domingo, 26 de novembro de 2006

JJ e o Caçador de Recompensas Chinês

JJ E O CAÇADOR DE RECOMPENSAS CHINÊS


Eu detestava quando isso acontecia. Era um verdadeiro pé no saco. De tempos em tempos eu era confundido com algum bandido, pé-rapado ou não, que estivesse sendo procurado. E, por mais que eu dissesse que meu nome era Jerusalém Jones, o desgraçado do caçador de recompensas não acreditava. Assim sendo, era sempre um custo para me livrar deste bando de urubus que caíam em cima de mim como abutres.

O pior de tudo é que eu nem tinha como provar que eu era eu mesmo. Você já reparou que nós que vivemos no velho oeste (quer dizer, ele ainda é novo, mas quando você estiver lendo isso, ele será velho) nunca temos um documento de identificação? Tipo, como a gente sabe que o Buffalo Bill é o Buffalo Bill? Só por causa daquele cavanhaque brega? Qualquer um pode ter um cavanhaque idiota daqueles. Qualquer um pode dizer que é o Bufallo Bill.

O fato é que, desta vez, era um maldito de um chinês que estava no meu encalço. Eu fugia pelo deserto como o gato foge de água molhada. Não que eu realmente estivesse com medo daquele amarelo, o desgraçado nem mesmo tinha armas. Eu corria apenas porquê não queria ter de matar um filho da mãe e depois ter, realmente, minha cabeça posta a prêmio. E mais, ter minha cabeça posta a prêmio e por uma ninharia, o que seria mais vergonhoso.

Assim sendo eu galopava o vento (nossa, se um dia eu for escritor vou colocar essa frase pro texto ficar mais, tipo, cheguei!). Lá ia eu galopando o vento quando meu cavalo se assustou com alguma coisa (uma cobra eu acho) e me derrubou, saindo em disparada, me deixando sozinho a mercê do comedor de peixe cru (peraí, é japonês ou chinês que come peixe cru, eu nunca sei).

Não demorou muito pro amarelo me alcançar e ele saltou sem nem mesmo pôr as mãos no cavalo. Por um momento eu achei que o nanico tinha voado da cela. Devia ser o sol que estava me fazendo ver coisas. Se tudo aquilo tivesse um fundo musical, eu teria escutado um assovio melodioso.

Me levantei e encarei o china bem dentro dos olhos. Minha vontade era sacar e encher o boneco de balas. Afinal eu estava bem arranhado por conta da queda, e o suor que caía nos arranhões não me faziam ficar mais feliz. Mas, em vez disso, eu apenas gritei: "EU NÃO SOU QUEM VOCÊ ESTÁ PENSANDO, SEU CHINEZINHO DE MERDA, MEU NOME É JERUSALEM JONES!". E, antes que eu me desse conta, senti um pé no meu queixo, rodopiei três vezes e caí no mesmo lugar de onde havia terminado de levantar.

Eu me levantei grogue, olhei para o desgraçado parado a minha frente, sorrindo, me olhando com aqueles olhos que eu não tinha certeza se estavam mesmo abertos. Me dei conta de que ele devia ter parte com o demo, já que eu não lembro de ter visto ele se mexer. Ele deu outro sorrizinho e disse:

- Meu nome é Pe Bo Lim! Você não "Zerusarem" Jones! Você Paul "Macarister", e eu vou levar você "pureso" e "pegá" a "lecompensa"!

- Peraí, Paul McCallister? Como alguém pode me confundir com aquele troncho do Paul McCallister? O cara é uma mistura de Corcunda de Notre Dame com Frankenstein. EU NÃO SOU TÃO FEIO ASSIM!!!! Vê se abre mais esse olho, china desgraçado - ser comparado com o Paul McCallister foi demais pra minha beleza. E aquele china tava tentando me matar, assim seria apenas legítima defesa. Saquei as armas e... e nada.

