segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Nasce Jerusalem Jones


NASCE JERUSALEM JONES
Quando O Anti-Cowboy Volta de Seu Retorno


Porque você tinha que decidir nascer hoje, moleque?! Sim, eu sei que é um moleque. Sinto nos meus ossos. Mas, sexta-feira 13 não é um bom dia para se nascer, mesmo para um garoto. Para piorar, a chuva lá fora faz a noite parecer um quadro do inferno. Chove tão forte que não sei como o Doc conseguiu chegar até aqui. Trovões e raios fazem tudo parecer pior do que já é. Minha mulher urra e grita a todo momento. A noite vai ser longa. O moleque não quer sair. Parece até saber as coisas ruins que temos aqui fora.

- Jones, pára de ficar olhando lá para fora. Me ajude aqui! O que diabos você perdeu lá fora, homem?! Só preciso que você pegue mais panos quentes e mais um balde d'água morna. Depois pode voltar para seu posto.

- Ok, Doc. Eu só... só não gosto dessa chuva esquisita.

- É uma tempestad... KRAAAK-A-BUMMMMM... ...tra qualquer, homem! O parto está dificil, não sei se vou conseguir, Jones. Esteja preparado para qualquer coisa.

O Doc sempre foi assim, nada sutil. Lembro que uma vez estávamos jogado pôquer com uns forasteiros e resolvemos limpá-los jogando um pouco, digamos, em "parceria". Na primeira jogada ele entregou tudo e levamos a maior surra de nossas vidas.

KRAAK-A-BUMMM!!!

Credo, juro ter escutado um grito pouco antes do trovão. Cada pelo do meu corpo se arrepia. Esse menino vai nascer na pior noite que essa terra desgraçada já presenciou. Ou, segundo o Doc, talvez nem nasça.

Olho para a mãe do meu filho e ela está com o rosto desfigurado de dor. Faz força como nunca vi um homem fazer na vida. Mas não posso ir para lá segurar a mão dela. Preciso ficar aqui, na porta. Não sei porque, mas alguma coisa parece me dizer isso.

Pego meus revólveres na mesa e coloco-os na cintura, depois de conferir se estão carregados.

- Que é isso, Jones? Vai atirar na chuva. Você devia era dar um jeito para a água parar de entrar na casa. Está começando a me atrapalhar aqui. Eu te avisei há muito tempo que você devia ter comprado uma casa maior, de dois andares ao menos.

- Ok, Doc. Obrigado por fazer o papel da minha esposa enquanto ela não está em condições.

Eu falo, mas sem olhar para ele, sem prestar nem atenção no que estou dizendo. Juro ter visto um vulto na chuva. Quem seria louco de sair nesse aguaceiro? Nem mesmo o Dead John seria doido pra isso, e olha que ele É doido, clinicamente falando.

Diacho! Acho que vi novamente e... olhando pra cá. Não tenho vergonha de admitir que minhas pernas começam a tremer. Os gritos altos de minha mulher não ajudam em nada os meus nervos. Nasce logo garoto, acaba com esse sofrimento. Eu prometo que nunca mais mexo com sua mãe pra fazer nada. Talvez umas esfregação, mas nada mais que deixe ela grávida de novo.

Ai, Nosso Senhor! É uma pessoa na chuva mesmo. Olhando para cá. Encurvado como um corcunda, ou sei lá o quê. O que diabos esse cretino tá fazendo? Tirou a noite pra me assustar mais do que já estou?

- JONES, SUA MULHER PERDEU OS SENTIDOS! Eu não sei se ela vai sobreviver, Jones! Preciso saber se salvo ela ou a criança. Preciso saber agora.

- Doc, você vai salvar os dois, porque você me deve isso.

Há uns 15 anos atrás eu e Doc atravessávamos o deserto quando ele foi picado por uma cobra, em uma região do corpo delicada demais. O que ele me obrigou a fazer, depois de apontar sua arma pra mim, eu não posso dizer aqui. O pior é que nem sei se essa história de sugar veneno é verdade, já que ele disse que era apenas pra dar tempo de chegar na cidade e ser atendido. Mas, seja como for, ele ficou me devendo. E se ele contasse pra alguém, eu jurei que o matava como se mata um cachorro.

O sujeito lá fora está vindo pra cá.

