terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cinco Anos


CINCO ANOS DE RAPADURA AÇUCARADA Um Blog Que Já Teve Mais Fases Que o Incrível Hulk

Bom, claro que em cinco anos, tudo que se tinha para dizer já foi dito. Quer dizer, pelo menos sobre o Rapadura Açucarada, suas origens e tudo que aconteceu nesse tempo todo. O último ano foi bem legal, com a criação do fórum, que é um lugar onde todo mundo que conhece o RA pode se reunir e trocar scans, filmes, músicas, livros e sopapos. É uma extensão do blog.

Apesar de citações como esta:

Existe vários blogs e sites em que é possível baixar quadrinhos antigos gratuitamente. O que talvez seja o mais antigo e mais famoso - por isso mesmo, mais confiável - é o Rapadura Açucarada. Nele, é possível encontrar raridades às vezes impossíveis até para sebos. E o melhor, tudo em português. E, através do blog, um verdadeiro mundo de links se abre para os mais variados gêneros de gibis. Fonte: O Povo.com.br.

Gosto de pensar que o RA é mais do que scans, por mais que o que foi dito acima infle meu ego a ponto de eu precisar fazer dieta. 


Gosto de como o blog gera essas coisas. Claro que a maioria vem aqui para baixar scans, mas eu não me incomodo com isso, pois sei que muita gente vem por mais que isso. Gosto de fazer os scans, mas também gosto das coisas novas que vão surgindo, seja escrever as aventuras do JJ, seja administrar o fórum, ou ver o zine crescer, ou mesmo dar uma parada nos scans (sem se importar com a choradeira que isso causa) e depois voltar quando dá vontade, seja procurar procurar filmes perdidos e colocar lá no fórum, e anunciar aqui.

O blog nunca teve muito sentido, pelo menos pra quem chega e vê o caos que às vezes ele parece ser. Assim, meio sem direção. Já foi exclusivo de scans, já teve poesia, já foi um depósito de links aleatórios, já foi quase um
Dedada Digital, de tanta mulher pelada que tinha...

Talvez digam que deveria ter algum presente aqui, mas não deu tempo de preparar nada de especial. Porém, o fato é que o braço forte do blog, o F.A.R.R.A, abriga um verdadeiro tonel de "presentes", seja na parte de scans, seja na seção de filmes, seja na seção de músicas. É só ir lá pegar o seu.

Assim sendo, espero que o RA dure mais 5, 10, 15 anos... enfim que seja eterno enquanto rapadura!!!!

P.S.: Apesar da data do post lá em cima, a data do aniversário é dia 28 de Novembro!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Barbatana da Baleia


A BARBATANA DA BALEIA Um Conto Além do Seu Tempo


Eu saltei. Saltei mas não sei em que lugar estou, nem em qual época. Depois de um certo tempo de confusão mental, consigo algumas roupas e me misturo aos transeuntes. Estou em um porto movimentado. Para piorar tudo, estou em outro país, é o que fica óbvio, quando noto que não entendo o que nenhum deles diz. Quando alguém fala comigo, gesticulo dando a entender que sou surdo-mudo.

Mesmo estando aqui, ainda não estou seguro. A única coisa que consigo pensar é que, talvez em alto-mar não consigam me alcançar. Então, com muita dificuldade, consigo entrar como clandestino em um dos navios que está para zarpar. Não sei para onde ele vai, mas isso não faz diferença, pois também não sei onde estou. Só preciso me distanciar o máximo possível, pois eles ainda podem seguir o residual do meu salto e enviarem os sectrônicos.

Me escondo em um dos botes, enquanto recapitulo tudo que aconteceu nas últimas horas. Horas essas que estão séculos à frente. Eu avisara a toda equipe, mais especificamente a Sara, que tudo estava desandando, que era óbvio que a pesquisa sobre viagem no tempo não tinha nada a ver com filantropia. Era dinheiro demais sendo gasto, para que não houvesse um retorno. Quando nos demos conta de para o que seria usada a viagem no tempo, era tarde demais. O projeto estava sendo monitorado e, quem sabe, financiado, por agências sem escrúpulos de um governo quase totalitário, que parecia querer agora, dominar o continuum temporal.

Para testar minha teoria, eu enviei os resultados finais de nosso último teste, sem que esses fossem, necessariamente os últimos. Como apresentavam resultados razoavelmente satisfatórios, eu enviei os crono-vídeos para o chefe-geral do Projeto Big Ben - que nome idiota - e isso resultou em uma catástrofe imediata.

Eu sabia dos projetos com robôs-insetos, os sectrônicos, do nível 6, mas achava que fossem para combate a pragas em plantações, ou algo parecido. Quando um enxame deles invadiu todos os setores do laboratório, matando cada cientista, pesquisador, faxineiro, cada pessoa que sabia do projeto, eu vi que era tarde demais, eu vi que isso não teria um uso humanitário.

Não pude salvar Sara, que morreu agonizando, com picadas de insetos-robôs. Quando vieram em minha direção, acionei o relógio que construí às escondidas, e que - em teoria - deveria fazer com que eu viajasse no tempo. Como não tive tempo de testá-lo, as coordenadas seriam aleatórias. Eu poderia acabar cravado dentro de uma montanha, em algum lugar do futuro ou do passado. Ou simplesmente o relógio poderia não funcionar. Antes que eu fosse morto, no entanto, não quis saber de nenhuma dessas possibilidades, apenas acionei o relógio e fui sugado por um buraco-temporal, vindo parar aqui. Mas, com o projeto quase concluído, eles poderiam vir atrás de mim, de algum modo.

Claro que não poderia permanecer muito tempo escondido, eu precisaria comer e tudo mais. Assim, quando já estávamos bem longe do porto, eu dei um jeito de ser descoberto, sem saber qual seria a reação. Depois de muita gritaria e o que pareciam ser ameaças de me jogarem ao mar, o capitão pareceu entender que fazer isso a um "surdo-mudo" poderia não trazer boa sorte ao navio, e pude ficar. Alguém me deu um balde e um esfregão e entendi quais eram as condições para minha permanência.

Meu destino era incerto. Eu estava perdido. Provavelmente para sempre.

Os dias passavam e se transformavam em semanas e meses. Fiquei doente e quase morri. O mar não era um lugar para alguém que foi cientista quase sua vida toda. Melhorei, mas não graças a nenhuma ajuda. Consegui usar algumas coisas que pedi ao capitão, para fazer remédio. Ele acabou ficando feliz, pois serviu para outros homens os quais ele não podia perder em sua tripulação.

Pelo que eu podia entender estávamos em uma espécie de expedição para chegar a algum lugar inexplorado, ou algo assim. Mais dois navios seguiam conosco, e os remédios serviram para eles também.

Certa noite, esquanto estava no convés, um zumbido me assustou e pude ver que havia sido encontrado. Os sectrônicos enfim conseguiram me achar, apenas eles não sabiam quem eu era, apenas onde eu estava. Para se certificar que eu seria morto, estavam programados para matar a todos. Uma gritaria tomou conta no navio. Era algo horrível. Eu tentei me proteger usando um dos botes salva-vidas, mas era óbvio que iriam atravessá-lo em poucos minutos. Tudo parecia perdido.

Lembrei do relógio, o qual eu resolvera não usar mais, pois poderia não ter a mesma sorte. Havia tirado do pulso e o levava em uma sacola pendurada ao cinto, para que não suscitasse nenhuma pergunta que eu não poderia responder. Quando pensei em usá-lo, vi que um par de sapatos se aproximava do bote onde eu estava. Alguém veio junto com os sectrônicos.

- Olá, Bert. Demorei para te encontrar. Bom, não vim para te matar, pois precisamos de você. Os insetos só tinham de te encontrar. A matança é apenas coisa do "instinto" deles, meu caro. Preciso levar você de volta. Só poderíamos fazer uma única viagem e nada mais. O que você deixou pronto nos permitia isso, porém, para prosseguir precisamos de você. O que aconteceu lá foi um mero engano. Você não ia ser morto, precisávamos de você e de mais ninguém. E você tem a minha palavra de que poderá terminar o Projeto em segurança. Vamos?

Era o chefe-geral, Kyle Sneich. Ele devia estar desesperado pra vir pessoalmente atrás de mim. Devem ter levado meses para me encontrar e usar a única viagem que tinham. Provavelmente ele tem a porta de segurança para voltar, e vão me obrigar a terminar o Projeto, para seguirem como planejavam.

Ele levantou o bote onde eu estava escondido. Antes de ficar de pé, tirei o relógio de dentro da sacola. Os insetos continuavam a chacina no navio.

- Muito bem, Bert. Podemos usar a porta de segurança e voltar para...

Nessa hora, no meio da noite fria, com os gritos ecoando pelo navio, um barulho na água se fez ouvir. Quando nós dois olhamos pela amurada, vimos a barbatana enorme do que parecia ser uma baleia. De repente ela começou a cantar, aquele canto de baleias que só se ouvia em velhos arquivos de som. Aquilo preencheu o ambiente, e os sectrônicos começaram a cair como moscas. O trocadilho não é intencional.

Aproveitando toda aquela distração, eu enfiei o meu relógio no pulso de Sneich e apertei o botão. Sneich ainda tentou se desvencilhar, mas foi sugado num clarão e jogado em algum lugar que, provavelmente sem sorte, poderia muito bem ser o interior de uma montanha. Assim espero.

A porta de segurança que veio com ele, desapareceu. Eu poderia ter entrando nela, mas... não quis. Eu não tinha mais futuro. Sara estava morta mesmo.

Fui ajudar ao marujos sobreviventes. Tivemos muitas perdas. Com os insetos desativados, eu consegui juntar todos e jogá-los ao mar. Eu era o único que tinha coragem de fazer isso. A maioria olhava como se estivesse vendo algo sobrenatural.

Sem o Sneich e sem mim, o Projeto seria esquecido, ou pelo menos não seria posto em prática tão cedo. Quem sabe até lá, o governo fosse derrubado e um melhor tomasse o seu lugar. Mas isso não me dizia mais respeito. Eu era um marujo em um tempo e lugar desconhecidos. Era hora de começar uma nova vida. Foi pensando nisso que escutei o vigiar gritar:

- TERRA À VISTA!

Mesmo sem entender o que ele dizia, entendi o significado e olhei para o horizonte, e pude ver que um novo tempo estava começando.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Coisas Que Não se Esquece


COISAS QUE A LEMBRANÇA NÃO DEIXA ESQUECER Relembrando Quando Eu Ficava Doente ou Espirrava


Emplastro Sabiá - Era estranho ver meu pai sem camisa, com aquela coisa colada ou no tórax ou nas costas, ou nos dois ao mesmo tempo. Não fazia idéia - e nem mesmo me perguntava - para que aquilo servia. Tinha um cheiro peculiar. Como ele possuía vários furos, era engraçado ver que, depois que tirava, meu pai ficava com aquelas áreas com a marca do emplastro, com aqueles furinhos.

The Internet says: O Emplastro Sabiá era um adesivo pra resolver problemas de reumatismo ou coisas assim e podia ser facilmente comprado nas farmácias em qualquer tamanho. Era feito a partir de um tipo de tecido altamente resistente e possuia um lado auto-adesivo, tão forte quanto a temível fita "teipe" (a fita cinza pra consertar tênis e prancha de surf). Fonte: Bateria Gope.

Merthiolate - O terror dos machucados. Se machucar tinha dois grandes problemas: o ferimento em si, e a hora em que minha mãe diria, "vamos passar o métiolati". Era como uma sentença de morte e eu já começava a chorar por antecipação. Não havia sopro que fizesse parar aquela ardência dos infernos.

The Internet Says: Merthiolate é um anti-séptico a base de Digluconato de clorexidina que era fabricado pela Lilly, e hoje a marca pertence a DM Indústria Farmacêutica Ltda-SP. Fonte: Wikipédia.

Biotônico Fontoura - Quando bebê, eu era daqueles roliços, mas conforme fui crescendo, fui emagrecendo, e fui magro por boa parte da minha vida. Daí que minha mãe achava que aquilo era falta de vitaminas ou algo assim. Assim sendo, haja Biotônico Fontoura. Devemos ter sido um dos maiores consumidores do tal xarope que prometia milagres, como aumentar o apetite. Bom, não sei se aumentava, mas como o negócio era gostoso, pelo menos ele a gente tomava tudo, nas horas certas ou não.

