terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Náufrago


O NÁUFRAGO NA CANECA DE CHÁ GELADO
Título Surrealista Para Que Pareça Inteligente

Quando percebi já era tarde demais. Certo, só tenho essa frase para começar. Mas, quem disse que eu preciso de algo mais além disso? Tudo bem, eu preciso de algo mais além de "quando eu percebi já era tarde demais". Não posso criar um texto de memórias, um conto, nem mesmo uma receita de frango apenas com essa frase. Mas, tudo tem que ter um começo, mesmo que este começo não signifique absolutamente nada. Sério. Eu não tenho nada para escrever além da frase do início do texto. Mas, podemos tentar...

Quando eu percebi já era tarde demais. A lente dos meus óculos caiu bem no meio da travessia, no sinal vermelho. E ele abriu. Ela caiu e não quebrou mas, assim que tentei voltar pra pegar, o sinal abriu e, vocês sabem, ela virou pó de lente de óculos.

Bom, não é realmente um grande começo. Estou me baseando na lente esquerda do meu óculos que sempre cai, devido ao parafuso que vai afrouxando de vez em quando. Já mandei apertar várias vezes, mas acho que só um novo óculos vai resolver. Afinal, o preço das armações está pela hora da morte. Quase o preço do óculos inteiro.

Desolado, tirei os óculos do rosto e coloquei no bolso do short. Eu não fico cego sem ele, nem nada, mas é incômodo. Quando o sol está forte, tudo bem, eu enxergo melhor. Mas quando vai anoitecendo, o sol cai e tudo fica mais triste, aí a coisa pega. Eu não enxergo quase nada de longe. E, para piorar, eu estava bem longe de casa, tendo muitos sinais ainda para atravessar.

É tudo verdade o que está escrito no parágrafo acima. Digo, sobre a minha visão. Isso realmente acontece. E é incômodo. Nada que dê para escrever um tratado sobre a cegueira, mas rende pelo menos um parágrafo para encher linguiça. Se você chegou até aqui, não deve estar entendendo nada. Mas isso é pelo fato de que realmente não há nada para entender.

Quando olhei para os carros passando, um raio do sol refletiu no pára-brisa de um deles, me deixando tonto. Sim, agora eu estava quase cego mesmo. Uma dor de cabeça se alojou no meu córtex cerebral e eu nem mesmo sei o que é córtex cerebral. Tudo bem, essa piada já é velha. Mas eu estava mesmo com um problema. Me sentei em um banco de concreto para esperar tudo aquilo passar. Coloquei a cabeça entre as mãos, como se aquilo fosse adiantar alguma coisa. Senti alguém me cutucando e quando olhei era uma senhora que perguntou: "Porque está chorando, meu rapaz?". ia dizer que não estava chorando, mas nem pude começar, porque ela sumiu bem na minha frente.

Entenderam? O segredo é pegar a única frase que me vem à mente ("Quando percebi, já era tarde demais") e começar a escrever como se eu realmente soubesse o que estou fazendo, quando na verdade não sei. Junto um pouco da minha realidade, com um bocado de fantasia. Sendo que pode ser uma fantasia modificada em realidade, ou vice-versa. Não que isso sirva de alguma coisa, mas dá pra preencher bons espaços em um blog meio paradão. Se não aguentarem ler, sempre se pode ver outras coisas por aqui.

Não queria pensar muito no que aconteceu. Queria apenas chegar em casa, deitar, dormir e esperar o dia seguinte para comprar um novo óculos. Mais um. Afinal aquela não era a primeira vez que eu via meus óculos serem estraçalhados. Eu já os pisei, derrubei, levei bola na cara, pisei de novo, e assim sempre tenho que dar lucro às ótic... hã? Quando olho em volta, não estou no mesmo lugar mais. Minha cabeça agora lateja de tanta dor. Por um instante algo me vem à cabeça, ninguém usa isso de "meu rapaz", só em filmes e livros. Olho em volta e o lugar tem prédios, carros, ruas, pessoas e tudo mais. Mas não é, com certeza, o mesmo lugar. Limpo demais, brilhante demais.

