quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Jerusalem Jones: The End

JERUSALEM JONES - THE END


Jerusalem Jones morreu ao pôr-do-sol. Enforcado em uma árvore com aspecto miserável. Ele sempre soube que morreria assim, enforcado. Estranho isso, saber como iria morrer. E sabia também que seria de forma injusta. As coisas sempre eram injustas para Jerusalem Jones, ou pelo menos não eram sempre justas.

Minutos antes de parar de respirar, Jerusalem Jones chegou a conclusão de que aquela história, de que toda a nossa vida passa diante de nossos olhos quando estamos morrendo, era tudo lorota. A única coisa em que ele conseguia pensar era na maldita mordida que levou no pescoço, e de como aquilo se tornou uma benção e uma maldição em sua vida.

Jerusalem escapou de muitas enrascadas graças aos estranhos poderes que aquela mordida acabou lhe concedendo, mas isso parecia ter um preço: às vezes sentia uma fome irracional, uma fome insana e imoral, por carne que não era, digamos, carne comum, se é que vocês me entendem. Afinal, aquela mordida que Jerusalem Jones recebeu era de alguém que estava com fome de Jerusalem Jones. E, mesmo tendo sido ajudado para que não virasse uma daquelas coisa, as sequelas foram inevitáveis.

Mas porque Jerusalem Jones foi morto afinal? E por quem?

Bom, um dia isso tinha que acontecer. Se metendo sempre com quem não devia, Jerusalem Jones ia acabar na ponta de uma corda. O caso foi que Jones estava morando há um tempo em Dobstownville, longe de encrencas. Foi quando recebeu a proposta do xerife de ser seu assistente. Como estava precisando de grana Jerusalem Jones aceitou, avisando que seria temporário, pois ele não pretendia se estabelecer na cidade. O xerige Moonaghan aceitou de bom grado e, com um tapa efusivo nas costas de Jerusalem Jones, enfiou uma estrela em seu peito, quase perfurando seu coração.

Os dias se seguiram tranquilos. O trabalho de Jones era apenas recolher bêbados problemáticos, e fazê-los passar um dia ou dois na cadeia. Geralmente Jones acabava jogando cartas com eles, dentro da cela, assim que eles "acordavam" da bebedeira. Chegava a ser um trabalho divertido. Não acontecia muita coisa em Dobstownville.

Tudo ia muito bem, até que o xerife precisou se ausentar e a coisa toda desandou. Um garoto entrou às pressas e, ofegante, disse que havia problemas na casa do representante da cidade, o sr. Douglas. Como a cidade era muito pequena, não havia prefeito, apenas um representante. O garoto disse que ele estava batendo na mulher, ou algo assim. Jerusalem Jones amaldiçoou o representante por acabar com seu sossego, e rumou em direção à sua casa.

Jones chegou e bateu à porta. Esta estava aberta, e havia um silêncio sepulcral lá dentro. Era aquele silêncio que precede coisas ruins, que Jerusalem Jones conhecia tão bem. Entrou devagar, e ouviu um som vindo do andar de cima, algo como um gorgolejo, contínuo. Um som de arrepiar os cabelos da nuca. Subiu as escadas e foi ver o que era.

Vinha do que ele imaginava ser o quarto do casal. A porta também estava aberta e o tal gorgolejo mais alto e incessante. Sem saber como, Jerusalem Jones teve uma visão exata do que veria, antes mesmo de abrir a porta. E lá estava, a mulher de joelhos, com apenas o branco dos olhos à mostra, com um vestido branco, todo ensanguentado, uma faca na mão e o corpo do representante Douglas, estirado à sua frente e, totalmente estripado. Havia velas e ao redor dele, e a mulher estava ajoelhada dentro de um circulo desenhado no chão.

Quando viu Jerusalem Jones a mulher correu alucinada em sua direção, e o esbofeteou tão forte que Jerusalem Jones foi a nocaute na mesma hora. Ao acordar, Jerusalem Jones estava todo amarrado sobre um cavalo e com uma corda amarrada ao pescoço. Estava para ser enforcado.

O xerife comandava a turba que queria o sangue de Jerusalem Jones. O xerife disse à Jones que não entendeu os motivos dele - Jerusalem Jones - ter cometido aquele hediondo assassinato duplo. Matar o representante e sua esposa, sem mais nem menos. O xerife disse que Jerusalem Jones seria enforcado imediatamente, pois o povo da cidade estava indignado e, de qualquer forma, ele seria linchado mesmo. O xerife piscou um olho matreiro para Jerusalem Jones.

Jones começou a colocar a cabeça pra funcionar e lembrar de algumas coisas. Como por exemplo, que havia um boato na cidade de que o xerife e a mulher do representante teriam um caso. Porém, isso nunca era admitido abertamente por ninguém. Mas se os dois planejaram matar o representante e jogar a culpa em alguém, para depois ficarem juntos, como o xerife falou em duplo assassinato? A mulher também morrera. Mas, Jerusalem tinha certeza que não a matara.

Foi quando Jerusalem Jones lembrou de um livro que achou na gaveta do xerife, sobre feitiçaria, e coisas como controle da mente através de magia negra. Na hora Jerusalem Jones achou apenas que o xerife gostava de livros exóticos. Mas se a mulher do representante se matou, porque então ele faria aquilo tudo? Com que objetivo?

Enquanto se preparavam para enforcar Jerusalem Jones, a multidão gritava que o novo representante da cidade seria o herói, que descobriu e prendeu o assassino, xerife Douglas. Ah, então era por isso. Poder. Alguém deu uma palmada no cavalo onde Jerusalem Jones estava, ele disparou e a corda puxou seu pescoço, apertando-o, deixando-o sem ar, até que Jones era só um corpo balançando na árvore. Ele foi enforcado fora da cidade e o deixaram lá, sem nem mesmo um enterro decente.

... ...

... o galho quebrou. Jerusalem Jones não sabe quanto tempo ficou ali pendurado. Nem mesmo sabia porque não estava morto. Quer dizer, tinha a ligeira desconfiança que isso teria a ver com sua cicatriz. Jones se sentia bem, pra dizer a verdade. Sendo que apenas um detalhe, que antes lhe incomodava, agora ele sentia que seria bem útil: ele estava com fome. Aquela outra fome, e ele pretendia saciá-la na cidade, almoçando com o novo representante dela.


sábado, 26 de agosto de 2006

Como nascem as Histórias?

COMO NASCEM AS HISTÓRIAS?


Como nascem as histórias? Não faço a mínima idéia, mas sei que a minha terminou quando Jane morreu. Saí do trailer com ela nos braços e a coloquei embaixo de uma árvore, enquanto eu cavava um lugar onde ela pudesse descansar. Dei um último beijo de adeus, coloquei-a dentro daquele túmulo mal acabado, onde eu esperava, ela pudesse dormir para sempre. Quando joguei a primeira pá de terra, seu corpo balançou com o baque. Foi como se Jane voltasse à vida por menos de um segundo.

Tudo terminado, depositei uma flor e entrei no nosso trailer. Nosso lar. Me sentia estranhamente calmo. Dei partida e me pus na direção da estrada, afinal Jane não iria querer que eu ficasse vivendo em função do passado. Jane viveria em mim enquanto eu vivesse e nossos momentos felizes seriam guardados com todo carinho em meu coração. Não só o que vivi com ela, mas com todas elas, todas as que morreram aqui , comigo neste trailer. Agora, porém, eu tinha de seguir em frente e conseguir um novo amor. Espero que essa dure mais tempo...

Quando vou entrar na auto-estrada um caminhão me acerta a toda velocidade. Meu trailer é destroçado e eu fico preso entre as ferragens agonizando, sem a menor chance de obter ajuda, visto que poucos carros passam aqui. Vou levar horas até morrer. Deus! Como dói... eu não imaginava que doesse tanto. Um carro, um carro está se aproximando...

Um trailer totalmente esmagado à beira da estrada. Será que há alguém dentro dele? Passo devagar para ver se há alguém ferido dentro dele, quando escuto uma voz sussurrar em meu ouvido, "não pare, continue seu caminho, não é assunto seu". Sinto um calafrio percorrer o meu corpo e decido não parar. Acelero e continuo meu caminho. Que coisa mais assustadora. Juro que escutei uma voz feminina sussurrando em meu ouvido.

Acho que não estou bem. Deve ser o estresse de ter de viajar até à casa de mamãe para saber o que aconteceu para ela me ligor tão desesperada, dizendo para que eu fosse até lá o mais depressa possível. Será algum problema com o Joey?

Já estou quase chegando. Melhor eu telefonar para saber se ela continua em casa. Quando pego o celular e termino de discar, uma desgraça acontece. Não, não! Eu atropelei alguém, não pode ser! Saio do carro e vejo um senhor estatelado no chão. Acho... acho que ele está morto. O que vou fazer, Meu Deus.O que vou fazer? Tá começando a juntar pessoas. Me abaixo, sinto o pulso dele e... não há. Não há pulso. Está morto.

O telefone tocou duas vezes e parou. Será que era o Mark telefonando? Esses desgraçados obrigaram minha mãe a chamar o Mark, e agora a amarraram e a mim, nessas cadeiras. Mamãe está deseperada, pois não sabe o que eles tanto querem. Disseram apenas que é um assunto do interesse dele e que quando ele chegar nos soltam. Tenho a nítida impressão de que eles não vão fazer isso. Esses idiotas parecem ser da máfia, ou algo assim. Mas o que Mark poderia ter feito para ter problemas com a máfia? Se eu pudesse ao menos acalmar minha mãe, mas amordaçado desse jeito não posso fazer nada. Quando eu me mexo, me sentindo descortável, um dos trogloditas me dá um tapa.