The Internet Says: O Biotônico Fontoura foi um medicamento fortificante e antianêmico criado em 1910 pelo farmacêutico brasileiro Cândido Fontoura. O slogan do produto era Ferro para o sangue e fósforo para os músculos e nervos e seu jingle era Bê, á, bá. Bê, e, bé. Bê, i, Bi..otônico Fontoura!. Sua fórmula original continha 9,5% de álcool etílico e mesmo depois de alterada continua sendo considerada inútil , segundo alguns especialistas da área. Fonte: Wikipédia.

Boldo - É uma planta de folhas beeeeem amargas. Mas se estivesse com problemas digamos, hã, intestinais, era só pegar aquilo, esmagar num copo, e beber... de um gole só. Nossa! De início minha mãe que insistia mas, com o tempo, talvez por achar que dava resultado, eu mesmo já ia lá no quintal, pegava as folhas e manadava ver. Por pior que fosse o gosto, era melhor que uma dor de barriga.

The Internet Says: Boldo é um fitoterápico que é indicado como auxiliar no tratamento de doenças hepáticas e da vesícula biliar, tônico das funções hepáticas e como laxativo. O boldo diminui a cólica e aumenta e favorece o fluxo biliar, sendo indicado para distúrbios da função digestiva e problemas leves no trato gastrintestinal como má digestão, gases e intolerância à gordura. Fonte: Copacabana Runners.

Romã - Outra plantinha que era boa pra ter no quintal. Era só ter dor de garganta que lá vinha minha mãe com a frutinha, da qual ela tirava a polpa cheia de carocinhos, fazia um chá que eu tinha que esperar amornar e lá ia eu fazer gargarejo de romã. A boca ficava esquisita depois disso, como se eu tivesse mastigado areia, ou algo assim, mas o pior era que funcionava.

The Internet Says: A Romã é uma fruta oxidante, mineralizante e refrescante. A romã é utilizada para acabar com rouquidão, afecções da boca, garganta e gengivas. Auxilia também na prevenção de aftas. Fonte: Saúde na Rede.

Olha Para o Sol e Espirrar - Eu via muito um de meus tios fazendo isso, e não entendia bem o porquê. Quando percebi que era sempre que ele ia espirrar, eu saía correndo e o atrapalhava, tirando sua concentração. Com o tempo, percebi que quando estava com vontade de espirrar, mas sentia dificuldade para isso, era só olhar para o sol, ou na direção de uma lâmpada que o espirro vinha mais rápido.

The Internet Says: Essa reação chama-se "reflexo cruzado". Qualquer luz forte a provoca. No cérebro, existem doze pares de nervos que levam mensagens motoras e sensoriais para o sistema nervoso. As mensagens do nervo que cuida da visão passam por vias muito próximas às enviadas pelo nervo olfatório e pelo trigêmeo, que comanda a contração dos nervos da mucosa nasal. O espirro, então, é inevitável. Fonte: Yahoo Respostas.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Atravessando a Cozinha


ATRAVESSANDO A COZINHA Não é Tudo o Que Sempre Parece?

É o meio da tarde e estou deitado no sofá, assistindo a um filme que aluguei a pouco. Então lembro que deixei alguma coisa sendo feita no computador e vou lá ver se terminou. Quando estou passando pela cozinha, sinto um cheiro forte de gás e, em seguida, uma explosão, que mais sinto do que ouço. Não consigo entender como estou conseguindo pensar racionalmente se estou no meio de uma explosão. É quando noto que o tempo se dividiu em cinco partes diferentes, todas elas coexistindo. Me sinto em cinco épocas diferentes, mesmo sem entender como isso é possível.

No primeiro momento eu ainda estou ali, na cozinha, durante a explosão que custo a entender porquê aconteceu, já que não liguei nada que pudesse acionar o gás. Não sei se estou vivo ou se estou morto, mas a explosão parece nunca ter fim, neste espaço de tempo. No segundo momento - que não se apresenta realmente em uma ordem - o lugar onde estou não existe mais. O prédio ainda não fora construído e nem mesmo o bairro, a cidade, nada. Vejo apenas um descampado, com uma vegetação rasteira.

No terceiro momento, sou apenas um feto em crescimento dentro da barriga da minha mãe, me alimentando dos nutrientes que ali me estão disponíveis. Quase posso sentir o gosto. Me mexo desconfortável. No quarto momento, me vejo como adolescente, olhando tudo em volta, assustado, sem entender o que está acontecendo. Paralisado.

Na quinta fragmentação do tempo, não sei o que sou. Pareço um feixe de energia que se move invisível, mesmo eu sentindo a presença, provavelmente devido ao feixe de energia ser eu mesmo, e não algo fora de mim. É nessa quinta parte do tempo que as coisas parecem estar acontecendo mais rapidamente e o meu "eu" feixe-de-energia rebate nas "paredes" dos outros quatro momentos temporais, causando uma espécie de intervenção indevida.

Meu "eu" no presente - ou pelo menos o que deveria ser o presente - tenta sair dessa confusão, mas está preso na explosão que parece ter tornado o tempo essa pizza fatiada em cinco pedaços e que me faz sentir cinco tempos diferentes, cinco sensações distintas, sendo que o feixe de energia me incomoda cada fez que esbarra no tempo atual, sendo que nem mesmo sei como ele pode estar fazendo isso, já que o feixe sou eu mesmo, e não deveria estar fora de mim, mas o fato de o tempo ter se dividido é que parece tornar isso possível.

Meu "eu" adolescente olha tudo em volta, ainda alucinado, e sem voz, ou melhor, sem emitir nenhum som que eu possa escutar. Eu, como feto, é que sou o mais tranquilo, mas o tempo em que a cidade não existe não perece ter um representante meu presente, ou não o estou vendo. A paisagem em volta não dá muita dica de que tempo passado pode ser esse e onde eu poderia estar nele. Provavelmente não existia já que a cidade, obviamente, já existia bem antes de eu nascer.

É quando estou pensando nisso que a explosão se completa, me arremessando fora dos outros quatro tempos, me deixando no presente, batendo com a cabeça na parede, e quase ensurdecendo com o barulho, tenho minhas roupas chamuscadas e um bocado de pêlos queimados. Ainda consigo proteger o rosto, mas sinto meu cabelo queimar um pouco. Desmaio.

Acordo, vendo que tudo está no mesmo lugar, e que não houve realmente uma explosão. Está tudo como antes. Me sinto um pouco enjoado. Sinto resquícios de cheiro de gás, e meus ossos doem comprovando que fui arremesado e, sim, meu cabelo está queimado na pontas. No entando, a cozinha está tão normal quanto antes.

Volto à sala e o filme que eu estava vendo está no mesmo lugar. Vou ao computador ver se o que eu deixei fazendo terminou. Quando olho a tela, não há mais nada do que estava sendo feito antes, nada. Apenas o editor de texto aberto, com um texto digitado. Começo a ler:

"É o meio da tarde e estou deitado no sofá, assistindo a um filme que aluguei a pouco..."

FIM...


segunda-feira, 24 de setembro de 2007

JJ Correndo no Deserto


JERUSALEM JONES - CORRENDO NO DESERTO
Mais Uma Aventura Desmedida Deste Pistoleiro



"Estou correndo pelo deserto, coberto de trapos, como se fosse um selvagem. O vento parece me levar para lugar algum. Corro pelas planícies, me sentindo como um animal que está caçando. Não há nada mais por perto, apenas eu mesmo correndo, ouvindo tambores de guerra batendo forte em algum lugar. Mas logo me dou conta de que não são tambores, e sim meu coração que parece querer explodir em minhas têmporas. Uma canção primitiva dentro de mim."

Annie recebeu uma quantia razoável para fazer o que tinha de fazer: seduzir e envenenar Jerusalem Jones. Parecia algo simples: colocar o veneno em sua bebida, depois de um rápido momento de "amor". E, Annie pensava, "graças a Deus que esse paspalho era realmente rápido, pois este não parecia conhecer a palavra 'preliminares'. Talvez para ele não tivesse sido inventada ainda".

Annie pegou o pequeno frasco que lhe deram, e despejou na garrafa que o grande "amante" trouxe para o quarto. Ele havia oferecido a bebida a ela, mas ela não se atreveu a beber daquilo. Se o cheiro era terrível, imagine o gosto.

Isso tudo foi enquanto ele foi ao banheiro e voltou. E, ele bebeu direto da garrafa. E caiu. Annie saiu de fininho.

"Eu pulei continuava a correr, percrustando cada espaço que o deserto ensolarado me permitia enxergar. Eu precisava me alimentar, e teria de ser algo fresco. Porém, nada além de árvores ressequidas e arbustos tristes parecia habitar aquele lugar. Então, eu apenas corria. Meus pés descalços sentiam cada grão de areia, como se os conhecesse de longa data, a todos eles. Um rugido parecia querer sair de dentro de minha garganta, tão gutural quanto um leão dentro de um poço profundo."

Jerusalem Jones foi abordado por Annie de repente. A moça - que era moça apenas como força de expressão - começou com uma conversa estranha, chamando Jerusalem de "um homem muito interessante", que ele logo deduzia ser uma maneira de dizer "você é feio, mas tem pouco homem nessa cidade". J.J. não estava querendo se questionar o porquê daquela garota extremamente bonita e que deveria cobrar caro em outras ocasiões estar, obviamente, tentando seduzi-lo e... de graça!

Alguma coisa não cheirava bem - além do próprio J.J. - mas ele não estava em posição de rejeitar tal presente, mesmo que fosse de grego. Então, arrumou logo um quarto, pegou sua garrafa - que conseguira a tanto custo - e partiu para atravessar uma noite inteira de "amor". A expressão "dormir com ela", não faria parte de seu dicionário hoje.

"Pulei troncos caídos e avistei um animal adiante. Pude divisar que era um búfalo e isso me fez correr mais rápido. O animal pareceu sentir meu cheiro, e se assustou. Solitário, como eu, ele começou a correr o maus rápido que podia. Mas eu corria mais, minhas pernas se flexionando como se tivessem molas bem calibradas. Minha boca se encheu d'água quando eu senti o medo do animal vindo pelo ar. Eu estava quase o alcançando".

J.J. chegou na cidade e foi diretamente ao local que o trouxera de longe até ali. Depois de conseguir o dinheiro necessário para comprar o que queria, finalmente ele chegou na pequena e escondida venda de O'Hare. Betsy O'Hare era uma mulher mais velha do que aparentava, mas que ninguém sabia sua idade ao certo. Jones não viera aqui para saber isso.

Depois que J.J. fez um "pequeno" favor para O'Hare, ela disse que, agora sim, poderia vender para ele a bebida que todos só conheciam por lenda e que ninguém acreditava realmente que existisse. Ninguém se metia com O'Hare o suficiente para descobrir. E, quando um jovem bastardo tentou conseguir os segredos de O'Hare através de seu coração - e logo em seguida o estraçalhou - , O'Hare recorreu à Jerusalem para consertar o que ela mesma quase estragou. Mas, ainda assim, ela precisava de dinheiro, pois o que ela tinha, não era barato, nem fácil de conseguir.

"Pulei sobre o búfalo e rasguei sua carne como se fosse um bife suculento e macio. Um frenesi se apossou de mim, e eu não parei até que tivesse saciado a minha fome. Toda ela. Eu tão selvagem agora, quanto o animal que estava em minha boca. Minha satisfação era tal que eu quase tive um orgasmo. Depois de matar minha fome, corri até um lago, para saciar minha sede."
Annie foi abordada por uma mulher que ela nunca viu nos arredores. Ela levou um bom tempo conversando com Annie e convencendo-a lhe prestar um pequeno serviço. Annie entendeu que a mulher conhecia sua reputação, para pedir-lhe algo assim.

Além do dinheiro oferecido, a mulher contou sua história triste, talvez para criar alguma empatia. Disse que tudo aquilo era por amor, e que ela devia apenas colocar aquele veneno na bebida de um tal Jerusalem Jones, que matou o amor de sua vida, enviado por Betsy O'Hare.

