segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Barbatana da Baleia


A BARBATANA DA BALEIA Um Conto Além do Seu Tempo


Eu saltei. Saltei mas não sei em que lugar estou, nem em qual época. Depois de um certo tempo de confusão mental, consigo algumas roupas e me misturo aos transeuntes. Estou em um porto movimentado. Para piorar tudo, estou em outro país, é o que fica óbvio, quando noto que não entendo o que nenhum deles diz. Quando alguém fala comigo, gesticulo dando a entender que sou surdo-mudo.

Mesmo estando aqui, ainda não estou seguro. A única coisa que consigo pensar é que, talvez em alto-mar não consigam me alcançar. Então, com muita dificuldade, consigo entrar como clandestino em um dos navios que está para zarpar. Não sei para onde ele vai, mas isso não faz diferença, pois também não sei onde estou. Só preciso me distanciar o máximo possível, pois eles ainda podem seguir o residual do meu salto e enviarem os sectrônicos.

Me escondo em um dos botes, enquanto recapitulo tudo que aconteceu nas últimas horas. Horas essas que estão séculos à frente. Eu avisara a toda equipe, mais especificamente a Sara, que tudo estava desandando, que era óbvio que a pesquisa sobre viagem no tempo não tinha nada a ver com filantropia. Era dinheiro demais sendo gasto, para que não houvesse um retorno. Quando nos demos conta de para o que seria usada a viagem no tempo, era tarde demais. O projeto estava sendo monitorado e, quem sabe, financiado, por agências sem escrúpulos de um governo quase totalitário, que parecia querer agora, dominar o continuum temporal.

Para testar minha teoria, eu enviei os resultados finais de nosso último teste, sem que esses fossem, necessariamente os últimos. Como apresentavam resultados razoavelmente satisfatórios, eu enviei os crono-vídeos para o chefe-geral do Projeto Big Ben - que nome idiota - e isso resultou em uma catástrofe imediata.

Eu sabia dos projetos com robôs-insetos, os sectrônicos, do nível 6, mas achava que fossem para combate a pragas em plantações, ou algo parecido. Quando um enxame deles invadiu todos os setores do laboratório, matando cada cientista, pesquisador, faxineiro, cada pessoa que sabia do projeto, eu vi que era tarde demais, eu vi que isso não teria um uso humanitário.

Não pude salvar Sara, que morreu agonizando, com picadas de insetos-robôs. Quando vieram em minha direção, acionei o relógio que construí às escondidas, e que - em teoria - deveria fazer com que eu viajasse no tempo. Como não tive tempo de testá-lo, as coordenadas seriam aleatórias. Eu poderia acabar cravado dentro de uma montanha, em algum lugar do futuro ou do passado. Ou simplesmente o relógio poderia não funcionar. Antes que eu fosse morto, no entanto, não quis saber de nenhuma dessas possibilidades, apenas acionei o relógio e fui sugado por um buraco-temporal, vindo parar aqui. Mas, com o projeto quase concluído, eles poderiam vir atrás de mim, de algum modo.

Claro que não poderia permanecer muito tempo escondido, eu precisaria comer e tudo mais. Assim, quando já estávamos bem longe do porto, eu dei um jeito de ser descoberto, sem saber qual seria a reação. Depois de muita gritaria e o que pareciam ser ameaças de me jogarem ao mar, o capitão pareceu entender que fazer isso a um "surdo-mudo" poderia não trazer boa sorte ao navio, e pude ficar. Alguém me deu um balde e um esfregão e entendi quais eram as condições para minha permanência.

Meu destino era incerto. Eu estava perdido. Provavelmente para sempre.

Os dias passavam e se transformavam em semanas e meses. Fiquei doente e quase morri. O mar não era um lugar para alguém que foi cientista quase sua vida toda. Melhorei, mas não graças a nenhuma ajuda. Consegui usar algumas coisas que pedi ao capitão, para fazer remédio. Ele acabou ficando feliz, pois serviu para outros homens os quais ele não podia perder em sua tripulação.

Pelo que eu podia entender estávamos em uma espécie de expedição para chegar a algum lugar inexplorado, ou algo assim. Mais dois navios seguiam conosco, e os remédios serviram para eles também.

