terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sonhos de Uma Noite Qualquer


SONHOS DE UMA NOITE QUALQUER
(Como Acordar de Um Sonho em Três Lições)


Eu estava em um lugar que não conhecia, sem saber exatamente onde queria chegar, e sendo abordado por pessoas que eu não sabia quem eram. Logo percebi que estava à beira de uma auto-estrada e, novamente, era como se eu não soubesse para onde ir. Tudo ali me incomodava. Sentia uma sensação ruim, como se estivesse preso, mesmo estando totalmente livre para ir aonde eu quisesse. No entanto, ir para onde?

Até mesmo a arquitetura dos prédios próximos à auto-estrada me incomodavam. As pessoas continuavam a falar comigo, mas eu não dava atenção. Um grupo de garotas, um homem de meia-idade, ou seja pessoas sem identidade para mim. Eu nem mesmo tinha o trabalho de processar o que ele diziam, assim não os entendia. Eu só queria ir embora dali. Mas qual era a saída?

Eu parei por um momento, forçando a mente para tentar lembrar de alguma direção que eu pudesse seguir, como se tentasse saber de onde vim e para onde tinha de ir agora. Eu ouvia o barulho dos carros passando, via o céu azul e o tempo estava até mesmo agradável. Mas tudo era tão estranho, era como se fosse um... um... meu deus...

Foi então que me dei conta. Eu estava sonhando. Mas tudo era tão absurdamente real. Sim, eu já tive sonhos em que percebia que estava em um sonho. Mas eram sempre muito vagos e eu lembrava de pouquíssimos detalhes depois. Geralmente era apenas uma idéia de que era um sonho, mas este continuava à minha revelia. Mas agora era diferente.

Eu sabia que estava sonhando. Comecei a dizer isso em voz alta: "Estou sonhando". E, por mais estranho que pareça, eu senti minha boca se mexer. Não a minha boca do "eu" onírico, mas minha boca do meu "eu" real, que estava dormindo. Quando percebi que fazendo isso poderia estar falando dormindo, eu parei.

A angústia de estar em um sonho tão real e SABER que era um sonho estava aumentando. Era tão surreal estar preso ali, sem conseguir encontrar uma solução. Então tive a brilhante idéia de sacudir a cabeça para ver se acordava. E foi o que eu fiz. Sacudi a cabeça com força e acordei.

... Eram umas 10:30 da manhã quando eu acordei. Fui ao banheiro, escovei os dentes, depois tomei o café. Quando estava aqui em frente ao computador, alguma coisa estalou em minha cabeça e eu me lembrei do sonho que tive e de como consegui sair dele. Só que havia uma coisa estranha. Se eu sacudi a cabeça e acordei, por que isso não pareceu ser de imediato? Por que só estou me lembrando do sonho agora e não assim que acordei?

Me senti estranho. Eu comecei a entender que eu apenas sonhei que "acordei". Lembro de que a coisa de sacudir a cabeça tinha funcionado, e que eu consegui sair do sonho que me perturbava. Mas eu não acordei de verdade. Eu apenas fui para outro lugar. Onde eu estive este tempo todo que parece ter durado entre eu "acordar", mas continuar dormindo e eu ter acordado de verdade?

Faço um esforço para lembrar, mas só existe o nada. Um imensa escuridão preenche esse espaço de tempo. Sobre o que mais eu sonhei?

Desisto de tentar entender e aceito que, pelo menos, isso tudo deve dar um texto razoável para o blog. Já que não estou conseguindo escrever um novo conto do Jerusalem Jones, esta "experiência" vai ter de servir.

Quando estou quase no fim do texto, sinto que estou com sono. Talvez seja apenas o frio que está começando a fazer que tenha me deixado sonolento, ou o fato de estar escrevendo sobre sonhos, ou quem sabe o motivo seja eu não saber como fechar a história e querer apenas dormir um pouco. De qualquer jeito, como é algo que aconteceu de verdade, não tenho um final surpreendente.

Nem mesmo posso dizer que ainda estou sonhando. Até mesmo eu sei a diferença entre um sonho que parece muito real e a realidade. Nada de Matrix para você.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Cada Passo


CADA PASSO SOA COMO UM TAMBOR(Contos de Uma Noite de Sábado Sem Supercine)

De repente me lembrei que não havia tomado meu remédio. Procurei dentro da latinha onde os guardo, e quase não acho de tão pequena que é a embalagem. Estava entre os lápis, canetas para escrever em CD, e chaveiros velhos. Tiro um e coloco entre os dentes, para segurar, enquanto abro a geladeira e pego água. Quase posso escutar minha mãe dizendo "bebe isso com leite menino, faz mal tomar só com água". Com o comprimido ainda entre os dentes, começo a procurar um copo e não encontro nenhum limpo. Pego um na pia, lavo e encho d'água. Antes que eu possa engoli-lo sinto que algo aconteceu com minha língua.