"Por que, então não matar Betsy O'Hare?" A mulher estremeceu e disse que ela devia fazer apenas o que ela pedia. Ninguém se metia com Betsy O'Hare. Ela explicou que o veneno era de ação rápida e que ela não teria nenhum problema. Seria um trabalho limpo. Não havia como errar. Misturado em qualquer bebida comum, o veneno seria fatal.

"Quando terminei de saciar minha sede naquele lago límpido, uma estranha fome voltou a se abater sobre mim. E avistei outro búfalo ao longe... e eu corri, corri como o vento, sentindo o cheiro de seu medo em minhas narinas."

Jerusalem Jones acordou no dia seguinte, em um beco. Sua roupa estava em trapos. E ele, coberto de sangue. Sua cabeça doía como se ele estivesse com duas ressacas ao mesmo tempo. Na verdade, três. Sua garrafa, que custou tão caro e foi tão difícil de conseguir - O'Hare disse que não haveria uma segunda, por dinheiro algum - estava perdida. Ele sabia disso.

J.J. correu até a pensão, se escondendo aqui e ali, e conseguiu chegar lá, sem ser visto. Sim, a garrafa estava vazia, caída ao chão. Depois de tomar um banho e pegar umas roupas, decidiu que estava na hora de ir embora.

Quando estava quase saindo da cidade, ouviu um grupo de pessoas conversando sobre duas mulheres encontradas no deserto, totalmente esquartejadas. J.J. sentiu vontade de vomitar. Sentia seu estômago embrulhando. Sua cabeça girava e ele quase caía do cavalo.

Conseguiu se manter na cela e quando já estava fora da cidade, ainda olhou para trás, e viu Betsy O'Hare apontando para ele, e fazendo um sinal de "não", e depois apontando para si mesma e balançando a cabeça sinalizando "sim".

Jones conseguiu lembrar, então, que o sangue era seu. Vomitou-o, teve espasmos - que deve tê-lo feito rasgar sua roupa - mas sobreviveu ao que quer que tenham colocado em sua garrafa. E, graças ao que tinha na garrafa, com certeza.

Pois é, ninguém se metia com Betsy O'Hare. Nem com quem ela considerasse seu amigo, por um mínimo que fosse.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sonhos de Uma Noite Qualquer


SONHOS DE UMA NOITE QUALQUER
(Como Acordar de Um Sonho em Três Lições)


Eu estava em um lugar que não conhecia, sem saber exatamente onde queria chegar, e sendo abordado por pessoas que eu não sabia quem eram. Logo percebi que estava à beira de uma auto-estrada e, novamente, era como se eu não soubesse para onde ir. Tudo ali me incomodava. Sentia uma sensação ruim, como se estivesse preso, mesmo estando totalmente livre para ir aonde eu quisesse. No entanto, ir para onde?

Até mesmo a arquitetura dos prédios próximos à auto-estrada me incomodavam. As pessoas continuavam a falar comigo, mas eu não dava atenção. Um grupo de garotas, um homem de meia-idade, ou seja pessoas sem identidade para mim. Eu nem mesmo tinha o trabalho de processar o que ele diziam, assim não os entendia. Eu só queria ir embora dali. Mas qual era a saída?

Eu parei por um momento, forçando a mente para tentar lembrar de alguma direção que eu pudesse seguir, como se tentasse saber de onde vim e para onde tinha de ir agora. Eu ouvia o barulho dos carros passando, via o céu azul e o tempo estava até mesmo agradável. Mas tudo era tão estranho, era como se fosse um... um... meu deus...

Foi então que me dei conta. Eu estava sonhando. Mas tudo era tão absurdamente real. Sim, eu já tive sonhos em que percebia que estava em um sonho. Mas eram sempre muito vagos e eu lembrava de pouquíssimos detalhes depois. Geralmente era apenas uma idéia de que era um sonho, mas este continuava à minha revelia. Mas agora era diferente.

Eu sabia que estava sonhando. Comecei a dizer isso em voz alta: "Estou sonhando". E, por mais estranho que pareça, eu senti minha boca se mexer. Não a minha boca do "eu" onírico, mas minha boca do meu "eu" real, que estava dormindo. Quando percebi que fazendo isso poderia estar falando dormindo, eu parei.

A angústia de estar em um sonho tão real e SABER que era um sonho estava aumentando. Era tão surreal estar preso ali, sem conseguir encontrar uma solução. Então tive a brilhante idéia de sacudir a cabeça para ver se acordava. E foi o que eu fiz. Sacudi a cabeça com força e acordei.

... Eram umas 10:30 da manhã quando eu acordei. Fui ao banheiro, escovei os dentes, depois tomei o café. Quando estava aqui em frente ao computador, alguma coisa estalou em minha cabeça e eu me lembrei do sonho que tive e de como consegui sair dele. Só que havia uma coisa estranha. Se eu sacudi a cabeça e acordei, por que isso não pareceu ser de imediato? Por que só estou me lembrando do sonho agora e não assim que acordei?

Me senti estranho. Eu comecei a entender que eu apenas sonhei que "acordei". Lembro de que a coisa de sacudir a cabeça tinha funcionado, e que eu consegui sair do sonho que me perturbava. Mas eu não acordei de verdade. Eu apenas fui para outro lugar. Onde eu estive este tempo todo que parece ter durado entre eu "acordar", mas continuar dormindo e eu ter acordado de verdade?

Faço um esforço para lembrar, mas só existe o nada. Um imensa escuridão preenche esse espaço de tempo. Sobre o que mais eu sonhei?

Desisto de tentar entender e aceito que, pelo menos, isso tudo deve dar um texto razoável para o blog. Já que não estou conseguindo escrever um novo conto do Jerusalem Jones, esta "experiência" vai ter de servir.

Quando estou quase no fim do texto, sinto que estou com sono. Talvez seja apenas o frio que está começando a fazer que tenha me deixado sonolento, ou o fato de estar escrevendo sobre sonhos, ou quem sabe o motivo seja eu não saber como fechar a história e querer apenas dormir um pouco. De qualquer jeito, como é algo que aconteceu de verdade, não tenho um final surpreendente.

Nem mesmo posso dizer que ainda estou sonhando. Até mesmo eu sei a diferença entre um sonho que parece muito real e a realidade. Nada de Matrix para você.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Cada Passo


CADA PASSO SOA COMO UM TAMBOR(Contos de Uma Noite de Sábado Sem Supercine)

De repente me lembrei que não havia tomado meu remédio. Procurei dentro da latinha onde os guardo, e quase não acho de tão pequena que é a embalagem. Estava entre os lápis, canetas para escrever em CD, e chaveiros velhos. Tiro um e coloco entre os dentes, para segurar, enquanto abro a geladeira e pego água. Quase posso escutar minha mãe dizendo "bebe isso com leite menino, faz mal tomar só com água". Com o comprimido ainda entre os dentes, começo a procurar um copo e não encontro nenhum limpo. Pego um na pia, lavo e encho d'água. Antes que eu possa engoli-lo sinto que algo aconteceu com minha língua.

Ao demorar demais para pegar a água, minha língua ficou encostada no comprimido por muito tempo, e ficou anestesiada. Não sinto a ponta dela. Não pensei que o remédio fosse tão forte assim. Tento não dar atenção a isso e apenas engolir o comprimido sem pensar muito. Mas, quando tento, a água parece não ter sido suficiente, ou engoli de mau jeito e ele fica preso na minha garganta. Começo a tossir, mas ele não sai. Tusso com força, mas nada. Sinto um certo desespero. Apesar de pequeno, ele incomoda demais. E sinto que ele está anestesiando minha garganta também. Em pouco tempo a sensação de dormência me atinge o cérebro e eu desmaio.

Quando acordo, sinto uma dor de cabeça enorme, mas lembro que eu já estava com ela, só não havia me dado conta até aquele momento. É a maldita da sinusite. Parece que o problema com o comprimido só fez a dor piorar. Levanto do chão, sem saber se engoli ou se expeli o comprimido. Não o vejo em parte alguma do chão. Minha testa pulsa de dor no lado esquerdo.

Não sei exatamente quanto tempo passei desmaiado no chão da cozinha, mas parece tarde. Olho o relógio e já é de madrugada. O frio parece ter invadido o apartamento. A janela está aberta, deve ser por isso. Me sinto péssimo, como se estivesse me movendo em câmera lenta, ou entre areia movediça. Vou até a mesinha do computador e olho dentro da latinha onde guardo os comprimidos, pego a embalagem e o nome nela é outro. Na verdade, nem mesmo são letras, mas caracteres que não reconheço de lugar algum.

Me sento em frente ao computador que ficou ligado e não sei muito bem o que pensar. Quando eu coço atrás da orelha direita eu ouço um clique dentro dela. Que estranho. Eu seguro a ponta da orelha e puxo de leve. O clique novamente, lá dentro. Tento o mesmo na outra e nada acontece. Será que bati forte demais com a cabeça e algo se soltou dentro do meu ouvido? Mas não sinto dor alguma e estou escutando perfeitamente bem. Mas aquilo me incomoda cada vez mais.

Pego a tampa de uma caneta e tento sentir se... sim, a tampa toca em algo, sem eu mesmo precisar ir muito fundo. Sinto um clique maior e quando deito a cabeça pro lado direito, alguma coisa cai no chão. É o comprimido?!

Eu o apanho. Sua cor está diferente. Não tem mais a mesma cor que me fez pensar que era o verdadeiro. Está com uma cor prata. E está mais pesado.

Tiro os óculos e o aproximo para enxrgar melhor e ver do que se trata. Não sei muito bem o que está acontecendo, mas tento não pensar muito no quanto aquilo tudo não faz sentido algum. Percebo que há um orifício quase imperceptível, e quando caio na besteira de aproximar mais do olho, um feixe de luz vermelha atinge meu olho. Fico cego de um olho por alguns minutos e quando consigo enxergar melhor, não vejo mais as coisas como antes.

Todas as coisas parecem ter uma película de plástico brilhante envolvendo-as. Sinto o globo ocular atingido girar, e se reposicionar, e consigo enxergar algo além da percepção comum. São - ou imagino que sejam - realidades alternativas sobrepondo-se à minha realidade. Versões do lugar onde estou vão passando na minha frente sem parar, mas eu consigo perceber todas.

As pontas dos meus dedos parecem mais sensíveis que o normal, e meu cabelo parece estar ligeiramente eriçado. Eu toco o ar e o sinto, como se fosse areia quente. Então afundo a mão nessa "areia" e percebo que ela some. Puxo de volta assustado. Mas a mão não volta. Sou sugado para dentro de alguma coisa que me comprime, comprime, comprime até eu me sentir dentro de um grão de arroz. Só que não meu corpo, apenas meu "eu". Não sei mais se tenho corpo.

Sinto que dois dedos pegam a espécie de "grão" que me tornei e sinto o hálito quente de uma boca, quanto escuto ao longe uma voz feminina:

- Bebe isso com leite menino, faz mal tomar só com água!

FIM.


quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Um Estranho Numa Terra Estranha


UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA Aventuras Pitorescas na Zona Sul do RJ


Entro no ônibus, saindo da Baixada Fluminense onde moro, e indo para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Vou sozinho, sem avisar ninguém, nem mesmo à minha mãe. Sinto como se esses momentos fossem só meus e não devessem ser revelados a ninguém. Sinto como se estivesse indo em uma viagem para outro mundo, e até que não deixa de ser.

O lugar é tão longe que um ônibus apenas não basta. Fico tentando lembrar como aprendi a ir até lá sozinho e não lembro. Vai ver sou como os pássaros migratórios que sabem a direção certa a seguir. Sei lá.

Nem mesmo em que bairro estou eu sei. Apesar de saber que aqui ficam Flamengo, Copacabana e Ipanema, entre outros, eu nunca sei em qual deles estou. Eu apenas ando. Estranho como não sinto medo de me perder em um lugar que praticamente eu não conheço.

Acho que o que me atrai aqui são os cinemas, as livrarias, as locadoras. Tudo aqui é maior, mais bonito e com mais variedade do que onde moro. Os cinemas de lá passam filmes velhos, as livrarias parecem vender apenas livros para crianças e as locadoras, bom, essas nem sequer existem por lá. Só vim a saber da existência delas quando cheguei aqui.