Idiotinha. Fica se mexendo toda hora. Esse irmão dele que não chega logo. E papai também está demorando. Estamos aqui há horas e nem ao menos sabemos direito o que vai acontecer. Papai tem negócios pendentes com esse tal de Mark e eu não faço a mínima idéia do que seja. É melhor eu telefonar para o pai e perguntar se ele já está vindo. Quando pego meu telefone a campainha toca. Digo para a velha e o moleque ficarem quietos senão já sabem. Vou até a porta e é apenas o Dermott. Está nervoso e eu não sei porque.

Grito para que ele fale logo o que está acontecendo e ele diz, gaguejando muito, que papai está morto. Acabou de ser atropelado. A polícia levou o cara que atropelou. Eu... eu fico sem saber o que fazer. Digo à Dermott para ir embora. Me sento à mesa dos Dempsey, que olham para mim de olhos esbugalhados. Acho melhor dar a notícia à mamãe. Ligo para ela.

O telefone toca e quando eu atendo é a voz de Sid. Fungando muito (ele sempre faz isso quando segura o choro) ele me diz que seu pai morreu. Recebo a notícia friamente. Acho engraçado um homem como Thomas morrer atropelado. Um acidente, nada mais que um acidente. Chega a ser irônico. Ele estava indo resolver esse problema na casa dos parentes desse tal de Mark.

Depois que nossa filha fugiu de casa, dizendo que iria se encontrar com Mark Dempsey, para viver com ele, Thomas ficou possesso. Quando viu que as ameaças da filha não eram apenas apenas um blefe, e que ela não amanheceu em casa, ele mandou seus capangas obrigar a mãe do rapaz a chamá-lo aqui e fazê-lo dizer onde estaria nossa filha.

O problema é que descobri o telefone desse tal Mark Dempsey e contei nossa situação, e ele disse que ela não estava com ele. Acreditei nele. Não teria porque mentir. Nem sabia o que estava acontecendo. Melhor telefonar para Sid e mandar que ele deixe a família de Mark em paz. Sem seu pai para controlá-lo, Sid vai me obedecer.

Thomas já foi tarde. As coisas que ele fez à nossa filha... E agora ela está desaparecida. Me deito, para descanasar, mas não consigo deixar de pensar em Jane. Onde está você, Jane querida?

Ouço um sussurro, como se fosse a voz de Jane, em meu ouvido, parece dizer que ela está bem agora, e eu durmo.


quinta-feira, 24 de agosto de 2006

JJ e a Cidade Fantasma

JERUSALEM JONES: A CIDADE-FANTASMA


Há alguns anos atrás...

Fazia tempo que Jerusalem Jones não fazia aquele percurso, mas não tanto tempo a ponto de surgir uma cidade naquele lugar. Ele coçou a cabeça e tentou entender o que poderia ter acontecido. Seria uma miragem? O sol até que estava bem forte, mas ele se sentia muito bem, e não estava nem com sede. Mas uma cidade inteira. Se fosse uma pequena vila, tudo bem. Jerusalem Jones olhou em volta, e as montanhas pareciam se fechar sobre a cidadezinha recém-aparecida-do-nada.

Gantua sabia que não lhe restava mais nada. Depois que sua nave sofreu uma avaria no inter-espaço, a única coisa que pôde fazer foi se teleportar para o planeta mais próximo, sabendo que isso não seria, contudo, sua salvação. Mas era melhor do que explodir junto com a nave. A guerra para Gantua chegara ao fim ali. Viver mais um pouco, em um lugar totalmente estranho, seria apenas uma última aventura. Claro, se ela conseguisse respirar na nova atmosfera...

Jerusalem Jones entrou, ressabiado, na cidade. Olhava como as pessoas agiam normalmente. Alguns cumprimentavam-lhe, outros nem mesmo notavam sua presença. Era uma cidade normal, com pessoas normais. Jerusalem Jones desceu de seu cavalo e levou-o até onde o animal pudesse se refrescar, e Jones pensou em fazer o mesmo. O saloon ficava logo à sua frente. Ao entrar, aquele aspecto de normalidade que a cidade tinha o incomodou mais ainda. Tentando deixar essa sensação estranha de lado, pediu uma bebida.

Gantua se materializou acima do solo e sofreu uma queda feia, mas que não fez com que sofresse nada mais grave. O lugar onde caíra era deserto, árido. O calor seria sufocante, se Gantua não tivesse vindo de um planeta ainda pior. Sem grandes meios de locomoção, Gantua só podia esperar morrer dentro de alguns dias. Ou, quem sabe, talvez Gantua pudesse esperar um pouco mais, antes de morrer, e explorar o território onde caiu, quem sabe aprender, e levar consigo um pouco mais de conhecimento.

Jerusalem Jones tomou sua bebida com calma, enquanto olhava ao redor. As pessoas, parecia faltar algo a elas. Elas conversavam entre si, havia toda aquela aura de uma cidade comum, com pessoas de todos os tipos e, no entanto, faltava algo. De repente uma idéia louca passou pela cabeça de Jerusalem Jones. Sem pensar muito, para não desistir, Jerusalem Jones encheu os pulmões e soltou o palavrão mais cabeludo que conhecia tão alto que chegou a doer seus próprios ouvidos. Ninguém notou. Ninguém se abalou.

Gantua já estava há uns dias no planeta e em vez de morrer, se tornava mais forte. Aparentemente a atmosfera do lugar a ajudava. Isso era um imprevisto. Na verdade, Gantua até mesmo se acostumara àquele lugar deserto e árido, pois lembrava-lhe um pouco o lugar de onde veio. Uma coisa interessante é que ela não vinha sentindo fome. Parecia que a atmosfera lhe provia até mesmo uma certa fonte de nutrientes. Porém, Gantua tinha que fazer algo para matar o tempo, enquanto não encontrava uma solução para o que faria nesse planeta. Talvez devesse construir algo, quem sabe.

Jerusalem Jones entendeu então o que vinha incomodando-lhe, aquelas pessoas eram apenas cascas. Eram vazias. Sem almas. Aquele pensamento deu-lhe arrepios. Seria uma cidade-fantasma? Não, não era isso. O problema é que ele não sabia o que era. Ele resolveu que sairia dali o mais rápido possível, pois não estava muito a fim de descobrir. Talvez fosse tudo uma ilusão e ao deixá-la para trás, tudo acabasse. Quando saiu para a rua, percebeu que, quem quer que fosse o reponsável pela construção da cidade, soube que ele estava ali, e que ele não era um deles. Jerusalem Jones sacou de seu revólver e apontou para o pequeno grupo de pessoas que avançava para ele, lentamente, com aqueles olhos vazios.

Gantua tinha mais ou menos uma idéia do que poderia fazer. Mas não estava certa se seria algo de bom gosto, já que sabia muito pouco sobre o planeta. Estava para tentar algo usando o mínimo que sabia, quando ouviu um estampido, e mais um, e mais um. Gantua correu, subiu em uma elevação e viu que adiante de onde estava, existia um povoado. Gantua porém conseguiu definir alguns padrões que conseguiram assustá-la. Ela não era a única de outro mundo a estar ali, seus inimigos, sabe-se lá porque, chegaram primeiro. Gantua correu.

Jerusalem Jones estava atirando para todos os lados e correndo. As pessoas caíam e se transformavam em pó. Ele saltou sobre um cavalo que estava em seu caminho e disparou na direção da cidade, quando percebeu que o cavalo começou a levá-lo em outra direção. E, por mais burro que pudesse ser, deduziu que se as pessoas eram esquisitas, os animais também deviam ser. O animal empinou e derrubou-o. Ia pisoteá-lo se ele não sai de lado. Jerusalem Jones levantou-se e já estava tomando seu rumo novamente, quando foi agarrado por um dos habitantes da cidade. Segurou-o com uma força imensa, quase quebrando seu braço. O homem segurou a cabeça de Jones e ia começar a torcê-la quando de repente caiu e virou pó.

Gantua não sabia o que eles poderiam estar tentando montando um símile do que ela deduzia ser um povoado do planeta, mas tinha que ir lá saber do que se tratava. Morrer pelas mãos deles era o menor dos problemas. Chegou ao povoado em poucos minutos, correndo em velocidade beta. Quando entrou no povoado viu que os habitantes eram apenas cópias-térmicas. Era uma tática dos inimigos que ela bem conhecia. Fizeram uma cópia-térmica de seu filho, antes de o matarem. Onde estava eles estão? Gantua percebeu agitação de um lado da cidade, correu e viu que uma cópia-térmica tentava matar um habitante do planeta e a impediu.

Jerusalem Jones teve um choque ao ver o que o salvou. Era tão aterrador que a única coisa que ele pensou foi em atirar, mas ele não podia, afinal a coisa o salvara. Mas o que diabos era aquilo? Um troço com uma cauda enorme, uma língua que parecia querer agarrá-lo. A única coisa que Jerusalem Jones reconhecia era algo parecido com peitos de mulher. Ele estava hipnotizado olhando aquilo.

Gantua esqueceu que sua aparência devia ser horrenda para aquele habitante, assim como ele era bem feio para ela. Gantua deu meia-volta antes que as coisas piorassem. O habitante estava estático olhando para ela, com aquela espécie de arma na mão apontada para ela. Gantua não sabia como os inimigos construiram aquele povoado e porque, e pior, não sabia como ia desativar tudo aquilo.

Jerusalem Jones viu aquela coisa se afastar e resolveu que também iria tomar o seu rumo, antes que mais alguém da cidade-fantasma tentasse matá-lo. Foi quando notou que havia algo entre o pó que sobrou do troço que tentou matá-lo. Abaixou e pegou aquela coisa esquisita. Estava apitando ou algo assim.