- JONEEESSSSS... ELA ESTÁ EM CONVULSÃO!

- Ajuda ela, porra!!! Tem um cara estranho lá fora, vindo pra cá. Eu não não acho que seja nada de bom, não posso sair daqui.

Doc a segura como pode. Ele parece não entender o porque dela estar em convulsão. E isso, sendo ele médico, não é um bom sinal.

Meu coração parece que vai sair pela boca quando vejo os olhos do troço lá fora brilharem em vermelho. Não sei se tô alucinando por causa da preocupação com ela, ou se é tudo real. Mas, logo sei que tudo está contecendo de verdade, quando o cara saca o que parece ser uma arma, e vem correndo na minha direção. Quando pego minhas armas, a atiro... não acontece nada. Olho os tambores e estão vazios. Eu tenho certeza que estavam cheios, eu conferi.

A coisa está mais perto e minha mulher grita mais alto:

- SAIA DAQUI, AGORAAAAAA!

Do que ela está falando? Ela pode ver esse troço? De onde ela está não tem como ver. Doc a segura mais forte. O homem corcunda corre rápido. O jeito é fechar a porta. Mas, quando tento isso, ele dispara e a porta se despedaça como se todos os cupins do mundo estivessem nela. Meu Deus. Aquilo não era uma bala, era algo... demoníaco. Fogo no meio da chuva. Vamos todos morrer e eu nem mesmo tenho idéia do porque.

Me afasto da porta, rezando como se fosse o homem mais crente de todo o mundo, e quando a criatura chega na soleira da porta, com seus passos pesados fazendo um som horrível nas poças d'água e sua respiração ofegante nojenta, vejo que ela não tem forma definida, e é como se fosse feito daquela chuva maldita. Vamos todos morrer.

Olho para trás e vejo Doc com meu filho no colo, e minha mulher sentada, como se estivesse em transe, rezando numa língua que eu nunca ouvi antes. Chego a pensar que ela está dopada com algum remédio que Doc ministrou.

- JONES, QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!

Tudo isso acontece segundos antes de a criatura pular na minha direção e eu ouvir um disparo e mais um, e mais um, acertando aquela coisa vinda do inferno. Quem atira não pára um segundo sequer, descarregando toda munição em cima dela. Ela levanta e me esquece indo na direção de quem atira. Mesmo com medo vou até a porta e assisto aquilo tudo.

Um homem de capote atira como um louco e parece que sua munição nunca acaba. Ele a desarma. A criatura tenta ir em sua direção, mas os disparos não permitem. Porém, tampouco ela dá indícios de que vá morrer. Minha mulher grita algo alto naquela língua absurda que ela resolveu falar, e sinto a criatura cambalear. É o suficiente para o pistoleiro pegar uma terceira arma de dentro do capote, mirar no coração e atirar.

A criatura solta uma risada resignada, como se dissesse que pelo menos ela tentou, e corta o próprio pescoço com unhas que mais parecem navalhas. Ainda ouço ela dizer algo, entre os gorgolejos da morte:

- Nem eu, nem você, Jones.

Não entendo como ela sabe meu nome, apesar de não parecer estar falando comigo. Depois disso, ela apenas... morre e some com a chuva que pára, como se a criatura estiasse. A noite fica com aquele cheiro de terra molhada, mas não de um jeito bom. O homem do capote se aproxima e fala comigo:

- A... a criança... ela nasceu?

Eu tento responder, mesmo sem saber o porque da pergunta, mas só consigo fitar a cicatriz em sua garganta. Enorme, pulsante. A cicatriz pulsa! Como se estivesse viva. Oh, Deus. Eu preciso de uma bebida.

Ele olha para dentro de casa, e vê o menino no colo de um Doc pálido, tremendo como vara verde. Minha mulher parece estar morta, depois de toda aquela reza.

- S-sim, ele nasceu? Quem é você? O que era aquilo?

- Não importa. Eu estava atrás daquilo há um bom tempo, e sabia que ele estaria aqui, por isso dei um jeito de estar no mesmo lugar e hora que ele. Uns amigos índios me ajudaram com isso. O senhor nem acredita em que todas aquelas ervas deles são capazes. E eu achava que eram só pra ver elefantinhos cor-de-rosa. Agora vai ficar tudo bem, Sr. Jones. Dê isso aqui à sua esposa. Também é dos meus amigos índios, mas é curativo. Nada de alucinógenos pra ela, pelo menos por enquanto.