Paro em frente a uma locadora, dentro de uma galeria, toda envidraçada, quase colo o nariz no vidro. Fico olhando os vários filmes naquelas caixinhas engraçadas. Nem mesmo sei como é um video-cassete, então só posso olhar os filmes mesmo. Vejo o "Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu" e lembro que já ouvi falar desse filme, ou li em algum lugar. Parece ser bem engraçado.

Volto a andar pelas ruas desse bairro que nem sei qual deles é. Sinto o cheiro da praia e ouço o barulho do mar. O tempo está nublado, até mesmo um pouco frio. Quando penso em chegar mais perto, minha atenção é desviada por uma livraria. Entro e passeio entre os vários livros, os quais nunca vi antes. A maioria são volumosos, capas brilhantes. Penso que nunca conseguria lê-los com a agilidade com que leio os da escola.

Logo saio dali e volto a passear, entrando desta vez em uma galeria que me parece a entrada de um grande cinema. Cartazes enfeitam os dois lados da entrada e eu fico ali perdido olhando aquilo tudo. De repente me vejo surpreso quando noto que um cartaz do filme E.T. - O Extraterreste está em pé à minha frente. Eu estranho, pois o filme foi lançado em 1982 e, claro, não estamos em 1982, pelo menos eu acho. Olho para o relógio, para confirmar e, isso mesmo, não estamos em 1982.

Mas, logo abaixo, no cartaz, anuncia que é um relançamento nos cinemas. Vejo os horários e noto que está perto da próxima sessão. Nem sei quanto eu tenho no bolso. Não vim preparado para isso. Nem reparo, mas estou ofegando. Confiro o que tenho, vejo a hora, e bom, vou demorar mais do que o normal.

Quando eu pago o ingresso é que eu percebo uma coisa que não tinha notado ainda: é a primeira vez que vou entrar num cinema de verdade. Não em um com cadeiras de madeira quebradas, som ruim, que nada se entende quando é um desenho animado dublado.

Quando me sento, sinto que afundo na cadeira. Elas são dispostas de um jeito que ninguém fica com a cabeça na minha frente. Apesar da excitação das pessoas e dum certo falatório, nem se compara à bagunça que é nos cinemas que estou acostumado a ir.

Me sinto estranho. Como se eu não fosse eu mesmo. Quando a tela se ilumina, ainda não é o filme. Mas não deixa de ser mágico. Mesmo agora, eu viajo. E sinto como se eu estivesse indo ainda mais longe do que quando saio de casa e venho aqui para a Zona Sul. É uma viagem dentro da viagem. Por um instante sinto como se fosse até o futuro, o meu futuro e sinto um formigamento na palma das mãos.

O filme voa, o tempo vai junto. Logo estou saltando do ônibus, de volta para casa. Minha mãe está vendo TV. Nem parece ter notado minha ausência, até que ela pergunta:

- Onde tu tava, Eudes?

- Fui até à Cidade, mãe.

- Tá bom!

E ela ri, como quem diz "esse menino não pára de fazer piada".

quarta-feira, 27 de junho de 2007

JJ e o Demônio Interior

JERUSALEM JONES: O DEMÔNIO INTERIOR

Era quase meia-noite e eu estava no meio do nada, com um bando ao qual me juntei para fazer um "trabalho" por essas bandas. Depois de despistarmos quem precisava ser despistado, resolvemos levantar acampamento por aqui mesmo, pois já era tarde para continuar cavalgando. Dividimos o suor do nosso servicinho entre nós.

Eu não conseguia dormir. Na verdade, estava tenso e desconfiado demais pra dormir e sono era a última coisa que se pensaria. O bando estava contando histórias de fantasmas, que parecia cair bem para tirar o sono. O'Halley terminava a sua agora:

- ...e quando o idiota foi ver, o "fantasma" que o perseguia pelo cemitério, era nada menos que um abacate que tinha caído no cesto que ele carregava nas costas. Mas a essa altura não adiantava mais nada, porque ele tava mortinho da silva, de tanto medo.

- Ahh, O'Halley, você tá brincando, né? Que historinha safada! E o Jones aqui? Você tem alguma história boa pra contar?

- Naaaaah! Eu não sei nenhuma história de fantasmas ou assombração, como meu pai chamava.

- Vai dizer que nunca aconteceu nada de estranho contigo?

- Não, não! Eu levo uma vida bem pacata, que só fica mais agitada quando preciso de grana. No geral eu não...

Nessa hora, um coiote uivou tão próximo que fez com que a maioria empalidecesse.


- He he he! Isso deve ser um sinal! - Disse o Bonney, e insistiu em que devia contar alguma coisa.

- Tá bom! Tá bom. Teve uma vez, há um tempo atrás, quando eu estava em casa, altas horas da noite e alguém começou a bater na porta. Quando fui atender não vi ninguém, até que olhei pra baixo e vi que era o moleque mais novo dos Kindall.

- Meu pai tá chamando o sinhô. Ele diz que é urgente.

Os Kindall eram uma família bem generosa comigo, enquanto eu estava morando naquela cidade, e várias vezes eu pude almoçar com eles, ou mesmo jantar. Eles gostavam da minha companhia e eu da deles. Além do menino eles tinham mais um filho adulto, chamado Ramsey.

Devido a isso tudo, eu fui sem pensar, apesar de já ser bem tarde, até a casa deles. Quando cheguei por lá, eles estavam bem nervosos e muito assustados. A casa parecia ter sido atingida por um tornado e havia gosma verde na parede.

- O que aconteceu, pessoal? Você foram assaltados?

- N-não, Sr. Jones. F-foi o Ramsey, entende?

- Não, não tô entendendo não.

Eles me pediram para sentar e explicaram rapidamente o que achavam que tinha acontecido ao seu filho mais velho. Eu fiquei assim, meio boquiaberto, sem saber o que dizer, já que eu achava que era loucura tudo aquilo que me diziam e eu apenas disse:

- Porquê não chamaram um padre, então?

A Sra. Kindall pegou minha mão, me levou até o quarto e me mostrou algo no canto, algo terrivelmente horroroso de se olhar, algo que havia sido uma pessoa algum dia.

-N-Nós... chamamos...

Eu corri e, como bom estômago fraco que sou, vomitei um bocado, em qualquer lugar mesmo, já que coisa nojenta era o que não faltava por ali.

- O que vocês querem que eu faça? Cadê o Ramsey e porquê vocês estão inteiros?

Dessa vez foi o Sr. Kindall quem tomou a frente:

- Acho que o que quer que tenha possuído o Ramsey, estava com pressa, pois quando ele conseguiu se livrar do padre, correu para a o meio do nada, saindo da cidade a pé. Parecia estar procurando alguma coisa.

-Mas porquê o Ramsey? Seu filho era tão quieto.

-É, quieto demais, Sr. Jones. Ele estava envolvido com uma garota que parecia estar envolvida com uma espécie de seita que mistura adoração ao Diabo, e coisas assim. O prefeito prendeu alguns, expulsou outros e deixou por conta dos pais acertar as coisas com os filhos que foram influenciados.

- Nossa, eu fugindo dessas coisas e filhos de vocês indo atrás. O que vocês acham que posso fazer? Ir atrás dele e trazê-lo de volta? Se ele tá mesmo com essa coisa, eu vou terminar pior do que o padre.

- Mas foi aí que erramos, em chamar o padre. A gente não precisava de um homem de Deus, e sim de um homem... - O sr. Kindall parou de falar.

- Ok, Ok! Eu entendi o que o senhor quer dizer, mas saiba que também não é bem assim.Certo, eu vou ver o que consigo fazer. Vocês são gente boa. Pra que lado ele foi?

Os dois apontaram para uma direção que me lembrei, era onde estava um destacamento do exército, que estava de passagem, indo para o Forte Dellaware. Se ele tinha ido naquela direção, poderia topar com eles. E na verdade, ele topou.

Quando cheguei por lá, o cenário era indescritível. E olha que eu nem sei falar direito indescritível. Diante de tantas cabeças, braços e pernas arrancados, eu sabia que não tinha a mínima chance contra Ramsey ou seja lá o que fosse aquilo.

Eu não via mais movimento algum, tudo era tão silencioso. Pensei então em dar Ramsey como perdido, fazer uma hora ali e retornar com as más notícias para os Kindall. Foi quando eu escutei uma voz gutural, como se viesse do fundo de um poço:

- PAI!

Levei um susto, olhei para trás, e vi num canto, debruçado sobre algum cadáver... Ramsey. Ao que parece não tinha me percebido ali.

- Pai - continuou a coisa em Ramsey - te encontrei, depois de tanto tempo. Desde que nasci, fui criado nas mais profundas trevas, sendo ensinado por minha mãe apenas o sentido da palavra... VINGANÇA. Este se tornou o meu nome. Ela me contou como seus truquezinhos baratos a enganaram, quando você era apenas um soldado de merda e ela uma demônia na flor da idade, ingênua, nos seus primaveris 280 anos. Tive de esperar todo esse tempo, pois eu só poderia entrar neste mundo através... de outro filho seu, quando ele estivesse adulto e nas condições adequadas. Um filho bastardo, como eu. QUEM ESTÁ AÍ?

Meu coração quase saiu pela boca, quando o demônio me percebeu. Quando ele se virou, vi que estava com a cabeça de quem ele chamava de pai em uma das mãos.

- Esta é uma reunião de família, e você a está interrompendo.

- J-já estava de saída. S-só vim avisar que os pais... quer dizer, a mãe dele, está... é... preocupada. Sabe como é né... mães são superproteras: filho não saia sem camisa, filho não saia na chuva, filho não empreste seu corpo a demônios e coisas assim...

- Ela não sabe de nada. Ela acha que este corpo é filho de seu marido. Não que eu me importe. Mas eu já cumpri minha missão a temp... hhhrrrcgh...

O corpo de Ramsey estrebuchou e caiu se debatendo.

-M-Mald-dição... o t-tempo a-aqui n-não p-passa como n-nas p-profundezas... v-vou ficar p-preso n-neste c-corpo se v-você n-não a-tirar...

Não acreditei, eu tinha de matar Ramsey pra livrar o demônio. Não tinha saída, se eu não matasse ele seria só uma moradia pro bicho ruim. Apontei para a cabeça do Ramsey...

-RÁPIDOOO HUMANO DESPREZÍVEL!

Resolvi apontar para o coração... e atirei. Ele parou de se debater. E uma fumaça cinza escura deixou seu corpo e escutei uma a voz do demo uma última vez:

- Estou em dívida com você humano. Quando precisar, chame Deculion e pago minha dívida.

Ramsey abriu os olhos, estava confuso. Na verdade eu também estava. Eu errei o tiro propositalmente, não poderia matá-lo. Acho que até no mundo das trevas, algumas coisas funcionam pelo poder da sugestão.

Logo fomos embora pra casa, e não toquei em assuntos delicados como a paternidade de Ramsey, nem nada. Eles eram uma família feliz e podiam continuar sendo. E é isso. Viveram felizes para sempre.

Jones, que historinha de merda! Você quer que eu acredite nisso? Credo! Isso tem mais furos que minha bota. Bom, pessoal, acho que já passou da hora e podemos, depois dessa, despachar nosso amigo Jerusalem Jones e ficar com a parte dele, afinal, ninguém vai sentir sua falta mesmo.

Os outros idiotas concordaram com essa estupidez e Bonney já estava se preparando para atirar, quando eu disse:

-Posso falar uma última coisa em minha defesa?

- Que seja, só não demora muito.

- Deculion.

***
Para baixar as histórias antigas de Jerusalem Jones em O Bom, O Mau, O Feio - Volume I, clique AQUI.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

O Menino com a Flauta de Osso

O MENINO COM A FLAUTA DE OSSO

Uma cena insiste em se cravar na minha mente: um menino índio sentado em um velho pedaço de árvore caído, tocando sua flauta de osso. Ali, no meio do bosque, num fim de tarde, onde o vento é frio e os galhos das árvores balançam, estalando algumas vezes, provocando um certo alvoroço entre os pássaros ali presente. Os mesmos se sentem estranhamente pertubados com a música da flauta do menino índio, e ao mesmo tempo atraídos. Uma melodia melancólica sai de sua flauta, como se a música fosse um lamento por algo que ele perdeu sem nem mesmo saber o que seria.

