numa roupa de soldado romano, havia cravado uma lança na mochila e a carragava como um bicho morto. Quando me viu não expressou muita surpresa, como se já estivesse acostumado a coisas estranhas por toda sua vida.

Ele me apontou a lança com a mochila na ponta e fez um gesto para que eu a pegasse, e eu peguei. Ainda sem falar, apontou para o lugar onde a placa estava, e fez um sinal estranho com os dedos. Parecia um gesto de bifurcação. Por um instante a placa pareceu se transformar em outra coisa, uma espécie de estandarte romano, depois voltou a ser placa de novo.

Ele apontou para o chão e havia uma linha pintada em vermelho sobre a terra, quase imperceptível. Ele fez o sinal de bifurcação de novo e outro como quem diz, saia daí e vá embora. Pelo menos foi o que eu entendi. Ele parecia um mímico maluco. Parecia também já ter feito aquilo antes.

Eu estava tão fascinado com aquele cara de roupa de soldado romano, no meio da noite, ali, que me esquecia de fazer o que ele estava mandando. Mas, pude reparar que eu e ele estávamos em lados opostos da linha vermelha. Notei isso quando vi que ele decidiu ultrapassar a linha para o meu lado, colocando apenas um pé, me agarrando pela camisa e me puxando para fora (ou seria para dentro?) da linha vermelha.

Foi um puixão tão forte que caí do outro lado. Quando me levantei, não havia mais soldado, não estava mais noite. Era novamente o por do sol de quando cheguei ali. E... não havia mais placa de Proibido Estacionar. Apenas o céu alaranjado. A linha vermelha ainda estava lá, e pude ver que ela foi refeita algumas vezes.

Uma parte de mim queria ultrapassar novamente a linha e ver o que mais poderia acontecer. Mas, outra parte me dizia que talvez eu não encontrasse outro soldado tão "paciente". Também havia o fato de que minha bicicleta ficou no mar do barco Heloísa, seja lá onde era aquilo. Mas eu não podia voltar para buscá-la.

Joguei a mochila fora. Afinal de contas estava tudo inutlizado por um furo de uma lança nada pequena, inclusive a própria mochila. Muito tempo depois me arrependi disso, pois teria sido uma boa lembrança e pelo menos uma "prova" concreta para mostrar, se eu decidisse contar essa história.

Resolvi ir embora, a pé mesmo, até encontrar um lugar onde pudesse pegar um ônibus e continuar minha viagem, depois de sacar algum dinheiro. Olhei para trás e o céu ainda continuava parecendo uma pintura de Salvador Dali, agora sem a bendita placa de Proibido Estacionar.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Apenas um Suspiro


AINDA QUE SEJA APENAS UM SUSPIRO Mantenha a Cabeça Sempre Fora D'água

"Vou morrer na Praia do Flamengo."
É a primeira coisa que penso, quando noto que estou afundando. Uma onda mais forte me puxou para a parte mais funda e eu não sei nadar. Nunca aprendi. Uma profusão de bolhas me envolve, deixando tudo mais brilhante à minha volta. Fecho os olhos. Estranhamente não estou com medo, apenas sem direção. Embaixo é em cima e vice versa.

Ninguém me viu entrar na água, então não sabem que estou aqui embaixo, afundando. Vir hoje para a praia parecia uma boa idéia, então eu, Luciano, Ivan, Rogério e o irmão do Ivan, resolvemos encarar os dois ônibus e vir para cá.

A Rádio Cidade FM está dando um show muito do mixuruca, com algumas bandas que nunca ouvi falar. Uma rampa de skate foi armada e alguns skatistas estão tentando mostrar o que sabem. O Luciano trouxe a máquina fotográfica (aquele que parece mais uma caixa de sapatos em pé), e isso distrai todo mundo que estava comigo. Continuo afundando e ninguém sabe disso.

Quase posso escutar o som da música ainda, ou talvez seja apenas eu começando a perder a consciência. No meio disso tudo sinto uma dor lancinante na coxa: meu furúnculo acabou de estourar. É, eu estava mesmo com vontade de vir à praia, pois mesmo com um furúnculo do tamanho de uma bola de gude, na coxa, eu aceitei. Só para morrer. Eu e o furúnculo.

Sinto que estou girando, como um astronauta dentro de uma nave em gravidade zero. Não paro de girar, não consigo apoio, pois a única direção é o fundo. Talvez eu ainda esteja sendo arrastado para longe da costa. Não sei. Estranhamente não estou engolindo água. Tranquei a boca e nada passa. Mas sinto que a água força passagem pelo nariz.

Eu não sei o que fazer, não sei se devo bater os braços. Tenho medo de que isso apenas piore a situação. Então eu apenas continuo girando e girando indo para o fundo. Sinto uma leve dor de cabeça, e nem mesmo sei como isso é possível, já que tenho problemas piores para me preocupar do que uma simples dor de cabeça, como a morte que se aproxima, por exemplo.

Minha vida não passa diante de mim em poucos segundos. Pelo menos eu acho que não. O que vejo são mais flashbacks separados, sem uma ordem clara:

Estou jogando sinuca com meu avô. Jogando com quem aprendi a jogar. O taco espirra e a bola vai para fora da mesa, atingindo o chão de terra. Meu avô apanha a bola, naquela calma que ele nunca perde. Coloca-a no lugar onde ela talvez teria ficado e faz sua jogada em seguida. Ele termina o jogo em 3 tacadas. Bom, ele construiu a mesa, já era de se esperar.

Alguém me dá cerveja em uma festa de aniversário. Acho que tenho uns 8 anos. A próxima cena sou eu vomitando tudo que já tinha comido, junto com a cerveja, bem na porta da casa do aniversariante. Minha cabeça gira, exatamente como agora. Depois que termino, alguém novamente me oferece cerveja. Eu aceito.

Um rodopio na água e salto para a segunda série na Escola São Cosme e São Damião. Estou no banheiro. Mesmo sendo espaçoso, estar completamente vazio me faz pensar que a mulher de branco, também conhecida como a Loira do Banheiro, possa estar estar escondida em algum recôndito. Esse tipo de pensamento atrapalha minha concentração para mijar. Tento não pensar em nada daquilo, convencendo a mim mesmo de que é tudo bobagem. Um ranger de porta faz com que eu resolva voltar depois.

