quinta-feira, 27 de março de 2008

Jerusalem Jones e o Atalho

JERUSALEM JONES PORQUE PEGOU ESSE ATALHO?
Um Conto de Faroeste Além do Bem e Além do Mal



Esse é um daquele momentos na vida em que a gente se pega pensando: "Jerusalem, porque diabos, infernos recalcitrantes das chamas ardentes, você tinha de tomar um 'atalho'?". O cavalo morreu faz três horas e eu devo ver a luz nos próximos minutos. Eu devia pedir perdão por todas as coisas ruins que fiz, mas isso levaria horas. Eu queria só um gole d'água antes de morrer, mas isso seria um paradoxo, pois se eu conseguisse água, eu não morreria, pelo menos não agora. Paradoxo? Onde raios eu aprendo essas palavras esquisitas? Ai, o ceú da minha boca parece que sumiu e minha língua está parecendo uma lixa. Jerusalem, porque você foi pegar um "atalho"? Me diz, por favor!

Tudo começou quando eu recuperei o dinheiro que o bando dos Mullhoney roubou em Pecos City. Tá certo, recuperar envolveria devolver e eu não estava muito a fim de fazer isso. Estava com dívidas até o último fio de cabelo, algumas bem... mortais.

Ainda trago a sacola de dinheiro comigo. Daria tudo para que se transformasse em um copo d'água. Esse sol não é normal. Meu Deus, posso sentir meus rins fritando.

Quando eu fugia com os Mullhoney em meu encalço, resolvi atravessar o deserto, achando que conhecia um atalho por aqui. Acho que confundi os desertos. Este é mais longo, agora eu sei. E eu vou morrer. Morrer sem ter escrito um livro, plantado uma árvore, e nem tido um filho. Oh, Deus, eu estou delirando. Como eu poderia ter um filho? E eu nem gosto de árvores e quase não sei escrever. De onde vêm essas coisas na minha cabeça? Vou morrer de sede. Mas preciso continuar andando, quer dizer, me arrastando, quem sabe acho alguma maldita poça de águaaaaaaaaa.

Eu não queria morrer assim. Na verdade, não queria morrer de jeito algum. Mas menos ainda assim, sem dignidade, sem puxar o revólver, apenas sentindo o corpo secar até não ter mais uma gota de líquido. Já enfrentei tanta coisa pior e sobrevivi. Por que eu fui pegar um atalho? Oh, Jesus!

Jesus?!

- Não, não, amigo, eu só pareço com ele. Todo mundo confunde.

Mas que Diabo...?!

- Oh, ele, também não é o tal! Ele faz isso de brincadeira, detesto quando ele faz. Atrapalha o nosso trabalho.

- Eu gosto. Você que não tem senso de humor!

- Senso de humor? Chuva por quarenta dias e quarenta noite e obrigar um velho e limpar merda de milhares de bichos, é senso de humor?!

- Ah, vai! Foi engraçado, admita.

- Engraçado foi o teu castigo depois.

- Ah, isso não vem ao caso.

O que está acontecendo aqui? Quem são vocês. Eu já morri, ou só tô delirando?

- Bom, se não deu pra perceber ainda, eu represento o cara lá de cima, e ele aqui, pode ver pela fantasia ridícula que propaga o mito do mau gosto, representa, - aponta pra baixo - o fundo do poço.

- Porque você sempre tem que ser metido assim?

- Por que eu posso!

O que... o que vocês querem? Por que estão aqui? Porque estão falando e me deixando com dor de cabeça?

- Querido, é o seguinte: devido a suas, digamos, muitas peripécias, sua alma se tornou um tanto quanto valiosa. Essa coisa, essa cicatriz que você tem no pescoço - (Jerusalem foi mordido por uma zumbi, mas sobreviveu graças à magia indígena) - deixou você sem um lugar exato.

- Resumindo - coisa que você parece não conseguir - se você morrer aqui e agora, tua alma não vai pra lugar algum, e isso não é lá permitido. Porém, não é permitido, também, que o ajudemos de alguma forma.

Porque diabos estão aqui então se não podem fazer nada?