Gantua viu o que o habitante pegou e entendeu tudo. Aquilo tudo não foi o inimigo quem fez, e sim as cópias-térmicas. De algum modo uma unidade replicadora caíra no planeta e replicara tudo o que captou em kilômetros. Aquilo na mão do habitante era a unidade replicadora, que estava naquela cópia que devia ser a cópia-térmica-matriz. E ia se auto-destruir. Gantua correu e agarrou a unidade replicadora do habitante. Apontou para frente, sinalizando que ele saísse dalí. Gantua ia ficar e ter certeza de que a unidade não iria se auto-replicar antes de se destruir.

Jerusalem Jones entendeu o que a coisa quis dizer e correu o mais rápido que pôde. Quando estava quase a uma boa distância, sentiu a explosão lançá-lo para a frente. Ficou um bom tempo caído, até que levantou e olhou para trás, e da cidade não restara nada, nem escombros. Nem mesmo da criatura que o salvou por duas vezes. Um sentimento de gratidão estranho o invadiu. Era esquisito sentir-se grato a algo que ele sentiu tanta repulsa. Jerusalem Jones viu seu cavalo correndo adiante, mais assustado que ele, então correu para alcançá-lo. Era hora de ir para casa.

Gantua agora estava em casa.


quinta-feira, 17 de agosto de 2006

JJ e Black Goddard

JERUSALEM JONES - ENCONTRO COM BLACK GODDARD



Ninguém fazia idéia da origem de Black Goddard, sabiam apenas que ele apareceu na cidade e, em pouco tempo, se tornou dono de metade dela. Neville City não era mais próspera por causa disso, na verdade, nunca mais fora a mesma depois que Black Goddard apareceu e, de modo estranho, foi tomando conta do lugar. Parecia uma erva daninha, crescendo sempre mais, querendo sempre mais. Sua base de operações, por assim dizer, era o Salloon Goddard, onde passava os dias sempre conversando com pessoas estranhas, que não eram habitantes do lugarejo. E sempre que essas pessoas sumiam, Goddard se tornava dono de mais um pedaço da cidade, fosse um imóvel, um negócio, ou mesmo uma vida.

Era evidente para todos que Goddard gostava do poder. O prefeito e o xerife da cidade praticamente respondiam às ordens de Goddard, e muita coisa sinistra que acontecia na cidade era encoberta, ora por um, ora por outro. Porém, Black Goddard, nos últimos dias, vinha pensando em alçar vôos mais altos. Onde iria aterrisar só Deus poderia saber.

Enquanto isso, chega na cidade Jerusalem Jones. Veio à Neville City apenas para descansar até seguir para Fawcett Town. A cicatriz no seu pescoço coçava mais que o normal. Devia ser por causa do calor. Fora isso, os efeitos daquela maldita mordida pareciam realmente ter sido obliterados para sempre. Jerusalem Jones tentou lembrar como diabos aprendera aquela palavra, "obliterado", mas não fazia idéia. Seu vocabulário não era dos melhores. Deve ter sido em algum folhetim que andou lendo.

Black Goddard pensava consigo mesmo que, para levar adiante seu plano mais recente, precisaria de alguém ingênuo o bastante para que tal plano desse certo. Na verdade, ingênuo não era bem a palavra, teria que ser alguém bem...

- IMBECIL! Olha por onde anda! - gritava um homem enorme em quem Jerusalem Jones esbarrara ao entrar no Saloon
- Ei! Desculpa, meu camarada, mas você bem que podia evitar ficar bem na entrada do saloon, hein?

O homem fulminou Jerusalem com um olhar e preparava-se para dar-lhe um belo soco, quando Black Goddard segurou seu braço e disse-lhe:

- Calma, Smitheson. É assim que você trata os visitantes? - e Smitheson se acalmou, afinal era Black Goddard quem pedia, e não qualquer um.
- Bem-vindo, forasteiro. Pode entrar e se sentir a vontade em meu estabelecimento. Sente naquela mesa e já me junto ao senhor.

Jerusalem Jones nada entendeu, mas foi para a mesa indicada. Sentiu uma pontada na cicatriz. Coçava de novo. Quem sabe agora parava, já que saíra do sol escaldante lá de fora. O estranho que parecia ser o dono do saloon chegou com duas canecas de cerveja e depositou-as em cima da mesa. Empurrou uma para Jerusalem Jones...

- Por conta da casa. Então, o que o traz à Neville City?
- Minhas pernas - disse Jerusalem Jones e soltou uma gargalhada solitária.
- Hmmm... bom, fora o seu bom humor, veio tratar de algum negócio em particular na cidade, senhor...?
- Jones, Jerusalem Jones.
- Prazer, me chamo Black Goddard.

De repente Jerusalem Jones se engasgou com a cerveja. Começou a tossir e a rir ao mesmo tempo, num ataque desconcertante. Goddard quase levou um banho de cerveja e, ao mesmo tempo, não entendia o motivo das risadas de Jones. Quando este conseguiu falar, disse:

- Você não tá falando sério. Que diabo de nome é esse?
- Jerusalem Jones também não é um nome lá muito comum - disse Goddard tentando controlar a antipatia que começava a sentir pelo forasteiro.
- Certo, mas tem bem mais estilo, se me permite dizer. No seu caso, bom, seu pai chegou e disse "põe aí Black, meu filho vai se chamar Black"? Ou isso é um tipo de nome de guerra? Seja sincero, não se vê muitos Blacks por aí, pelo menos não da sua cor - disse Jerusalem Jones explodindo em outra gargalhada.

As pessoas no saloon, sem querer, estavam ouvindo a conversa e, sem querer, estavam sendo contagiadas pelas risadas histéricas de Jerusalem Jones. Tentavam segurar o riso, mas o estranho ria tão descontroladamente de algo tão banal quanto um nome, que elas não estavam conseguindo se conter. Sabendo como Black Goddard podia ser cruel às vezes, aquelas pessoas que não estavam conseguindo se segurar, começavam a pagar sua conta e sair do saloon.

A cicatriz do pescoço de Jones estava coçando miseravelmente. Para quem não lembra, a cicatriz foi provocada pela mordida de uma morta-viva, que quando era apenas viva, era amiga de Jerusalem Jones. Infectado e com o risco de se transformar em um morto-vivo, Jerusalem Jones aceitou a ajuda de um feiticeiro índio e conseguiu escapar da sina de se transformar, ele mesmo, em um morto-vivo. Por que, então, a cicatriz agora estava coçando tanto? E por que ele estava rindo de algo tão bobo, quanto o nome daquele cara? Ele não conseguia se conter. E metade do saloon ria junto com ele. Ele precisava parar, estava até mesmo perdendo ar de tanto rir.

Neste momento Black Goddard já havia desistido de usar aquele fracassado para qualquer plano seu. Goddard só pensava em uma coisa: matá-lo. Se controlando para não atirar no desgraçado ali mesmo, Goddard gritou:

- Eu o desafio para um duelo!
- M... m... mas...hhihihihihih... hahahah...hhihih... o que dia... haiuaiaiahiehai... eu... eu... fiz...? hauehaue - Jerusalem Jones estava desesperado, não conseguia parar de rir e nem de coçar a cicatriz no pescoço. Agora queimava.

Goddard agarrou o tal Jones pela gola da camisa e o levou para fora. Agora todos haviam parado de rir... menos Jerusalem Jones.

- C... como...hauhuahhahaha... e... eu... vou...hahahaha... conseguir... ahehauehauheua... ati.. atirar assim?

Goddard não deu a mínima para o apelo de Jones. Contou vinte passos de onde Jones estava e virou de frente para ele. Jerusalem Jones se pôs de pé com dificuldade. Estava sem ar de tanto rir. Ele não estava entendendo o que havia com ele. A piada já perdera a graça a muito tempo. Goddard designou seu barman como juíz do duelo e que ele apontasse o momento de disparar. Goddard só estava fazendo aquilo, porque estava vendo que o idiota não ia parar de rir e ele o mataria ali, dentro da lei, na frente de todos.

O barman disse que ia contar até três. Jerusalem estava praticamente em convulsões por causa da crise de riso. O barman estava no "dois". Jerusalem tentava ao menos colocar a mão sobre a sua arma, e não conseguia. O barman gritou "TRÊS" e um estampido se ouviu vindo da arma de Black Goodard. Jerusalem Jones girou e caiu.

A multidão ficou em silêncio. O barman se aproximou de Jerusalem Jones para constatar sua morte. O forasteiro estava caído de costas. Não havia sangue. Quando o barman foi virá-lo, notou que havia uma cicatriz em seu pescoço, e essa estava... a cicatriz, ela estava...pulsando?! O pobre barman só sentiu seu corpo ser arremessado pra longe, por um Jerusalem Jones ensandecido. A multidão soltou um "ooooh" em conjunto. O forasteiro se pôs de pé e olhou na direção de Black Goddard, que estava estupefato, até mesmo esquecendo que estava com uma arma na mão. Quando este lembrou que podia atirar, era tarde demais. Jerusalem Jones deu salto que nenhum homem normal poderia dar. Caiu em cima de Black Goddard, que perdeu sua arma na queda. Goddard gritava todos os palavrões do mundo, ordenando que Jerusalem Jones saísse de cima dele, ou que alguém atirasse no desgraçado. Mas as pessoas estavam ou correndo, ou sem saber o que fazer. Talvez não atirassem com medo de acertar Goddard.