Afundo um pouco mais e viajo novamente no tempo e espaço. Tenho 3 anos de idade e estou na casa de meus avós. Estou andando de velocípede no quintal. Quando viro a parede que dá para trás da casa, uma cobra está passando, como um pedestre atravessando no sinal. Fico olhando sem entender o que é exatamente aquilo. Ela parece não ligar para minha presença ali e muito menos para meu velocípede. Ela está quase indo embora quando um de meus tios enfia um pedaço de pau pontudo no meio de seu corpo e a levanta mantendo distância dele. Sinto uma certa tristeza.

A água continua me engolindo. Estou olhando para meu dedo indicador que tem um prego atravessado nele. Não consigo lembrar como ele foi para aí. Minha mãe corre de um lado para o outro sem saber como tirá-lo. Sem pensar muito eu puxo o prego de uma vez só, para depois cair no choro. Depois do curativo levo umas palmadas. Continuo me perguntando como o prego foi parar ali.

Como foi parar ali? Como fui parar ali? Eu não sei nadar.

Tenho 11 anos de idade e estou pulando de um lado para o outro em um poço que está sendo escavado no quintal da casa vizinha. A corda é de naylon e quando minha mão fica suada, escorrego e caio de costas por três ou quatro metros. Parece pouco, mas para uma queda de costas acaba sendo demais. Quando vejo as ferramentas (picaretas, cavadeiras e outras) dispostas ao redor do buraco, eu sinto calafrios. Por sorte o poço não tem água nenhuma, ou seria azar?

Água? Me levanto de súbito e começo a subir. Me apoiando nos buracos feitos exatamente para isso. Vou subindo, subindo, desesperado, como se de um momento para o outro, o poço fosse ser inundado. Os buracos escavados na terra vermelha são escorregadios e quase caio novamente. Não consigo alcançar a corda. Respiro com dificuldade. Quando estou quase na boca do poço, alguém me agarra e me puxa.

Alguém me agarra e me puxa. Subo de uma só vez de dentro da água. Sou levado para a areia quase arrastado, mas quando tento ver quem me puxou, não há ninguém. O pessoal ainda está lá adiante, prestando atenção aos skatistas. Olho para as águas atrás de mim, parecendo tão pacíficas, e não entendo bem o que aconteceu.

Minha coxa queima com o furúnculo estirpado à força. Meu nariz arde. Há água em meu ouvido e meus olhos estão turvos. Mas isso é porque estou sem meus óculos.

Olho em volta e não vejo ninguém que possa ter me puxado. Também não me preocupo em saber quem foi. Vou andando com dificuldade até a calçada. Me sento. Olho na direção de onde saí da água e não consigo acreditar que estou de volta, vivo.

Levanto, querendo apenas ir para casa. Talvez um dia escreva sobre isso, já que é óbvio que não vou conseguir esquecer o episódio. Só não sei se vou conseguir lembrar de todos os detalhes.

Todos os detalhes...

É aí que percebo que minhas mãos e pés estão sujos de barro vermelho. O mesmo barro do poço onde caí aos 11 anos de idade. Não muito, pois a água parece ter lavado a maior parte. Sinto um frio no estômago estranho, como se estivesse sendo observado.

Pego minha camisa, amarro-a na coxa e me deito na areia. Certas coisas é melhor não pensar demais. O sol já está começando a se pôr. É bom estar vivo, isso que importa.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Dias Melhores Chegaram


DIAS MELHORES CHEGARAM Talvez Nem Tudo Esteja Realmente Perdido

- Alô, mãe? Só liguei pra dizer que estou jantando! É, isso mesmo. Tô comendo normalmente.

Bom, a primeira vista essa pode ser uma ligação bem estranha. O cara é tão filhinho da mamãe que tem que ligar pra dizer o que está fazendo? Só falta ligar do banheiro pra dizer que está... bom, deixa pra lá. Não é nada disso. Era uma ligação realmente especial, afinal de contas, se passaram 12 anos até chegar esse dia. Até então eu não me alimentava normalmente devido a uma Síndrome do Pânico conjugada a uma eplepsia. Diferente da maioria das pessoas com problemas com pânico, que adquirem agorafobia (medo de sair de casa, lugares públicos e etc), eu adquiri uma fobia desconhecida (pelo menos por mim) referente a me alimentar. Não conseguia mais terminar uma refeição formal sem ter uma crise. O que me levou a evitar almoço e jantar como usualmente os conhecemos.

Claro que não liguei assim que consegui comer a primeira vez. Me certifiquei de que não estava mesmo tendo nenhuma crise, aí então, liguei. Ela mais que ninguém merecia saber, pois a maior parte dos 12 anos, ela quem teve que segurar a barra de me... segurar, para que eu não me machucasse.

A demora toda para se encontrar um tratamento que parasse as crises se deu ao fato de que nenhum médico decente conseguia ver que eram dois problemas diferentes, mas associados, digamos assim, uma Parceria do Mal: Síndrome do Pânico e Epilepsia.

Parecia difícil para eles conceber as duas coisas juntas, assim sendo, eu era jogado de um lado para outro como um boneco de pano. Ia para médicos psiquiatras que me jogavam para médicos neurologistas e vice-versa. Seria até engraçado, se não fosse trágico e longe!!!

Uma psiquiatra até mesmo chegou a dizer que a Síndrome do Pânico não existia, e que era uma coisa que estava apenas na minha cabeça. Esperei ela dar uma risada e dizer: "PEGADINHA DO MALANDRO", mas isso não veio. Ela estava falando sério. Não preciso dizer que não voltei mais. Mas digo assim mesmo, não voltei mais.

O problema todo era que eu simplesmente dizia TODOS os sintomas e eles, em conjunto, faziam parecer mais que eu tinha apenas uma epilepsia um tanto quanto diferente das outras. Assim, geralmente, me tratavam apenas como epleptico, o que não resolvia em nada o problema, já que o carro-chefe da coisa era o Pânico. Numa explicação bem simples, o Pânico ativava a Epilepsia. Não vice-versa. Mas, depois de 12 anos, cheguei a uma conclusão, eu precisava mentir ou omitir que tinha epilepsia para ser tratado com tendo apenas Pânico. Não preciso dizer que eu não sabia se isso daria certo. Mas, digo assim mesmo, eu não sa... ah, vocês entenderam.