E ele foi embora, rindo como um moleque travesso. Podia jurar que ele sumiu diante de meus olhos, mas era apenas a escuridão, eu acho. Dei a planta para minha esposa, sem pestanejar. Eu não estava em condições de duvidar de nada. Doc ficou falando sobre intoxicação e coisas do tipo, mas eu não o escutava. Ela logo acordou e sorriu pra mim, cansada, mas feliz.

Peguei nosso filho no colo e mostrei-o a ela. Ele parecia tão calmo diante de tudo aquilo. Não chorou nem por um instante. A única coisa que parecia incomodá-lo, era algo no pescoço que ele não parava de coçar.

Eu ainda não sabia que nome daria a ele, mas se soubesse qual era o nome do homem de capote, com certeza seria esse.

- Estamos quites, Doc. Mas, agora, aqui entre nós, eu não precisava ter sugado aquele veneno, não é?

- Jones, isso de novo? Eu tô aqui todo cagado de medo, e você vem com coisas do passado. Vou pra casa me limpar e dormir. E, pelo amor de Deus, não faça mais filhos, Jones.

-Se eu descobrir que aquilo não era necessário, Doc...

FIM.


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Faça uma Redação


FAÇA UMA REDAÇÃO SOBRE O SEU BAIRROMeu Mundo Dentro de Um Pequeno Mundo

Quando a professora anuncia mais uma redação, começo a tremer feito vara verde. Não sei escrever. Não, não é isso. Eu SEI escrever, mas não GOSTO de escrever. Detesto redação tanto quanto ir ao dentista ou comer os legumes. Fico imaginando se foi Deus quem inventou a redação quando mandou que escrevessem uma sobre como a Terra foi criada e, nem posso com isso, amaldiçoar tal tarefa.

Talvez se perguntem - e eu não sei porquê estou falando assim - como pode ser, já que gosto tanto de ler. Não sei, preguiça, talvez. Ou talvez eu deteste minha letra tanto que não gosto de vê-la tantas vezes em uma única página. Talvez se, como nos filmes sobre o futuro, eu tivesse uma máquina de escrever portátil, com uma tela, na qual eu escreveria a maldita redação, e ela saísse imprimida pela traseira da mesma, seria moleza.

BAM!!! - COMECEM!

Caraca! A professora quase me mata de susto. Acho que ela notou que a classe não está nem um pouco empolgada com o trabalho. Alguns escrevem como se um milhão de pregos estivessem cravados em suas costas. As meninas fazem florzinhas, enfeitando tudo, antes de começar. Nossa, como eu odeio redação! Mas, se eu tivesse aquela máquina de escrever mágica, e "soubesse" escrever, talvez eu começasse assim...


Meu Mundo Dentro de Um Pequeno Mundo:
Uma chuva torrencial e uma escada de barro composta apenas de lama. É a minha lembrança mais antiga do bairro onde eu fui criado, o Parque do Ferreiras. Sim, o nome é devido à família portuguesa que era dona de tudo aquilo ali, há muitos anos atrás. Tanto que a avenida principal de chama José Ferreira e todas as ruas têm nomes que remetem a Portugal. Eu por exemplo, moro na Rua Rio Tejo ou, pelo menos, vou morar até os meus 30 anos de idade.

Moro há tanto tempo ali que o próprio nome do bairro parece estar ligado ao meu nome. Como se fôssemos um só. Apesar de ser um lugar esquecido entre Belford Roxo e Duque de Caxias, é praticamente o lugar onde eu me dei conta da vida, de quem eu sou, e de quem eu me tornaria.

A chuva torrencial e a lama é a lembrança que tenho de nossa mudança para a nova casa, naquele bairro. Antes disso, vivíamos nos mudando, devido a morarmos de aluguel. Agora tínhamos uma casa nossa, de verdade. Minha mãe grávida de minha irmã caçula, já está lá em cima e os homens fazem a mudança. Sou pequeno demais para ajudar. Mas posso sentir que ali será um bom lugar para morar. A chuva parece dizer isso.

