terça-feira, 31 de outubro de 2006

JJ e os Contos Rejeitados

JERUSALEM JONES - TEXTOS REJEITADOS





De Volta Para O Exterminador do Futuro:

Jerusalem Jones sente o ar do deserto crepitar e um gosto de ozônio se instala em sua boca. Não que ele saiba como é o gosto de ozônio, na verdade, ele nem sabe exatamente o que é ozônio, mas é o que acontece. Acordado no meio da noite, de seu sono no deserto, Jones vê uma bola de fogo branco se formar quase que à sua frente. Depois de todo misancéne (não sei como se escreve isso), uma mulher aparece ali no meio do nada e vai em direção a um Jersusalem Jones estupefato:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação!
- De que diabos a madame tá falando? Quem raios é você?
- Meu nome é Sarah Connor, fui enviada de 1987, onde o mundo é dominado pelos nazistas desde 1938. Mas um homem nos deu a esperança, e ele é seu filho. Os nazistas estão enviando um robô exterminador para que o senhor não gere um filho, o nosso salvador, Indiana Jones!
- Mas pera lá... Eu nem mulher tenho!
- Senhor Jones, porque acha que fui enviada pelada?!


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O Ataque dos Tomates Verdes Fritos:

Jerusalem Jones fecha o livro que acabara de comprar e ler. Sentado em sua casinha recém-adquirida de cerca branca, passa os dias a ler romances água com açucar e fingir que não está chorando, para que seu cão de estimação, Murdock, não perca o respeito por ele. Tudo corre tranquilo na vida de um Jerusalem Jones aposentado, que viveu tantas aventuras. Ele escreveria um livro, se sua letra não fosse tão horrível que nem ele mesmo consegue ler os recados que deixa para sí.

Jerusalem Jones sabe que, mesmo aposentado, as coisas não costumam ficar tranquilas para ele. Tanto sabe que não se espanta quando vai até sua plantação de tomates e leva uma mordida que não sabe de onde vem, até ver um tomate quicando à sua frente. E mais outro, e mais outro, e mais outro!

Jerusalem Jones sai em desabalada quando dá um encontrão em uma mulher:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação!
- Peraí... tem coisa errada. Por que você tá pelada?


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O Dia em Que a Terra Parou... Olhou Para os Dois Lados e Atravessou:

O eclipse estava assombrando a todos na cidade de Deckard Town. Todos olhavam para cima, boquiabertos, enquanto Jerusalem Jones bocejava em uma mesa do Saloon Goldmine. Eclipses.. bah... quem precisava deles. Jerusalem Jones precisava de dinheiro urgentemente. O pouco que tinha não dava nem para pagar mais uma bebida. Foi pensando nisso que Jones sentiu uma sensação estranha. Olhou para frente e viu que tudo estava parado demais. Literalmente. Tudo e todos estavam impassíveis, imexíveis.

Jones se levantou, saiu do saloon e quando pôs os pés para fora, uma mulher o agarrou:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação!
- Ah, chega disso! - E dizendo isso, empurrou a mulher para longe que cambaleou atônita sem entender nada.

Jones andou mais um pouco e via que as pessoas realmente estavam estáticas. Somente então é que sua mente, que trabalhava devagar, entendeu que aquilo era um sinal dos céus. Era para que ele pudesse recolher a grana dos incautos paralisados. Para não ser injusto deixaria os doces das criancinhas intocados. Quando meteu a mão no bolso do primeiro transeunte ouviu um grito em uníssono:

- PEGADINHAAAAAAAA!!!!!!

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Sua Mente em um Liquidificador

SUA MENTE EM UM LIQUIDIFICADOR





Pisco duas vezes, tentando concatenar as idéias. A pessoa à minha frente é meu colega de seção, no almoxarifado onde trabalho. Ele falou alguma coisa, eu escutei atentamente, mas eu não entendi nada. Sorrio e concordo com a cabeça, para que ele não perceba que não estou entendendo nada do que ele está falando. Estamos no refeitório da Piraquê Indústria de Produtos Alimentícios S/A.