Antes de chegar lá, no entanto, vale deixar uma coisa bem clara: todos esses anos que tive crises, muitas delas fora de casa - eu saía, e até mesmo viajava, mesmo elas acontecendo lá fora - as pessoas nunca me trataram diferente. A epilepsia era bem evidente durante as crises, e nunca me senti menosprezado ou vítima de preconceito por causa disso. Quando vejo em matérias sobre o assunto, pessoas que são vítimas de algum tipo de preconceito por causa disso, penso que, ou tive sorte, ou lidava com pessoas ótimas.

A reação da maioria das pessoas que presenciavam alguma crise minha era ajudar, em primeiro lugar. Outras ficavam confusas e se sentindo incapazes por não saber o que fazer corretamente. Muitas vezes pude perceber isso nos olhos das pessoas, pouco antes de apagar completamente. Certa vez o pai de um amigo meu, tentava me levar a um posto de saúde e pude ver que ele chorava, talvez por achar que eu estivesse sofrendo, como parecia estar. Não podia explicar pra ele que aquilo terminaria em poucos segundos e tudo ficaria bem dali a alguns minutos. Minha voz não saía.

Uma outra vez, assistindo, sozinho, o filme Godzilla, no Cinema Santa Rosa, em Duque de Caxias, uma crise se iniciou - sim, também havia raras crises não relacionadas à ação das refeições. Eu levantei e tentei chegar até a saída, mas apaguei antes. Quando voltei a mim, tinha um corte na cabeça e várias - muitas mesmo - pessoas olhando para mim. Todas elas tentando ajudar de alguma forma. Tive de mentir dizendo que estava bem, para poder ir para casa, pois elas não queriam deixar. O gerente do cinema me garantiu que eu poderia voltar para assistir o filme inteiro novamente. Mas, era Godzilla de Rolland Emerich e, vocês sabem, né, não voltei!

Vale dizer também que menti porque eu acreditava mesmo que estava bem, mesmo não estando. Voltar de uma crise era ainda pior do que ela em si. Eu me sentia num sonho, um sonho bem ruim, onde eu não distinguia bem pessoas e coisas. Às vezes estava em casa e via minha mãe, ou irmãos, e um misto de coerência e incoerência se fazia presente. Eu parecia estar transitando entre dois mundos e não estava em nenhum deles. Essa sensação durava algumas horas. E foi assim que fui do cinema para casa, entrando sem nem saber como, no ônibus certo.

Ainda sobre as pessoas e como elas no fundo são boas, em primeira instância, lembro de ter uma crise quando ia pra minha casa (quando morava ainda com minha mãe) bem no meio de uma ladeira completamente deserta, à noite. Eu apaguei e com certeza caí. Quando voltei a mim, estava em casa. Uma moça e seu pai me levaram. Como eu consegui dizer a eles onde eu morava não faço a mínima idéia.

As reações das pessoas sempre me deixavam feliz de ver que nem tudo estava perdido. Nunca tive crises (no meio da rua) onde moro agora e talvez as reações fossem diferentes, não sei. Mas onde eu morava e onde eu estivesse com pessoas que eu conhecia, a primeira reação era sempre querer ajudar. Umas começavam a orar ajoelhadas ao meu lado, depois de me colocarem em uma cama, outras tentavam me acalmar de qualquer forma.

Talvez o que ajudasse é que nunca me acanhei em dizer o que eu tinha e como ficava durante as crises, e explicar o que eu achava que podia ser. Elas entendiam. Mas com os médicos a história era diferente. A maioria prescrevia logo algum remédio tarja preta e lá ia eu embarcar em novas e nada maravilhosas viagens alucinantes. Mas, estou exagerando. Fora as crises de sono, nunca tive reações tão adversas assim aos remédios, a menos que não tomasse uma dose dupla, por engano.

Isso aconteceu umas duas ou três vezes. Era como estar bêbado, mas sem ter ingerido nenhum álcool. Uma sensação de calma se apoderava de mim, mas eu sabia que não podia ficar daquele jeito. A tonteira era um sinal claro que de eu esquecera e tomara uma dose a mais. Por duas vezes procurei ajuda para aquilo em postos de saúde e acho que me deram comprimidos de farinha - os famosos placebos - que, pelo menos funcionavam. Eu sempre fui bastante sugestionável.

Tomei tantos remédios diferentes em 12 anos que não sei como ainda estou com as faculdades mentais intac... AAAAHHH... SAI DAQUI MACACO VOADOR!!! Ahn... como eu ia dizendo...

Por fim, cheguei ao capítulo em que eu decidi mentir para os médicos numa sessão de triagem de um hospital para tratamento de Síndrome do Pânico da UFRJ. Já havia estado lá uns anos antes e havia sido despachado para o hospital neurológico. Acabei desistindo. Mas, depois de um tempo, resolvi voltar e, como já disse, mentir, omitir, fazer o que todo bom político sabe fazer para conseguir o que quer.

Eu omiti todos sintomas da epilepsia para que apenas o pânico fosse tratado. O plano funcionou. Em tudo. Enfim me deram remédio para o carro-chefe, para aquele que só existia em minha cabeça. Chama-se Impramina. Depois que eu já estava estabelecido no tratamento, contei o meu "plano maquiavélico" para a médica, que se espantou de saber que eu tinha as duas coisas, mas continuou o tratamento, agora com Tegretol como sobremesa. E, depois de algumas semanas, eu pude ligar para minha mãe e dizer a frase que abre o texto.

E, nossa, só levou 12 anos para eu entender que era preciso mentir, omitir e ser desacarado. Eu sou ou não sou um gênio?

Mas, ainda fico na dúvida se foi apenas o tratamento que fez tudo melhorar. Ainda tenho uns surtos de ansiedade, mas sei lá, eu sou ansioso desde que nasci. Falo movendo as mãos, andando, e estalando os ossos do pé. Não sei falar devagar. Se estou sentado escrevendo, como agora, as pernas estão balançando, se mexendo, ou fazendo qualquer coisa. Se estou vendo TV, fico enrolando a ponta do cabelo quase até arrancar. Nervoso por natureza. Mas, agora, almoçando, jantando e fazendo lanches a meia-noite.