O china deu um pulo no ar. Se existisse cinema nessa época eu diria que a cena toda ficou em câmera lenta. Eu meio que vi o china flutuar, com aquela roupa rídicula de cowboy que não combinava com ele, então girar no ar, e daí seus pés acertaram meus dois revólveres, jogando-os muito, mas muito longe.

Ele voou! Eu juro que o china voou. Foi coisa de segundos, mas o viadinho voou! Quando ele aterrisou seus pés se enterraram no chão. Ele olhou de volta para mim, com um olhar (pelo menos eu deduzia que fosse um olhar, já que não se via nada, a não ser seus olhos fechados) de "eu sou o maioral". E pra completar, ele disse, todo cheio de confiança:

- Ou vem "poro" bem, ou vem "poro" mal!

Diacho, eu já tinha ouvido historinhas sobre esses chineses, e que eles tinham umas técnicas de luta conhecidas como Funde Ku, Bung Fu, ou algo assim. O Padre Crowns disse que uma vez, estava em um clube de lutas proibido quando aceitaram um desses amarelos numa luta onde valia tudo. O padre disse que foi um massacre, e que Dwight, o peso-pesado mais assassino de todos os tempos, ficou aleijado. Claro, o padre Crowns sempre bebeu demais e sempre viu coisas demais. Ele jurava que quando esteve pelas bandas de Roswell viu um "pires voador", assim sendo eu não acreditei em nada do que ele disse. Pelo menos até agora...

Eu não estava nem um pouco a fim de ser preso no lugar do McCallister. Eu até podia deixar ele me levar e ver a cara de idiota que ele ia ficar quando o xerife dissesse que não era eu que estavam procurando. Era isso que eu fazia na maioria das vezes que me confundiam com procurados. Mas agora, agora eu estava puto, e aquele amarelo não ia me levar a lugar nenhum, pois mesmo não sendo eu o bandido, iam rir de minha cara por ser capturado por aquele toco de gente. Eu precisava dar uns pipocos no rabo desse chinês e pôr ele pra correr.

Olhei na direção das minhas muito distantes armas. Olhei para o chinês metidinho e... disparei na direção delas. Eu corri como nunca corri em minha vida. Eu escutei um barulho de tecido ao vento, atrás de mim, e senti uma pancada nas costas. O viadinho me acertou de novo. Eu pensei que ia ter de enfrentá-lo e isso não seria muito bom... pra mim. Pra piorar, eu suava tanto que um bando de moscas se juntava em mim, por causa do suor e dos meus arranhões que devia estar uma beleza de podres. Agora eram o chinês e as moscas que me irritavam.

Me levantei e fiquei de frente para o chinês. Eu não sabia bem o que fazer. Se eu corresse ele me enchia de porrada, se eu ficasse ele me levava preso e o vexame seria maior. Quando eu espantei uma mosca da cara, ele se assustou e ficou em posição de ataque, com as mãos em frente ao rosto. Fazia uns barulhos esquisitos, uns gritinhos meio afeminados demais para o meu gosto. Uma mosca quase entrou em meu nariz e eu fiz um gesto mais brusco, o que bastou para que ele me desse um chute na cara. PORRA!!! Esse chinês é maluco??!!

Meu nariz sangrava. Agora as moscas (de onde vinha tanta mosca?) estavam na minha cara aos montes. Eu dei um grito de raiva e o chinês pulou com a perna esticada pra me acertar de novo, foi quando ao tentar afugentar as moscas eu acertei o pé dele e o derrubei no chão. Ele se levantou estupefacto. Na verdade eu também estava, só que não tinha tempo pra isso, pois as moscas me perturbavam.