Trabalho aqui a quase três anos. Entrei aos 18 anos e agora tenho 20. Fui para o almoxarifado, trabalhando de 12:00 às 22:00 hrs e, depois de um ano e pouco, pedi transferência para a manhã, de 6:00 às 16:00. No início meu trabalho era mais físico, empilhando a arrumando o material que chegava, todo referente à embalagem de biscoito e macarrão: caixas, plástico e etc. Devido a um início de incêndio, acabei subindo de posto. Explico, um dos funcioinários que cuidava da parte burocrática não teve álibi e, mesmo sem se provar que foi ele, o mandaram embora, devido ao início de incêndio na seção. Entrei no lugar dele. Aqui é assim. Daqui a dois anos serei eu a experimentar esse tipo de injustiça.

Eu tento me concentrar e algumas coisas que meu colega diz fazem sentido, mas em seguida eu perco de novo. O refeitório é enorme, com mesas longas e brancas, a luz de lampâdas fluorescentes incide sobre elas. Aquilo me incomoda naquele momento, em que não consigo me concentrar. Me lembro que não é a primeira vez que isso me acontece. Nos últimos dias, quando converso com as pessoas, perco parte de coisas que elas dizem. Vendo TV também tem acontecido isso. Continuo comendo, mas não me sinto muito bem.

Depois que passei para a manhã, preciso acordar às 4:00 hrs., para pegar o ônibus às 4:30, e depois mais um até a fábrica. Dia desses dormi andando, enquanto ia para o ponto de ônibus, e caí... duas vezes. Chego às 6:00, e se chegar às 6:01, não pode mais entrar, preciso esperar até às 7:00, e ser descontado em uma hora, no salário. Se me atraso, todo meu serviço se atrasa. Só eu posso fazê-lo. A carga de responsabilidade é estressante.

Eu paro termino a refeição e levanto da mesa. Levo a bandeja de alumínio vazia, até onde se empilham elas, para serem lavadas. Não me sinto muito bem. Meu colega continuou na mesa. Vou até o vestiário, pego escova e pasta de dentes. Vou até uma torneira e começo a escovar os dentes. Realmente não me sinto bem. Lembro que aos 15 anos tive uma única crise convulsiva. Não sei por que isso me veio à mente. Meu coração dispara sem motivo algum. Minhas mãos começa a suar descontroladamente e minha barriga começa a doer do nada. Sinto um terrível pressentimento de morte iminente.

Quando entro na fábrica preciso ir direto para as máquinas onde se embalam os biscoitos e recolher todo materia que se estragou, que não colou direito, ou que simplesmente rasgou. Subo alguns andares e faço o mesmo na seção do macarrão. Levo tudo para o almoxarifado, onde peso o que se estragou e anoto para fazer o devido relatório. É preciso ter calma e errar o menos possível, pois vai para a mão de um dos donos. Certa vez ele discutiu dizendo que a porcentagem estava tinha de ser retirada do que foi gasto e não do total. A coisa ficou feia, pois ele estava errado. Ainda não era eu a cuidar disso.

Minha mente entra em colapso. Eu não consigo mais saber onde eu estou. Olho na direção das pessoas que estão nessa parte do vestiário, mas não consigo dizer nada. Não consigo mais formular palavras. Um sentimento de despespero, morte e loucura se abate sobre mim. Olho em volta tentando definir em que lugar eu estou. Não consigo. Os pensamentos se amontoam em minha cabeça, mas nenhum deles faz sentido real. Não consigo entender de onde eles vem, o que são e porque aparecem assim do nada. Eu não estou raciocinando mais, meu cérebro não é mais meu. Alguma coisa tomou conta dele.