Mas me desviei. Penso se foi apenas o tratamento ou se O Rapadura Açucarada foi uma grande terapia para mim, já que aconteceu de tudo melhorar, as crises cessarem e tudo voltar ao normal, depois que eu comecei a fazer o blog, os scans e tudo o mais. Terapia por meio da pirataria. Isso daria um bom livro.

No mais, digo a quem ainda sofre com isso que não ligue para preconceitos, se importe apenas com quem se importa com você, as outras pessoas não entendem o que não conhecem, e a primeira atitude é a discriminação. Bom, aja como se não fosse com você.

Se tudo mais não funcionar, abra um blog com nome esquisito. Agora deixa eu telefonar pra minha mãe avisando que já fiz meu dever de casa!

domingo, 12 de abril de 2009

O Pequeno Lagarto


O PEQUENO LAGARTO DESLIZA NA AREIAPor Onde Você Andou Todo Este Tempo?

Quando saio da casa do Marcelo vejo que está chovendo. Já escureceu. A chuva é fina e constante. Terei de ir debaixo dela mesmo. Saio da pequena varanda, sozinho. Desço os dois pequenos degraus e ando no chão liso. Uma espécie de limo parece cobri-lo. Isso molhado pode ser muito perigoso, penso eu. Mas não penso por muito tempo. Quando dou o segundo passo, escorrego. Tão repentinamente que não consigo, de forma alguma me equilibrar. Eu caio para trás e bato com a cabeça no concreto. Fico deitado, sentindo a dor. Uma dor uniforme que recobre toda a parte de trás da cabeça. A chuva caindo. Ninguém lá dentro ouviu.

Me levanto, e apalpo minha cabeça, imaginando se eu não teria na verdade rachado o meu crânio. Estou um pouco tonto e não sei por quanto tempo fiquei deitado no chão. Olho para trás e a porta ainda está fechada. Ninguém notou nada. Olho para baixo e vejo que passei a poucos centímetros dos dois degraus de concreto. Eu poderia ter morrido.

Você morreu. O pequeno lagarto desliza na areia.

Isso aconteceu há muitos anos. Há mais ou menos uns 10 anos. Mas me lembro ainda hoje, como se estivesse lá. A chuva, o chão com o limo, o escorregão e a batida violenta contra o concreto. A falta de algum lugar pra me apoiar fez a queda ser rápida e dura. Eu poderia ter morrido.

Você morreu. Você morreu lá. Sente o lagarto deslizando na areia? Então. É a verdade tentando adentrar seu pequeno cérebro que não consegue enxergar as verdades latentes. Como um lagarto lutando para andar na areia quente.

Sinto a parte de trás de minha cabeça doer, como se ao escrever sobre isso fizesse reabrir uma ferida. Ferida essa que não houve. Não precisei ir a hospital. Não sofri nenhum dano. Não contei a ninguém quando cheguei em casa. Nem mesmo uma dor de cabeça eu senti.

Era porquê você já não estava mais no mundo dos vivos. Entenda, a partir dali, seu mundo era - como se diz hoje na era da informática - virtual. Ou, se preferir uma linguagem mais literária, um realidade paralela. Mas talvez se pergunte, por que esta realidade não é melhor já que está morto. Bom, por que na verdade ela se baseia em conhecimento prévio de como seu mundo era. Memórias acumuladas e rearranjadas. A morte é diferente para cada pessoa. A sua gerou isso, e devido a isso estou aqui tentando te fazer entender. Se não fosse assim, eu nem existiria. Ops, na verdade eu não existo.

A pancada apesar de ter sido forte e não ter me causado nenhum problema, não me deu nenhum superpoder, como seria de se esperar de algo tão traumaticamente violento que não causou nenhuma sequela. Ainda penso nos dias de hoje se estou vivo de verdade, ou se vivo apenas uma realidade virtual ou coisa assim. Ou talvez apenas tenho sorte de ter uma cabeça muito dura.

Até poderia ser, camarada, se você não tivesse acertado o degrau de concreto na queda. Não foi nada bonito de se ver. Mas você não está me ouvindo. Você VIVE sim uma realidade virtual. Tudo que vivenciou até agora são apenas construções de uma imaginação bem fértil. Se bem que elas não emanam de seu cérebro já que você não tem mais um. Alguém mais religioso diria que elas são produzidas por seu espírito, alma, ou seja lá o que for, mas não é bem assim. Mas, mesmo sabendo que não é isso, eu não sei a resposta. O que seria a vida sem mistérios? Mesmo uma vida artificial.

Depois de todos esses anos fico pensando se a pancada nao me afetou de algum modo. Depois dela, não demorou muito e eu saí das Testemunhas de Jeová, coisa que pensei nunca seria possível de acontecer. Eu já estava há tanto tempo lá que não parecia poder viver sem o que eu tinha ali. Mas, ao sair, pude ver as coisas por outro ângulo. Pude enxergar as coisas estando do lado de fora, e assim, ter certeza de que não queria mais ninguém tomando decisões por mim.

Entendo, isso faz parte de certas decisões que sua nova realidade se permitiu tomar. Talvez você pense porque então você não é um milionário cercado de supermodelos, já que este deveria ser o seu "céu" particular. Mas, não é bem assim, não é você quem toma todas as decisões. E não, também não é algum Deus. As coisas apenas... acontecem. Não sei se posso dizer aleatoriamente. Acho uma palavra forte demais aqui. Pena que estou falando sozinho, não é?

Meu desligamento fez com que minha vida tomasse outro rumo. Totalmente diferente do que ele teve nos sete anos que lá passei. O desligamento também me fez perder meus amigos, já que as "leis" da religião não permitem contato com pessoas que se retiram, sendo o Marcelo uma dessas pessoas. Isso fez com que eu não fosse mais à sua casa, e não visse mais o lugar onde tive a Grande Pancada. Apenas a guardo na memória. Na... cabeça. Isso é quase irônico.