Ao demorar demais para pegar a água, minha língua ficou encostada no comprimido por muito tempo, e ficou anestesiada. Não sinto a ponta dela. Não pensei que o remédio fosse tão forte assim. Tento não dar atenção a isso e apenas engolir o comprimido sem pensar muito. Mas, quando tento, a água parece não ter sido suficiente, ou engoli de mau jeito e ele fica preso na minha garganta. Começo a tossir, mas ele não sai. Tusso com força, mas nada. Sinto um certo desespero. Apesar de pequeno, ele incomoda demais. E sinto que ele está anestesiando minha garganta também. Em pouco tempo a sensação de dormência me atinge o cérebro e eu desmaio.

Quando acordo, sinto uma dor de cabeça enorme, mas lembro que eu já estava com ela, só não havia me dado conta até aquele momento. É a maldita da sinusite. Parece que o problema com o comprimido só fez a dor piorar. Levanto do chão, sem saber se engoli ou se expeli o comprimido. Não o vejo em parte alguma do chão. Minha testa pulsa de dor no lado esquerdo.

Não sei exatamente quanto tempo passei desmaiado no chão da cozinha, mas parece tarde. Olho o relógio e já é de madrugada. O frio parece ter invadido o apartamento. A janela está aberta, deve ser por isso. Me sinto péssimo, como se estivesse me movendo em câmera lenta, ou entre areia movediça. Vou até a mesinha do computador e olho dentro da latinha onde guardo os comprimidos, pego a embalagem e o nome nela é outro. Na verdade, nem mesmo são letras, mas caracteres que não reconheço de lugar algum.

Me sento em frente ao computador que ficou ligado e não sei muito bem o que pensar. Quando eu coço atrás da orelha direita eu ouço um clique dentro dela. Que estranho. Eu seguro a ponta da orelha e puxo de leve. O clique novamente, lá dentro. Tento o mesmo na outra e nada acontece. Será que bati forte demais com a cabeça e algo se soltou dentro do meu ouvido? Mas não sinto dor alguma e estou escutando perfeitamente bem. Mas aquilo me incomoda cada vez mais.

Pego a tampa de uma caneta e tento sentir se... sim, a tampa toca em algo, sem eu mesmo precisar ir muito fundo. Sinto um clique maior e quando deito a cabeça pro lado direito, alguma coisa cai no chão. É o comprimido?!

Eu o apanho. Sua cor está diferente. Não tem mais a mesma cor que me fez pensar que era o verdadeiro. Está com uma cor prata. E está mais pesado.

Tiro os óculos e o aproximo para enxrgar melhor e ver do que se trata. Não sei muito bem o que está acontecendo, mas tento não pensar muito no quanto aquilo tudo não faz sentido algum. Percebo que há um orifício quase imperceptível, e quando caio na besteira de aproximar mais do olho, um feixe de luz vermelha atinge meu olho. Fico cego de um olho por alguns minutos e quando consigo enxergar melhor, não vejo mais as coisas como antes.

Todas as coisas parecem ter uma película de plástico brilhante envolvendo-as. Sinto o globo ocular atingido girar, e se reposicionar, e consigo enxergar algo além da percepção comum. São - ou imagino que sejam - realidades alternativas sobrepondo-se à minha realidade. Versões do lugar onde estou vão passando na minha frente sem parar, mas eu consigo perceber todas.

As pontas dos meus dedos parecem mais sensíveis que o normal, e meu cabelo parece estar ligeiramente eriçado. Eu toco o ar e o sinto, como se fosse areia quente. Então afundo a mão nessa "areia" e percebo que ela some. Puxo de volta assustado. Mas a mão não volta. Sou sugado para dentro de alguma coisa que me comprime, comprime, comprime até eu me sentir dentro de um grão de arroz. Só que não meu corpo, apenas meu "eu". Não sei mais se tenho corpo.

Sinto que dois dedos pegam a espécie de "grão" que me tornei e sinto o hálito quente de uma boca, quanto escuto ao longe uma voz feminina:

- Bebe isso com leite menino, faz mal tomar só com água!