- Hmm, querido, apenas para impedir que uma terceira "pessoa", que nunca foi mencionada antes, leve-a.

- É, eu e o barbudo aí, estamos em uma espécie de trégua, porque esse negócio de Bem e Mal, bom, vocês humanos realmente estão por fora do que realmente acontece e se tua alma, meio zumbi, meio humana, for capturada, digamos que nossos dois lados vaõ estar com problemas sérios.

- Sim, querido, você resolveu morrer justamente quando ele aparece, uma vez a cada um bilhão de anos. Você é azarado assim mesmo, ou esse é o seu normal?

Enquanto os dois ainda tagarelavam, o ceú ficou da cor de algo que nunca vi antes. O dia, que estava ensolarado, não ficou nem escuro, nem claro, não era mais dia, ou noite, era outra coisa, que eu não conhecia. Um grito estridente quase me ensurdeceu e atirou o que parecia Jesus contra as rochas e enterrou o cara fantasiado de Diabo, bem fundo na terra. Mas não havia nada fazendo isso, aparentemente.

Os dois conseguiram voltar e começaram a se posicionar, como se fossem começar algum tipo de luta. E aquela coisa que eu não conseguia enxergar, parecia estar em posição de combate também. Os dois correram naquela direção e começaram a desferir golpes contra o "Nada", mas eu podia sentir que o "Nada" revidava e muito bem. Aquilo me fez sentir medo pela minha alma, pela primeira vez até aquele momento.

O "Jesus" levou um golpe que quase arrancou sua cabeça, e o "Diabo" o socorreu, mas logo foi atravessado pelo lado por uma espécie de lança invisível e levantado no ar. Logo entendi o que ia ser feito, ele ia ser destroçado contra as pedras. "Jesus" voltou a si e lançou uma espécie de raio que encheu o ar de... pães e peixes?!

- Ops, golpe errado. O chefe vai me pegar por isso!

Em seguida ele foi arremessado longe novamente. O "Diabo" agarrou o ar e parecia que ele tinha segurado o braço daquele "Nada". Gritando alguma coisa, que parecia ser "Agora!", eu vi ele conseguir girar o "Nada" na direção do "Jesus", isso com tanto esforço que ele caiu, desmaiado. Quando aquela massa imensa de "Nada" foi na direção do Cara-Jesus, ele gritou alguma coisa com tanta força e tão alto na direção daquilo que quase fiquei surdo. Não entendi o que foi dito. Mas logo o "Nada" desapareceu como se fosse sugado e senti tudo o mais em volta ser, inclusive eu. Mas ficamos no mesmo lugar. "O Jesus" estava... chorando.

- Eu... eu não podia fazer aquilo, mas era o único jeito.

O que foi que você fez?

- Eu... eu desmorri aquela coisa. Aquilo não tem vida, é algo não-vivo, mais antiga aque o Próprio Chefão. Eu apenas dei vida, o "ressuscitei", e o choque de estar vivo, como a Vida é conhecida, o enviou de volta, por pelo menos mais um bilhão de anos. Acho que até lá já resolvemos o seu problema.

E o seu... seu... é...?

- Meu "parceiro"? Bom, ele se sacrificou. Está morto. Morto mesmo. Ele não existe mais. Mesmo ele não sendo do mesmo lado que eu, isso ainda é algo triste de acontecer.

E eu vou morrer aqui no deserto?

- Isso não seria bom de acontecer agora, mesmo com a ameça debelada.

E o que você vai fazer?

- Já disse não podemos interferir. Só podíamos deter aquilo, era nossa missão. Mais nada.

Então, vou morrer sem um destino pra minha alma. Porque fui pegar aquele maldito atalho?

- Sabe, eu não posso fazer nada. Mas quem disse que não chove no deserto?

Eu não tinha percebido que, apesar de tudo ter voltado ao normal, o ceú estava cheio de nuvens pesadas, e senti quando começou a chover.

- Eu estou cansado, e só quero beber um pouco de vinho. Adeus, Jerusalem Jones. Não posso dizer que foi um prazer conhecê-lo.

