segunda-feira, 21 de maio de 2007

O Menino com a Flauta de Osso

O MENINO COM A FLAUTA DE OSSO

Uma cena insiste em se cravar na minha mente: um menino índio sentado em um velho pedaço de árvore caído, tocando sua flauta de osso. Ali, no meio do bosque, num fim de tarde, onde o vento é frio e os galhos das árvores balançam, estalando algumas vezes, provocando um certo alvoroço entre os pássaros ali presente. Os mesmos se sentem estranhamente pertubados com a música da flauta do menino índio, e ao mesmo tempo atraídos. Uma melodia melancólica sai de sua flauta, como se a música fosse um lamento por algo que ele perdeu sem nem mesmo saber o que seria.

Desde que ganhou aquela flauta de seu avô e aprendeu a usá-la, o menino foi perdendo o contato com seus amigos ou porquê se afastaram devido às músicas tristes que ele insistia em tocar, ou simplesmente porque ele mesmo se afastou para poder ouvir sozinho tudo o que saía de sua flauta.

Certo dia ele escutou um pequeno grupo de meninos e meninas da tribo conversando entre si, cochichando como se o que estivessem falando fosse algo profano demais. Sem que percebessem, ele se esgueirou pela oca mais próxima deles e, bem quieto, conseguiu escutar o que eles diziam: "a flauta é feita com um osso de sua avó morta".

Quanta bobagem, pensou ele. Ele sabia muito bem que seu avô contaria se isso fosse verdade. Ele confiava em seu querido avô, como não confiava em mais ninguém. E mesmo se fosse verdade, não havia nada demais nisso, assim pensava o menino.

Então esta cena toda, e tudo isso que lhes contei não saía de minha mente já a uns três dias, e comecei a pensar se eu deveria contar essa história, se era isso que eu deveria fazer, ou até mesmo, se era isso que a canção que o menino índio da minha visão tocava queria dizer, que eu devia contar esta história.

Não sei ao certo, mas continuei vendo o menino tocando sua canção triste no meio do bosque, e os pássaros agitados, mas atraídos pela música. Uma chuva fina começou a cair e, ainda assim, o menino continuou ali, sua melodia se misturando à chuva e o barulho das gotas sobre as folhas das árvores se misturando so som que vinha de sua flauta.

E se a flauta fosse realmente feita de um osso de sua avó que ele nem mesmo conheceu? Seu avô contava muitas histórias sobre ela. Ele a chamava de oguett, pássaro da madrugada. Dizia que era porquê ela sempre acordava no meio da noite para cantar para os deuses, com sua voz melodiosa. Seu avô sempre chorava quando falava dela. O velho índio sempre dizia que não eram lágrimas, mas as lembranças dela que se formavam em gotas. O menino não entendia muito bem, mas sempre o abraçava nessas horas.

O menino continuava tocando a melodia sem parar, e a chuva fina parecia acompanhá-lo. Os pássaros estavam quietos agora, como se escutassem atentamente, procurando sentir o que o menino tinha para dizer.

Estranhamente a chuva mesmo sem ser forte, estava formando uma enorme poça à frente do menino, e crescia rápido a ponto de em pouco tempo parecer um pequeno lago. Já escurecia e, talvez devido a isso, ele não reparou que ao redor do pequeno "lago" que se formara, havia algumas pessoas sentadas, como se estivessem ali apreciando a música da flauta de osso. Ao perceber isso ele tocou com mais vontade, só que isso não deixava a melodia menos triste, e nem mesmo ele sabia o motivo.

A chuva e a noite iam caindo rápido, o lago que se formara aumentava e as pessoas em volta dele não paravam de chegar, e o menino não sabia de onde vinham. Apenas apareciam. De repente, deu para perceber que o lago estava aumentando tanto que começava a molhar os pés dessas pessoas. Só que em vez de se afastarem elas começaram a entrar no pequeno lago formado pela chuva fina.

De olhos arregalados, o menino viu as várias pessoas entrarem no lago até que este os cobria. Ele não entedia, afinal não podia ser tão fundo assim, era apenas uma poça muito grande. Mas a verdade era que todos que lá chegaram para ouvir ele tocar, entraram no lago, até desaparecerem.

Foi quando ele resolveu parar sua música, e a última pessoa era um jovem índia, que parou à beira do lago e olhou para ele antes de entrar, e disse: "Diga a seu avô que você cumpriu seu destino. Tdos os mortos pelo inimigo em sacrifício desonroso, estão libertos graças a ele e a você". Ele pensou que ela fosse mergulhar, mas quando ela pulou na direção do lago, virou um pássaro e alçou vôo para longe, desaparecendo. O menino só se deu conta de que era madrugada, quando viu isso acontecer.

A chuva parou. Ele olhou para a flauta e já ia jogá-la no lago, quando a água girou fortemente e num estrondo, explodiu. Quando o menino percebeu o lago estava chovendo de volta. Chovendo ao contrário, de baixo para cima. Voltando para as nuvens. Ele pôs sua mão nas gotas que subiam e sentiu algo percorrer seu corpo, uma energia quente e fria ao mesmo tempo. E se sentiu bem com isso.