Desde que ganhou aquela flauta de seu avô e aprendeu a usá-la, o menino foi perdendo o contato com seus amigos ou porquê se afastaram devido às músicas tristes que ele insistia em tocar, ou simplesmente porque ele mesmo se afastou para poder ouvir sozinho tudo o que saía de sua flauta.

Certo dia ele escutou um pequeno grupo de meninos e meninas da tribo conversando entre si, cochichando como se o que estivessem falando fosse algo profano demais. Sem que percebessem, ele se esgueirou pela oca mais próxima deles e, bem quieto, conseguiu escutar o que eles diziam: "a flauta é feita com um osso de sua avó morta".

Quanta bobagem, pensou ele. Ele sabia muito bem que seu avô contaria se isso fosse verdade. Ele confiava em seu querido avô, como não confiava em mais ninguém. E mesmo se fosse verdade, não havia nada demais nisso, assim pensava o menino.

Então esta cena toda, e tudo isso que lhes contei não saía de minha mente já a uns três dias, e comecei a pensar se eu deveria contar essa história, se era isso que eu deveria fazer, ou até mesmo, se era isso que a canção que o menino índio da minha visão tocava queria dizer, que eu devia contar esta história.

Não sei ao certo, mas continuei vendo o menino tocando sua canção triste no meio do bosque, e os pássaros agitados, mas atraídos pela música. Uma chuva fina começou a cair e, ainda assim, o menino continuou ali, sua melodia se misturando à chuva e o barulho das gotas sobre as folhas das árvores se misturando so som que vinha de sua flauta.

E se a flauta fosse realmente feita de um osso de sua avó que ele nem mesmo conheceu? Seu avô contava muitas histórias sobre ela. Ele a chamava de oguett, pássaro da madrugada. Dizia que era porquê ela sempre acordava no meio da noite para cantar para os deuses, com sua voz melodiosa. Seu avô sempre chorava quando falava dela. O velho índio sempre dizia que não eram lágrimas, mas as lembranças dela que se formavam em gotas. O menino não entendia muito bem, mas sempre o abraçava nessas horas.

O menino continuava tocando a melodia sem parar, e a chuva fina parecia acompanhá-lo. Os pássaros estavam quietos agora, como se escutassem atentamente, procurando sentir o que o menino tinha para dizer.

Estranhamente a chuva mesmo sem ser forte, estava formando uma enorme poça à frente do menino, e crescia rápido a ponto de em pouco tempo parecer um pequeno lago. Já escurecia e, talvez devido a isso, ele não reparou que ao redor do pequeno "lago" que se formara, havia algumas pessoas sentadas, como se estivessem ali apreciando a música da flauta de osso. Ao perceber isso ele tocou com mais vontade, só que isso não deixava a melodia menos triste, e nem mesmo ele sabia o motivo.

A chuva e a noite iam caindo rápido, o lago que se formara aumentava e as pessoas em volta dele não paravam de chegar, e o menino não sabia de onde vinham. Apenas apareciam. De repente, deu para perceber que o lago estava aumentando tanto que começava a molhar os pés dessas pessoas. Só que em vez de se afastarem elas começaram a entrar no pequeno lago formado pela chuva fina.

De olhos arregalados, o menino viu as várias pessoas entrarem no lago até que este os cobria. Ele não entedia, afinal não podia ser tão fundo assim, era apenas uma poça muito grande. Mas a verdade era que todos que lá chegaram para ouvir ele tocar, entraram no lago, até desaparecerem.

Foi quando ele resolveu parar sua música, e a última pessoa era um jovem índia, que parou à beira do lago e olhou para ele antes de entrar, e disse: "Diga a seu avô que você cumpriu seu destino. Tdos os mortos pelo inimigo em sacrifício desonroso, estão libertos graças a ele e a você". Ele pensou que ela fosse mergulhar, mas quando ela pulou na direção do lago, virou um pássaro e alçou vôo para longe, desaparecendo. O menino só se deu conta de que era madrugada, quando viu isso acontecer.

A chuva parou. Ele olhou para a flauta e já ia jogá-la no lago, quando a água girou fortemente e num estrondo, explodiu. Quando o menino percebeu o lago estava chovendo de volta. Chovendo ao contrário, de baixo para cima. Voltando para as nuvens. Ele pôs sua mão nas gotas que subiam e sentiu algo percorrer seu corpo, uma energia quente e fria ao mesmo tempo. E se sentiu bem com isso.

Percebeu que devia guardar para si a flauta. Mas que não precisava mais tocar melodias tristes. Colocou a flauta entre os lábios e começou a tocar uma cantiga que as crianças sempre cantavam quando estavam brincando. O dia estava clareando, os pássaros pareciam cantar junto.

Lá adiante seu avô o esperava, como se soubesse de tudo que houve. E sorriu. Ele sorriu de volta.

E a cena se desfez de minha cabeça, e por fim eu pude dormir tranquilo, sabendo que estava tudo bem agora. Escrevi a pequena história e a terminei com um ponto final.


terça-feira, 8 de maio de 2007

A Princesa e o Mico

A PRINCESA E O MICO

A professora começou a tagarelar sobre a Festa da Primavera e eu juro que não estava prestando atenção. Não até que ela disse quem seria a princesa. Ela, Valéria. A menina mais linda que eu já tinha visto em toda minha vida. Tudo bem que minha vida se resumia a meros dez anos!

Eu sabia o que viria a seguir. A professora Celina ia pedir que algum dos meninos fosse o príncipe. E foi o que ela fez. Sendo a Valéria a princesa vi que todos os meninos da sala levantaram a mão. Pelo menos todos que eu sei que babavam por ela e, claro, eu era um deles. Só que eu não levantei a mão, não de imediato.

Entendam, eu sou tímido. Sempre fui tímido a minha vida inteira. Tudo bem que a minha vida toda se resumiam em apenas dez... OK, OK... eu sei que já disse isso! Quando eu era mais novo que sou hoje, eu costumava até mesmo me esconder atrás das portas quando chegavam visitas lá em casa. Para que eu entrasse em um ônibus era um sacrifício. Eu tinha vergonha das pessoas estranhas dentro dele. Mas agora se tratava dela, da Valéria!

A professora não escolheu nenhum dos meninos. Eu sabia que, no fundo ela estava esperando que eu me apresentasse. Se a princesa fosse qualquer outra, eu ficaria quieto, talvez fingindo que estava dormindo. Eu abaixei a cabeça e levantei o braço, escutando murmúrios entres os garotos chateados, quando a profesora me escolheu. Logo eu aprenderia que menina linda nenhuma Valéria... quer dizer, valeria aquele sacrifício.

Os ensaios eram motivos das risadas mais cruéis que eu já havia recebido. Nem mesmo os olhos brilhantes de Valéria faziam com que eu esquecesse a humilhação e a vontade de me meter em um buraco. Mas eu ainda era muito novo para isso (piadinha!).

Para ela isso era a coisa mais comum do mundo, afinal ela era uma menina, devia brincar de ser princesa o dia inteiro. Para mim era mais fácil ter farpas de enfiadas nos olhos. Mas isso era só o começo de tudo. A coisa iria piorar bem mais, pois logo eu vi o... figurino!

A professora "confeccionou" uma roupa de príncipe - na verdade só a blusa - em um papel crepon, ou sei lá como se dá o nome. E a coisa era bufante. BUFANTE! E pra piorar era um papel meio transparente, esverdeado. Eu tinha vontade de chorar. Mas eu não podia mais voltar atrás. Tinha dado minha palavra à professora. Tinha de ir até o fim agora.

O dia, o fatídico dia do Festival da Primavera, chegou. Uma quadra cheia de gente. E eu ali, no centro das atenções... com uma camisa bufante de papel, e uma coroa feita de papel laminado e cartolina. Eu queria ir pra casa. Minha mãe, e meus irmãos estavam nas arquibancadas. Eu lá, no meio de de várias meninas que rodeavam o príncipe e a princesa.

Eu estava com uma bermuda que minha mãe, não sei porquê, me deu em cima da hora. E era muito apertada. Eu não sabia se era ela espremendo minha bexiga ou se era meu nervosimo que me deixou com vontade de urinar logo de imediato. Eu só queria que aquilo tudo acabasse. Eu fiz o que tinha de fazer, uma dança que eu não sei como gravei, lá com a princesa, que termina com ela acocorada e eu dançando em volta dela segurando a sua mão. Nem mesmo o prazer de segurar a mão da menina mais cobiçada da escola, me fazia esquecer o embaraço.

Quando por fim acabou, corri para o banheiro, pensando em como eu nunca esqueceria isso pelo resto de minha vida. E, provavelmente, odiaria todas as Primaveras a partir de então.

Demorei a sair do banheiro. Acho que não queria ver ninguém mais. Minha mãe foi me buscar. Eu ainda estava vestido de príncipe. Na verdade, eu não tinha outra roupa além dela!

Meu coração gelou quando minha mãe disse que queria encontrar algum fotógrafo para que tirasse uma foto minha. Eu tentei largar da mão dela, mas ela segurava forte. Ela vasculhou a escola atrás de um fotógrafo e, nessa hora, eu senti que Deus estava me dando pelo menos uma chance. O único fotógrafo que se encontrava na escola não tinha mais filme em sua máquina. Eu suspirei aliviado.

Estava tudo terminado. Era só ir pra casa. Sim, com a roupa de príncipe. Fazer o mesmo caminho que fiz para ir, sendo alvo dos olhares como a primeira vez. Pelo menos eu podia tirar a coroa.

Desde então nunca me ofereci mais para nada, fosse por quem fosse... e fui feliz para sempre!

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Arcano

ARCANO


O Mago de centenas de anos estava alquebrado, sem muito saber o que fazer, pois enfim o Hielomundo estava prestes a mudar, entrar na assim chamada Nova Era. Não que ele não estivesse acostumado às mudanças, afinal ele passou por muitas, mas agora a coisa era muito diferente. Novas tecnologias se levantavam contra a magia e as pessoas nem mesmo o procuravam mais por ajuda. Era um novo começo e um novo fim.

Mesmo estando presentes, as forças da natureza e da magia intrínseca pareciam se diminuir ante à enormidade das novas mudanças que os seres humanos vinham promovendo. Ou talvez o mago estivesse enganado e a magia apenas estivesse indo embora, procurando um lugar não-contaminado por idéias desvirtuantes.

O arco da janela desenhava a escuridão ao longe, onde relâmpagos pareciam trincar o céu nebuloso. Tudo ia mal, tudo ia tão mal. O Rei Trebus havia sido derrotado e o povo queria uma nova forma de governo que o mago enm mesmo sabia que existia, Democracia. Cada coisa. O povo decidir. O povo sempre decidia pelo pior.

O mago tomou um gole de sua infusão e tentou esquecer tantos problemas por alguns minutos. Seu corvo estava agitado e parecia saber de tudo que se passava na cabeça de seu mestre. Num canto, depositado de qualquer jeito, o escudo de Trebus jazia. Escudo que o protegera de tantas batalhas, agora era mais que apenas um objeto entre tantos, pois Trebus, assim como muitos, perdera a fé, e sem fé não há magia que resista. O povo queria mais que pão e circo, como assim chamavam o governo do rei deposto.

A Batalha de Agrimendor fora decisiva e o líder populista, Keran, tomou o castelo e o poder, dizendo que este agora, ao povo pertencia. O mago avisara a Trebus as consequências de se deixar os desígnios do destino de lado e esperar que a Ciência desse todas as repostas. Aparentemente ela deu uma resposta que Trebus não gostou de ouvir: a população aprendera a usar bem as novas tecnologias e usou isso contra seu senhor. O escudo se partiu.

Um relâmpago mais próximo quase ensurdeceu o velho mago. No clarão ele vislumbrou parte do futuro. Ele viu um clarão dentro de outro clarão. Tão cegante quanto este. Contagioso. Na verdade, era chegada a hora de ir.