Eu termino de pesar tudo, entrego os sacos de material estragado para o pessoa que cuida da prensa. Um trabalho chatinho que eu já fizera também. Prensar o plástico estragado era o pior, pois exigia mais paciência, devido a ser escorregadio. Prensar o papelão estragado era bem mais fácil. Lembro de fazer isso, sozinho, à noite, naquela seção enorme e vazia, pois o turno da tarde/noite, era composto de apenas três funcionários para cuidar de dois andares: eu e mais dois. Depois que entrego o que foi estragado, subo para o último andar, onde fica minha "base de operações" sob o comando do encarregado Hotorgail (eu nunca me acostumo com esse nome).

O sentimento de que vou ou morrer ou ficar louco para sempre aumenta e parece que nunca vai ter fim. Meu cérebro parece que foi jogado em um liquidificador. Eu começo a andar na direção de alguém próximo quando sinto que vou perder a consciência. A pessoa me olha, assustada. Eu imagino como devem estar minhas feições. Não dá tempo de pensar mais em nada, pois eu apago. No meu entender, eu desmaiei. Estou inconsciente. Mas na verdade a coisa não é bem assim. Estou inconsciente, mas apenas para mim. Continuo a me mover. Estou tendo uma crise convulsiva, mas não sei disso. Quando ela começa, eu caio para trás e, a parte de trás da cabeça, atrás da orelha direita, acerta a pia de metal.

Eu passo para o computador todas as minhas anotações. O computador foi colocado a pouco tempo, e todo mundo da seção gostou. Bom, nem todo mundo usava o computador, mas todo mundo gostou da menina que vinha nos ensinar como usá-lo. Imagine uma seção com uns 20 homens arranjando sempre um motivo para passar em frente às mesas. Pois bem, o que era feito à mão, agora parecia que ia mudar. Mas não mudou. Depois de passar para o computador, tinha de preencher requisições de material entregue às seções, no dia anterior, e levar para os chefes das seções assinarem. Depois disso finalizar o relatório em uma pasta que ia para a mão de um dos donos.

Eu estou em convulsões, mas realmente acho que estou apenas demaiado esperando acordar. Quando acordo, estou sentado nas escadas que levam ao refeitório. Minha boca tem um gosto estranho e alguns funcionários estão a minha volta, assim como um segurança. Eu não consigo falar. Eles não me dizem o que aconteceu exatamente. Com muito custo pergunto porque minha boca está com um gosto estranho. Alguém me diz que enfiaram sal na minha boca. Não sinto gosto de sal. Não sei que gosto é, não consigo identificar. Mas não parece sal. Alguém me dá água, eu bebo, e a água tem um gosto esquisito. Não parece água. Na verdade, nada parece nada. Me sinto num sonho bizarro e não sei quem são aquelas pessoas e que lugar é esse que estou. Minha percepção da realidade foi alterada pela crise. Crise de quê, eu ainda não sei.

Terminado todo esse serviço burocrático, fico esperando os pedidos de materiais do dia, aos quais eu peço para alguém entregar, ou eu mesmo levo. Me acostumei a usar os carrinhos hidráulicos aos quais eu uso como se fossem patinetes, para ir até a pilha de caixas mais distante. As vezes os caras apostam corrida andando neles. Enfio o carrinho em um estrado com caixas e o levo ao elevador de carga. Vamos até o segundo andar, a seção de wafers, onde uma rampa me atrapalha a descer sem derrubar as caixas. Para piorar há uma máquina enorme que me impede se descer em linha reta. Coloco o estrado de frente para mim, e desço de costas, apoiando as caixas com a mão; quando começo a descer e pego velocidade, tenho de fazer uma curva brusca para não bater na máquina e essa curva, faz a pilha de caixas se inclinar. Vai cair, vai cair! Caiu!