O chinês estava furioso por ter sido derrubado, deu um grito e avançou pra mim, começando a tentar me acertar golpes com as mãos, a cada vez que ele tentava, eu o impedia sem querer, enquanto tentava me livrar das moscas que zuniam na minha frente. Era golpe do chinês de lá, e golpes meus, sem querer, de cá. Acabei por me defender de todos os seus golpes. Quando ele tentou me acertar a orelha com um golpe do pé, eu tentava pegar uma mosca ali bem na hora e acabei por pegar o tornozelo do china. Sem pensar duas vezes rodopiei o cabra pelo tornozelo e acertei a cabeça do disgramado numa pedra que estava ao meu lado.

O chinês apagou na hora. Acho que ele não esperava isso, e nem eu. As moscas nessa hora, se dispersaram, foram embora. Não entendi muito bem. Zung Fu, né? Olhei para aquele corpo estendido no chão, com mais ou menos metro e meio e pensei que não existia lutador perfeito, e que tudo dependia da sorte... ou das moscas, sei lá.

Estava sem saber o que fazer com o chinês desacordado, (que, claro, amarrei bem amarrado) quando me lembrei do que o Padre Crowns disse sobre o clube de lutas clandestino. Eu sabia onde tinha um, e se era dinheiro que o amarelo queria, ele ia ganhar, mas ia ter de dividir comigo. Ou isso, ou eu ia colocá-lo para trabalhar em uma pastelaria.

Chamei meu cavalo de volta, joguei o china amarrado no dele, e fui na direção do pôr do sol, sabendo que tudo que se precisa para ganhar dinheiro na vida, é um chinês que lute Fung Su.

Rai rô, rai rô... Ó suzana, não chores por mim, vou voltar pro Alabama tocando Pe Bo Lim... (argh... podre essa!)

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Fragmentado

FRAGMENTADO

Estou deitado no sofá, assistindo a qualquer coisa na TV, quando o sono chega, como areia movediça me puxando para baixo. Mas não quero dormir, não está na hora. Essa luta contra o sono provoca uma sensação estranha, que já senti tantas outras vezes. Uma mistura de dèja vú com uma impressão de não estar realmente ali mas sim, em outro lugar. Olho em volta com os olhos pesados e quase não reconheço a sala aonde estou. O sono que sinto é diferente do sono normal. Sinto algo como um pressentimento de morte iminente, e parece que se eu sucumbir ao sono, não voltarei mais. É um sono macabro.

Tento prestar atenção ao que se passa na TV, mas tudo é uma mistura que o sono não deixa eu compreender. Penso em me levantar e ir fazer alguma outra coisa, mas não consigo, quero apenas dormir, mesmo sabendo que não posso. Por várias vezes, quando quase durmo, tenho a impressão de estar caindo.

Fecho os olhos por menos de um segundo e quando os abro estou em uma maca. Alguém está colocando eletrodos em meu peito. Meus olhos cansados de sono não conseguem divisar a pessoa. Parece ser uma jovem, algo como uma enfermeira, não sei. Ela tagarela sobre seus filhos e de como ela precisar fazer um upgrade em seu computador que está ultrapassado. Ela continua colocando eletrodos em meu peito. Ela passa alguma coisa gelada, algum tipo de gel e os coloca. Prende meus tornozelos contra a maca, com alguma coisa, e meus pulsos também. Ela faz tudo aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Ela coloca dois eletrodos em cada lado de minha cabeça, esses bem maiores que os outros. Não acredito quando ela abre minha boca e coloca um pedaço de pano dobrado entre os meus dentes. Ela diz algo como "Vai dar tudo certo desta vez. Nada de paradas cardíacas, tenho certeza". Sem saber o que me espera, sinto uma descarga elétrica percorrer o meu corpo. Entro em convulsão. Minha cabeça parece querer explodir em mil pedaços que e esses pedaços em outros mil pedaços. Perco a consciência.

Acordo com a água fria à minha volta. Água fria e salgada entrando em minha boca. Estou me afogando. Estou afundando lentamente, em algum lugar que não sei aonde é, e nem porque estou ali dentro. Estou prestes a morrer. De repente sinto que uma mão agarra meus cabelos e me puxa de volta para a superfície. Sou levado de volta à praia. Estou na praia do Flamengo no Rio de Janeiro. O sol está a pino e eu estou com apenas com um short. Como pude vir parar aqui, vindo do meu sofá e daquele lugar estranho onde me eletrocutaram?