Quando Goddard xingou a mãe de Jerusalem de nomes que aqui não caberiam, este soltou um rugido gutural e, num movimento rápido, arrancou a orelha esquerda de Black Goddard. Seu grito foi ensurdecedor. Quando ele viu que Jones estava saboreando sua orelha, Goddard entrou em pânico. Ele não estava entendo o que estava acontecendo.

Foi quando Jerusalem sentiu um disparo passar rente à sua cabeça. Estava chegando ajuda para Goddard. Antes que pudesse ser morto, Jerusalem Jones disparou rumo à saída da cidade, e o xerife e seus ajudantes, assim como um Goddard sem orelha, ensanguentado, observaram como ele corria. Uma velocidade inumana.

Goddard levantou-se e sabia que, de agora em diante, tinha um novo objetivo em sua vida: caça e matar Jerusalem Jones. Em seguida desmaiou.
... ... ...

Demorou muito tempo para que Jerusalem Jones acordasse. A única coisa de que lembrava era de Goddard atirando e o tiro passando rente ao seu braço, e ele caindo. Lembra que a dor no pescoço, por causa da cicatriz era tanta, que desmaiou, ou acha que desmaiou. Não lembra de mais nada depois disso. A cicatriz estava quieta, nem mesmo parecia existir. O que teria acontecido? Jerusalem não queria saber. Estava sem seu cavalo e teria de andar bastante até conseguir um. Ele só queria esquecer que conhecera alguém chamado Black Goddard. Levantou, lavou o rosto num córrego próximo. Bateu a poeira da roupa e se pôs a andar.

De repente, Jerusalem Jones soltou um arroto, e sentiu um gosto estranhíssimo na boca. Não lembrava de ter comido nada.


domingo, 13 de agosto de 2006

JJ e o Xerife Wayne

JERUSALEM JONES - XERIFE WAYNE


"Algo me diz que não devo entrar nessa cidade", pensou Jerusalem Jones ao ver, pendurado na árvore diante dele, o que parecia ser o xerife daquele lugar. Olhando aquilo, ele calculava o quanto as coisas poderiam estar ruins nesta cidadezinha, se até o xerife acabara enforcado e colocado, é óbvio, na entrada dela como um sinistro aviso de que ninguém que entrasse ali deveria enfrentar a "autoridade" dos bandidos que tomaram conta do lugar.

"É meu camarada pendurado, acho que vou acatar seu aviso silencioso e dar meia-volta. Antes, porém, vou levar sua estrela de xerife, como recordação desse nosso infeliz encontro". Jerusalem Jones se aproximou e se pôs em pé no cavalo, puxando então a estrela do falecido xerife. Lustrou-a em sua camisa, e resolveu experimentar, para ver como ele ficaria de xerife, coisa que nunca iria acontecer. Quando fixou a estrela em sua camisa, Jerusalem sentiu um vento seco, que ele não soube de onde vinha, uma voz em sua cabeça... e apagou.

O xerife Wayne olhou seu corpo balançando tristemente na árvore à sua frente. As coisas saíram tão erradas quanto possível. Sua vida de xerife era tranquila na pequena Badland City. Apesar do nome, era uma boa cidade, até a chegada de Zedediah Smith e seu bando. Na verdade, apenas um amontoado de foragidos que ele resolvera liderar. Os dias em Badland foram difíceis desde então, e uma verdadeira guerra se travou para que se expulsasse aqueles assassinos. Wayne e seus dois assistentes, mais alguns homens da cidade (e até mesmo Verona, a jovem esposa de Wayne), eram a linha de frente de Badland.

A guerra durou vários dias e houve baixa dos dois lados. Mas Wayne acreditava na justiça, como seu pai lhe ensinara. Acreditou até o momento que se viu pendurado em uma árvore, como se fosse o mais baixo dos criminosos. Tudo porque ele já estava prestes a expulsar Zed Smith e seus dois únicos amigos sobreviventes. Então algo deu errado, ele só não sabia o que. Mas, Wayne estava de volta uma última vez para consertar isso. Sua estrela de xerife era sua autoridade, e ela estava de volta ao seu peito, mesmo que não literalmente.

Wayne entrou na cidade que havia sido feita refém de três imbecis que mal sabiam falar. Estavam no Saloon, onde mantinham a cidade sob o domínio do medo (Wayne sorriu pensando em como aquela frase final daria um bom título de um livro). Wayne ainda conseguia sorrir, apesar de tudo. Calvalgando o cavalo e o corpo de outra pessoa, Wayne se aproximou do Saloon onde, ele sabia, Verona e outras mulheres da cidade haviam sido obrigadas a servir a Zed e os seus, de todas as formas. Wayne rangeu os dentes, saltou do cavalo e entrou no saloon:

- Posso saber quem é você? - Perguntou Zed?
- Meu nome é Jerusalem Jones. Algum problema?
- Nenhum, a não ser essa estrela no seu peito e suas armas que eu pediria que deixasse com o meu amigo barman - Zed se referia a um de seus capangas sobreviventes que sorria mostrando os dois dentes que restavam-lhe.
- Você é o xerife da cidade? - Perguntou Wayne
- Pode-se dizer que sim. E você, pode me dizer onde conseguiu essa estrela? Bem se vê que você não é nem nunca foi xerife - Zed falava apontando a arma para Wayne, mesmo depois deste ter entregue as suas. Ele não via Verona por perto. Isso o preocupava.
- A estrela... é uma lembrança.
- Lembrança? Lembrança do que ou de quem? - Perguntou Zed rindo para o outro capanga sentado com ele à mesa, também armado.
- Uma lembrança de quem é a lei em Badland City.

Wayne sentiu Zed retesar o corpo, e reconhecer algo na voz de Jerusalem Jones. Bastou esse momento de espanto de Zed, para que Wayne puxasse uma faca da bota de Jerusalem Jones e enfiasse na mão do "barman" que, distraído com a conversa, não recolhera suas armas do balcão. Wayne pulou para trás do balcão, já pegando as armas. O tiroteio começou antes mesmo dele aterrisar do outro lado. O "barman" foi atingido sem dó nem piedade. Wayne notou que todo mundo que estava ali contra a vontade aproveitou para se mandar ou se proteger. Eram apenas ele, Zed e o único capanga restante.

Wayne sabia que eles eram burros o suficiente para estarem atirando sem se protegerem. E, melhor ainda, eles estavam atirando na bancada, e vindo na direção de Wayne acreditando que este não se exporia, por estar em desvantagem numérica. Os dois atiravam frenéticamente contra a parte inferior do balcão, onde Wayne estava logo atrás, sem se darem conta de que esta fora construída para suportar esse tipo de incoveniente. Estavam tão furiosos que não notavam que as balas não vazavam, realmente, a madeira. Acreditavam piamente que do outro lado, Wayne já estava morto, ou no mínimo ferido mortalmente. Quando Wayne, sentiu que as balas acabaram, e que eles estavam sobre o balcão, ele fez o impensável.

- Eu me rendo!!!! - Gritou Wayne
- Quê? Esse filho da mãe está vivo?

Wayne se levantou sob a mira de Zed e seu capanga. Wayne colocou suas armas novamente sobre o balcão.

- Creio que essa estrela pertence a vocês? - Disse Wayne, lentamente levando a mão à estrela para entregar a Zed.
- Que pensa que está fazendo? Eu já estou cansado de você! - Disse Zed engatilhando.

Wayne arrancou a estrela de seu próprio peito e cravou no peito de Zed, que disparou, no susto, acertando o ombro de Wayne. "Merda, contei errado", pensou Wayne e Jerusalem Jones caiu. Zed olhou para seu parceiro, pegou a arma em cima do balcão, apontou para a cabeça dele, e atirou. Wayne estava no corpo de Zed agora.

Wayne no corpo de Zed foi ao outro lado do balcão. Seu "parceiro" estava caído no chão. A bala só passara de raspão. Wayne não sabia se ele estava desmaiado pelo susto, ou pela súbita saída sua de seu corpo. Mas tudo indicava que ele ficaria bem. Só precisava de um curativo. Antes Wayne precisava encontrar Verona e se despedir. Ele precisava fazer isso, mesmo que fosse ali, no corpo de Zed.

Quando se levantou Wayne viu que, no alto da escada, escondida, Verona observava assustada e chorando a todo os acontecimentos. Ele largou as armas, fazendo um gesto de que estava sem mais nenhuma arma e disse:

- V-verona... não se assuste! - Quando disse isso, Verona deu um grito e correu... correu para os braços de Wayne.
- Eu sabia... eu sabia...sabia que você conseguiria, meu amor... - Dizia Verona cheia de paixão!
- Então você sabe? Você consegue me ver?
- Claro, meu amor! Claro, Zed! - (música de suspense!)
- O quê?!
- Graças a Deus você escapou. Pensei que depois de tudo que passamos para nos livrar do Wayne, você ia morrer pelas mãos desse fracassado. Já bastava de eu viver nessa cidadezinha com um xerife caipira, sem perspectiva de uma vida melhor. Quando nos encontramos sem que Wayne soubesse e você me contou sobre tudo que poderíamos ter juntos, eu arrisquei tudo dopando Wayne e entregando el... - Um tiro interrompeu Verona. Um buraco fora aberto ao lado de sua cabeça. Os olhos brilhantes, vidrados em Wayne, se apagaram.

Wayne achou engraçado que a única coisa que lhe viesse a cabeça, naquele instante, fosse se matar, mesmo já estando morto. Apontou o revólver para sua cabeça, para a cabeça de Zed e aper... "Não. Eu posso fazer melhor", pensou Wayne. Foi até o balcão e procurou uma faca bem amolada. A mais amolada que ele pudesse encontrar. Pegou um pano, enrolou e pôs na boca. Ele tinha todo o tempo e privacidade do mundo. As pessoas estavam bem longe do saloon, em suas casas, com medo e esperando aquilo tudo terminar.