O Mago largou o cajado em cima da pequena távola no meio de seus aposentos, conjurou, movendo os lábios quase silenciosamente, um antigo feitiço e se transportou para um outro tempo, quiça um outro mundo. Antes de partir, viu Trebus em uma prisão nada digna de sua anterior realeza. O escudo se partiu em mais partes do que podia ser remendado, apesar de estar inteiro. O Mago se foi. Seu tempo havia terminado, mas não sua vida.

Deixou para trás apenas uma centelha de luz. Se duraria, não era mais assunto dele.


segunda-feira, 16 de abril de 2007

JJ e o Povo de Massina

JERULASEM JONES E O POVO DE MASSINA

O sino da igreja começou a tocar. Era o sinal. Estávamos sendo invadidos. As pessoas de Massina City (nunca entendi o porquê desse nome) estavam vindo com tudo para cima da gente aqui, em Down River. Não dava para acreditar que aquelas pessoas, em sua maioria pacíficas estavam armadas e prontas para matar. Eu só acreditei quando ouvi o primeiro estampido e o Carl "leprechaun" Dobney, que estava logo ao meu lado, levou um tiro certeiro na cabeça, disparado por uma velha de uns 90 anos. Era hora de revidar.

Tudo teve início quando o "Louco" chegou à cidade. Eu estava morando em Down River já há algum tempo, descansando um pouco das loucuras pelas quais passei. Mas até que estava demorando acontecer algo, pois assim que o Louco chegou, ele correu na minha direção e agarrou minha camisa.

- Amigo, amigo!!! Eu sou amigo!!!!
- Certo... amigo. Se você deitar e rolar eu te jogo um osso. Agora, pode largar a minha camisa. Você está babando nela.
- Eles estão vindo. Tentaram me pegar, mas eu sou mais esperto, entende? Ninguém pode entrar na minha cabeça. Ninguém.
- Eu até imagino o motivo
- O próximo passo é Down River. Ouvi quando eles disseram "conseguimos Massina, o próximo passo é Down River".

Eu me senti incomodado com a conversa do Louco, pois eu nem mesmo podia dizer que era bobagem o que ele estava dizendo, pois coisas muito piores já haviam acontecido comigo. Ainda assim eu não fazia idéia do que ele estava tentando dizer. Arrastei-o para o saloon para ver se ele se acalmava tomando uma birita. É, eu estava mesmo vivendo bons dias. Pagar bebida para alguém era contra a minha religião. Mas o Louco tava precisando.

Ele falou por horas do que aconteceu ao povo de Massina City. Mas tudo que ele disse era tão desencontrado, tão... louco. Ele falava sobre demônios e espíritos maus. Falava algo sobre dominação mundial e portas abertas do inferno. Não era algo difícil de se acreditar, para alguém como eu, mas o cara era apenas o "louco da vila". Devia ter sido expulso por ter abusado da filha de algum fazendeiro.

Quando me dei conta ele estava tão bêbado que não falava nada mais com nada. Só conseguiu dizer:
- Elesh vão invadir Down River amanhã. - E desmaiou.

Parecia brincadeira, mas ao meu redor, escutando as histórias do Louco, se formara uma multidão.

- Pessoal, isso tudo é besteira. O cara deve ter sido expulso da cidade. Se acalmem. - disse eu.
- J-jerusalem...o-olha - Era o Vince apontando para o Louco na mesa.

O corpo do pobre coitado começou a brilhar, sua roupa foi sendo como que queimada e, sem que ninguém pudesse acreditar, o Louco bêbado desapareceu num clarão de luz tão forte que quase me cegou. De repente todo mundo começou a pegar em armas e a avisar toda a cidade sobre a invasão que sofreríamos vinda da cidade de Massina.

E aqui estávamos, matando pessoas que conhecíamos e alguns matando até mesmo parentes - não que isso fosse problemas para certos conhecidos meus. Eu atirei em um garoto que veio pra cima de mim com duas 38 disparando como louco. Acertei entre os olhos, antes que ele me matasse. Era uma guerra entre duas cidades.

Eu vi o Billy Bob Joe, o açougueiro, acertar um cutelo no meio da testa de um padre, para logo em seguida ter o coração arrancado pelo coroinha que veio logo depois. Adeus, Billy.

Os cavalos dos habitantes de Massina também pareciam insanos e eu me ocupava de derrubá-los logo que podia. Um deles já tinha conseguido me machucar. Me escondi um pouco para recarregar as armas e quase morri de susto quando vi a porra do Louco bem na minha frente.- Que diabos é isso?!

Você não tinha morrido, ou sei-lá-oquê?
- Tome. Um tiro só. - E sumiu bem na minha frente.

E dizendo isso ele me deu uma bala de ouro (nossa, eu já podia fazer uma coleção, balas prateadas, douradas).

Um tiro só. Sei. Nem precisa dizer muita coisa. Até já imaginava. Eu devia acertar o líder da invasão que, provavelmente, isso iria deter a todos, ou algo parecido. Agora, porquê o diabo do Louco não me disse quem era o líder? Merda! Mesmo sendo fantasma ele ainda é o idiota da vila. Lá vou eu então

Entrei no meio do tiroteio. Me protegi atrás do Bubby Conwell, que levou um tiro logo em seguida. A coisa tava feia. Como eu ia saber quem era o cabeça da coisa toda, antes de ser morto?

Cabeça? Que estranho. Isso me lembrou algo. Cabeça... cabeça. Eu havia visto no meio da multidão de Massina, uma mulher com cabelos vermelhos e uma estrela na testa. Será tão óbvio assim? Não lembro de ter visto mais ninguém com sinal. Onde estava ela?

Arrrrkk... acho que ela...arkkh... me achou. Ela agarra meu pescoço com força, está prestes a quebrar. É quando um tiro corta o ar e ela cai ao chão com a cabeça com um rombo enorme. Mary Kate, a dona do saloon, a acertou. No mínimo não quer que eu fique sem pagar minha conta.

Só que nada parou. Será que preciso acertá-la, mesmo morta, com a bala de ouro? E se não for ela, e eu desperdiçar? Tenho de parar esse massacre. Essa foi a única cidade que não me pôs pra fora em menos de 3 horas.

Não, não é ela. Eu volto para a guerra, e tento ver algo que me chame atenção. Estamos perdendo, tenho de ser rápido, ou morrer tentando. É quando olho pro meio da multidão invasora e vejo meio que tomando a frente de todos e causando o maior número de mortes... ele... o Louco? Não penso duas vezes, miro na direção dele, que me olha, e parece sentir que o fim está próximo, eu miro, ele mira - todos miram - na minha direção... eu atiro, eles também. Eu caio.

Me joguei no chão. Uma saraivada de balas passa rente a minhas costas e pára. Quando me levanto, a guerra acabou. Os sobreviventes de Massina estão parados, sem saber o que fazem ali. O pessoal de Down River os detêm por precaução. Tudo acabou.

Vou na direção do corpo do Louco e vejo que... não, não é ele. Apenas se parece com ele, só que mais velho. Imagino que seja seu pai . Abro sua camisa e ele está cheio de estranhas tatuagens, sendo que uma delas, lembra uma espécie de parto sendo feito no Inferno.

Eu descarrego minha munição no homem. Não sei exatamente porquê, apenas o faço.

Por um instante sinto uma espécie de paz. Mas apenas por um instante. Melhor eu ajudar com os feridos e enterrar alguns mortos. Ainda vou ficar um bom tempo por aqui.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Intermundo

INTERMUNDO

O olho digital de Byron piscou duas vezes. Não estava mais registrando nada. Defeito. Era a segunda vez que isso acontecia. Além de não poder fotografar, ele agora estava temporariamente cego de um olho. E, agora, o momento certo havia passado. Ele perdera seu trabalho: fotografar um super-herói sendo subornado para fazer vista grossa a um assalto a banco.

O Invictus (onde esse pessoal arranja esses nomes?) já ia longe, voando à toda, provavelmente contando suas verdinhas. Maldito olho digital. Seu ganha-pão.

O jeito agora era sair de fininho, e era o que Byron ia fazer quando levou um soco vindo não se sabe de onde. Caiu e quando se deu conta, ele viu.

- Ah, não! A turma toda de malditos fantasiados - Pensou Byron.

- O Invictus nos avisou de você, pelo transmissor. Então é você quem vem nos fotografando sem permissão? - Quem falava era O Velocista Azul.

- Só faço meu trabalho, sou um web-repórter. Me diz, Velocista é verdade que você gasta o que recebe na velocidade do som?

Byron não teve tempo de rir, sentiu vários socos dentro de poucos segundos.

- O negócio é o seguinte. Nós vamos confiscar sua ferramenta. - Era a Belle Girl quem falava em tom ameaçador. Ela devia estar vestindo o uniforme da última moda.

- Eu não uso Digital Cam.

- Nós sabemos - Era o Water Cooler

- Como assim, o que estão pensando? Vocês são loucos? Isso está ligado ao meu nervo óptico, se fizerem o que estão pensando é crime. Eu vou ficar enxergando apenas com um olho só.

- Não, não vai não. - Atrás deles apareceu um vilão que se redimiu e fazia parte da equipe agora. Seu nome: O Cirurgião.

- NÃO... NÃO... VOCÊS SÃO LOUCOS... SUBORNO É UMA COISA...

Dínamo Orgânico (porquê um andróide aceita suborno) e Cataclisma seguraram Byron.

- NÃAAOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Byron piscou duas vezes. Na segunda... escuridão.


domingo, 25 de março de 2007

JJ e o Monstro de Ferro

JERUSALEM JONES E O MONSTRO DE FERRO

O monstro de ferro amassou a delegacia de Village Old Town City. e apenas o xerife Wild Gruppy escapou, sendo que Billy Boas Maneiras estava atrás das grades, portanto... adeus, Billy. Mas o monstro queria mesmo era a mim. Soltando vapor por todos os lados, o bicho de mais de 20 metros gritava:

- "JONESYYYY!!!"

Tudo bem, a culpa foi minha. Tudo começou com uma piada inocente feita a um oriental, no Armazém do Grabbie. Ele estava lá, comprando todo tipo de parafuso e metal que o Grabbie possuía, quando eu, depois de ter tomado umas no Salloon do Arnold Backinsale (que agora não existe mais, vá com Deus), puxei conversa:

- E aí, china, pra quê tanto parafuso e placas de metal?

- Eu não sou chinês, Mr. "Jerusarem Jonesy", sou japonês.

-Uau, tô ficando famoso, já me conhecem até na China...ops, Japão.

- Não. Apenas já me alertaram contra a sua pessoa, Mr. "Jonesy".

- Tá certo. Só queria fazer uma pergunta. Algo que sempre comentam acerca dos homens orientais.

- Diga logo, tenho pressa. Não tenho o dia todo livre como certas pessoas.

- Isso foi injusto. Mas tudo bem. Me diga, é verdade o que dizem sobre o "negócio" do japonês ser muito, mas muito pequeno?

- Negócio, que negócio? Eu não sou comerciante, Mr. "Jonesy".

- Hmmm.. com "negócio", eu quero dizer braúlio, bilau, pinto, estrovenga, ou numa linguagem mais coloquial, pênis!

Nessa hora eu vi o japa ficar vermelho como um tomate, ou mais até. Pensei que ele fosse explodir. Ele pareceu estar paralisado, mas logo vi que não, quando ele meteu a mão no bolso e puxou a arma mais minúscula que eu já tinha visto em toda minha vida, e apontou para minha cabeça. Provavelmente disparava grãos de arroz:

- Mr. "Jonesy", no meu país existe um velho ditado que diz: "Não é o tamanho que importa, e sim o modo como se usa". - E dito isso, ele disparou.

Plec, plec, plec...

A arma do japa engasgou, e em seguida explodiu em sua mão. Claro, eu não pude manter minha boca fechada, vendo essa ironia do destino:

- É, eu acho que os boatos sobre as coisas miúdas "made in japan" são verdadeiras!

- Mr. "Jonesy", a honra é algo muito importante em meu país. Esteja amanhã ao meio-dia em frente ao "Saroon" de Mr. Arnold "Backinsare" para um duelo até a morte.

- Não vou faltar. Venha com uma arma maior. Mr...

- Kyosama Tenchigui! - E foi embora levando seus parafusos e placas de metal.