As pessoas estão me olhando estranho. A garota que me tirou da água enfia a mão na minha boca e retira... nossa, ela arranca um dente meu. A dor é horrível. Ela puxa um dos meus caninos e arranca com força. O sangue jorra na minha boca, sinto o gosto, e me sinto mal. Estou deitado na areia com a boca cheia de sangue. A multidão em volta... bom, na verdade não é uma multidão tão grande... fica olhando para o dente que a garota acabou de arrancar da minha boca. Um murmúrio de "é ele! é ele!" se faz ouvir. Quando parecem ter certeza de que sou eu mesmo, seja lá quem eu seja para eles, eu vejo uma espécie de arpão surgir na mão de um dos caras que está mais próximo de mim. Ele levanta aquela porra e com toda a força, finca bem no meu coração.

Eu sinto o ar escapar de meus pulmões num grito abafado e quando me dou conta, estou sentado aqui, em frente ao computador, com o editor do Blogger aberto. Acho que cochilei enquanto pensava em algo para escrever. Olho para a tela e há um texto nela. Este texto, que não consigo lembrar de ter escrito. Minha cabeça dói levemente.

Estou com sono, e resolvo ir me deitar no sofá. Depois eu leio esse texto que não escrevi. Esse sono quando chega... é como areia movediça, me puxando para baixo.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Roland Bishop - Conclusão

A ESTRANHA MORTE DE ROLAND BISHOP
CONCLUSÃO


Anteriormente no Rapadura Açucarada:

Roland Bishop foi atropelado e morto enquanto apenas atravessa despreocupadamente em um sinal fechado. Depois de ser levado por estranhos paramédicos que injetaram algo que o ressuscitou, acabou em um laboratório maquiavélico onde o seu corpo (e de muitas outras pessoas) terminou de ser ressuscitado, sendo transformado em um zumbi. O fantasma de Bishop, no entanto, acompanhava de perto as desventuras de seu corpo, antes sem vida. Para piorar, viu seu corpo-zumbi ser encaminhado para um teletransportador, e sendo munido de um cinto com explosivos, sendo agora um zumbi-bomba. Ao ver seu corpo entrar no teletransportador, Bishop não pensou duas vezes e o seguiu, para saber para onde seria enviado. É aqui que nossa história continua.


Senti um empuxo estranho que parecia me dividir em bilhões de partículas. Eu e meu corpo zumbi estávamos sendo teletransportados e eu, em alguns instantes, saberia para onde.

Quando senti que eu era novamente recomposto, e abri os olhos, foi que eu percebi: eu havia aberto meus olhos!!! O meu eu-fantasma, no processo de teletransporte, fora reunido novamente ao meu corpo-zumbi. Mais ou menos como naquele filme a A Mosca, ou algo parecido. Eu sentia minnha vida plagiando um filme velho. Meio desconcertado ainda, me sentindo tonto, e com muitas dores de um corpo muito estragado, foi que comecei a ouvir as explosões à minha volta. Eu estava no meio de uma guerra. E o meu cinto começou a zumbir. Estava se preparando para explodir, e eu estava no meio de soldados, e acho que estava em algum lugar do Oriente Médio.

Tentei mostrar que me rendia, mas ele gritavam muito e apontavam as armas para mim. Eu precisava tirar o cinto, mas eles não pareciam entender isso. Eu gritava que tinha de tirar o cinto, eles gritavam mais alto. O cinto zumbia mais alto. Não tinha opção, meti a mão e arranquei o cinto ao mesmo tempo que levava uma saraivada de balas. Ainda consegui jogar o cinto longe e escutei a explosão, antes de apagar.