Me levam para a enfermaria, me dão algum comprimido e descanso. As coisas vão tomando forma, a realidade se firmando. Isso não é algo rápido, dura mais de uma hora, creio eu. Não tenho como saber direito, pois a percepção de tempo também está alterada. Não sei o que eu tive ainda. Mas com o tempo acabo descobrindo: uma crise de pânico seguida de uma crise de epilepsia. Apenas 12 anos depois vou descobrir que isso é raro, por isso o tratamento adequado não era encontrado e sofreria 12 anos de crises, pois seria jogado de psiquiatria (para o pânico) para neurologia (para a epilepsia), pois ninguém entendia que eu tinha as duas doenças, e não apenas uma.

Eu termino meu trabalho. A cabeça dói um pouco de tanto fazer cálculos. Me sinto cansado física e mentalmente. Pegar dois ônibus e chegar em casa lá pelas 17:30 não ajuda muito. Mas me sinto melhor, a crise parece algo distante. Ninguém me manda embora da fábrica por causa disso. Venho a ter outras crises, sou sempre levado a enfermaria e prossigo meu dia de trabalho. Descubro que as crises são mais frequente durante as refeições então passo a fazer apenas lanches rápidos. Acho que como ela se seguiu a uma refeição, fiquei com fobia. Entro no ônibus, me sento no canto, e encosto a cabeça no vidro. Não demora nem 5 minutos e eu caio no sono. zzzzzzzzzzZZZZZZZZ!


Para saber mais sobre a Síndrome do Pânico, clique AQUI

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

O Portal

O PORTAL

20 de Outubro de 2006





O portal dimensional se abriu e a cena foi extremamente comum, para mim. Não era nada parecido com os filmes e gibis que eu vi em toda minha vida. Sim, existia um outro universo além do nosso e, provavelmente, como o portal ia verificar, existiam outros mais.

Os cientistas vasculhavam os espaço através das várias telas que o portal permitira abrir. Vários setores do espaço eram mapeados em segundos. Na verdade, eu não via muita diferença daquele universo para o nosso. A única coisa que tínhamos era a "palavra" do portal, pelo menos até então. Mas isso iria mudar.

Mapeando uma seção diferente, uma das telas captou uma formação estranha em um setor que parecia bem diferente de qualquer coisa vista em nosso universo conhecido. Os cientistas logo se alvoroçaram e denomiram a coisa de Buraco Branco. Eles deduziram que aquele universo estava nascendo dali. Explosões silenciosas ocorriam em seu centro e, por isso, os cientistas deduziram isso. Mas logo percebi que não era nada disso. Aquele era um efeito colateral da abertura do portal naquele universo estranho. Estávamos interferindo em um mundo que não era nosso, como sempre fizemos desde que a humanidade aprendeu a dominar o fogo.

Pensei em avisar aos superiores, mas seria perda de tempo, não iriam me ouvir. Apenas continuei a observar a tela em que o Buraco Branco aparecia. As explosões cessaram e o buraco se tornou azulado. O portal soltou um zumbido forte. Quando eles se deram conta da verdade, era tarde demais. O universo recém-descoberto começou a ser dizimado impiedosamente. O buraco, que um dia foi branco, agora estava de uma cor indefinida, que nem mesmo parecia ser conhecida por nós, e aumentava gradativamente, devorando toda a matéria em seu caminho.

Tentaram desligar o portal, mas isso não era tão simples assim. O portal estava programado para funcionar mesmo com falta de energia. Os computadores entenderam isso como se ele não pudesse ser desligado de imediato. Os cientistas, militares, pessoas com interesses particulares no projeto, estavam tensas e, na verdade, eu sei o que estavam pensando: que consequências isso poderia ter em nosso universo? Não foi preciso esperar muito tempo para se obter a resposta.

O portal não fora criado como uma passagem para outros universos, era para ser apenas um observatório... em teoria. O zumbido no portal ficou mais intenso e, de repente, uma nuvem negra o atravessou. A nuvem adquiriu um formato humanóide, mas continuava muito indefinida. O alvoroço no recinto piorou, alguns apenas correndo sem direção. A maioria ficou, inclusive eu. A curiosidade científica era maior.