Cara, posso dizer que sua força de vontade é até grande, para um cara morto. Por exemplo, isso de ter se tornado uma espécie de semi-quase-celebridade, por causa de um blog criado por você, tendo até mesmo pessoas te reconhecendo na rua, bom, dou minha cara (se eu tivesse uma) a tapa, isso é sua necessidade de atenção interferindo no grande plano do sei-lá-o-quê. Mas, tudo bem, não fique irritado, todo mundo gosta de atenção. Até eu, pena que você não dá, né?

Pensei que minha vida não fosse mais ter o tanto de movimento que eu tinha quando participava do culto. Afinal fiz amigos em uns 3 ou 4 Estados. Mas, acabei me casando e, como uma espécie de terapia de ocupação para tentar me esquecer do meu Transtorno do Pânico, criei um blog que acabou se tornando maior do que eu. Apesar de não planejado, a coisa toda serviu para que o passado ficasse apenas no passado. Quem sabe apenas precisemos levar umas pancadas de vez em quando para acordar.

Acordar! Pfff. Piadista você. Não entendeu nada ainda. Pra você ter uma idéia, até você levantar e vir aqui escrever esse monte de bobagens (com exceção das minhas falas), até mesmo isso, foi planejado. Ou não. Na verdade, acho que não era para você saber dessas coisas. pelo menos não ainda. Estou confuso agora. Bom, o importante é, essa sua vida, é só um sonho, cara. Não é real.

Eu não me importo. Esse papo todo não faz sentido pra mim. Estou vivo, isso que importa.

Hã, você estava me ouvindo?

Mais ou menos. Mas, me diz, se tudo que você disse é verdade, então quando eu estava vivo, aquilo era a a verdadeira realidade?

Hmmmm. Na verdade, não. Você era uma parte do sonho de outra pessoa.
De quem?

Do Elvis.

Mas ele não...

Pegadinha! Sou só sua Insônia falando, cara. Eu estava sem nada pra fazer, então...

Eu sei, Insônia é foda. Vamos, vamos tentar dormir.

Certo, vamos. Mas eu fico com o travesseiro mais fofo.

Elvis, hein?

Você quase acreditou, fala a verdade.
Ah, vai dormir.

.........

sexta-feira, 27 de março de 2009

Amigos, Amigos


AMIGOS, AMIGOS, MALUQUICE FAZ PARTE
Afinal de Contas o Mundo é um Hospício


Era um dia de sol ameno, talvez um domingo, quando resolvi ir até a casa do Adriano. Subi até o pequeno apartamento, bati à porta e quem a abriu foi o Wilson, irmão mais novo, de quem eu também era amigo. Wilson era praticamente um garoto ainda e, era engraçado ver como ele era sucestível a tudo a sua volta. Estava sempre agitado. Ele havia viajado até São Paulo, se não me engano, e voltara a alguns dias. Eu entrei e ele me cumprimentou. Quando ele fez isso - falou - eu pensei estar escutando coisas. Eu não queria acreditar no que estava ouvindo. Talvez fosse minha imaginação. Mas não era. Wilson esteve algumas semanas em São Paulo - não sei fazendo o quê - e voltou... com sotaque!

Não, não, não! Não um sotaque paulista, que talvez fosse mais compreensível. Ele estava com um sotaque estadunidense. Parecia, não que ele tivesse ido a São paulo por algumas semanas, mas que passara alguns anos nos Estados Unidos e retornara com aquele sotaque.

Eu custava a entender a situação e não tinha coragem de perguntar o que era aquilo. Ele falava da viagem, família, e etc. Eu tentava apenas não rir. Mas era extremamente difícil. Talvez ele tivesse algum parente ou parentes estrangeiros e ficou com eles lá em São Paulo. Eu poderia perguntar isso. Mas, eu antecipava tudo. E se não fosse isso, e ele perguntasse porque eu estava fazendo aquele pergunta. Na verdade, eu estava suando frio tentando segurar o riso. Eu estava a ponto de explodir em uma risada... quando a porta se abriu e o Adriano entrou. Eu suspirei aliviado. Mas não durou muito.

Adriano estava um tanto quanto transtornado e antes que eu perguntasse o que havia acontecido, ele olhou para mim, como se o mundo fosse entrar em colapso a qualquer momento, e soltou:

- O Grande Pássaro das Galáxias morreu!
O Wilson, do outro lado da sala, soltou um sonoro: "WHAT?!", e eu quase mandei ele ir para o inferno, e que parasse com aquele sotaque idiota, mas eu estava ainda estupefato pela declaração estrambótica do Adriano. Se ele tivesse falado aquilo rindo, eu ao menos saberia que era uma piada, mas ele estava sério. Pior, ele estava quase chorando.

- Hã... quê? Pássaro... grande... galáxias? Você não tinha parado com as drogas, Adriano? É óregano, ou algo do tipo?

- Não, cara! Você não entende? O Grande Pássaro das Galáxias se foi. Acabou. Como diria o Wilson: "It's Over".

- Era seu passarinho de estimação? Morreu? Pelo nome devia ser bem grande. Era uma arara?

-Não, não, não! Nada disso, Honorato! Gene Roddenberry, o criador de Jornada nas Estrelas morreu hoje, cara!

- Ah.

Ele se sentou desolado e eu fiquei sem entender nada. Afinal, nunca soubera que ele era tão fã assim de Jornada nas Estrelas. Na verdade, ele NUNCA falou sobre Jornada nas Estrelas. Eu mesmo gostava do seriado, mas muito moderadamente. Não a ponto de saber apelidos "carinhosos" de criador da série.

Wilson perdera o interesse no assunto. O susto foi mais pelo modo como Adriano deu a notícia, do que pela notícia em si. Ou ele apenas quis falar "WHAT?!", vai saber.

Eu não sabia o que dizer ao Adriano, afinal eu não conseguia sentir a totalidade de tão esmagadora notícia, já que Roddenbery para mim era tão importante quanto martelos de borracha. Mas eu não podia dizer isso, tinha de afugentar esses pensamentos. Eu procurava em minha mente algo que pudesse dizer, para tentar melhorar a situação. Coloquei a mão no ombro dele, e disse:

- Ah, cara, pelo menos ainda temos o George Lucas. - Ele me olhou de cara feia.