Por um instante eu volto a não ter mais o que escrever. Perco o fio da meada e a história que não existe, passa a existir menos ainda. Quem se importa? Bom, eu. Agora que comecei tenho de dar um jeito de terminá-la. Isso não é fácil. Talvez eu apenas tenha que disparar, como um jogador de futebol, esperando não ser derrubado antes de marcar o gol. Ou, ao menos, chutar. Já seria alguma coisa.

Fico me lembrando dos sonhos que venho tendo. Aqueles em que eu, dentro deles, percebo que estou sonhando. Será que é algo assim? Acho que não. Neles eu sei com toda certeza que é sonho. Aqui eu sei que é realidade. Uma realidade diferente da que eu conheço, mas ainda assim realidade.

De repente me dou conta de uma coisa. Uma coisa engraçada. Estou no mesmo lugar, eu apenas estou enxergando bem sem os óculos. Pisco várias vezes, olho o letreiro dos ônibus ao longe e consigo lê-los. Meus óculos estavam defasados, eu sei. Talvez seja isso. Mas e a senhora-fantasma? O que foi aquilo?


Mais um pouco de realidade. Meus óculos estão defasados mesmo e eu realmente preciso trocá-los independente de as lentes estarem caindo ou não. Sim, eu estou enrolando vocês, ganhando tempo e tentando inventar um epílogo decente para uma história que começou com uma frase solta e sem sentido. Não se espantem, 90% dos meus textos são escritos assim.

Quando lembro da senhora, uma a uma as pessoas que estão nas ruas, vão sumindo. Quase posso ouvir um "POP, POP, POP" de cada uma delas ao desaparecerem. Nesse momento minha cabeça já parece uma uma bomba de sucção. Eu quase podia sentir a veia na testa latejar. Fui na direção de casa sem me importar com as pessoas (e agora as coisas) sumindo ao meu redor. Apenas segui a reta que daria em casa.Quando avistei meu prédio, ele fez "POP!" e... claro, sumiu.

Chego ao momento crucial: que tipo de bobagem devo escrever para terminar isso e ter valido a pena todo esse esforço em chegar até aqui? Tudo sonho? Não. Já mandei essa demais. Efeito de remédios tomado em demasia? Essa também está batida. Ter caído e batido a cabeça na quina da mesa? Acho que já usei essa também? Sabe o que é pior? Eu não faço a mínima idéia e isso é que torna a coisa toda emocionante. O problema é que o suspense me mata!

Fico parado, como uma esquálida figura num vitral fosco de uma igreja em ruínas - nossa, de onde eu tiro essas coisas? Enfim, eu estava sem entender. Eu não estava dormindo, não estava sob o efeito de remédios em demasia, nem havia batido a cabeça na quina de nada. Foi quando me dei conta de toda a cruel verdade: eu estava preso em um texto escrito à força por mim mesmo, em que cada coisa era dita apenas para chegar a um final chocante. Sabendo disso, caminhei em direção ao prédio, que eu não mais via, tirei a chave da bolsa e abri a porta que não mais existia.

Por um instante pensei no final de "O Incrível Homem Que Encolheu" e em seu discurso emblemático, quando por fim ele se dá conta que mesmo encolhendo até o infinitesimal, ele ainda existe. Me dou conta de que mesmo sendo apenas um proto-personagem de mim mesmo, num texto que antes não existia, bom, eu agora existo, e todas as coisas ao meu redor. É quando tudo volta ao seu lugar, e é quando posso pôr nessa história um...

FIM


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A Era do Rádio


A ERA DO RÁDIO EM MINHA VIDA
Uma Época Vivida Quase Toda em AM


Sentem-se crianças, para "escutar" a história de um tempo em que não havia televisores (para alguns) e nem Internet... para ninguém! Não, não precisa soltar um grito de horror, você já está crescidinho demais para isso. Mas, é a verdade, e isso nem mesmo faz tanto tempo assim. Não foi após a extinção dos dinossauros, nem depois da queda do Império Romano. Foi há pouco tempo, bem antes de você nascer, o que faz parecer que é muito tempo.