A coisa apontou para as telas que o portal abrira. Apontou para elas depois para si mesma. Não precisava ser um gênio para entender que ela queria dizer que veio de lá. Nas telas, um branco cegante invadia tela por tela. O universo da coisa estava morrendo, e ela veio tomar satisfações.

Apontando para um dos cientistas, a nuvem negra lançou um pedaço de si mesma contra ele. O homem estrebuchou e uma coisa louca aconteceu, ele implodiu. Inchou um pouco e, em seguida implodiu. Sumiu como se nunca tivesse existido. Os cientistas e os com interesses particulares começaram a correr e a gritar. Os militares, é óbvio, ordenaram que os soldados atacassem. Eu fiquei ali mesmo olhando tudo aquilo.

A criatura parecia não dar importância ao ataque. Parecia estar se sentindo entediada. Não atacou mais ninguém. Recebia a saraivada de balas e outros tipos de armas, ali, parada. Pude ver que o que parecia ser sua cabeça, olhava para as telas. O seu universo seria destruído eternamente. Será que ela pensava em fazer o mesmo com o nosso?

Os soldados continuavam a atacar, destruindo muito mais o local do que a criatura, que nada sentia. Um verdadeiro inferno. A criatura pareceu suspirar e, de repente, começou a se dissolver, lentamente. Em pouco tempo, a criatura melancólica não existia mais. Os soldados cessaram o fogo, os cientistas que não fugiram ordenaram uma varredura subatômica em todo local. O portal havia sido destruído no ataque. O prejuízo era de bilhões de dólares.

Eu passei por toda aquela balbúrdia e peguei uma pequena placa que ficava perto do portal. Uma placa de vidro, que agora não tinha mais utilidade nenhuma. Fazia parte do portal. Percebi que ela estava enegrecida. Achei, inicialmente, que pudesse ter sido devido aos estragos provocados pelos soldados, mas não era. Fui até um microscópio subatômico que ninguém usava mais e coloquei a placa ali. Ajustei para o máximo, e o que eu pensava era verdade: a nuvem negra era um aglomerado de pequenas naves pilotadas pelos habitantes daquele universo, destruídas. Ninguém percebera, mas estávamos vendo um universo subatômico.

Até mesmo o tempo devia passar de modo diferente por lá, o que deu tempo para que organizassem uma fuga em massa usando o portal como meio de escape. Agora eles estavam por aí, e iam recomeçar suas vidas aqui mesmo, em nosso mundo, do melhor jeito que pudessem. Será que pensavam em vingar seu mundo, ou apenas recomeçar? Quem vai saber. De repente, senti uma mão sobre meu ombro. Era Johnson, chefe de todo o projeto.

- Templeton, o que falamos sobre você utilizar os aparelhos do projeto? Estamos com sérios problemas agora, por favor. Faça seu serviço e deixe as pesquisas para quem entende do assunto. - Ele me deu um tapa amigável e cansado, nas costas e foi embora.

Peguei meu balde e o esfregão e fui fazer meu serviço de limpeza, que agora seria bem maior do que aquele ao qual eu estava acostumado. Pelo menos o salário é bom.


sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Gritar

GRITAR





Gritar talvez seja uma das melhores coisas da vida. Gritar para estravazar a raiva. Não se pode fazer isso sempre que se quer, pois com certeza teremos uma vaga imediata numa cela alcochoada ou, como provavelmente eu iria para num manicômio público, seria apenas amarrado a uma cama, com tiras de lençol velho.

Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes precisei fazer isso, para evitar que eu apelasse pra violência pura e simples, e acabasse machucando alguém, ou saísse bem machucado. Não sou de gritar sempre e, talvez por isso, quando acontece eu quase estouro as cordas vocais. É uma coisa meio Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro, para quem ainda não sabe.