O tempo passa e me familiarizo com cada rua, com cada aspecto do lugar, conforme os anos vão passando. Por exemplo, a Barraca do Alcino (de onde vêm esses nomes?), vai estar ali até eu ir embora. Estava lá quando eu cheguei a ainda está bem depois que saí. E com o Alcino nela!

Na entrada do bairro temos a Padaria do Vasco. Que, mesmo estando no nosso bairro, e nomeada como se pertencesse ao bairro em frente - o Vasco. Ainda está lá também, mas não tem o mesmo charme. O Armazém do Seu Joaquim seria mais marcante para mim. Meu primeiro emprego aos... 11 anos! Isso porque insisti com minha mãe que queria trabalhar. Bom, ela deixou.

No meio do bairro, havia a "pracinha", que no inicio era apenas um terreno circular, que de pracinha não tinha nada. Prefeituras que vieram mais tarde, resolveram fazer com que o lugar merecesse o nome de Praça, construindo uma. Uma quadra e um playground fizeram com que o bairro ganhasse um pouco mais de brilho. Antes, porém, naquele lugar pude ter minha primeira e - acho que - única experiência circense. Um circo foi montado ali e, por vários dias, uma certa magia pueril deu o ar da sua graça.

O bairro tinha seus próprios personagens que fui conhecendo conforme fui crescendo: A Bruxa, O Mentiroso Crônico, o DJ, o Louco da "Aldeia", o Tim Maia, o Eterno Candidato a Vereador (que nunca venceu), A Professora, A Desfrutável, Os "Ricos", O Pastor Mal-Humorado, Os Eternos Moleques, e todo tipo de gente que se pode encontrar em muitos lugares.

Porém, uma das coisas que iriam me surpreender ao me lembrar do meu bairro depois de alguns anos após ter saído de lá, era que, apesar de ele estar no centro da famigerada Baixada Fluminense, o Parque dos Ferreiras parecia estar alheio a toda violência veiculada nos jornais. Tínhamos uma mania de dormir sem trancar a porta simplesmente porque não havia necessidade disso. Era comum, normal. Claro que isso foi mudando com o passar do tempo.

Outra coisa que me surpreendia era eu mesmo que, apesar de ser muito caseiro (leia-se "vivia enfurnado dentro de casa"), ainda assim até que andava muito pelas ruas e, na maioria das vezes, me tornava frequentador assíduo de algumas delas, às vezes por ter alguém com quem trocar gibis, às vezes por ter uma paixonite aguda e/ou mediana, no lugar. Em geral acabava fazendo amizade com outras pessoas e, numa dessas ruas, eu e mais uns amigos, "organizamos" uma festa junina amadora, que terminou com lançamento de carvão em brasa à distância.

Olhando bem para o passado (ou seria para o futuro?) eu andei em todas as ruas, fiz amizades, cresci com aquelas pessoas e isso tudo sendo um "menino caseiro". Minha mania de partilhar, já era forte nessa época, e eu levava discos, livros, gibis, para outras pessoas escutarem, lerem e tudo mais. Quando chegou a era do VHS era alugar filmes e ir ver na casa dos amigos.

Vi o asfalto chegar e cobrir as ruas que sofriam com a chuva. Engatinhei por dentro das manilhas colocadas enfileiradas, quando construiam os esgotos, pensando "e se eu ficar preso aqui dentro"? E continuava. Ainda hoje, quando sinto cheiro de asfalto, sou imediatamente transportado para aqueles dias, em que eu acompanhava cada rua, cada etapa de asfaltamento. Piche é difícil de sair.

Quando eu queria ver o meu "mundo" do alto, subia o morro mais alto que ficava logo atrás de onde eu morava. Às vezes sozinho ou com meus irmãos, subia e ficava olhando tudo lá de cima, tão pequeno e tão grande. Em dias de céu muito limpo eu podia ver o Cristo Redentor bem longe, no lugar onde um dia eu iria morar. No lugar que seria meu novo bairro. Era surreal.

Depois que me mudei, minha mãe ainda continuou morando por lá e eu sempre ia visitá-la, até que ela também se mudou. Mas, não sei se por impressão minha, ou se era algo real, o bairro parecia estar se deteriorando e, foi melhor mesmo não ter de ir mais por lá, e ver minhas lembranças serem deterioradas junto. Não parecia mais o lugar onde morei. Assim, como está, ainda posso ter comigo o que ficou de bom de um lugar que me viu crescer.