Wayne sentou o corpo de Zed, no qual estava dentro, numa cadeira. Abriu a calça de Zed e puxou para fora o bem de Zed mais precioso. A dor, naquele momento, quem sentiria era Wayne. Mas só naquele momento. Colocou a faca bem no talo, fechou os olhos e, com toda a raiva que Wayne sentia, cortou fora!

Wayne quase desmaiou. Ficou zonzo de dor. Mas fez de tudo pra manter-se acordado. Sangrando e segurando a "jóia" de Zed, se aproximou da porta e jogou para alguns cães que estavam por perto.

"Lúcido. Preciso ficar... lúcido e terminar isso". Wayne foi até Jerusalem Jones, arrancou a estrela de seu peito, da camisa de Zed, e a colocou de volta em Jerusalem Jones. Nesta hora, Zed caiu desacordado. Wayne levantou, agora de volta ao corpo de Jerusalem Jones. Por um prazer mórbido, Wayne juntou o corpo morto de Verona ao de Zed, desacordado, como se fossem um lindo casal. Wayne colocou a faca na mão de Verona, e foi embora.

Foi até onde seu corpo estava pendurado, retirou-o e deu a si mesmo um enterro decente. Antes de ir, tirou a estrela do peito e jogou sobre sua cova. Jerusalem Jones bambeou um pouco, mas não caiu. Porém, não conseguiu evitar de vomitar, sem saber o porque. Viu a cova, a estrela sobre ela, e viu árvore sem o corpo. Sentiu um calafrio e resolveu não se fazer muitas perguntas, e apenas ir embora dali sem levar nada.

Quando montou em seu cavalo e estava se preparando para partir, Jerusalem Jones ouviu um grito pavoroso vindo da cidade. O grito de alguém que parecia ter pedido a própria alma ou, quem sabe, mais que isso.


quarta-feira, 9 de agosto de 2006

JJ e A entrega Especial

JERUSALEM JONES - ENTREGA ESPECIAL



Jerusalem Jones recapitulava mentalmente como foi parar ali, conduzindo aquela carroça coberta, com um caixão dentro dela. Primeiro ele foi contatado por um velho esquisito que lhe ofereceu uma grana alta para que ele fizesse uma entrega. Quando escutou a quantia que o velho disse, Jerusalem se controlou para não deixar transparecer sua surpresa. Nem mesmo quis saber quem enganou àquele velho dizendo que ele fazia entregas. Quando recebeu metade da quantia combinada, Jerusalem pensou consigo mesmo que por tanto entregaria até o garfo do diabo no próprio Inferno.

O velho o levou até um grande galpão, onde havia uma carroça coberta e, dentro dela, um caixão. Jerusalem sabia que por tanto dinheiro, não podia ser algo simples. Transportar um morto até que não era algo tão ruim assim. O velho deu-lhe o nome da cidade e o nome da pessoa a quem ele devia entregar o caixão. Lá entregariam o restante do dinheiro a ele. Tudo parecia bem tranquilo. Tranquilo até demais. Mas, Jerusalem não estava em posição de recusar nada. Suas finanças andavam de mal a pior.

O velho deu-lhe uma última recomendação. Se fosse atacado por algum bandoleiro, grupo de bandidos, índios ou seja lá o que fosse que pusesse a entrega do caixão em perigo, Jerusalem deveria empurrar para baixo uma pequena alavanca que ficava no lado direito, na altura de onde estariam os pés do morto. Jerusalem perguntou de que adiantaria isso e o velho disse que selaria o caixão por dentro e ninguém conseguiria abri-lo para violar o cadáver em seu interior. Jerusalem pensou consigo mesmo que, quando alguém quer realmente algo, não há alavanca que o salve. Mas também se perguntou quem diabos poderia fazer questão deste cadáver.

Foi pensando em tudo isso que Jerusalem Jones estava prestes a obter sua resposta ao ver que cinco homens a cavalo vinha justamente em sua direção. Ele logo começou a pensar que as coisas nunca eram fáceis para ele, nunca. Os homens se aproximaram. Um deles puxou o revólver, apontou para Jerusalem Jones e disse:

- Só queremos o caixão, nada mais.

Jerusalem Jones fez que concordava, e começou a se virar para descer da carroça, já pensando em abaixar a tal alavanca. Porém, para sua surpresa, ele viu que, na verdade, existiam duas alavancas, e o velho desgraçado não mostrou isso. Para piorar ele não lembrava qual das duas era para abaixar.

- Vamos logo com isso. Saia daí que um dos homens vai assumir a carroça. Você pode refazer o caminho a pé mesmo. Não adianta tentar ir ao xerife, não somos conhecidos por essas bandas.

- Jerusalem desistiu de tentar lembrar e apertou qualquer uma das duas. Fez isso e pulou da carroça. Foi aí que um pandemônio teve início. A tampa do caixote pulou uns dois metros, como se tivesse sido cuspida. E, de dentro do caixão, um homem se levantou e passou a disparar com seus dois revólveres como se fossem duas pequenas metralhadoras. Jerusalem se jogou ao chão, para que não acabasse indo pro Inferno no meio daquele tiroteio. Mas os cinco não tiveram a mínima chance. Os revólveres do defunto eram do capeta. Os tambores giravam loucamente e as balas simplesmente não acabavam. Ele não apenas matou os cinco bandoleiros, mas fez uma verdadeira peneira de seus corpos. O som das balas saindo de suas armas era ensurdecedor. Quando, por fim, o homem viu que não restava mais ninguém vivo, travou as armas, olhou para Jerusalem e disse:

- Ameaça dirimida, parceiro!

O homem podia estar tudo, menos morto. Mas a sua voz era... era algo assust... não, não era bem assustadora, era irritante. Parecia o barulho de aço sendo arranhado. Jerusalem levantou devagar e bateu a poeira da roupa. Ao olhar o indíviduo mais de perto e com mais atenção, Jerusalem notou duas coisas. Primeiro, a pele do sujeito estava refletindo o sol e segundo... o fulano era Jesse James!!! E ele estava estendendo a mão para que Jerusalem Jones subisse na carroça.

- Qual o seu nome, parceiro? - Perguntou Jesse James naquela voz que fazia os dentes de Jerusalem Jones trincarem.
- Jerusalem Jones.
- Notável coincidência, não. Temos as mesmas iniciais replicadas. - De que diabos ele estava falando?
- É, sim... temos. - Jerusalém não conseguia tirar os olhos daquela pele estranha. Algo estava muito errado. Será que ele estava falando com um morto-vivo, ou coisa do tipo? Jerusalem atraía esse tipo de esquisitice.

- Minhas referências não estão completas, Senhor Jones. O senhor estava me levando para onde eu seria totalmente indexado. Porém, enquanto estava em estado suspenso dentro do recipiente, tive tempo de reformular alguns conceitos pré-indexados. - Jerusalem olhava-o hipnotizado. - Resolvi eu mesmo adquirir referências teóricas e práticas de acordo com o tempo-energia de que disponho que, pelos meus cálculos, devem ser uns 50 anos antes de eu ter de me preocupar com isso novamente. Ainda não desenvolvi todos os padrões de elementos sensitivos que propõe sentimentos, mas quero que saiba que, mesmo assim, estou agradecido pelo que fez. Um conselho, Senhor Jones, não vá a cidade onde pretendia fazer a entrega deste que vos fala, não vão gostar de ver que o senhor perdeu a mercadoria. Fim da transmissão.

- C-como assim mercadoria? E meu dinheiro...?

Sem mais nada dizer, Jesse James, ou o que quer que aquilo fosse, desceu da carroça e partiu em direção ao horizonte, sem cavalo, sem água, apenas andando. Aliás, um andar muito estranho, diga-se de passagem.

Jerusalem lembrou que ainda tinha metade do pagamento, e que já era uma boa grana. Não procurou entender muito bem o que aconteceu ali, apenas jogou o que restou do caixão fora e pôs a carroça em movimento. Heyá!!!

Ao longe um coiote uivou, mas como era de dia ainda isso não fez diferença...


segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Fluxo de Memória Perdido

FLUXO DE MEMÓRIA PERDIDO


Abro os olhos, sentindo uma baita dor de cabeça. Até os "esforço" de abrir os olhos dói. Estou num carro que está encoxado em uma árvore. Escapei por causa do cinto de segurança. Porém, minha cabeça tem um galo do tamanho de uma bola de futebol. O galo e a perda do carro seriam meus únicos problemas se eu estivesse conseguindo lembrar quem eu sou e como vim parar nesta árvore. Achei que essas coisas só aconteciam em filmes e livros. Isso de perda de memória.

Retiro o cinto, todo desajeitado, e saio do carro cambaleando. Ai, que vontade de tomar um café. Pelo jeito os vícios continuam em alguma parte de meu cérebro. Vamos ver agora se encontro quem eu sou. Devo ter alguma documentação. Dou a volta até o lado do porta-luvas. A porta está aberta, só que pro lado errado. Não importa. O porta-luvas está aberto e de dentro caíram várias coisas: moedas, fichas de telefone (fichas de telefone?!), camisinha, mais camisinha, outras camisinhas (nossa, pelo jeito eu sou bom nisso), algumas chaves que não me servirão de nada se eu não me lembrar quem eu sou, drops (alguém ainda fala drops?). Mas cadê o diabo dos documentos, afinal?!