Uma dessas poucas vezes, eu devia ter uns 12 anos. Nunca fui de jogar bola, não gosto e nunca aprendi mas, como toda criança que se preze, já tentei jogar. Então eu estava na rua, num jogo apenas de toques, quando um marmanjo sentado numa escada, conhecido meu da vizinhança, começou a me encher a paciência jogando piadas sobre o fato de eu não saber jogar. Como ele era mais velho e maior, eu só tinha três opções: aguentar quieto, chorar ou ir embora pra casa. Bom, eu preferi uma quarta opção. Parei de jogar bola. Fui até onde ele estava sentado, com o coração saindo pela boca de raiva. Me postei a sua frente, respirei fundo e soltei uma avalanche de impropérios, palavrões e palavras de baixo calão, entremeadas por "O que diabos eu te fiz?", "Por que resolveu implicar logo comigo?".

Não eram bem as palavras que fizeram efeito, mas a altura com que eu as pronunciava. Todas as pessoas na rua pararam para olhar para nós dois. Depois de dizer tudo que eu queria no volume máximo, fiquei esperando a reação do cara, que parecia ter saído de uma academia de musculação. Estupefato, ele apenas balbuciou algo sobre eu ser doido e, desde então, nunca mais quis dar uma de técnico de futebol pra cima de mim.

Uma outra vez, mais adiante no tempo, foi com minha irmã caçula. Ela, depois que deixou de ser aquela criança engraçadinha, se transformou numa adolescente ranzinza e mandona, cheia de vontade, que só pensa nela mesma. Certo dia, ela me pediu e eu gravei um programa que ela queria, em uma fita de vídeo. Mesmo ela sendo como era (e é até hoje), fiz de boa vontade. No dia seguinte, enquanto ela assistia a TV, durante os comerciais, eu mudei de canal para ver o que estava passando nos outros. Televisão, desde que ela se deu por gente, tornou-se um problema para se assistir com ela em casa. Quando eu fiz isso, de mudar, ela começou a gritar comigo. Não prestou. Peguei a vida de vídeo que havia gravado no dia anterior, e o primeiro pensamento que me veio a mente, foi quebrar a fita na cabeça dela. Segurei a adrenalina e arrebentei a fita com as próprias mãos. Mas a adrenalina estava pra estourar, eu precisava de mais, só a fita era pouco. Pra não avançar nela, eu saí para o quintal e berrei o mais alto que pude. Tinha de liberar a raiva de ver uma pessoa tão mal agradecida, de alguma forma. Mas, só gritar não adiantou. Eu fui na direção da parte de trás da casa e havia um portão baixo de madeira na minha frente, eu dei um tapa com a palma da mão aberta e o portão, que estava bem preso, se soltou. Machuquei a mão, claro. Mas, pelo menos, me sentia melhor e deixei minha irmã viva no processo.

A última vez faz uns dois anos. Eu, voltando a estudar, fazendo segundo grau, estava bem lá na minha turma. Cismavam de me pedir para ser o representante, devido a minha cara de CDF. Não adiantava dizer que eu não servia para ser representante da turma. Certo. Eu acabava aceitando. Uma amiga era a vice-representante. Não demorou para que um dos alunos da sala tivesse problemas com ela, e ao ver que ele estava discutindo com ela, eu fui argumentar, coisa que não adiantava muito. Logo ele começou a ofender a garota. Eu disse que era melhor resolvermos aquilo na diretoria, tentando manter a calma. Ele não se mostrava disposto a isso. Não se movia de onde estava. Eu não podia pensar em brigar com ele na mão. Ele parecia pesado e forte. Ele não parava de falar um segundo. Aquilo estava me irritando. Ele queria vencer pelo cansaço. Estávamos na porta da sala. Vendo que a disputa era de quem falava mais alto, eu me coloquei a um palmo de distância da cara dele e berrei o mais alto que minhas amígdalas podiam.