Ainda posso ouvir o som das muitas festas juninas das quais nunca tive coragem de fazer parte das quadrilhas, por timidez. As risadas nas festas de aniversário nas quais eu me embebedava com dois copos de cerveja. O cheiro da terra molhada sobre o asfalto velho. O barulho da chuva batendo sobre o telhando de alumínio na varanda. As fogueiras, as histórias, os sorrisos, os pique-esconde, salada mista, os tombos de bicicleta, os bolinhos de chuva. Tudo em um único lugar.

Um lugar que se tornou sinônimo de mim.

FIM.

A professora diz que o tempo acabou e sem piscar, levanto e entrego a ela a redação que escrevi. Ela pega, olha e diz:

- Mas aqui não tem nada, menino!!!

- Mas vai ter, 'fessora. Vai ter.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

As Locadoras


AS MUITAS LOCADORAS QUE FREQUENTEI Quem Nunca Estragou Um Fita Atire a Primeira Multa

A locadora a que me afiliei mais recentemente aqui em Botafogo, fechou as portas. Nenhuma novidade nisso, locadoras são inauguradas e vão à falência desde que o mundo é mundo. Mas, nesse caso em particular, eu fiquei chateado. Gostava da locadora - a Cinéfilo - que, apesar de ser meio "cult", era a única opção fora a Blockbuster. Claro, há a Videosession, mas essa é uma outra história.

Só sei que isso tudo me fez relembrar meu relacionamento com as locadoras. A primeira vez que vi uma, foi bem longe de casa, em Duque de Caxias, e era mais ou menos como estar vendo a garota mais popular da escola, à qual você pode até olhar, mas não tocar. Bom, certo, eu até toquei (na locadora, não na garota mais popular da escola). Fiquei ali, com as mãos pregadas na vitrine que exibiam as variadas fitas de filmes que eu nunca tinha visto. Lembro bem de ver um exemplar de Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu, e de ficar meio que hipnotizado.

Eu só teria meu próprio vídeo-cassete muitos anos depois, assim como locadora em meu próprio bairro.

Com o tempo, as locadoras locais foram pipocando aos poucos, surgindo aqui e ali, assim como também desapareciam de uma hora para outra, já que era e sempre será, um negócio arriscado.

Logo fui me tornando um assíduo frequentador das mesmas, pelos motivos cinematográficos óbvios e, em algumas, porque o lugar praticamente adquiria vida própria com a camaradagem de quem lá trabalhava. Um desses maiores exemplos era o de uma locadora onde conheci a atendende chamada Cristina. Sempre que eu ia lá, o lugar estava infestado de gente... que não alugava nada. Fui percebendo que era o carisma dela que os mantinha ali, dia e noite batendo papo.

Para minha surpresa logo descobri que o marido dela havia trabalhado no mesmo lugar que eu (a famigerada Fábrica de Biscoitos Piraquê), uns poucos anos antes. E, quando ela levou a filhinha dela ao trabalho, logo fiz amizade com ela também. Então, era quase como se eu fosse da família.

O dono da locadora era seu cunhado que, quase não ficava no local, e quando o fazia, a atmosfera ficava mais "pesada", já que ele não conseguia ter a mesma simpatia que ela, agindo sempre com o O Patrão. Mas, era divertido ver sua cruzada a favor dos filmes legendados, em um lugar onde as pessoas preferiam filmes dublados, muito disso devido a pouca instrução ou apenas o fato de que as pessoas queriam ver socos, pontapés e explosões, e não ficar lendo. Como diziam alguns, "se eu quisesse ler, não alugava um filme, pegava um livro".

Ele fazia isso devido ao fato de ter uma locadora na Zona Sul do RJ, onde o público era bem diferente daquele, e ele queria que as duas locadoras funcionassem do mesmo jeito. Óbvio que isso não daria certo. A única ação louvável dele era não aceitar as fitas piratas que certos "vendedores" ofereciam. Mas, isso também agia contra ele, já que as outras locadoras não tinham os mesmos escrúpulos.

Mais adiante, no bairro chamado Lote XV, uma outra locadora fazia concorrência, tendo duas atendentes, mais os dois donos - irmã e irmão - que tentavam se manter como a maior locadora daquela região. E até que conseguiam. Também evitavam fitas piratas e tinha uma organização impecável. Mas, com o tempo, houve uma ruptura entre os dois irmãos, que se diviram também em duas locadoras e, divididos, caíram os dois.