Certa noite, esquanto estava no convés, um zumbido me assustou e pude ver que havia sido encontrado. Os sectrônicos enfim conseguiram me achar, apenas eles não sabiam quem eu era, apenas onde eu estava. Para se certificar que eu seria morto, estavam programados para matar a todos. Uma gritaria tomou conta no navio. Era algo horrível. Eu tentei me proteger usando um dos botes salva-vidas, mas era óbvio que iriam atravessá-lo em poucos minutos. Tudo parecia perdido.

Lembrei do relógio, o qual eu resolvera não usar mais, pois poderia não ter a mesma sorte. Havia tirado do pulso e o levava em uma sacola pendurada ao cinto, para que não suscitasse nenhuma pergunta que eu não poderia responder. Quando pensei em usá-lo, vi que um par de sapatos se aproximava do bote onde eu estava. Alguém veio junto com os sectrônicos.

- Olá, Bert. Demorei para te encontrar. Bom, não vim para te matar, pois precisamos de você. Os insetos só tinham de te encontrar. A matança é apenas coisa do "instinto" deles, meu caro. Preciso levar você de volta. Só poderíamos fazer uma única viagem e nada mais. O que você deixou pronto nos permitia isso, porém, para prosseguir precisamos de você. O que aconteceu lá foi um mero engano. Você não ia ser morto, precisávamos de você e de mais ninguém. E você tem a minha palavra de que poderá terminar o Projeto em segurança. Vamos?

Era o chefe-geral, Kyle Sneich. Ele devia estar desesperado pra vir pessoalmente atrás de mim. Devem ter levado meses para me encontrar e usar a única viagem que tinham. Provavelmente ele tem a porta de segurança para voltar, e vão me obrigar a terminar o Projeto, para seguirem como planejavam.

Ele levantou o bote onde eu estava escondido. Antes de ficar de pé, tirei o relógio de dentro da sacola. Os insetos continuavam a chacina no navio.

- Muito bem, Bert. Podemos usar a porta de segurança e voltar para...

Nessa hora, no meio da noite fria, com os gritos ecoando pelo navio, um barulho na água se fez ouvir. Quando nós dois olhamos pela amurada, vimos a barbatana enorme do que parecia ser uma baleia. De repente ela começou a cantar, aquele canto de baleias que só se ouvia em velhos arquivos de som. Aquilo preencheu o ambiente, e os sectrônicos começaram a cair como moscas. O trocadilho não é intencional.

Aproveitando toda aquela distração, eu enfiei o meu relógio no pulso de Sneich e apertei o botão. Sneich ainda tentou se desvencilhar, mas foi sugado num clarão e jogado em algum lugar que, provavelmente sem sorte, poderia muito bem ser o interior de uma montanha. Assim espero.

A porta de segurança que veio com ele, desapareceu. Eu poderia ter entrando nela, mas... não quis. Eu não tinha mais futuro. Sara estava morta mesmo.

Fui ajudar ao marujos sobreviventes. Tivemos muitas perdas. Com os insetos desativados, eu consegui juntar todos e jogá-los ao mar. Eu era o único que tinha coragem de fazer isso. A maioria olhava como se estivesse vendo algo sobrenatural.

Sem o Sneich e sem mim, o Projeto seria esquecido, ou pelo menos não seria posto em prática tão cedo. Quem sabe até lá, o governo fosse derrubado e um melhor tomasse o seu lugar. Mas isso não me dizia mais respeito. Eu era um marujo em um tempo e lugar desconhecidos. Era hora de começar uma nova vida. Foi pensando nisso que escutei o vigiar gritar:

- TERRA À VISTA!

Mesmo sem entender o que ele dizia, entendi o significado e olhei para o horizonte, e pude ver que um novo tempo estava começando.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Coisas Que Não se Esquece


COISAS QUE A LEMBRANÇA NÃO DEIXA ESQUECER Relembrando Quando Eu Ficava Doente ou Espirrava


Emplastro Sabiá - Era estranho ver meu pai sem camisa, com aquela coisa colada ou no tórax ou nas costas, ou nos dois ao mesmo tempo. Não fazia idéia - e nem mesmo me perguntava - para que aquilo servia. Tinha um cheiro peculiar. Como ele possuía vários furos, era engraçado ver que, depois que tirava, meu pai ficava com aquelas áreas com a marca do emplastro, com aqueles furinhos.