Apalpo os bolsos da calça e... nada. Minha camisa é de malha, não tem onde guardar nada. Que problemão. Pra piorar esta estrada parece meio deserta. Até agora não vi um carro sequer passar. Que faço? Que faço? Quem sou eu? Ando um pouco e me sento em uma pedra mais adiante. Talvez eu seja um milionário e se eu não aparecer toda minha grana vai ficar para minha esposa mercenária que me trai com o jardineiro, o motorista e o leiteiro.

Olho para o meu carro e, mesmo detonado, vejo que não pode ser um carro de um milionário. Pelo menos não de um que tenha bom gosto. Talvez eu seja um agente secreto e, ao notar que ia bater, me livrei de todos os meus documentos para evitar que o "inimigo" (seja ele quem for) descobrisse para quem eu trabalho. Se bem que um bom agente secreto estaria com documentos falsos. E estaria também acompanhado de uma linda loira russa, que estaria lhe vendendo informações sobre algum plano terrorista do Oriente-Médio.

Quanta bobagem! Com essa imaginação toda talvez eu seja um escritor. Um famoso, talvez eu até seja aquele que escreveu aquele livro sobre um código secreto, que envolvia aquele pintor famoso, e... hmmm... como eu lembro disso, mas não lembro quem eu sou? Bem dizia minha mãe, "há mais coisas entre o céu e a terra do que crê a vã filosofia"? Mas, porra... quem era a minha mãe? Cara, isso está ficando maçante. Eu fumaria um cigarro agora, mas eu não lembro de sou fumante. Pelo menos eu sei que gosto de café.

Talvez eu seja um ator de cinema famoso. Deixa ver. Vou até o carro e me olho no espelho retrovisor, ou no que sobrou dele. Credo! Nem rola. Não consigo lembrar se já me vi algum filme comigo. Ou será que sou tão ruim que meus filmes só são vistos quando passam no Supercine (Que diabos é Supercine?!). Ai, minha cabeça dói muito. Parece que tem uma banda de heavy metal fazendo um show dentro dela.

Isso, talvez eu seja um cantor. Abro minha boca e tento cantar algo. Como não lembro de música nenhuma, eu invento uma na hora: "bati com o meu carro a 120 por hora, quase que botei as minhas tripas pra fora..." Hmmm... acho que não. Minha voz parece de alguém que está com sérios problemas de fundo psiquiátrico. Acho que não canto nem em jogo de bingo.

Droga, eu tô protelando as coisas. Eu preciso sair daqui. Encontrar ajuda. Eu não vou conseguir lembrar quem eu sou, sentado aqui. E, é óbvio que eu sou alguém comum. Mais um na multidão. Um tapado que anda por aí sem seus documentos. Ah, e com muitas camisinhas. Ou eu transo muito, ou eu sou paranóico mesmo.

Preciso pelo menos conseguir uma carona até um hospital, ou delegacia, sei lá. Um lugar onde talvez consigam me dizer quem eu sou.

Vou até a beira da pista e estico o pescoço pra ver se lá mais a frente aparece algum carro, mas nada, tudo deserto. É quando vejo uma espécie de dispositivo perto das marcas do pneu do meu carro. Parece ter caído dele. É quadrado, como se fosse uma calculadora bem pequena. Os caracteres não são os números a que eu estou acostumado a ver (eu estou?!). Um dos caracteres pisca na telinha minúscula, como se esperasse confirmação ou algo assim. Procuro entre os micro botões, qual se parece com o que está piscando. Quando encontro, eu o aperto com a unha, mas são muito juntos os botões.

BZZZZZTCCRRRAC - |-\||||_\|--|--|||* (*completado, em nossa língua).

- MAS QUE HUMANO DESGRAÇADO!!!! Quase consegue acabar com a minha raça. Droga! Quando fui assumir o seu corpo o imbecil atingiu a árvore, antes que eu pudesse tomar o controle? Fiquei preso entre o estado de memória nulo dele, e um limbo ao qual eu não quero nunca mais voltar! Ainda bem que esse puto é curioso e burro, senão eu não sei o que seria de mim. Ele apertou o botão do meu transcriptador que consegui materializar antes de ficar preso. Agora é só... hã... o que mais esse idiota apertou...?

...BIP... ||||\|/|_-_|\|\||* (*Autodestruição autoprotetora, em nossa língua)

FLUUUCH!!!


sábado, 5 de agosto de 2006

JJ Vivo ou Morto

JERUSALÉM JONES - VIVO OU MORTO


Jerusalem Jones nem podia acreditar que um dia isso pudesse acontecer mas, sim, ele estava casando. Apenas Jenny Eckhart conseguiu mudar a cabeça de Jerusalem quanto ao casamento. Os dois se conheciam desde a infância e foram namorados por muito tempo, até que Jerusalem decidiu não criar mais raízes em um só lugar e, com a morte banal de seu pai, resolveu virar um pária, um nômade sem destino. Jenny aceitou bem a coisa toda, depois de dar-lhe um belo soco cara adentro. Fez um discurso sobre compromisso, responsabilidades, infantilidades e tudo mais. Parecia que estava concorrendo a algum cargo político. Jerusalem apenas montou em seu cavalo e disse que ia "viver a vida". Jenny apenas viu a poeira levar aquele desgraçado que ela tanto amava.

Mas, depois de viver muita coisa estranha em sua vida, Jerusalem Jones acabou reencontrando a mulher que nunca deixou de amar. Jenny era agora víuva. Fora casada com um tenente que morreu na Guerra Civil. Jerusalem dava graças a Deus que eles não tiveram filhos, pois não estava a fim de cuidar da cria dos outros. Para que Jenny o aceitasse de volta em sua vida, ele teve de pedi-la em casamento. Jenny EckHart aceitou se tornar a Sra. Jones, Jenny Jones. Jerusalem brincou que podiam colocar o nome do filho que tivessem de James e assim seria jota para tudo quanto é lado.

A cerimônia foi simples, na igreja da cidade onde agora Jenny morava e onde Jerusalem ia se estabelecer e ter uma vida pacífica. Na igreja estavam os pais de Jenny e a mãe de Jerusalem Jones, a qual ele foi buscar. Parecia cansada, mas estava feliz. Alguns poucos convidados davam ao casamento uma certa importância que Jerusalem nunca pensou que seu casamento poderia ter.

A cerimônia começou e o padre fez tudo como manda o figurino e, enfim, disse:

- Eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva agora.

Jerusalem abraça Jenny, e aproxima sua boca dos lábios dela, fecha os olhos e tasca um beijo de recém-casado em sua recém-esposa, e sente o quão macios são seus lábios, saborosos por assim dizer. De repente Jerusalem Jones escuta gritos horrorizados dentro da igreja. Quando abre os olhos vê que, sem saber porque, ele arrancou um pedaço da boca de Jenny e sente o gosto da carne dela em sua boca... e ele gosta disso. Jenny desmaiou em seus braços e sangra muito. Jerusalem olha para os convidados e o pai de Jenny saca de sua arma e a descarrega sobre Jerusalem, que apenas recua para trás com o impacto das balas. Mas não morre.

Uma algazarra toma conta da igreja. O padre saiu em fuga pela porta de trás. As pessoas correm e gritam, tentando sair da igreja. A mãe de Jerusalem Jones continua sentada, olhando para ele sem nada entender. O sangue pinga pela boca de Jerusalem Jones, que sente apenas que quer mais. O pai de Jenny descarrega sua arma e Jerusalem apenas o observa, sem entender porque ele mesmo não morre. Quando o velho se prepara para recarregar sua arma, Jerusalem dá um salto incrível e crava seus dentes no seu pescoço, arrancando um pedaço grande de carne. O sangue espirra em seu rosto , deixando-o com um aspecto demoníaco. O velho não é mais problema. Está morto. Mas Jerusalem tem fome de pessoas. Pessoas vivas.

A única pessoa que ainda restou no recinto é sua mãe, que o olha com um ar estupefato, mas ao mesmo tempo de piedade. Jerusalem não está mais consciente do que faz ou deixa de fazer e vai na direção dela. Ela não se move. Ele não se pergunta porque. Ele apenas tem fome. Uma fome que o consome por dentro, e que apenas carne humana pode saciar. Quando está para cometer o impensável, ele ouve um grito. É o padre, que voltou.

Está com uma haste de ferro na mão. Parece um ferro de marcar gado ou algo assim. Grita para Jerusalem Jones algo que ele não entende. Parece língua indígena. Mas ao fazer aquilo, Jerusalem não consegue mais se mover, nem sair do lugar. O padre começa uma cantoria estranha, e começa a dançar como um velho índio. Jerusalem sente uma coceira infernal no pescoço. O padre usa a parte do marcador de gado que é pontuda, e enfia na cabeça de Jenny, estendida no chão. Faz o mesmo com o velho pai dela.

Ao se aproximar de onde está Jerusalem e sua mãe, o padre apenas aponta a porta, para ela, com um movimento da cabeça. Ela se vai. Olhando para Jerusalem frente a frente, o padre diz com um sotaque indígena pesado:

- Agora sou eu e homem branco, e mais ninguém. - E enfia o marcador de gado, em brasa, no pescoço de Jerusalem Jones, que sem poder se mexer, apenas grita. Grita muito. E desmaia.

... ... ...

Jerusalem Jones abre os olhos, sentindo como se tivesse dormido por uns dez anos. Logo se dá conta que está amarrado a uma espécie de tronco. Seus braços e pernas imobilizados e seu corpo preso. Sente uma coceira desgraçada no pescoço, mas não pode coçar. Sente, no entanto, que é uma coceira diferente da que vinha tendo por causa da mordida de Betina.