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Saltei do ônibus e fui em direção a minha casa. Entrei na rua e senti que alguém tentava me alcançar. Olhei para trás e vi o ... o... ih, caramba, esqueci o nome do cara. Tomara que ele não perceba. Também, faz tempo que a gente não se fala. Muito mesmo. Ele mora na rua depois da minha e eu sempre aparecia por lá. A gente se tornou amigo, mas o tempo foi se encarregando de nos afastar. Ele também estava um pouco diferente. Não na aparência em si. Era algo... bom. Eu ia saber que ele estava mudado de verdade logo em seguida.

Eu lembrava dele como um garoto normal, sem nenhum problema, digamos, a mais. Só sei que agora ele era praticamente um adulto, como eu. E parecia estar vindo de algum lugar, talvez trabalho, ou curso.

Ele emparelhou comigo e puxou assunto. Não lembro bem como, ele começçou a falar do filme O Exterminador do Futuro. Fazia pouco tempo que o segundo havia passado no cinema. Então, conversa vai, conversa vem sobre o assunto, ele começou a abrir uma pastinha que trazia consigo. Foi tirando várias folhas de papel ofício cheias de desenhos a lápis.

Ainda falando sobre o filme, meio que sem parar, ele segurou as folhas com cuidado, me parou e disse claramente, sem nenhuma chance de interpretação errada, enquanto me mostrava os desenhos:

- Eu estou construindo um exterminador.

Eu dei graças a Deus de não estar bebendo nada. Eu teria engasgado, talvez até morrido no processo. A única coisa que fiz foi soltar um "é?', já que, como estava chegando do trabalho, eu estava cansado demais para rir. Mesmo se eu quisesse.

Um misto de pena e vontade de andar mais depressa se apossou de mim. Ele me mostrava os desenhos, que nada mais eram que rabiscos de partes de um "exterminador" feitos por alguém que nem mesmo sabia desenhar corretamente.

As folhas começevam a cair e eu as pegava, pensando comigo "por que eu, Senhor?", enquanto olhava pra ver se minha casa já estava mais perto. Não estava. Ele continuava falando de seu projeto de construir o exterminador, já que eu mesmo não perguntava nada. Nem mesmo qual o objetivo de construir um exterminador eu quis saber. Tinha medo da resposta. Medo de que ela me fizesse estrangulá-lo ali mesmo. A maldita casa não chegava nunca.

Eu só não enlouquecia com o blá-blá-blá, porque eu já havia me refugiado em meu lugar feliz, onde o mundo era composto por cascatas de café e as montanhas eram de pão doce e sonho com recheio de doce de leite. E eu tinha um plano de saúde que cobria diabetes. E não havia exterminadores nele.

Quando enfim, vi as escadas para casa, quase pude ouvir o coro de anjos. Ele guardou as folhas rabiscadas e eu acenei, desejando boa sorte no "projeto". Que o Grande Pássaro das Galáxias o acompanhe.

Se eu chegasse em casa e alguém tivesse alugado Exterminador do Futuro, era bem capaz que eu quebrasse a fita até virar pó.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

JJ e o Caledonian Circus


JESUSALEM JONES E O CALEDONIAN CIRCUS A Lona Cobre o Bizarro Espetáculo da Vida


Jones, você está ficando velho, pensava consigo mesmo JJ ao relembrar, ali sentado naquela arquibancada, que faziam 35 anos que ele não sabia o que era estar dentro de um circo. Na verdade, há 35 anos atrás ele não entrara. Seu pai, sem a mínima explicação, não o deixara ir. Mas, isso não impediu que Jerusalem fosse aos arredores de onde ele estava montado, apenas para...

O pistoleiro é arrancado de seus pensamentos justamente por aquilo que ele menos queria ver ali, mesmo sabendo que está em um circo: um palhaço. Aliás,no caso ali, um profusão deles. Jones odiava palhaços tanto quanto Rangers ou índios trapaceiros. Estar ali faz com que ele se arrependesse de ter desobedecido seu pai e ido até onde o circo estava.

Passeando pelo terreno onde o Caledonian Circus estava sendo armado, o jovem Jones andava como quem não quer nada, sem entender que mal haveria em ir ao espetáculo daquela noite. Vestido com seu macacão surrado, o menino observava atentamente todo o agito que faziam aquele bando de trabalhadores itinerantes. Pensou com seus botões que eles eram mais livres que qualquer outra pessoa no mundo. Mais livres que ele, preso naquela cidadezinha. Talvez ele fugisse com o circo e fosse viver andando pelo Velho Oeste e, quem sabe, pelo mundo.

Jery (seu pai o chamava assim) andou tanto que não notou que a tarde foi embora e a noite caía. Não notou também que ele era a única pessoa da cidade ali por perto e que ninguém mais parecia poder ultrapassar as imediações e entrar na área onde o circo estava sendo levantado. Mas, porque ele podia? Isso não parecia ter uma resposta lógica. Ele lembrou que durante suas andanças por ali, ninguém parecia nem mesmo tê-lo notado. Mas, Jery também não viu mais nada além de trabalhadores braçais erguento pilastras de madeira e arrumando a lona. Notou que o sol ja havia ido embora totalmente, quando esbarrou em algo felpudo:

- Garoto, como você conseguiu entrar aqui antes do tempo? - um urso enorme, fitava Jerusalem Jones com olhos de fogo e... falava! - Como conseguiu entrar aqui antes do tempo? Diga!

O menino ficou estático. O urso falava! Falava e... agarrava! Quando o enorme animal o agarrou, Jones, sem nem saber como, se desvencilhou e começou a correr o mais que pôde, apenas para trombar com um palhaço.

- O garotinho que chegou antes da hora, hein? Gosta de malabarismo? - Jones, que caíra sentado no chão, não respondeu nada. Apenas ficou olhando quando o palhaço com aquela pintura macabra e sorriso diabólico, começou a tirar de uma sacola algo com que fazer malabarismos. Aquilo o acompanharia o resto da vida. Aquilo e a risada cada vez mais alta do palhaço ao ver Jones correndo, chorando e gritando.

Ele queria chegar em casa, mas parecia nunca conseguir sair de dentro da área do circo, por mais que corresse. Era como se ele estivesse preso, ou como se todo aquele terreno se expandisse. O pequeno Jerusalem sentia as outras criaturas do circo atrás dele, mesmo sem olhar. Ele não queria olhar, não precisava.