The Internet says: O Emplastro Sabiá era um adesivo pra resolver problemas de reumatismo ou coisas assim e podia ser facilmente comprado nas farmácias em qualquer tamanho. Era feito a partir de um tipo de tecido altamente resistente e possuia um lado auto-adesivo, tão forte quanto a temível fita "teipe" (a fita cinza pra consertar tênis e prancha de surf). Fonte: Bateria Gope.

Merthiolate - O terror dos machucados. Se machucar tinha dois grandes problemas: o ferimento em si, e a hora em que minha mãe diria, "vamos passar o métiolati". Era como uma sentença de morte e eu já começava a chorar por antecipação. Não havia sopro que fizesse parar aquela ardência dos infernos.

The Internet Says: Merthiolate é um anti-séptico a base de Digluconato de clorexidina que era fabricado pela Lilly, e hoje a marca pertence a DM Indústria Farmacêutica Ltda-SP. Fonte: Wikipédia.

Biotônico Fontoura - Quando bebê, eu era daqueles roliços, mas conforme fui crescendo, fui emagrecendo, e fui magro por boa parte da minha vida. Daí que minha mãe achava que aquilo era falta de vitaminas ou algo assim. Assim sendo, haja Biotônico Fontoura. Devemos ter sido um dos maiores consumidores do tal xarope que prometia milagres, como aumentar o apetite. Bom, não sei se aumentava, mas como o negócio era gostoso, pelo menos ele a gente tomava tudo, nas horas certas ou não.

The Internet Says: O Biotônico Fontoura foi um medicamento fortificante e antianêmico criado em 1910 pelo farmacêutico brasileiro Cândido Fontoura. O slogan do produto era Ferro para o sangue e fósforo para os músculos e nervos e seu jingle era Bê, á, bá. Bê, e, bé. Bê, i, Bi..otônico Fontoura!. Sua fórmula original continha 9,5% de álcool etílico e mesmo depois de alterada continua sendo considerada inútil , segundo alguns especialistas da área. Fonte: Wikipédia.

Boldo - É uma planta de folhas beeeeem amargas. Mas se estivesse com problemas digamos, hã, intestinais, era só pegar aquilo, esmagar num copo, e beber... de um gole só. Nossa! De início minha mãe que insistia mas, com o tempo, talvez por achar que dava resultado, eu mesmo já ia lá no quintal, pegava as folhas e manadava ver. Por pior que fosse o gosto, era melhor que uma dor de barriga.

The Internet Says: Boldo é um fitoterápico que é indicado como auxiliar no tratamento de doenças hepáticas e da vesícula biliar, tônico das funções hepáticas e como laxativo. O boldo diminui a cólica e aumenta e favorece o fluxo biliar, sendo indicado para distúrbios da função digestiva e problemas leves no trato gastrintestinal como má digestão, gases e intolerância à gordura. Fonte: Copacabana Runners.

Romã - Outra plantinha que era boa pra ter no quintal. Era só ter dor de garganta que lá vinha minha mãe com a frutinha, da qual ela tirava a polpa cheia de carocinhos, fazia um chá que eu tinha que esperar amornar e lá ia eu fazer gargarejo de romã. A boca ficava esquisita depois disso, como se eu tivesse mastigado areia, ou algo assim, mas o pior era que funcionava.

The Internet Says: A Romã é uma fruta oxidante, mineralizante e refrescante. A romã é utilizada para acabar com rouquidão, afecções da boca, garganta e gengivas. Auxilia também na prevenção de aftas. Fonte: Saúde na Rede.

Olha Para o Sol e Espirrar - Eu via muito um de meus tios fazendo isso, e não entendia bem o porquê. Quando percebi que era sempre que ele ia espirrar, eu saía correndo e o atrapalhava, tirando sua concentração. Com o tempo, percebi que quando estava com vontade de espirrar, mas sentia dificuldade para isso, era só olhar para o sol, ou na direção de uma lâmpada que o espirro vinha mais rápido.

The Internet Says: Essa reação chama-se "reflexo cruzado". Qualquer luz forte a provoca. No cérebro, existem doze pares de nervos que levam mensagens motoras e sensoriais para o sistema nervoso. As mensagens do nervo que cuida da visão passam por vias muito próximas às enviadas pelo nervo olfatório e pelo trigêmeo, que comanda a contração dos nervos da mucosa nasal. O espirro, então, é inevitável. Fonte: Yahoo Respostas.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Atravessando a Cozinha


ATRAVESSANDO A COZINHA Não é Tudo o Que Sempre Parece?