... ... Quando acordei, eu estava em um lixão. Estava por cima de outros cadáveres. Quando me pus de pé, caí e saí rolando até a base daquela montanha de lixo e cadáveres. O lugar devia feder muito mas, felizmente eu não conseguia sentir isso. Parecia que era uma das vantagens de morar agora em um corpo de zumbi. Uma das outras vantagens que eu conseguia divisar mais rapidamente era que eu não podia mais ser morto tão facilmente. E o que quer que tenham injetado em meu cérebro fez com que as feridas das balas cicatrizassem, apesar de os ferimentos do atropelamento ainda permanecerem.

Me sentei um pouco adiante, num velho banco de cimento,que ficava diante do lixão, e tentei entender toda a situação. Quando eu cheguei, apareci no meio de um pelotão do exército. Antes de ser fuzilado pude perceber que outro zumbis explodiam logo adiante, junto a outros agrupamentos militares. Obviamente os americanos haviam inventado um novo modo de atacar tropas do Oriente Médio, ou seja lá onde eu estivesse. Era uma guerra biológica inusitada.

Os soldados que me fuzilaram, achando que eu estava morto (e eu nem sei mais se estou ou não estou), me jogaram nesse depósito de lixo e mortos. E agora eu não faço a mínima idéia de como vou sair daqui, ou de como vou voltar para meu país. Sou agora um morto-vivo que não sabe se está mais morto ou mais vivo. Parecia que as coisas não poderiam piorar. Parecia.

Uma chuva pesada começou a cair.

Eu me sentia terrivelmente cansado, mas meu corpo agora parecia não mais se cansar, era um cansaço interno. Comecei a caminhar na chuva, sem saber para onde ir. Ao longe os sons da batalha chegavam até mim. Zumbis-bomba. Que idéia ridícula. Esses caras andaram vendo muito filme B. Isso deve ter saído da cabeça daquele presidente idiota.

Estava assim, perdido em devaneios, quando senti uma aproximação e, quando me dei conta, vi que eram alguns soldados americanos. Apontavam sua armas para mim. Logo entendi tudo. Eu devia estar com algum sinalizador em meu corpo, ou roupa (ou o que restou dela) e eles me localizaram. Todos os zumbis deviam ter pro caso de algo dar errado e o governo poder limpar a sujeira. Bom, os faxineiros chegaram.

Dois soldados brutamontes me agarraram e me jogaram na traseira de um jipe do exército, onde fiquei junto a outros soldados, que me olhavam como se eu fosse um extra-terrestre, ou coisa parecida. O jipe nos levou até uma base americana e pude perceber que eu seria reenviado de onde vim, de avião. Percebi que todos se espantavam quando me viam. Não sabia se pelo fato de eu estar com aquela aparência de zumbi, ou apenas por eu ser um zumbi que não explodiu de acordo com o planejado.

- Como foi que essa coisa sobreviveu?! - perguntou um cara com jeito de comandante, confirmando a segunda hipótese.
- Não sei, senhor. Nós o encontramos através do sinalizador, loge do campo de batalha. - disse um dos soldados que me carregava.
- Bom, coloque-o no avião e mande-o de volta. Aqueles idiotas que tiveram essa idéia imbecil devem querer seu lixo de volta.

Sem que percebesse, um cara vestido como se fosse um médico, injetou alguma coisa em meu braço e eu apaguei na hora. Claro, eu não achava que as coisas seriam tão fáceis assim.

Acordei totalmente grogue, dentro do avião. Acho que não era bem isso que tinham em mente, que eu acordasse aqui, mas sim, lá no laboratório dos cientistas malucos. Creio que os efeitos das drogas não são os mesmos em corpos "zumbificados". Acreditando que eu estava manso, nem mesmo me prenderam. Estou sozinho aqui na traseira do avião. Vejo alguns pára-quedas espalhados e, assim que penso como seria bom pular dali, o avião sofre um solavanco. Nossa! O que será que aconteceu? Sinto que estamos caindo.