Seu coração queria sair pela boca, suas pernas pareciam de concreto. Jones sentia o bafo do capeta, ou seja lá o que fosse, soprar em sua direção. Uma coisa quente e pegajosa, como vapor saindo de cadáveres putrefatos. Aquilo não era um circo. Não era um lugar de diversão, mas de morte. Ou talvez algo muito pior.

Quando enfim, viu que estava distante daquilo tudo, se sentou debaixo de uma árvore para recuperar o fôlego. A noite parecia mais escura e densa que o norma. A lua não aparecia e as estrelas pareciam ter desaparecido do universo. Jones nunca conhecera o medo, como conhecera aquela noite. Ele estava tremendo tanto que mal sentiu quando sua mão tocou em algo de madeira, jogado ao seu lado, e que ele nao percebera antes. Um boneco. Um boneco de ventriloquo. Ele reconhecia, pois já vira daqueles antes.

O boneco parecia tão mal ajambrado. Uma roupa remendada em vários lugares e uma cartola amassada, enterrada na cabeça de pau. Por um instante ele quase esqueceu de tudo. Até que o boneco virou a cabeça e perguntou de modo ameaçador:

- Por que diabos você veio antes da hora, moleque?!

Nem mesmo Jones acreditou em sua reação, mas ele agarrou o boneco pelo pescoço, e este começou a esmurrá-lo com aquelas mãozinhas de madeira, duras, e gritando:

- NÃO QUERÍAMOS VOCÊ AQUI ANTES DA HORA!

As outras criaturas do circo macabro se aproximavam, e o boneco parecia comandá-los, chama-los, recitando algum tipo de feitiçaria, enquanto esmurrava e arranhava o rosto de JJ. O menino já não aguentava mais, pois estava exausto de medo e cansaço. Ele seria engolido por aquelas aberrações. Quando finalmente caiu de costas, o boneco ficou sobre seu peito, e ia desferir o golpe final, quando um estampido de uma espigarda ecoou na noite, transformando a cabeça do boneco em milhares de farpas. O menino fechou os olhos. Quando os abriu, estava em casa, na cama.

Seu pai conversava com sua mãe, na porta e entregava a ela uma espingarda que ele nunca vira antes. Sua mãe levou-a embora.

- De-desculpa, pai.

- Heheheh, nada disso garoto. Eu sabia que você iria para aqueles lados. Assim que eu disse que não podia, já me preparei para o que iria acontecer. Na verdade eu precisava de você por lá. Só você podia entrar lá antes da hora. Não me pergunte como eu sei disso, ou porque eu sei, já que nem eu mesmo faço idéia. Os filhotes de cruz credo foram embora. Talvez para outra cidade, mas aí não é mais problema nosso. Agora dorme, vai. Um dia você vai entender tudo.

- Pai... a espingarda?

- Ah, ela é sua. Te deram de presente, mas cê ainda não pode usar. É muito criança ainda pra essas coisas. Claro que também é muito criança pra ser usado de cobaia, e acho que sua mãe vai fazer greve de "fazer nenen" pelo resto da vida depois do que fiz. Mas, quando você crescer, ela é sua. Talvez acabe precisdando mesmo.

...

Os pallhaços eram todos idênticos uns aos outros e ao palhaço que JJ viu quando criança. Atrás deles, um urso enorme, com olhos de fogo, isso sem falar nas outras aberrações. Mas ninguém no circo parecia se dar conta disso. Se divertiam como se fosse um circo comum. Mas JJ sabia porque apenas ele enxergava.

Quando o apresentador chegou ao centro do picadeiro, começou a anunciar que agora seria cobrada a entrada que não fora cobrada de início. Ele tirou um pano de cima de algo que trazia no braço e revelou um boneco de ventríloquo, com uma cabeça que destoava do corpo. Parecia maior. Quando o boneco abriu a boca, ele não falou. Tudo parou, um vácuo começou a se formar. As pessoas pareciam estar sendo sugadas, mesmo estando ali sentadas.

Jerusalem Jones se levantou, puxou a espingarda de dentro do seu capote,e disse:

- EI, PESSOAL! DESSA VEZ EU CHEGUEI NA HORA!

Uma série de estampidos preencheu a lona do circo, preencheu a noite e foi se dissipando, cada vez mais. Mais e mais.

Uma gargalhada se fazia ouvir acima daquilo tudo. Jerusalem Jones nunca estivera tão feliz em um circo antes. Agora ele entendia.


domingo, 4 de janeiro de 2009

O Pelotão Jerusalem Jones


O PELOTÃO JERUSALEM JONES
A Guerra dos Mortos Que Não Tinham Túmulo

O soldado Richard Baker já tinha ouvido muitas histórias acerca do Pelotão Morto-Vivo - os índios os chamavam de Mortos Que Não Tinham Túmulo - mas, obviamente, descartava qualquer possibilidade da existência real do mesmo. Sempre pensou que fosse historinha de soldados que queriam receber baixa por insanidade ou coisa do tipo. Alguns mostravam as marcas de mordidas, mas Rick sabia que em uma guerra valia tudo.

Mas, naquele momento, com as garras daquele morto-vivo em sua garganta, os olhos injetados de vermelho e a boca se abrindo em direção à sua cabeça, ele tinha de admitir que o Pelotão Morto-Vivo era uma dura realidade. Antes que pudesse ser morto, no entanto, o Sargento Selkirk acertara o monstro bem na cabeça. Pena que logo em seguida foi engolido por uns seis mortos-vivos, logo em seguida.

Rick escapou, pegou sua arma e continuou atirando, mirando as cabeças, coisa que só entendeu depois que seu pelotão sofrera várias baixas. Na verdade, naquele momento, Rick achava que só ele estava vivo e não sabia o que seria de sua miserável existência.

Dois anos atrás.

O Doutor incumbira Fletcher de conseguir mais espécimes para o que ele chamava de Excesso de Contingente. Os Estados Unidos estavam em guerra e, um dos lados solicitara ao Doutor uma tarefa no mínimo inusitada: soldados para morrer. A idéia inicial era "recrutar" indigentes e, digamos, motivar-lhes a lutar pelo bem dos EUA. Mesmo que eles não quisessem isso. Fletcher, grande e forte, conseguia isso bem facilmente. Mas foi com aquele cara esquisito, com a cicatriz no pescoço, que as coisas mudaram completamente.