A chuva caía torrencial e aquele cara que se parecia com Jesus, foi andando na chuva, enquanto tirava um copo sei lá de onde, enchia de água da chuva, a água se tornava da cor de vinho, ele bebia um gole e sumia na tempestade.

Bebi água das poças, me coloquei de pé e fui em frente. Só depois de alguns minutos percebi que o saco de dinheiro não estava mais comigo. Lembro do homem estar levando-o consigo. Puto da vida, só consigo dizer:

- Oh, Jesus!!!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Cardume de Essex


O CARDUME DE ESSEX

Algum lugar de Nova Londres, hoje:

Escapamos dos Laboratórios Essex Inovations. Restaram apenas 12 de nós dos 45 que conseguiram sair de lá. Não conseguimos nos separar, corremos como peixes em um cardume. Parece que nos tornamos dependentes uns dos outros, apesar de não nos conhecermos. Eu, além disso, arrasto comigo alguém que penso ser meu irmão. Salvei-o algumas vezes durante a fuga, mesmo colocando em risco minha própria vida. Não o conheço, mas sinto essa ligação fraternal que me impede de deixá-lo para trás.

Como cardume que somos, pulamos cercas, atravessamos casas, conseguimos alguma comida, e continuamos a fugir, sem ter a mínima idéia para onde ir, mesmo sentindo que há um lugar para se chegar. Assim como eu, todos os outros parecem não ter mais recordações. Somos todos amnésicos. O mais estranho é que sei disso mesmo sem conversarmos. Fugimos em silêncio. Não fizemos planos. Foi como se cada um de nós soubesse o que o outro pensava.

Não sobrou viva alma no laboratório. Matamos todos. Sem piedade. A mesma falta de piedade que tiveram conosco em suas experiências. Os 33 não foram mortos por ninguém de lá. Alguns foram atropelados, outros tiveram reações adversas assim que saíram, morrendo em seguida, e ainda outros simplesmente evaporaram. Gritos de terror foi a única recordação que deixaram. Eu garanto, nunca vou esquecê-los, os gritos.

A polícia nos perseguiu por um tempo, mas logo conseguimos despistá-los. Os que sobreviveram, claro. Estou imerso nessas recordações que ganho a cada minuto que passa, quando uma das garotas é alvejada por um morador. Ela morre agonizando e seu corpo se eletrifica e derrete. Não é nada bonito de se ver. Meu pequeno irmão olha para aquilo sem nenhuma emoção. O morador é estripado por um dos 11 que sobraram.

Continuamos correndo, o cardume de humanos, ou de algo que um dia foram humanos. Atravessamos uma casa, derrubando a porta. Pegamos alguma comida. Por sorte dos moradores, eles não estão em casa. O mesmo que matou o atirador, porém, se diverte matando o cão, no quintal. Ele nos atrasa.

Por alguma razão eu não entendo porque não há helicópteros nos perseguindo. Não sei como estou ciente disso, já que minhas memórias parecem ter sido apagadas. Talvez não sejamos tão importante para as pessoas comuns. Apenas para os nossos algozes do Essex Inovations.

Meu irmãozinho se machuca ao pular uma das cercas, mas não esboça nenhuma reação. Com a pressa que estamos, não posso parar para cuidar de seu ferimento, e como ele parece não se importar, deixo para cuidar disso quando chegarmos, seja lá onde for.

Um dos 11, do nada, começa a evaporar. Seu grito é inumano. Porém, isso é redundante. Ele é inumano. Corremos mais rápido ainda. Restam apenas 10 de nós 6 rapazes e 4 garotas. A maioria não se abala com os que ficam para trás. Meu irmãozinho menos ainda.

Estamos correndo por uma área sem casas, e atravessamos um pequeno bosque. Talvez seja um parque. Mas, logo encontramos um muro alto, que precisamos pular. Meio que instintivamente, uns ajudam os outros, e todos conseguimos. Do outro lado, porém, ao corrermos sobre a grama que fica em volta de um pequeno prédio de três andares, explosões terminam com a vida de mais 4 do grupo. É um gramado minado. Que louco deve morar em um prédio cercado por minas?