Eu usei todos os argumentos de antes mas, agora, acompanhados de palavrões e de um volume de décibeis. Minha garganta chegou a arranhar. Estávamos no terceiro andar e, mesmo lá embaixo, todo mundo escutou. Dentro de instantes todas as pessoas, alunos e professores, vieram ver o que estava acontecendo. Ele calara a boca. A diretora veio ver o que era e fomos levados para a diretoria onde consegui explicar tudo. Com uma ficha de perturbações anteriores, o aluno nada pôde fazer e, depois de fazer beicinho - mesmo tendo uns 30 anos - admitiu forçadamente, que estava errado.

O ruim de gritar assim é que depois os ouvidos ficam zunindo.



domingo, 8 de outubro de 2006

JJ em Olhe Lá no Céu!

JESUSALEM JONES - OLHE LÁ NO CÉU!





Jerusalem Jones gostava do deserto, um lugar solitário e esquisito, assim como ele mesmo. Entre uma cidade e outra, uma aventura e outra, ele dormia pelos desertos, à luz de uma fogueira, olhando as estrelas e pensando em sua estranha vida. Pois bem, estava Jerusalem Jones fazendo exatamente isso, quando ele notou que uma das estrelas começou a aumentar de tamanho de repente. Ele ficou ali, deitado, com as mãos atrás da cabeça, apoiado a uma pedra, olhando aquilo, paralisado. Era incrível, mas a estrela estava aumentando cada vez mais. Apenas quando já era tarde demais, ele percebeu que a estrela estava, na verdade, vindo em sua direção.

Jerusalem Jones "acordou" e saiu correndo em direção ao cavalo. Pulou na sela, esporou o bicho e tentou correr o máximo que podia. Mas era tarde. O que quer que fosse aquilo, atingiu o chão perto de Jones, e lançou ele e o cavalo metros a frente. Pedra e poeira caíram sobre ele. Tossindo, ele se levantou e viu que o cavalo estava mais ou menos bem, só parecia não querer levantar de onde estava, como se estivesse muito cansado de tudo aquilo que passava ao lado (quer dizer, embaixo) de Jerusalem Jones. Suspirou e deitou a cabeça.

Jones bateu a poeira da roupa e olhou na direção da cratera aberta pela tal "estrela". Pequenas chamas rodeavam o local e havia algo dentro dela. Ele se aproximou cauteloso e viu que era uma coisa ovalada. Parecia quase como uma bala de canhão, só que mais enfeitada. Sem saber o que pensar ou fazer sobre aquilo tudo, Jones já estava para pegar seu cavalo e ir embora, quando ouviu um chiado forte e a coisa começou a abrir uma portinhola na parte de cima. Depois de sair muita fumaça de dentro - uma fumaça estremamente fria - deu para ver que havia dentro... um bebê!

Um bebê? Jerusalem Jones olhou ao redor, como se esperasse que alguém aparecesse para explicar tudo aquilo, mas, é claro, isso não ia acontecer. O bebê parecia bastante saudável para quem acabara de sofrer uma queda daquela dimensão. Ele erguia os braços na direção de Jerusalem Jones e fazia aqueles barulhos engraçadinhos que bebês costumam fazer. Jones sentiu uma coisa estranha dentro de si, algo que nunca sentira antes, seus olhos começaram a marejar sem ele saber porque. Jones não sabia, mas ele estava sendo sensível. Pena que não duraria.

Quando já estava até pensando em um nome para o filho das estrelas, que adotaria como seu, recebeu uma espécie de raio vermelho bem no ombro, vindo dos olhos do garoto. Jones deu um grito tão alto, mas tão alto que o eco durou alguns segundo para dissipar pelo deserto. O moleque assou o seu ombro esquerdo. Queimou como o inferno.