E ele veio, ao meio-dia. Ele chegou de trem. Um trem que estacionou bem em frente ao Saloon, deixando toda a cidade em polvorosa. Claro, afinal, ali não havia trilhos e a estação ficava do outro lado da cidade. Ele ainda possuía mais dois vagões, ou algo semelhante a isso. Eu não estava entendendo porque o japa estava ali num trem. Bom, eu não estava entendendo até ele dar um sorriso maroto de dentro da cabine e puxar uma alavanca.

Se a coisa já estava esquisita, ficou pior ainda. O trem começou a se transformar em outra coisa. Com muito ruído e muita fumaça - pois ele parecia funcionar a vapor, como os outros trens comuns - ele começou a ficar de pé! Se transformou em uma espécie de monstro de ferro.

As maioria das pessoas corriam com medo e gritando, mas muitas ainda permaneciam para saber no que aquilo ia dar. O saloon do pobre Arnold foi o primeiro a ser destruído. A coisa não conseguia andar direito e ao tentar vir em minha direção, esmagava tudo que estava à sua frente, ou dos lados.

O bicho era tão grande que eu entendi mais ou menos a ironia da coisa toda. O japonês estava tentando me esmagar como um inseto. Pra ficar mais excitante, o troço soltava fogo, como um dragão. Aquilo devia estar consumindo carvão de uma forma absurda.

O barulho das engrenagens que o faziam andar era ensurdecedor. Eu tentava ficar o mais longe possível, mas correr só piorava as coisas, pois aquela máquina estava destruindo toda a cidade tentando me capturar.

Eu ficava me perguntando como essa história ia terminar. Bem que isso poderia ser apenas um sonho e eu acordar, mas acho que isso já havia sido usado demais. Eu precisava me livrar daquilo de alguma forma. Não havia outra saída.

Eu consegui montar em um cavalo qualquer e disparar na direção da saída da cidade e ir a toda para o deserto. Imaginei que como aquilo era bem pesado, não conseguiria andar tão rápido. Olhei para trás e suspirei aliviado, pois a máquina estava saindo da cidade, vindo na minhha direção. Provavelmente o deserto ia acabar com o japonês e suas reservas de carvão. Até lá eu já estaria long... hã... como? Como pode ser? O monstro VOA?! Todo aquele peso? Como pode?

Não podia acreditar, mas agora aquilo ia me alcançar em questão de minutos.

Quando o bicho aterrisou, o barulho fez com que meu cavalo se assustasse e me derrubasse. O monstro de ferro levantou um pé enorme e já ia me esmagar, quando eu vi o brilho de uma espécie de estrela bem sobre ele, descendo. Um clarão mais forte me cegou completamente, e eu não consegui ver o que estava acontecendo. Corri como pude para longe do que parecia ser uma batalha entre o monstro de ferro e alguma outra coisa que parecia só saber gritar "HUÁC".

Me escondi em uma pedras, ainda cego. Quando todo aquele barulho de luta ensurdecedor parou, eu só escutei o som de ferro sendo amassado e depois um último "HUÁC", e senti que algo foi embora.

Me encostei na pedra e esperei um bom tempo, até que minha cegueira provocada pelo clarão foi embora. Consegui enxergar e olhei para onde tudo aconteceu. Só havia uma gigantesca bola de ferro retorcido e o corpo do japonês totalmente nu, jogado para o outro lado.

Fui até lá para ver se o idiota ainda estava vivo. Pude constatar que ele estava respirando apesar de estar muito mal.

- O que aconteceu, japa?

- De novo... aquele maldito... Ultr.... cof... - e desmaiou.

Dei um chute no lado do desgraçado, isso porque eu não sou de guardar rancor. Coloquei-o sobre o cavalo para entregar ao Xerife. E... hmmm... que tem demais? Conferi os documentos do japonês e... é, realmente os boatos, pelo menos no caso dele, são bem verdadeiros. Minúsculamente verdadeiros.


segunda-feira, 12 de março de 2007

Lars na Cidade dos Pássaros

LARS NA CIDADE DOS PÁSSAROS


Lars se dava conta de que era apenas um cão, ele sabia disso. Como ele passou a raciocinar, e entender que era um cão, aí ele já não sabia mais. E ele não estava nem um pouco a fim de usar seu cérebro para filosofar se isso era devido a algum tipo de Grande Plano Divino das Coisas Que Ninguém Mais Sabe. Ele era apenas um cão. Um cão que pensava.

Às vezes ele sentia apenas saudades de morder a cabeça da sua vaquinha de pelúcia, ou de sair correndo para pegá-la quando seus donos apenas pediam. Na verdade ele pegava a vaca sempre que seus donos pediam qualquer coisa. Eles acabavam rindo disso. Lars agora fazia isso, conscientemente.

Pensar não tornou sua vida mais fácil. Talvez fosse para isso que ganhou esse novo "poder". Afinal tudo aconteceu logo em seguida ao desaparecimento de Lúcia, a bebê recém-nascida, que fez com que todos esquecessem um pouco de Lars, e dessem atenção a ela. Bom, pelo menos agora ele ENTENDIA o porquê disso tudo. Ele faria o mesmo.

Lars ficava amuado num canto, entendendo tudo que seus donos passavam. Sentia uma tristeza profunda. A casa parecia mais vazia e até o sol que fazia lá fora parecia mais triste.

Joanna, a filha mais velha, que até a chegada de Lúcia tinha sido filha única, vivia chorando, talvez mais que seus pais. Tão novinha e já tendo que enfrentar esse tipo de sofrimento, a perda da irmã. Lars perdeu seus irmãos logo cedo ao ser separado deles, mas não era a mesma coisa. Era algo a que estavam acostumados, ele entendia isso agora.

Lars teve um sobressalto e se pudesse, daria um patada na testa, e diria, como não pensei nisso antes?! Mas não, ele não sabia falar, apesar de conseguir pensar, e não tinha coordenação suficiente para dar uma patada na testa, como os humanos faziam.

Correu até o berço de Lúcia, que estava intacto, deixado do mesmo modo desde que ela desapareceu. Lars farejou o quanto pode, tentando sentir algum cheiro estranho, algum cheiro diferente do que estava acostumado. Fora o de xixi, ele sentiu sim, um cheiro de.... hmm?... pássaro?! Por quê?

Era um cheiro forte e, por estranho que parecesse, ele sabia que era de um pássaro grande. Lars desatou pela porta da frente, e rezava (cães podem rezar?) para que, mesmo tendo passado tanto tempo, o cheiro não tivesse desaparecido.

Lars correu até o bosque perto da casa. O cheiro vinha de lá. Ele não se lembrava de ter visto pássaros grandes por ali, apenas os usuais, comuns. Mas não queria pensar muito nisso, ele estava na pista, e correu, correu como o vento (nossa, cães também podiam ser bem clichês).

Logo chegou em um ponto em que o cheiro se dispersava. Sumia. Ou subia, não sei! Era uma clareira. Ele começou a ganir sem saber o que fazer. Ele sentia algo estranho em sua alma de cachorro. Algo iminente. E aconteceu.

Sentiu quando as garras se cravaram em seu corpo carregando-o para cima. Parecia incrível, mas devia ser o maior pássaro que ele já havia visto na vida. Ele o carregava sem esforço. Lars não conseguia definir que tipo de pássaro era. Mas sendo daquele tamanho, não devia ser nenhum conhecido.

O bicho o carregou por horas, e Lars já estava todo dolorido. Foi quando notou que estavam por cima das nuvens. E em direção ao que parecia ser uma cidade. Lars se sentia em um livro de contos de fada para crianças de 3 anos. Mesmo nunca tendo lido nenhum.

Ao entrarem na cidade, viu que era composta principalemente de construções-poleiros. Como se fosse edifícios sem paredes. Todos os tipos de aves, mas a maioria desconhecida para ele.

Foi levado pelo meio da cidade até a construção que parecia ser a principal, porém a mais vazia de todas. Foi depositado nada-gentilmente no solo... PLOF!

Lúcia estava num berço que estava mais para ninho, entre duas aves mal encaradas. Guardas, provavelmente.

"Sabemos que pode raciocinar, criatura Lars".

Wow, wow, wow... quem estava falando dentro de sua cabeça?! Olhou para o outro lado e viu quem era, e que evidentemente, devia ser o dono do lugar. Imponente, mais colorido que a maioria, forte... devia ser o re...

"Rainha, Lars, rainha... você está mal acostumado entre os humanos. Começa a enxergar como eles! Mas vamos ao que intessa, tanto a você, como a nós da Cidade dos Pássaros.

Lúcia é o que os humanos chamariam de 'A Escolhida', o propósito de seu nascimento nem seus pais se deram conta. Trouxemos ela até aqui, pois ainda havia uma última , digamos... peça, a ser encaixada, para que ela se dê conta de quem é, quando chegar a hora.

E sim, calma, seu papel nisso tudo está bem comprovado, não? Você será seu guardião terrestre. Provou hoje que tem competência pra isso.

Quando você voltar com ela, será no ponto onde ela desaparece. Será como se nada tivesse acontecido e assim nem os pais, nem autoridades terrenas lembrarão o que houve.

A Cidade dos Pássaros é apenas uma espécie de portão de entrada, guardando de onde Lúcia realmente veio. E isso ela saberá no devido tempo.

Agora você será levado de volta com ela, e cumprirá seu propósito, Lars."

Acho que Lars não podia discordar, e também não havia porque. Ele só pensava se seu dono deixara cair algum remédio controlado dentro da sua ração e ele estava preso em uma alucinação.

Lars e Lúcia foram levados de volta, e sim, voltaram ao dia do desaparecimento. Coisa incrível. ele não acreditava. Ela estava agora no berço e ressonava, como se nada tivesse acontecido.

Vindo da sala ele ouviu a voz de Joanna dizer:

- CADÊ, LARS?! CADÊ A VAQUINHA?

E Lars correu para procurar a vaca.

quinta-feira, 1 de março de 2007

O Cheiro da Noite

O CHEIRO DA NOITE
01 de Março de 2007
Eu estava sentado assistindo TV, quando tive uma sensação estranha. Não era dèja vú (ou seja lá como se escreve isso), pois eu estava acostumado a isso. Era algo... diferente. Levantei, abri a porta e o barulho que ela fez quase me ensurdeceu. Mas não havia nada de errado com ela, tinha absoluta certeza. Saí para a rua, sentindo o cheiro da noite. Sabe, o cheiro da noite, como quando a gente sente o cheiro de terra molhada, ao chover. É parecido. Bom, na verdade é diferente. E agora eu parecia sentir o cheiro da noite ainda mais intensamente.

Uma brisa leve parecia deixar meus sentidos mais intensos. Meu chinelo raspava as pedras de paralelepípedo que a prefeitura cismou em colocar na minha rua. Todo o bairro era asfaltado, mas justamente aqui, teve de ser paralele... ah, esquece, é muito chato escrever paralelepípedo... ... ... droga!

Eu parecia sentir cada pedrinha embaixo de meu chinelo. Então achei melhor parar e me sentar numa calçada ali perto. A brisa ainda se fazia sentir. Suave, constante. A sensação estranha ainda continuava. Mais ou menos como se eu estivesse esquecendo alguma coisa. Sabe... aquela sensação terrível de quando você sai de casa, indo trabalhar, por exemplo, e você SABE COM CERTEZA que está esquecendo alguma coisa, só não sabe o que é. Então se conforma que não pode se atrasar mais e deixa para quando seu cérebro voltar a funcionar e você lembrar que era algo realmente importante que não podia ficar para trás...

Eu aspiro o ar com mais força. O movimento na rua é quase nenhum. Porém, nesse instante, quando penso nisso, Kayla, minha amiga de infância passa, chegando do trabalho. Ela acena, mas não pára. Sinto que ela está cansada e... oh, meu Deus! Como eu fiz isso? C-como, por todos os santos, eu fiz isso?!

Como se percebesse algo, Kayla se vira e acena novamente. Eu aceno sem graça. Que será que foi aquilo? Deve ser café demais. Pelo menos tem de ser café, já que eu não bebo. Acho que foi algum tipo de alucinação, sei lá. Vai ver é influência da TV. Bom, não sei o que Chaves pode fazer de mal... começo a rir sozinho lembrando do Chaves.