FIM.


quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Um Estranho Numa Terra Estranha


UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA Aventuras Pitorescas na Zona Sul do RJ


Entro no ônibus, saindo da Baixada Fluminense onde moro, e indo para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Vou sozinho, sem avisar ninguém, nem mesmo à minha mãe. Sinto como se esses momentos fossem só meus e não devessem ser revelados a ninguém. Sinto como se estivesse indo em uma viagem para outro mundo, e até que não deixa de ser.

O lugar é tão longe que um ônibus apenas não basta. Fico tentando lembrar como aprendi a ir até lá sozinho e não lembro. Vai ver sou como os pássaros migratórios que sabem a direção certa a seguir. Sei lá.

Nem mesmo em que bairro estou eu sei. Apesar de saber que aqui ficam Flamengo, Copacabana e Ipanema, entre outros, eu nunca sei em qual deles estou. Eu apenas ando. Estranho como não sinto medo de me perder em um lugar que praticamente eu não conheço.

Acho que o que me atrai aqui são os cinemas, as livrarias, as locadoras. Tudo aqui é maior, mais bonito e com mais variedade do que onde moro. Os cinemas de lá passam filmes velhos, as livrarias parecem vender apenas livros para crianças e as locadoras, bom, essas nem sequer existem por lá. Só vim a saber da existência delas quando cheguei aqui.

Paro em frente a uma locadora, dentro de uma galeria, toda envidraçada, quase colo o nariz no vidro. Fico olhando os vários filmes naquelas caixinhas engraçadas. Nem mesmo sei como é um video-cassete, então só posso olhar os filmes mesmo. Vejo o "Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu" e lembro que já ouvi falar desse filme, ou li em algum lugar. Parece ser bem engraçado.

Volto a andar pelas ruas desse bairro que nem sei qual deles é. Sinto o cheiro da praia e ouço o barulho do mar. O tempo está nublado, até mesmo um pouco frio. Quando penso em chegar mais perto, minha atenção é desviada por uma livraria. Entro e passeio entre os vários livros, os quais nunca vi antes. A maioria são volumosos, capas brilhantes. Penso que nunca conseguria lê-los com a agilidade com que leio os da escola.

Logo saio dali e volto a passear, entrando desta vez em uma galeria que me parece a entrada de um grande cinema. Cartazes enfeitam os dois lados da entrada e eu fico ali perdido olhando aquilo tudo. De repente me vejo surpreso quando noto que um cartaz do filme E.T. - O Extraterreste está em pé à minha frente. Eu estranho, pois o filme foi lançado em 1982 e, claro, não estamos em 1982, pelo menos eu acho. Olho para o relógio, para confirmar e, isso mesmo, não estamos em 1982.

Mas, logo abaixo, no cartaz, anuncia que é um relançamento nos cinemas. Vejo os horários e noto que está perto da próxima sessão. Nem sei quanto eu tenho no bolso. Não vim preparado para isso. Nem reparo, mas estou ofegando. Confiro o que tenho, vejo a hora, e bom, vou demorar mais do que o normal.

Quando eu pago o ingresso é que eu percebo uma coisa que não tinha notado ainda: é a primeira vez que vou entrar num cinema de verdade. Não em um com cadeiras de madeira quebradas, som ruim, que nada se entende quando é um desenho animado dublado.

Quando me sento, sinto que afundo na cadeira. Elas são dispostas de um jeito que ninguém fica com a cabeça na minha frente. Apesar da excitação das pessoas e dum certo falatório, nem se compara à bagunça que é nos cinemas que estou acostumado a ir.

Me sinto estranho. Como se eu não fosse eu mesmo. Quando a tela se ilumina, ainda não é o filme. Mas não deixa de ser mágico. Mesmo agora, eu viajo. E sinto como se eu estivesse indo ainda mais longe do que quando saio de casa e venho aqui para a Zona Sul. É uma viagem dentro da viagem. Por um instante sinto como se fosse até o futuro, o meu futuro e sinto um formigamento na palma das mãos.

O filme voa, o tempo vai junto. Logo estou saltando do ônibus, de volta para casa. Minha mãe está vendo TV. Nem parece ter notado minha ausência, até que ela pergunta:

- Onde tu tava, Eudes?

- Fui até à Cidade, mãe.

- Tá bom!

E ela ri, como quem diz "esse menino não pára de fazer piada".

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