Enquanto isso, na Sala da Justiça... quer dizer, na locadora da Cris, as coisas também não iam muito bem e teve de fechar do mesmo jeito. Provando-se que nossa amizade se tornou algo bem além da locadora, ainda a visitava, passando algum tempo com ela e sua família. Infelizmente me mudei para longe e o contato ficou mais difícil.

Nesse meio tempo, uma locadora foi aberta no coração do meu bairro. Eu conhecia o dono - Nido - de longa data, mas nunca fomos de muito papo. Sem a locadora da Cris, meu novo recanto era por lá. Com ele, trabalhavam sua sobrinha, Giselle, e uma outra menina, a Gleyce.

A primeira eu já conhecia do bairro, desde que ela era criança. Mas, assim como acontecia com o Nido, eu não tinha grande contato. A Gleyce eu só conhecia de vista até então.

Nesta época eu alugava mais filmes do que podia assistir, então estava sempre por lá, e sempre ficávamos conversando por muito tempo. Giselle dizia que, devido a lidar com tantos filmes, e passar a assisti-los mais, um dia faria faculdade de cinema e, acabou fazendo mesmo. Não era apenas conversa.

Diferente da locadora da Cris, além das meninas, a alma do lugar também era o Nido. Brincalhão e piadista, quase nunca se aborrecia e, tratava as garotas não como empregadas, como como família, sendo que a Giselle era mesmo.

Outra diversão ali era ver algumas figuras "diferentes" que alugavam filmes como por exemplo, um cara com o apelido de Stallone. Por quê? Claro, porque alugava única e exclusivamente filmes do... Stallone. Mais nenhum outro.

Bom, a locadora não fechou (pelo menos não que eu saiba), mas eu me casei e me mudei do bairro. Assim, esta também ficou para trás. Vindo morar na Zona Sul do RJ, o estilo de locadora e de filmes para alugar mudou drasticamente.

Além dos lançamentos normais, e filmes de ação e comédia a que estava acostumado na Baixada Fluminense, agora haviam filmes mais "cults", filmes antigos que eu nunca tivera chance de assistir. Também o público era outro. Tanto que recebi dicas de filmes até mesmo de Othon Bastos, o ator. Ou seja, um público bem diferente mesmo.

Também foi aqui que vi o avanço do DVD de uma simples seção em um canto da locadora, para toda ela, em uns poucos anos. Assisti pela primeira vez filmes clássicos como Os Meninos do Brasil (a dica de Othon Bastos), Rastros de Ódio, Asas do Desejo, entre outros. Também perdi o preconceito com filmesde outros países que não fosse os EUA, principalmente filmes iranianos, que assisti e gostei. Ou talvez fosse apenas a falta de opção que me fizesse ter esse "preconceito".

Com a chegada da Blockbuster aqui ao lado, me associei, só que não é uma locadora para quem gosta de variedade. Dando primazia aos lançamentos, quando o filme se torna uns meses mais "velho" é jogado em um canto, sendo colocado em um estojo mais achincalhado, fazendo parecer que o filme é pior do que parece.

Quando a Cinéfilo apareceu, vi logo que era diferente. Os filmes novos e antigos tinham praticamente o mesmo destaque. Não havia uma categoria para "Nacionais", sendo que estes estavam de igual para igual com os outros filmes em Drama, Ação, Comédia e assim por diante. Mas, quando a locadora reduziu o horário, já era um sinal de que as coisas não iam bem. Talvez fosse o excesso de entregadores que tinham, não sei.

Só sei que no último dia 30, ao ir entregar o filme que estava comigo, a loja estava apenas semi-aberta, e escura. O atendente estava bem amuado e pegou a fita, já me explicando que estavam fechando as portas. Estranhamente senti como se fosse a perda de uma pessoa querida. Apesar de eu não ter grande amizade com os atendentes, a locadora em si, era aconchegante.

Por coincidência, o dia estava nublado e um vento frio tornava tudo mais triste. Eu estava à mercê apenas da falta de visão da Blockbuster.

Mais um pouco e eu poderia ver os créditos subindo e escutar a musiquinha que sempre fechava o seriado do Incrível Hulk.

THE END


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