Sem esperar mais nada, enfio desajeitadamente um pára-quedas e é quando, na mesma hora, a frente do avião termina de explodir e eu sou lançado fora do avião que, enquanto caio, vejo terminar de virar uma bola de fogo. A explosão quase me ensurdece. Estou caindo e não consigo abrir o pára-quedas. Pedaços do avião passam por mim, quase me atingindo. Não consigo achar o troço de puxar, para abrir o pára-quedas. Não consigo. Acho que me mesmo meu corpo de zumbi vai sobreviver à queda. Cadê... a... porra... da.. CORDINHA?!

Vou me esborrachar. Virar patê de zumbi. Vejo a terra se aproximar mais rápido que nunca. Vejo que vou cair numa região metropolitana, mas não faço idéia de onde seja. Vejo prédios, alguns descampados, eu vejo que vou morrer... novamente. Ainda tento encontrar a cordinha desesperadamente, quando finalmente encontro e puxo. O pára-quedas se abre me puxando para cima e começo a cair suavemente.

A pergunta é, onde está o localizador que implantaram em mim? Preciso tirá-lo, para que não me encontrem novamente. Pensando nisso, é que aterriso todo sem jeito em um parque, escapando assim de bater em algum prédio. O pára-quedas me cobre. Tiro-o de mim, e olho em volta. Não consigo mesmo identificar onde estou. Será outro país? É bem possível.

Quando largo o pára-quedas de lado, percebo uma pessoa correndo em direção ao parque onde estou. Depois mais uma, mais outras e, quando vejo, uma multidão está correndo, apavorada, sendo perseguida por uma outra multidão, sendo essa dos meus amigos zumbis. Sim, era uma cena típica dos filmes de George Romero. As pessoas gritavam em minha língua, e zumbis estavam atrás delas, uma multidão deles. Pelo jeito não demorou nada para que o "Projeto Zumbi" desse errado.

A multidão passava por mim, e muitos se apavoravam ao ver que eu também, era de certa forma, um zumbi, e corriam para longe. Logo a multidão de zumbis os alcançou e aquilo tudo não foi nada bonito de se ver. Uma carnificina a qual eu assistia meio indiferente. Os zumbis passavam por mim, sem se importar se eu estava ali. Um deles ainda parou e me cheirou, e viu que eu não era mais carne fresca.

Senti uma tristeza profunda ao constatar que eu não era nem humano, nem zumbi. No novo mundo que estava chegando, eu estaria totalmente sem um lugar. Provavelmente os humanos não me aceitariam, e eu não fazia muita questão de ser aceito pelos zumbis. Me senti meio desolado. Coloquei as mãos nos bolsos rasgados de minha calça, e me pus a caminhar. Comecei a assoviar a musiquinha que tocava no final do Incrível Hulk sempre que David Banner ia embora de algum lugar.

Um pensamento engraçado passou por minha cabeça: eu me sentia morto de cansado.


sábado, 4 de novembro de 2006

Roland Bishop

A ESTRANHA MORTE DE ROLAND BISHOP


Quando fui atravessar a rua, com o sinal vermelho, não percebi o carro que não freou cortando pela esquerda. A pancada não doeu. Provavelmente eu já estava morto antes mesmo de conseguir perceber a dor. Cético como eu sempre fui, ficava difícil de acreditar que eu estava vendo meu corpo estatelado, no chão, numa posição que me deu vontade de rir. O sangue aumentava, vindo de detrás da minha cabeça, formando uma poça. A multidão ia se juntando cada vez mais. Um metido a médido se abaixou para tocar meu corpo. Eu tentei contê-lo mas minha mão apenas atravessou seu ombro. Ele deu um pulo, ficou de pé, olhou para trás, mas não conseguia me ver. De repente ele parecia estar com muito frio.