Um de nós ainda pisa em uma das minas, é jogado longe pela explosão, mas levanta e continua correndo. Eu e meu irmãozinho não pisamos em nenhuma. Chegamos ao muro do outro lado e os 6 de nós que sobraram, novamente se ajudam e novamente pulamos. O silêncio chega a ser irritante.

Quando chegamos ao outro lado, o espaço em volta é totalmente desprovido de casas, árvores ou prédios. Parece uma grande pista de corrida. Mesmo sabendo que aquilo é muito estranho, eu não consigo voltar. Afinal, voltar para onde? Preciso ir em frente como os outros 4 já o fizeram. Olho para meu irmãozinho e ele não esboça nenhuma sugestão. Seus olhos são desprovidos de qualquer emoção.

Então, começo a correr, e é nesse instante que me dou conta de algo: eu não estou cansado. Ninguém parece estar. Corremos há tantas horas que perdi as contas. Mesmo assim não sinto um pingo de cansaço. No meio daquela grande pista de corrida, um do rapazes é atingido por algo como um relâmpago. Em chamas ele ainda continua por um bom tempo, para ir parando, caindo de joelhos e, por fim, batendo no chão, com um baque surdo, e o corpo totalmente queimado.

Obviamente coisas estranhas esperam os 5 de nós que restam. E não demora a acontecer. Eu quase sou atingido por farpas que vêem de lugar algum. Os outros são atingidos, cambaleiam, mas continuam. As farpas parecem conter alguma coisa. Eles se ajudam, arrancando-as uns dos outros. Mais explosões, relâmpagos, gás pelo meio do caminho, metralhadoras que aparecem dos lados do caminho, luzes estroboscópicas cegantes e em seguida fogo vindo do céu. Escapamos a tudo, os 5.

Talvez isso aqui seja o inferno, e sejamos os maiores pecadores de todos os tempos. É a única coisa que consigo pensar.

Tudo aquilo consegue nos cansar, finalmente. Caímos exaustos e machucados. Meu irmãozinho tem tantos ferimentos que era pra estar morto. Mas não está. Eu estou quase do mesmo jeito e os outros estão em pior situação, mas vivos. Além do cansaço, sinto uma outra coisa. Uma sensação de término, do fim de alguma coisa. Como se tivéssemos chegado. Mas onde? A pista de corrida terminou e apenas uma parede branca se encontra a nossa frente. Não há como pular ela, e eu nem mesmo quero tentar.

É quando uma porta se abre na parede branca e um grupo de pessoas a atravessa. São... são os cientistas que matamos, dos Laboratórios Essex Inovations. Uma voz em um alto-falante anuncia:

- Testes de clone-andróides concluído: simulação de fuga 9,8; fuga em campo aberto 7,1 (intervenção inadequada da polícia local influiu na pontuação); campo minado 6,5; pista de combate 8,9. Simulaçao de preocupação e zelo, do clone andróide 16 para com o clone-andróide 16b 9,9.

Estes dois últimos serão estudados para aperfeiçoamento de Inteligência Artificial ao nível 8.

Clone-andróides restantes são os aprovados para produção em massa para usos variados.

Ouço aplausos. Mas não são para nós. Estão se cumprimentando entre si. Na minha mente, penso que esta situação seria uma em que eu deveria começar a chorar, mas não consigo, e sei o porquê agora.

Olho para o que deveria ser meu irmãozinho e seus olhos mortos não me fazem sentir remorso do que vou fazer. Quando os seguranças do laboratório vêm nos desligar é tarde demais. Eu torço os pescoço do garoto e o "mato" . Alguém grita:

- NÃO ATIREM, RETARDADOS! NÃO NESTE! AINDA PODEMOS USÁ-LO!

Um dos seguranças, talvez um viciado em ação, não escuta, ou não entende a ordem, ou talvez as duas coisas, e atira bem na minha cabeça, como eu esperava.

Caio estrebuchando, mas ainda funcionando por alguns segundos. Vejo alguém que está de terno, e não de jaleco, correr e empurrar o segurança que atirou. Vejo seu rosto, e é como olhar um espelho. Então entendo o que significa o termo "clone-andróide", e apago.

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