O Doutor ficou fascinado com a cicatriz. Parou de apenas "fabricar" soldados, injetando soluções que deixavam os espécimes coletados por Fletcher sem vontade própria e apenas se resignavam em morrer na linha de frente da batalha, fazendo com que os verdadeiros soldados tivessem tempo de traçar uma ofensiva surpresa.

Mas, quando o homem da cicatriz no pescoço chegou, o Doutor, depois de examiná-la, vislumbrou maiores possibilidades. Fletcher não sabia o que ele tinha descoberto, mas o que quer que fosse, ele adcionara à solução e agora os soldados eram mais violentos e não morriam. Ou pelo menos eram bem mais dificeis de matar. Fletcher descobriu isso da forma mais difícil, quando o Doutor o largou em um quarto fechado, com um revólver e uma daquelas coisas junto com ele. Fletcher ficou sem balas, quase foi morto, e só entendeu o que tinha de fazer quando não tinha mais munição. Então ele enfiou o cano da arma na cabeça do monstro. E ele morreu.


Rick se alistara pensando em viver algumas aventuras para contar aos netos, se sobrevivesse. Se morresse, pelo menos seria como um bom soldado. Naquele momento, no entanto, ele não queria nem viver, nem morrer, só queria acordar daquele pesadelo. Todo um pelotão de mortos-vivos estava em seu encalço e ele não tinha a mínima esperança de sair vivo.

Rick nunca fora religioso, e sua mãe, May Baker já desistira de tentar incutir isso nele. Rick era algo um tanto quanto teimoso para as coisas de Deus. Mas, naquele instante, Rick rezava mais que todos os pastores de sua cidade Trench City. Ele não tinha mais medo da morte, seu medo era de terminar como seus colegas de pelotão. Os mortos-vivos faziam exatamente aquilo que as histórias que ele ouvia e achava que era mentira, contavam: devoravam as pessoas vivas.

Um ano atrás

O Doutor fornecia mais e mais "soldados", apesar da guerra civil não avançar nem um pouco. Flectcher achava que até mesmo, o lado para quem o Doutor estava trabalhando, estava perdendo. O homem da cicatriz que fornecia a matéria-prima, permaneceu todo esse tempo em um sono profundo, induzido pelo Doutor. Na verdade não entendia como ele ainda estava vivo.

Já o trabalho de Fletcher estava cada vez mais difícil, conseguir mais e mais homens para morrer ou, pelo menos, demorar a morrer, até que os soldados descobrissem como eles podiam ser mortos. Fletcher já estava tendo que apelar para índios e chineses. A guerra bem que podia terminar logo para ele e o Doutor voltarem às suas atividades normais.


Rick encontrara uma caverna para se esconder, mas assim que entrou, a idéia mostrou-se uma droga. Mesmo ficando muito quieto lá dentro, Rick começou a pensar se os sentidos daqueles monstros funcionariam como os das pessoas normais. Mesmo na escuridão mais profunda, ele começou a desejar que aquelas coisas não tivessem algo como visão ou olfato aguçados. Esperava que fossem estúpidos como pareciam e não entendessem que ele entrara na caverna.

Rick se lembrou da história que uma vez Jerusalem Jones, bêbado, contara para ele, sobre ter enfrentando uma mulher morta-viva e ter ganhado aquela cicatriz no pescoço, que só não o tranformou completamente em um porque uns amigos índios o salvaram. Rick perguntou "como assim 'completamente'"? Jones deu uma risadinha nervosa e disse que se expressou mal. Porém, Rick sabia de histórias acerca de Jones que ele achava que fossem brincadeiras de mal gosto. Piadinhas sem graça. Afinal, o que não faltava era gente que não gostava do J.J. Mas inventar que ele comia carne humana de tempos em tempos, era bobagem demais. Foi pensando nisso que Rick escutou quando as criaturas encontraram a caverna...

11 horas atrás.

Fletcher estava cansado desses dois anos de caça a vagabundos e de conviver com monstros que ele tinha que levar, dopados, até os campos de guerra. Por várias vezes quase morreu. Fletcher queria uma aposentadoria o mais rápido possível. Talvez tenha sido isso tudo que tenha feito ele acabar esquecendo de dar a dose diária de entorpecente do homem da cicatriz. O Doutor dizia que não queria algo permanente com medo de estragar o espécime e perder sua valiosa fonte. Mas foram apenas uns minutos de esquecimento, o bastante para que ele acordasse.

Fletcher foi sua primeira vítima. O homem estava transtornado e a sua cicatriz pulsava horrivelmente e ele se transformara em algo muito pior que os "soldados" do Doutor. Matou todos os espécimes que havia no pequeno laboratório e depois, vagarosamente se aproximou do Doutor, que tentou ainda se salvar, em vão. Sua cabeça voou pelo laboratório, parando junto a Fletcher, que sangrava, terminando de morrer, devido aos tiros que levara do homem da cicatriz. Não era bem esse tipo de aposentadoria que Fletcher queria.


Rick estava encomendando sua alma, sabendo que aqueles eram seus últimos instantes. Sentiu uma mão agarrar seu uniforme e puxá-lo, mas em seguida largar. Um barulho de luta, ossos quebrando, rugidos, carne sendo dilacerada era ouvido por todos os lados. Tiros, grunhidos, gritos abafados. Silêncio.

Rick ainda ficou por várias horas, encolhido no fundo da caverna, antes de pensar em sair. Quando o fez, já era manhã do dia seguinte e, na entrada da caverna, ninguém mais ninguém menos que Jerusalem Jones, estatelado de costas, nu e com tantos ferimentos que não parecia possível estar vivo. Mas, sua respiração denunciava que sim. Ele abriu os olhos, com muito esforço, piscou algumas vezes, olhou para Rick e disse:

- Esses... esses eram... os últimos. R-Rick... é você, garoto? Diabos, acho que agora... nunca mais... tu vai me chamar de... mentiroso...

E desmaiou.

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