Eu não sabia muito bem o que um morto deveria fazer, quais eram os protocolos a seguir. Afinal, eu nunca acreditei que algo assim pudesse acontecer. Eu, um fantasma. Na verdade, eu achava que a morte era o fim de tudo. Ah, esqueci de dizer que o motorista que me atropelou, fugiu desabalado. Eu até que olhei a placa, mas a novidade de ser um fantasma me tirou a atenção. Além disso, como eu ia anotá-la? Minha memória sempre foi péssima.

Ficar entre aquela multidão não estava sendo uma boa experiência. Frequentemente as pessoas me atravessavam e a sensação não era das melhores. Eu sentia algo como gosto de cabo de guarda-chuva. Pensando nisso, me perguntei quem foi o idiota que inventou essa expressão "gosto de cabo de guarda-chuva". A imagem de alguém experimentando o cabo de um guarda-chuva me veio à mente. Se é que eu tinha uma mente. Acho que ser fantasma não era bem como nos filmes. Eu ainda existia, mas eu não sabia exatemente o que eu era. A meu ver, fluído de isqueiro tinha mais consistência que eu.

Eu não estava nu, mas também não estava vestido. Eu não me sentia exatamente com tendo uma forma. O que me parecia, era que eu tinha apenas a idéia de um"corpo". Eu tinha cabeça, tronco e membros, mas apenas como uma abstração. Foi chegando a essa conclusão que eu consegui dar passos, sem exatamente andar. O problema todo nem era andar, mas para onde diabos eu iria. Foi com essa última expressão em mente que pensei se o Inferno realmente existiria, já que se eu não acreditava em vida após a morte e estava errado, devia estar errado sobre todo o resto. Ou não.

Estava divagando sobre tudo isso, quando vi uma forte luz branca e senti algo me puxando para dentro dela. Um desejo incontrolável de adentrar aquela luz se apossou de mim, quando de repente eu escutei um grito vindo da multidão: "ELE AINDA ESTÁ VIVO!"

Agora a coisa toda se complicava. Como eu poderia estar vivo e ao mesmo tempo ser um fantasma? Atravessei a multidão (literalmente falando) e dei de cara com dois paramédicos que terminavam de injetar alguma coisa em meu corpo, que fez com que este se mexesse, e começasse a grunhir, como se tentando acordar. Aquilo foi meio assustador. Logo me colocaram em uma maca e me puseram na ambulância. Sem pensar duas vezes, entrei na mesma, para ver como terminaria essa história. Eu não podia estar vivo. Eu estava morto. E bem morto.

Os dois paramédicos iam na frente, e eu estava sozinho com meu corpo, lá atrás. Eu tinha parado de me mexer, mas senti que estava respirando, ou pelo menos era algo que se parecia a uma respiração. O que será que injetaram em mim? Adrenalina ou algo assim? Droga, eu acho que assisti filmes demais. A ambulância saiu da estrada pavimentada e entrou numa estrada de terra. Daí a viagem foi bem longa e algo tenebroso, passando por lugares que eu não conhecia. Depois que eu já estava pensando que nunca chegaríamos a lugar algum, entramos em um túnel, descemos uma rampa e entramos em um galpão enorme. Com certeza aquilo não era um hospital.

Os supostos paramédicos agarraram a maca onde meu corpo estava e, rapidamente, levaram por uma entrada bem iluminada. Acompanhei-os da melhor forma que pude. Me jogaram dentro de um elevador, que desceu muito fundo. Ninguém acompanhou o corpo. Quando as portas se abriram duas pessoas puxaram a maca e a levaram para um lugar que parecia saído de um filme de ficção científica. Se eu tivesse uma boca, meu queixo teria caído. O que diabos era aquilo?

Uma fileira de macas cobertas com lençóis brancos estavam perfiladas e o número delas eram incontáveis. Mas diferente da minha, que acabara de chegar, essas estavam sendo despachadas e recebiam uma placa com um número e um código, como por exemplo "5428 Rejeição Intravenosa". Em cada maca a palavra "rejeição" se repetia mudando apenas o motivo. Eu quase pude sentir um frio no estômago que não tinha mais. Distraído quase não vi meu corpo ser carregado. Novamente fui até onde eles o levavam.