Ainda estou rindo sozinho feito um panaca, quando as luzes dos posts começam a queimar com um pipoco. Uma a uma, em sequência. Cara, isso tá ficando cada vez mais estranho. Pra piorar não parece ter mais viva alma na rua.

Sei que aqui fica meio deserto a essa hora por causa da novela, mas sempre tem a Barraca do Nêgo ali, aberta. É mesmo... agora que notei. O Nêgo nunca fecha. Mas nunca mesmo! Isso é ainda mais sinistro que tudo. Será que morreu alguém da família? Nãaaooo. Quando a mãe dele morreu, ainda assim ele deixou um moleque tomando conta do bar e foi ao en... bom, deixa eu ir até a esquina e ver se tem gente na Rua Principal. É, podem acreditar, o nome da rua principal é Rua Principal.

Quando me levanto, alguma coisa me derruba, e nesse momento, eu sinto uma baita dor de barriga de tão nervoso que fico. É psicológico, sempre acontece quando fico ansioso. Engulo em seco. Fico no chão, olhando em redor. Os cotovelos arranhados.

A brisa fica morna, quase espessa. Os sons dos grilos pararam faz um tempo, agora que percebi. Minha vontade é não me mexer mais, e ficar aqui, quem sabe dormir aqui mesmo no paralele...ah, vocês sabem, e ver se acordo e isso tudo é só um sonho estranho.

"Sonho estranho". Nossa! Quase me mijo. Uma voz fantasmagórica repete esse meu último pensamento bem no meu ouvido. Pareceu raspar o meu cérebro. "Sonho estranho". Puta merda... me levanto sem saber exatamente o que fazer. Não quero voltar pra casa, ficar sozinho lá dentro não me parece uma opção muito boa. Sinto vontade de vomitar. Vontade de correr e vomitar. Mas só posso escolher entre uma delas, as duas seria um desastre. Então resolvo correr. E quando disparo na direção da Rua Principal eu... realmente... disparo.

Corro, como o The Flash, dos gibis... e acerto um carro parado mais a frente. Acerto com força. Muita força. E nessa hora, sem saber o que tá acontecendo... eu vomito.

Depois que termino, respiro. A sensação estranha aumenta.

"Se lembre agora!". A voz fantasmagórica novamente. E agora ela não pára mais. Começa a falar sem parar. comigo.

"Você não é desta realidade. Enviaram você pra cá. Se lembre, agora! Sua realidade precisa de você, mas você precisa se esforçar mais. Você se acomodou a isso aqui, a este mundo decadente, sem esperanças. Retire o implante. Lembre-se agora!".

Que implante?! Eu disse em voz alta. Não havia mesmo ninguém por perto. O bairro todo estava mergulhado na escuridão. Até o cheiro da noite estava diferente. Queimava em meu nariz.

Isso tudo é ridículo! Eu tô dentro de um sonho muito real. Faz séculos que eu não leio gibi, mas tenho certeza que deve ser culpa deles. Minha mãe vivia me dizendo que um dia eu ia ficar maluco... isso e que eu ia ganhar pêlos nas mãos. Não, não por causa dos gibis, por causa d.. bom, vocês sabem.

Minha cabeça dói. Quero dormir, voz do inferno. Eu não sei de implante, do jeito que sou "sortudo", seria uma sonda anal, ou coisa assim. Vou pra casa, dormir. Quem sabe acordo.

"NÃO!"
Alguma coisa me segurou pela camisa. Parecia estar tentando me levantar. Oh, merda! Está me levantando. Drogaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!

Me jogou... me jogou pra cima. Vários metros pra cima!!!! Estou caindo. Eu sei, agora eu devo acordar! ACORDAR! ACORDAR! Ou...

Voar.

Eu... vôo... flutuo de volta ao chão. Então eu vi mesmo através da roupa da Kayla. Visão de raio-x, sei. Bom, pelas contas então eu devo ser o cara lá...ah, nem me atrevo a pensar isso. É ridículo demais.

Preciso pensar, pensar!

"O implante!"

Tá, tá! Já sei, já sei. Implante, implante. Saco. Pelo que lia de gibi essas coisas de implantes ficavam em lugares bem óbvios, tipo... hmm... ouvido?

Silêncio.

Ok. Meto o dedo no ouvido e... bom... cêra. O que mais eu queria. Eu tô sonhando. Se bem que meus arranhões estão doendo pacas e... hmm... se eu sou o... você sabe... porque ainda tô arranhando e ardendo pacas? Hm?

De repente as luzes dos postes acendem uma a uma, espoucando. O barulho dos grilos voltam e como se sempre estivessem estado ali, algumas pessoas estão na rua e a barraca do Nêgo tá aberta.

Não há vômito no chão.

Sinto que estou tremendo... e não é de frio. Quando começo a andar na direção de casa, uma revista cai bem na minha frente... do nada. Me abaixo, olho, mas não pego. É do Super-Homem.

A voz retorna e sinto-a encostada ao meu ouvido. Dá uma risadinha sinistra, bem debochada, e diz:

"Hehehehe... vai dizer que não foi engraçado?"

Minha espinha gela. Eu corro pra casa (em velocidade normal dessa vez), sem saber como vou conseguir dormir... pelos próximos dez anos.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

JJ e os Terrores da Noite

JERUSALEM JONES - TERRORES DA NOITE


Jerusalem Jones estava completamente louco. A maldição que adquirira ao ser mordido por uma morta-viva, que aliás tinha sido sua melhor amiga, voltara com força total. Mesmo os feitiços de um velho índio, avô de um amigo seu, só serviram para evitar que ele se tornasse um cadáver ambulante. Mas a fome, sim, a fome por carne humana o atacava de tempos em tempos... como agora.

Ele entrou na cidade e atacou sorrateiramente os moradores, saciando sua fome. Ele não se lembrava mais exatamente o que fora fazer nesta cidade. Talvez encontrar uma pessoa, não lembrava. A cidade era familiar, algo no fundo de sua memória embotada pela fome. Ele estava a espera de mais uma vítima, escondido entre os becos escuros.

Escutou passos. Uma mulher se aproximava. Quando ela passou por onde ele estava, agarrou-a e a mordeu arrancando um naco de sua face, com uma única dentada. O choque a impediu até mesmo de gritar. Jerusalem Jones ia continuar sua refeição quando percebeu que conhecia a mulher... oh, não!

- Mãe?!

Jerusalem Jones acordou de um pulo, suado, tremendo. Um pesadelo horrível. Fazia muitos anos que não via sua mãe. Depois que seu pai morreu, ele ganhou um padrasto, e então decidiu que, estando sua mãe com alguém, era hora dele ganhar o mundo e viver sua própria vida. Ainda estava tremendo, relembrando o sonho horrível. O mais estranho era que não sentia nada na maldita cicatriz em seu pescoço. Parecia nem mesmo existir.

Logo ele percebeu que ainda era noite lá fora. Estranhou, pois parecia que tinha dormido muito tempo, e que já deveria ser manhã. Chegara em Dodgeville apenas para descansar e partir na manhã seguinte. E agora estava sem sono. Mesmo que quisesse não conseguiria dormir, depois de um pesadelo desses.

Desceu as escadas da pensão e saiu para a rua deserta. Uma brisa incômoda trazia um cheiro esquisito que ele não conseguia definir o que poderia ser.

Acendeu um cigarro e continuou andando, sem rumo. De repente, escutou o barulho de bater de asas e ao olhar para trás, um homem vestido com uma espécie de uma batina preta estava postado exatamente atrás dele. Jerusalem Jones levou um susto, mas não teve tempo suficiente para reagir, quando foi agarrado e o estranho enfiou os dentes em seu pescoço.

Porém, ao engolir o sangue de Jerusalem Jones, o estranho deu um grito horrível, e e seu corpo começou a literalmente evaporar, exalando um fedor indescritível. Logo restava apenas um monte de cinzas no chão, junto ao manto estranho que ele vestia, e um anel com um "D" enorme.

Acostumado com as bizarrices em sua vida, Jerusalem Jones apenas continuou andando. Na verdade, ele achava que tudo não passara de alucinação. Estava pensando nisso quando de uma casa de dois andares, próxima, pulou um enorme bicho peludo, que ele viu com o canto do olho. Só deu tempo de amortecer a queda.

Os dois rolaram pelo chão. O bicho que parecia um cachorro enorme, ou um lobo, sei lá, rosnava e babava sobre o rosto de Jones, que tentava manter suas presas longe de sua cara. Em meio a isso tudo, Jones pensava porquê ninguém acordava com todo aquele barulho.

O bicho já se preparava para arrancar sua cabeça quando alguma coisa o puxou de cima do J.J. Ele quase não acreditou no que via: um homem nu, de uns dois metros e meio de altura, com costuras por todo o corpo, inclusive no rosto, agarrara o bicho, que se debatia.

Jones sacou sua arma (que na verdade era a arma, que tinha balas de prata, do mascarado que ele matara no deserto) e atirou no cachorro gigante. O bicho estrebuchou no chão e... nossa... começou a diminuir, perder pêlo, até que se transformou em um homem franzino... que estava bem morto, agora.

O homem costurado olhou para Jones, e o agarrou da mesma forma que fez com o homem-cachorro, começando a apertá-lo, quase quabrando sua espinha. Jones conseguiu colocar o revólver na barriga do dito cujo, e descarregar. Os dois caíram.

O que estava acontecendo afinal? O que era tudo aquilo? Porque ninguém acordava na cidade, com todo aquele alvoroço?

Jones escuta um grito vindo de uma das casas à frente. Um grito humano. Corre para tentar ver quem é essa pessoa que parece ser a única da cidade.

Ao localizar de que casa vem o grito, arromba a porta, corre para o quarto de onde parece vir o som, e encontra um monstro com barbatanas nas costas, atacando um velho deitado. Era do velho o grito. Jones saca um dos revólveres que ainda está carregado de balas de prata, e atira, matando o bicho.

Jones se aproxima da cama do velho e vê que ele segura um livro. Pega e lê a capa onde está escrito "Histórias de Terror - Monstros e Pesadelos". Pesadelo, hein, pensa Jerusalem Jones. Ele suspira, olhando para o velho de olhos abertos, vidrados, mas que ao mesmo tempo parece estar dormindo.

Lá fora um barulho ensurdecedor de passos faz com que Jones pegue o livro e veja onde o velho parou de ler... é o capítulo "A Legião do Inferno".

Jerusalem Jones coçou a barba por fazer, e tentou raciocinar. O barulho lá fora aumentava e o cheiro de enxofre dava ânsias de vômito. Logo eles estariam ali, e ele não tinha mais balas. Apenas uma, na verdade.

Jones lembrou de seu sonho, com sua mãe, e de como aquilo pareceu real. O velho, ele estava sonhando. Sonhos bem reais, depois de ter lido aquele livro de terror. Mas porquê só ele estava vendo as coisas que o velho sonhava? .... Oh, é isso. Por algum motivo, que ele não fazia a mínima idéia de qual era, Jones estava nos sonhos daquele velho.

As coisas já estavam dentro da casa. Jones não teve muito tempo para pensar. Tentou acordar o velho e não conseguiu. Era como se ele estivesse em coma. Sem muito tempo, ele só conseguiu pensar em uma saída. Atirar na cabeça do coroa, para ver se conseguia sair daquele sonho. Será que ele iria morrer na vida real? Aliás, será que Jones ia sobreviver também?

Os monstros do Inferno apareceram na porta, e Jones não teve mais o que pensar, encostou o cano na cabeça do velho, pediu perdão pelo que ia fazer, e atirou... BLAM!

Jerusalem Jones abriu os olhos... seu coração parecia que ia sair pela boca. Estava acordado, estava vivo. Nem conseguiu acreditar. Outro maldito sonho.

Jurou que não ia mais ler livros de terror. Estava velho demais para essas coisas. Já com 74 anos, ele devia saber que seu coração não aguentaria esses pesadelos. Ele só não sabia quem diabos era o cara que, no sonho, atirara em sua cabeça sem a mínima piedade. Parecia conhecido, mas o velho J.J. não conseguia lembrar quem poderia ser.

Maldição, pensou Jones, me mijei de novo.

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