É o meio da tarde e estou deitado no sofá, assistindo a um filme que aluguei a pouco. Então lembro que deixei alguma coisa sendo feita no computador e vou lá ver se terminou. Quando estou passando pela cozinha, sinto um cheiro forte de gás e, em seguida, uma explosão, que mais sinto do que ouço. Não consigo entender como estou conseguindo pensar racionalmente se estou no meio de uma explosão. É quando noto que o tempo se dividiu em cinco partes diferentes, todas elas coexistindo. Me sinto em cinco épocas diferentes, mesmo sem entender como isso é possível.

No primeiro momento eu ainda estou ali, na cozinha, durante a explosão que custo a entender porquê aconteceu, já que não liguei nada que pudesse acionar o gás. Não sei se estou vivo ou se estou morto, mas a explosão parece nunca ter fim, neste espaço de tempo. No segundo momento - que não se apresenta realmente em uma ordem - o lugar onde estou não existe mais. O prédio ainda não fora construído e nem mesmo o bairro, a cidade, nada. Vejo apenas um descampado, com uma vegetação rasteira.

No terceiro momento, sou apenas um feto em crescimento dentro da barriga da minha mãe, me alimentando dos nutrientes que ali me estão disponíveis. Quase posso sentir o gosto. Me mexo desconfortável. No quarto momento, me vejo como adolescente, olhando tudo em volta, assustado, sem entender o que está acontecendo. Paralisado.

Na quinta fragmentação do tempo, não sei o que sou. Pareço um feixe de energia que se move invisível, mesmo eu sentindo a presença, provavelmente devido ao feixe de energia ser eu mesmo, e não algo fora de mim. É nessa quinta parte do tempo que as coisas parecem estar acontecendo mais rapidamente e o meu "eu" feixe-de-energia rebate nas "paredes" dos outros quatro momentos temporais, causando uma espécie de intervenção indevida.

Meu "eu" no presente - ou pelo menos o que deveria ser o presente - tenta sair dessa confusão, mas está preso na explosão que parece ter tornado o tempo essa pizza fatiada em cinco pedaços e que me faz sentir cinco tempos diferentes, cinco sensações distintas, sendo que o feixe de energia me incomoda cada fez que esbarra no tempo atual, sendo que nem mesmo sei como ele pode estar fazendo isso, já que o feixe sou eu mesmo, e não deveria estar fora de mim, mas o fato de o tempo ter se dividido é que parece tornar isso possível.

Meu "eu" adolescente olha tudo em volta, ainda alucinado, e sem voz, ou melhor, sem emitir nenhum som que eu possa escutar. Eu, como feto, é que sou o mais tranquilo, mas o tempo em que a cidade não existe não perece ter um representante meu presente, ou não o estou vendo. A paisagem em volta não dá muita dica de que tempo passado pode ser esse e onde eu poderia estar nele. Provavelmente não existia já que a cidade, obviamente, já existia bem antes de eu nascer.

É quando estou pensando nisso que a explosão se completa, me arremessando fora dos outros quatro tempos, me deixando no presente, batendo com a cabeça na parede, e quase ensurdecendo com o barulho, tenho minhas roupas chamuscadas e um bocado de pêlos queimados. Ainda consigo proteger o rosto, mas sinto meu cabelo queimar um pouco. Desmaio.

Acordo, vendo que tudo está no mesmo lugar, e que não houve realmente uma explosão. Está tudo como antes. Me sinto um pouco enjoado. Sinto resquícios de cheiro de gás, e meus ossos doem comprovando que fui arremesado e, sim, meu cabelo está queimado na pontas. No entando, a cozinha está tão normal quanto antes.

Volto à sala e o filme que eu estava vendo está no mesmo lugar. Vou ao computador ver se o que eu deixei fazendo terminou. Quando olho a tela, não há mais nada do que estava sendo feito antes, nada. Apenas o editor de texto aberto, com um texto digitado. Começo a ler:

"É o meio da tarde e estou deitado no sofá, assistindo a um filme que aluguei a pouco..."

FIM...


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