Adiante dele, fazendo café em uma pequena fogueira, está Bufalo Pequeno, a quem ele pergunta:

- O quê... o quê aconteceu, Traseiro Pelado? Por que tô amarrado aqui, como um peru de natal?
- Não lembra mais, Jones? Nossa, foram quatro dias e quatro noites de arrepiar, meu amigo. Provavelmente eu vou ter pesadelos com isso pelo resto da minha vida e mesmo depois que eu partir para os Grandes Pastos Celestiais.
- Quatro dias e quatro noites?!
- Sim, depois que saimos de Candace Falls City, consegui convencê-lo a deixar meu avô cuidar de você e tentar impedir que você se transformasse em uma daquelas coisas. Fiquei aqui para ajudar ele a cuidar de você. A sua ferida no pescoço já tinha aumentado demais e o único jeito foi usar um ferro em brasa para cicatrizá-la. Claro que não deu pra fazer isso apenas uma vez só. A ferida era tão persistente quanto você. Por umas três vezes você quase conseguiu me morder enquanto eu cuidava dela. Depois que o vovô conseguiu fazer com que você apagasse, ele tratou de usar todo tipo de erva que ele conhecia. Ele colocou sobre a ferida, mas não dava pra fazer você beber. Então ele fez uma pasta, embrulhou em folhas e enrolou até ficar bem pequena e, entenda, Jones... era isso, ou você teria virado um daqueles bichos vivo-morto.
- Era isso o quê, Bufalo Pequeno?
-Ahahahaha, lembrou meu nome, não é.
- Era isso o que, Búfalo Pequeno?
- Cara, você tem sorte de meu avô gostar muito de mim. Ele não faria isso por qualquer um.
- DO QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FALANDO, BÚFALO PEQUENO?!
- É isso mesmo que você está pensando, ele enfiou a erva pelo seu cu adentro, meu amigo sortudo!

Jerusalem Jones xingou toda a geração de Búfalo Pequeno. Xingou, esperneou amarrado. Esperneou até não poder mais. Depois que se acalmou, fez Búfalo Pequeno prometer por tudo que era mais sagrado para ele, que essa história nunca sairia dali, ou ele arrancaria seu pescoço a dentadas, mesmo sem sentir a mínima vontade de comer carne humana. Búfalo Pequeno disse que sim, que estava tudo bem, ele sabia que no fundo (e quando disse no fundo, soltou uma gargalhada), aquilo não valia a pena ser contado.

Depois de perguntar várias vezes se ele estava realmente calmo, Búfalo Pequeno o soltou do tronco. Jerusalem Jones deixou de lado a parte humilhante e se sentiu agradecido por estar vivo e bem:

- Onde está seu avô, queria agradecer-lhe.
- Ele já foi, não sabia qual seria sua reação quando eu contasse. Heheheheheeh. Tô brincando. Ele foi descansar na aldeia. Foi muito cansativo para ele. Ele me dizia que era feitiçaria de homem branco o que você tinha. Coisa que ele pouco conhecia, mas ele fez de tudo e parece que conseguiu te salvar. A ferida do pescoço já quase sumiu. Aliás, me responde uma coisa: quam diabos é Jenny Eckhart? Você falou muito nela, enquanto delirava.
- Era... alguém do meu passado. Obrigado por tudo, Búfalo Pequeno. Te devo essa, mesmo tendo tomado no... bom, você sabe. -E dizendo isso, apertou a mão do índio, se despediu e montou em seu cavalo.

A manhã estava agradável, e ao cavalgar, seus pensamentos se voltaram para Jenny. O que estaria fazendo agora a única mulher que amou de verdade? Jerusalem Jones sentiu uma ereção ao pensar nela e em tudo que viveram, e pensou consigo mesmo:

- Nossa! Preciso chegar ao bordel mais próximo. Preciso comer alguém, mas no bom sentido da palavra.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Análise

ANÁLISE PONTO ZERO PONTO UM


Início: Patente Requerida; Carimbo 12; Vigência 47 - Análise em progresso

Estou assitindo a um programa de TV quando de repente sou assolado por uma sensação estranha que não consigo me desvencilhar dela. Na TV há um homem andando por uma estrada deserta, vejo apenas suas costas se distanciando, nada mais. Não sei o objetivo daquilo, e assistir só me faz sentir mais e mais uma sensação ruim. O homem na tela anda num compasso tedioso, como senão tivesse realmente lugar algum aonde chegar. Não entendo que programa seria aquele, mas também não mudo de canal. Não sei o motivo, mas resolvo tocar a tela da televisão. Quando faço isso a imagem some e é substituída por um imagem minha colocando a mão sobre a televisão. Aquilo se repete infinitamente. Retiro a mão assustado, e a imagem do homem caminhando monotamente e sem destino reaparece. Aquilo tudo me incomoda profundamente mas, ainda assim, eu não desligo a TV.

O homem na tela entra numa estrada asfaltada e o som de seu sapato no asfalto vai se tornando cada vez mais alto e insuportável: toc toc toc toC tOC TOC TOC TOC. É como se estivesse dentro da minha cabeça. É como se fizesse parte de mim. Trinco os dentes e tapo os ouvidos tentando fazer o som dos passos no asfalto parar, mas eles não param. Estendo a mão e assim que desligo a TV... ... ...

Andamento: Patente Cedida; Carimbo 08; Vigência 34

Vejo a polícia chegar, mas nada posso fazer. Sou apenas uma criança ainda. Fico com mais medo ainda do que elas. A violência é grande. Machucam as mulheres, gritando com elas, dizendo que elas sabem sim eonde está escondido o dinheiro. De nada adianta elas dizerem que não sabem de que dinheiro elas estão falando. Eu corro para o campo, onde meu pai e os outros estão trabalhando, sem saber de nada do que se passa. Eu relato o que está acontecendo e, nas mesma hora, sem se importar com as consequências, meu pai reune os homens, todos eles maridos das mulheres que estão sendo agredidas, e partem para a casa da fazenda. Levam com eles foices, facões e todo tipo de coisa que usam para o trablho no campo, que agora transformam em arma.

Passam sorrateiros pela parte de trás da casa. Procuram se manter em silêncio, cochichando o que devem fazer um ao outro. Eu apenas observo. Porém, quando meu pai vê minha mãe levar um soco na cara, qualquer tentativa de plano vai por água abaixo. Meu pai corre, gritando de ódio e crava a foice que levava consigo, na cabeçado policial. Não viveu nem dois segundos, eu acho. Foi cravado de balas logo a seguir. Todos os homens saíram de onde estavam, uma horda de de homens do campo, contra uma horda de policiais. Eu apenas observo, tremendo. Gritos, tiros, choro, e quando tudo termina, nada mais resta. Ninguém mais vive. Nem homem, nem mulher, nem policial.

Eu resolvo não ficar ali, vou embora, para casa de alguém, qualquer um. Corro na direção do portão. Quando passo entre os cadáveres, um dos policiais caídos agarra meu braço. Ele é um negro, de olhos esbugalhados, seu pescoço jorra sangue. Ele apenas me diz: "Você não vai escapar disso tudo, garoto". Dou um puxão no meu braço e vou embora, para nunca mais voltar.

Andamento: Patente Liberada; Carimbo 03; Vigência 28

A porta do elevador se abre e estou dentro de uma fábrica enorme. Não sei o que se faz ali. Saio e ando por entre as máquinas enormes com seus pistões barulhentos e soltando vapor. Me adianto e tento achar as escadas, por onde desço até o andar de baixo. Não há nada nele, além de caixas e mais caixas de nada. Vazias. Porém, entre as caixas vazias eu ouço um choro, um choro de criança. saio percorrendo os labirintos de caixas, procurando entre os vãos, de onde vem o choro. É um choro baixo, mas eu consigo escutar e tento saber de que direção ele vem. percorro os vários corredores que as caixas vazias formam, mas nada encontro. O choro no entanto nunca pára. Aquilo começa a me irritar. A luz do local é bem bfraca e talve isso atrapalhe minha busca. A criança deve estar escondida, com medo de alguma coisa. Provavelmente não quer nem mesmo ser encontrada.

Estou quase desistindo quando vejo um garotinho encolhido entre dois blocos grandes de caixas vazias. Pergunto porque ele está ali sozinho e porque chora. O garoto não responde e mantém a cabeça entre os braços cruzados, chorando. Vou na direção dele, para tentar acalmá-lo e, quando chego perto, o garoto some no ar, bem na minha frente. No entanto, o choro não some. Agora parece não ter direção certa e, sim, parece ocupar todo o recinto. Como se o preenchesse. Aquilo começa a me enervar. resolvo ir embora dali o mais rápido possível e entro no elevador.

Saio na rua. Uma rua deserta e sem uma boa iluminação. Resolvo seguir em frente, mesmo não sabendo onde vou parar. Me sinto cansado, por isso ando devagar, num passo monótono. Quando chego a uma estrada de asfalto, meus passos ecoam alto, devido ao contato com ele. Um barulho insuportável, que vai aumentando: toc toc toc toC tOC TOC TOC TOC.

Logo reparo que não são só meus passos. Logo adiante um vulto, no meio da névoa, se forma. Vem andando em minha direção. Quando estou para enxergar com clareza quem é... eu acordo.

Término: Patentes Logadas; Carimbo Final; Vigência Concretizada - Diagnóstico = Trauma Psicossomático Intermitente



quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Jeeusalem Jones: Salvação

JERUSALEM JONES - SALVAÇÃO


Jerusalem Jones estava a caminho de Candace Falls City. Relembrando agora parecia apenas um sonho ruim. Aquele homem estranho com roupas esquisitas, sem uma das pernas, saindo dos escombros de uma construção que nunca estivera naquela área e, logo em seguida, aquela mulher com aspecto quase demoníaco, com olhar faminto, que deixou os dois ali e correu em direção à Candace Falls, numa velocidade que Jerusalem nunca vira um ser humano correr. Pelas marcas de dentes que viu no que restou da perna do estranho, ele logo deduziu, aquela louca comia gente.