Minhas lembranças do rádio são muito confusas e se entremeiam muitas vezes com a falta de uma TV em casa. Porém, acho que isso nem sempre foi verdade. Creio que eu escutava rádio mesmo tendo uma TV na sala. A mania de escutar certos programas de rádio eu sei que aprendi com meu pai. Claro que transmissões de futebol não eram comigo. Afinal, o que diabos aqueles locutores estavam falando?! Os jogadores nem se moviam tão rápido quando a língua daquele pessoal.

Não, isso não era para mim. Nunca gostei de futebol (com excessão da Copa do Mundo, como a de 1978, por exemplo). O que herdei de meu pai foi o programa A Turma da Maré Mansa. Era uma espécie de A Praça É Nossa no rádio, só que engraçada. O nome vinha do patrocinador oficial do programa, a loja de roupas (onde, aliás, meu pai sempre comprava suas roupas em várias prestações) A Impecável Maré Mansa.

Mesmo assistindo aos Trapalhões - que na época eram engraçados, e não esse arremedo de humor chamado Turma do Didi - eu ainda me fascinava pelo humor ágil do programa de rádio. Devido ao tempo decorrido e à minha péssima memória, é difícil relembrar os quadros, mas sei que em sua maioria, eram todos bem engraçados. Um que me lembro bem, era chamado "De Barroso a Burroso", onde um ator representava um personagem muito burro. Muitos dos atores, eram os mesmo que atuavam - ou viriam a atuar - em programas de humor da TV.

Por incrível que seja, quando fiquei adulto, ainda andei comprando umas roupas na tal loja que dava nome ao programa. Era como se isso fizesse parte de algum ciclo estranho que começou com meu pai.

Outro ícone do rádio que fez parte da minha vida - e da de muita gente, com certeza - foi a Rádio Relógio. Queria acertar o relógio corretamente e escutar curiosidades? Era só levar o dial até a Rádio Relógio e escutar algo como "14 horas... 28 minutos... zero segundo... tu... tu... tu... você sabia que... o Orangotango da Malásia é originário da África?" Ou algo assim.

Os sessenta segundos até o próximo minuto a ser dito, eram preenchidos por essas curiosidades, como uma distração para que a pessoa não ficasse de saco cheio enquanto esperava saber a hora exata. Vou te dizer, aprendi muita coisa ali, que infelizmente, esqueci todas.

Mas, claro que no rádio, assim como em tudo na vida, as coisas não eram flores, e tínhamos - e temos até hoje - a famigerada Hora do Brasil todo dia às 19:00, quando toca aquele hino e o rádio fica(va) uma hora sem poder ser ouvido, pois só vinha besteirada política e notícias chatas. Mas, nada que não fosse curado às 21:00 hrs, quando começava A Turma da Maré Mansa.

Mesmo o rádio estando acessível via Internet, eu não escuto, como gostava de escutar quando criança. É interessante ver como a tecnologia não consegue exterminar com algumas coisas, como alguns pensam que vai acontecer sempre que esta surge. Minha mãe ainda ouve, religiosamente, ao meio-dia à Patrulha da Cidade, um programa onde as notícias (geralmente sobre crime e violência) são encenadas de forma hilária. E, em lugares remotos, onde a TV ainda é um luxo e a Internet é um mito, as pessoas ainda dependem do rádio para se distrair e saber das notícias.

Ainda falando sobre a Internet, é engraçado ver como os podcasts são como programas de rádios feitos por amadores e pessoas que entendem um pouco de edição de som. É a tecnologia reciclando velhas idéias em novos formatos. E assim tudo acaba se transformando e retornando. Só os dinossauros não retornam.

Bom, crianças, esta foi mais uma história do Vovô Eudes e a Fantástica Fábrica de Delíros da Memória. Até a próxima e se escanear não beba, e se beber tome um Engov.

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