A quantidade de pessoas ali dentro, do que era óbvio ser um laboratório, era enorme. O teto era alto. Parecia um hangar para a contrução de um zepellin, ou algo parecido. Uma sala envidraçada foi onde meu corpo foi parar. As portas de vidro se abriram e lá dentro uma penca do que pareciam ser cientistas se preparavam para fazer alguma coisa com meu corpo.

Dois que pareciam apenas assistentes pegaram meu corpo e colocaram sobre uma mesa de metal. Logo acima, uma coisa horrorosa estava diretamente apontada para mim, quer dizer, para meu corpo. Uma espécie de braço mecânico com pelo menos uma centena de agulhas, que obviamente, carregavam alguma coisa a ser injetada naquele que um dia foi meu corpo.

Dado um sinal, todas as pessoas na sala colocaram aqueles óculos protetores, numa cena bem clichê, e ao disparar de um alarme, o braço mecânico se expandiu e as agulhas começaram a brilhar, num tom meio esverdeado. Num movimento rápido, acertaram meu corpo. As agulhas entraram TODAS em minha caixa craniana. Eu quase senti a dor daquilo.

Um silêncio mortal se abateu sobre todos. Era surreal que um lugar tão apinhado de gente e de máquinas pudesse, de repente, ficar em tão profundo silêncio. Todos olhavam para meu corpo, inclusive eu, é claro. Parecia que os segundos que se passaram era horas, até que...

Com um grito sepulcral meu corpo levantou-se ficando sentado na mesa metálica. Todo escoriado do atropelamento e com algumas fraturas, eu me vi ali, sentado, com olhos vazios. Senti algo muito ruim quando meu corpo girou a cabeça e olhou diretamente para onde eu estava. O que afinal era aquilo tudo. Uma fábrica de zumbis? O que queriam ressuscitando corpo de pessoas mortas? A resposta não demorou a chegar.

Uma gritaria tomou conta do lugar. Todos estavam felizes, se cumprimentando. Todos diziam ""deu certo", "mais um". Meio que apressados, como se alguma coisa fosse perder o efeito, pegaram meu corpo que, apesar de estar "vivo" novamente, não tinha muita idéia do que estava acontecendo, afinal era só uma casca vazia, e levaram para uma outra parte daquele lugar imenso. Segui-os novamente.

O que vi a seguir era ainda mais impressionante. Uma enorme câmara estava aberta e uma fila de mortos-vivos estava apontada para ela. A porta da câmara se abria, um zumbido horrível se fazia ouvir, ela se abria vazia e um outro zumbi entrava. Por um instante pensei que estavam sendo desintegrados, mas não faria muita lógica. Olhando para o resto do lugar, pude ver que se parecia com uma estação da NASA, ou algo assim. Monitores mostravam gráficos incompreensíveis para mim. Vi que alguns homens com roupas protetoras se aproximaram de meu corpo e amarraram um cinto estranho em minha cintura. Cheguei mais perto e vi que havia um contador. Obviamente era um bomba.

Me distraí e não percebi que já era minha vez na câmara. Sem saber o que pensar entrei junto. Cheguei a conclusão de que aquilo era um teletransportador, como aquele de Jornada nas Esttrelas, só que muito maior e mais desengonçado. O meu eu zumbi olhava em volta, com aquele ar de idiota, típico de zumbis. Era até bem claro ali dentro. Mas a pergunta era, será que eu, um fantasma, seria teletransportado? O alarme soou e eu saberia em poucos segundos.

Um clarão cegante tomou conta da câmara, um tremor sacudiu tudo e um som irritante, como um zumbido no ouvido, foi aumentando. Um barulho como uma explosão fez a câmara balançar. Logo eu saberia se um fantasma poderia ser teletransportado, ou não.

Continua...

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