Percebeu que devia guardar para si a flauta. Mas que não precisava mais tocar melodias tristes. Colocou a flauta entre os lábios e começou a tocar uma cantiga que as crianças sempre cantavam quando estavam brincando. O dia estava clareando, os pássaros pareciam cantar junto.

Lá adiante seu avô o esperava, como se soubesse de tudo que houve. E sorriu. Ele sorriu de volta.

E a cena se desfez de minha cabeça, e por fim eu pude dormir tranquilo, sabendo que estava tudo bem agora. Escrevi a pequena história e a terminei com um ponto final.


terça-feira, 8 de maio de 2007

A Princesa e o Mico

A PRINCESA E O MICO

A professora começou a tagarelar sobre a Festa da Primavera e eu juro que não estava prestando atenção. Não até que ela disse quem seria a princesa. Ela, Valéria. A menina mais linda que eu já tinha visto em toda minha vida. Tudo bem que minha vida se resumia a meros dez anos!

Eu sabia o que viria a seguir. A professora Celina ia pedir que algum dos meninos fosse o príncipe. E foi o que ela fez. Sendo a Valéria a princesa vi que todos os meninos da sala levantaram a mão. Pelo menos todos que eu sei que babavam por ela e, claro, eu era um deles. Só que eu não levantei a mão, não de imediato.

Entendam, eu sou tímido. Sempre fui tímido a minha vida inteira. Tudo bem que a minha vida toda se resumiam em apenas dez... OK, OK... eu sei que já disse isso! Quando eu era mais novo que sou hoje, eu costumava até mesmo me esconder atrás das portas quando chegavam visitas lá em casa. Para que eu entrasse em um ônibus era um sacrifício. Eu tinha vergonha das pessoas estranhas dentro dele. Mas agora se tratava dela, da Valéria!

A professora não escolheu nenhum dos meninos. Eu sabia que, no fundo ela estava esperando que eu me apresentasse. Se a princesa fosse qualquer outra, eu ficaria quieto, talvez fingindo que estava dormindo. Eu abaixei a cabeça e levantei o braço, escutando murmúrios entres os garotos chateados, quando a profesora me escolheu. Logo eu aprenderia que menina linda nenhuma Valéria... quer dizer, valeria aquele sacrifício.

Os ensaios eram motivos das risadas mais cruéis que eu já havia recebido. Nem mesmo os olhos brilhantes de Valéria faziam com que eu esquecesse a humilhação e a vontade de me meter em um buraco. Mas eu ainda era muito novo para isso (piadinha!).

Para ela isso era a coisa mais comum do mundo, afinal ela era uma menina, devia brincar de ser princesa o dia inteiro. Para mim era mais fácil ter farpas de enfiadas nos olhos. Mas isso era só o começo de tudo. A coisa iria piorar bem mais, pois logo eu vi o... figurino!

A professora "confeccionou" uma roupa de príncipe - na verdade só a blusa - em um papel crepon, ou sei lá como se dá o nome. E a coisa era bufante. BUFANTE! E pra piorar era um papel meio transparente, esverdeado. Eu tinha vontade de chorar. Mas eu não podia mais voltar atrás. Tinha dado minha palavra à professora. Tinha de ir até o fim agora.

O dia, o fatídico dia do Festival da Primavera, chegou. Uma quadra cheia de gente. E eu ali, no centro das atenções... com uma camisa bufante de papel, e uma coroa feita de papel laminado e cartolina. Eu queria ir pra casa. Minha mãe, e meus irmãos estavam nas arquibancadas. Eu lá, no meio de de várias meninas que rodeavam o príncipe e a princesa.

Eu estava com uma bermuda que minha mãe, não sei porquê, me deu em cima da hora. E era muito apertada. Eu não sabia se era ela espremendo minha bexiga ou se era meu nervosimo que me deixou com vontade de urinar logo de imediato. Eu só queria que aquilo tudo acabasse. Eu fiz o que tinha de fazer, uma dança que eu não sei como gravei, lá com a princesa, que termina com ela acocorada e eu dançando em volta dela segurando a sua mão. Nem mesmo o prazer de segurar a mão da menina mais cobiçada da escola, me fazia esquecer o embaraço.

Quando por fim acabou, corri para o banheiro, pensando em como eu nunca esqueceria isso pelo resto de minha vida. E, provavelmente, odiaria todas as Primaveras a partir de então.

Demorei a sair do banheiro. Acho que não queria ver ninguém mais. Minha mãe foi me buscar. Eu ainda estava vestido de príncipe. Na verdade, eu não tinha outra roupa além dela!

Meu coração gelou quando minha mãe disse que queria encontrar algum fotógrafo para que tirasse uma foto minha. Eu tentei largar da mão dela, mas ela segurava forte. Ela vasculhou a escola atrás de um fotógrafo e, nessa hora, eu senti que Deus estava me dando pelo menos uma chance. O único fotógrafo que se encontrava na escola não tinha mais filme em sua máquina. Eu suspirei aliviado.

Estava tudo terminado. Era só ir pra casa. Sim, com a roupa de príncipe. Fazer o mesmo caminho que fiz para ir, sendo alvo dos olhares como a primeira vez. Pelo menos eu podia tirar a coroa.

Desde então nunca me ofereci mais para nada, fosse por quem fosse... e fui feliz para sempre!

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