O moleque soltou uma risadinha de bebê que soou extremamente diabólica. Logo em seguida, ele começou a... flutuar! O desgraçado estava voando! Quando Jones viu os olhos do bastardinho ficarem vermelhos de novo, sacou de sua arma, tentando não pensar que aquilo era uma criança mas, sim, uma cria do Capeta. Quando disparou, Jones achou que tinha errado, pois o trocinho nem se mexeu, apenas disparou outro feixe de calor que por pouco não acerta a cabeça de Jones. Atirou de novo, dessa vez descarregando as armas no filho da mãe. Então Jones percebeu, ele era à prova de balas. O moleque riu de novo, e aquilo fez a espinha de Jones congelar.

Ele começou a flutuar em direção a Jones, e ele só tinha uma coisa a fazer, correr e muito. Quando deus as costas para o bebê, sentiu um rajada forte de vento, em suas costas e foi derrubado. Ele sabia que tinha sido ele, nem precisa ver para saber. Levantou antes que ele pudesse chegar em cima dele, olhou na direção de umas pedras mais a frente, onde poderia se esconder, e ia correr na direção delas, quando sentiu um vento no pé da orelha e viu que o moleque já estava lá, antes dele. As coisas não iam bem.

O trocinho começou a voar na direção de Jones e colocou um punho esticado para a frente, enquanto voava. Os panos de bunda que o envolviam eram vermelhos e azuis e estavam enrolados nele, mas quando ele começou a voar nessa posição, parecia que o corninho tinha uma espécie de capa. Jones pensou em como tudo aquilo era ridículo. Foi quando recebeu um soco no queixo. Ah, o punho estendido era pra isso...

Jerusalem Jones rodopiou e caiu. Não desmaiou, mas quase. Mas pouco adiantava estar acordado. Provavelmente era o fim de tudo, para Jerusalem Jones. O garoto estava em cima do peito dele, olhando na direção de sua cabeça. Os olhos estavam de um verde vivo e parecia que ele vasculhava algo dentro de Jones. Ele deu aquela risadinha irritante, quando seus olhos voltaram ao normal. Mas não por muito tempo. Começaram a ficar vermelhos de novo. E mirava a cabeça de Jones. Ele ia fritar seu cérebro e nada podia ser feito quanto a isso. Ou quase nada. Jones viu o céu ficar pontilhado de luzinhas verdes e de repente uma chuva bizarra teve início. Eram pedras pontiagudas, verdes. Uma delas atravessou as costas do moleque.

O grito que que a criança deu foi macabro. A coisa começou a meio que a derreter, a pele se desfazendo. Em pouco tempo só restou o esqueleto, em cima de Jerusalem Jones. Que tirou de cima de si, com um pavor e um nojo inesquecíveis. A chuva foi rápida e Jones deu graças a Deus de não ter sido atingido por nenhuma das pedras, mesmo que algumas estivessem bem perto dele. Ele não sentia nada perto delas. Pelo jeito só afetava o bacurinho mesmo. Sabe-se lá porquê.

Olhando em direção ao troço de onde o moleque saíra, ele viu que uma das pedras maiores atingiu o objeto em cheio, enterrando-o. Melhor assim, ele não estava mais curioso e não queria mais saber de adotar ninguém que viesse do céu, nem que fosse Jesus Cristo.

Seu cavalo, na hora da chuva, não foi bobo e se escondeu. Jesusalem Jones foi na direção dele, quando algo pequeno deu uma pancada forte em sua cabeça. Ele olhou pro chão e viu um anel verde. Pegou e viu que tinha um desenho de algo que lembrava uma lamparina. Colocou em seu dedo e viu que cabia. Ficou vendo se acontecia algo e nada. Esperou mais um pouco e nada. Sem querer guardar lembranças, tirou e atirou para trás com um palavrão.

Sem que Jerusalem Jones visse uma luz verde havia formado um dedo médio apontando para cima.


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