Jerusalem Jones tinha resolvido deixar aquele assunto para as autoridades de Candace Falls e, provavelmente, a tal de Tanya já deveria estar morta e enterrada a essa altura. Ou talvez não. Jerusalem Jones parecia sentir em suas entranhas que acontecera o pior. Ou vai ver ele estava com problemas intestinais e não sabia. Mas foi com essas dúvidas na cabeça que ele resolveu voltar à cidade e ver se estava tudo bem com Betina e as meninas do bordel.

Desde que partira ele sentia que estava sendo seguido. Resolveu ver quem seria o intrometido. Disparou e se escondeu atrás de uma rocha mais proeminente. Quando viu o sujeito passando, guardou as armas. Era apenas "Traseiro Pelado". Ele sorriu para si mesmo e lembrou como detestava índios, mas para "Traseiro Pelado" ele abria uma excessão. Era quase um amigo. Lembrava de como ele deu esse apelido ao índio, assim que o conheceu. Este estava com os fundilhos da calça que vestia rasgados e sem mais nada por baixo. Jerusalem Jones na mesma hora cunhou o apelido que o índio tanto detestava. Saiu de seu esconderijo e emparelhou com o pele-vermelha:

- Então era você, Traseiro Pelado? Quer morrer, desgraçado?
- Já te falei Jones, é Búfalo Pequeno! Será que você nunca vai esquecer esse maldito apelido? - Jerusalem gostava de ver como Traseiro Pelado falava melhor que muito branco que ele conhecia.
- Você sabe que é com carinho....hahahahahahahah! E aí, que faz me seguindo? Alguém te contratou pra me matar com seus peidos?
- Nada. Eu apenas vi você saindo da cidade e resolvi te seguir. Senti seu espírito pesado, e achei que, talvez, eu pudesse ser de ajuda.

Outra coisa que Búfalo Pequeno tinha de peculiar, achava realmente que era alguma espécie de feiticeiro, e estava sempre vendo "espíritos pesados" por toda parte. Quando bebia fazia a dança da chuva, que terminava sempre com ele levando um balde d'água na cabeça. No fundo, o pessoal gostava dele, e era tudo uma brincadeira inofensiva. Fora que só assim ele tomava um banho.

- Você vai começar com isso de xamã, Traseiro? Você sabe que não acredito nisso e, mesmo se eu acreditasse, não acreditaria que você pudesse ter competência pra ser um deles.
- Pode rir, Jones, mas sinto que o Grande Espírito me compeliu a seguir seus passos por algum bom motivo.
- Dinheiro emprestado?
- Cinco dólares e eu não te perturbo mais. - E os dois caíram na gargalhada.

Jerusalem Jones contou tudo o que acontecera e os motivos de estar voltando a Candace Falls. Traseiro Pelado ouvia tudo sem interromper e ao final suspirou tentando dar uma de sábio feiticeiro:

- Meu avô, feiticeiro poderoso de nossa tribo, me falou de ter visto algo parecido. Demônios que comiam gente. Disse que os viu atacar, e que escapou por pouco. Sempre que contava a história, ele repetia o feitiço que usou para escapar. Nessas horas ele sempre entrava em transe, como se voltasse àquele dia.
- Então você acredita nisso tudo?
- Eu sou índio, Jones, já vi coisas mais estranhas que isso.

Jerusalem Jones sentiu um calafrio estranho. Nesse momento estava chegando onde encontrou o homem estranho e onde ele caíra morto. Não estranhou quando viu que não havia mais sinal de nada, nem do homem, nem dos escombros da construção de onde ele saíra. Mas, ao passar bem no local onde ele deixou o cadáver, pôde ver que não era delírio seu, pois no chão uma marca, um contorno negro de um corpo, deixava claro que alguém estivera ali. Búfalo Pequeno olhou aquilo e agitou seus amuletos que trazia no pescoço, como que espantando maus espíritos.

Passaram o resto do caminho calados. Pareciam não saber muito o que dizer. E foi assim que entraram à cidade. Até que Búfalo Pequeno quebrou o silêncio:

- Cadê todo mundo, Jones?
- Não faço a mínima idéia, Trasei...
- Búfalo Pequeno.

Parecia que estavam em uma cidade-fantasma. Era o meio da tarde e não havia viva alma em lugar algum. Casas com janelas e portas abertas, o saloon silencioso, e não havia cavalos, nenhum deles. Era um silêncio assustador. E havia aquele cheiro que o vento trouxe de repente. Um cheiro de carne podre que fez Jerusalem e Búfalo Pequeno sentirem náuseas:

- Qua diabos é isso, Jones? Que cheiro desgraçado é esse?

Sem saber bem o porque, Jerusalem Jones foi na direção da igreja que ficava logo adiante. O cheiro parecia vir de lá. Búfalo Pequeno o seguiu. Quando os dois apearam dos cavalos e iam amarrá-los, os animais relicharam, empinaram e se puseram em disparada, para fora da cidade. Os dois ficaram sem entender, mas Jerusalem Jones nem podia culpá-los, aquele cheiro estava insuportável.

A porta da igreja estava semi-aberta. Jones e Búfalo sacaram as armas, e foram empurrando a porta lentamente, atentos para qualquer surpresa. Quando puderam ver o interior do recinto, logo se arrependeram. No altar, sentada em uma cadeira, estava Tanya, como se fosse alguma espécie de líder. espalhados por toda a igreja, várias pessoas da cidade, todas tão monstruosas quanto Tanya. Mas isso não era tudo. O cheiro não vinha deles, mas da carne humana que ocupava toda a igreja. Pedaços de pessoas apodrecendo por todo o canto. Era como uma despensa. E os seguidores de Tanya, assim como ela mesma, eram os que se deleitavam com aquele banquete macabro.

Os dois se seguravam para não vomitar e para não fazer barulho. Mesmo que aquelas coisas só se preocupassem em comer, e parecessem não prestar atenção em mais nada, era melhor não abusar. Jerusalem Jones tentou olhar com mais cuidado e pôde divisar em um canto Betina, umas duas garotas do bordel com ela, e mais uns três moradores da cidade. Provavelmente os últimos sobreviventes e a última refeição daquela horda. Eles tinham de salvar, pelo menos, Betina. Mas como?

Jerusalem Jones puxou Búfalo Pequeno para longe da igreja e disse:

- Acho que essas pessoas aí dentro não tem mais salvação, a não ser as que ainda estão, digamos, normais. Devem estar sendo guardadas para serem comidas quando o estoque do que tá espalhado pela igreja acabar. Mas eu sei como tirá-las daí.
- Jones, eu acho que não vamos conseguir, você viu aquilo lá? Parece o inferno. Aquelas coisas são muitas e nós somos só dois.
- Exato, vamos diminuir a contagem. Sei onde tem dinamite suficiente para acabar com todos eles.

Jerusalem Jones leva Búfalo Pequeno até a delegacia, e lá procura as bananas de dinamite que precisa e delineia o plano:

- Eu vou explodir a parede esquerda, onde Betina e as outras pessoas estão. Vou tentar explodir o mais próximo possível, sem explodi-las junto no processo. Abro um buraco e entro. Já você fica na porta onde estávamos, com essas dez dinamites aqui, amarradas, acende o pavio principal assim que eu for na direção da parede esquerda. Vai dar tempo de eu explodir. Você só joga depois de contar até cinco após ouvir a minha explosão. Até cinco, entendeu? Isso deve dar tempo para eu entrar e tirar o pessoal, que não estão amarrados mesmo. Parecem estar meio fracos, mas vão conseguir andar. Quando eu sair, suas dinamites vão mandar a igreja e os que estiverem lá dentro, pelos ares. Certo?

Búfalo Pequeno acenou que sim, mas com a garganta seca. Foram na direção da igreja e logo saberiam se o plano ia dar certo ou não. Búfalo se postou na porta e Jerusalem correu para a parede esquerda da Igreja. Búfalo Pequeno viu ele sumir e acendeu o pavio principal. Agora era esperar a explosão, contar até cinco e jogar.

Jerusalem Jones tentou lembrar onde vira Betina e os outros e calculou aproximadamente onde ele deveria explodir. Betina era a primeira pelo modo como estavam perfilados, sentados e, aparentemente, cansados. Jerusalem cortou o pavio o mais curto possível de apenas uma dinamite e acendeu.

Búfalo Pequeno estava preocupado. O fogo já havia passado do pavio principal para os pavios individuais. Sua mão tremia, e começava a escorregar. Ele trocou a dinamite de mão. Suava muito. Ele estava atrás da porta e era apenas empurrá-la e jogar. Se Jones demorasse ele a jogaria de qualquer modo.

Jerusalem Jones colocou a dinamite no chão e se distanciou o suficiente. A explosão foi quase imediata. Abriu um rombo na lateral da igreja. Ele entrou correndo com a fumaça atrapalhando um pouco. Lá dentro as coisas se alvoroçavam confusas, com medo. Ele entrou sem pensar muito nelas, viu Betina encostada à parede e os outros logo após ela. Pareciam não ter se dado conta da explosão.

- VAMOS! VAMOS!!! VENHAM POR AQUI!

Búfalo Pequeno começou a contar... um...

Jerusalem Jones sabia que a confusão daquelas coisas ia durar pouco e que, já já, Búfalo Pequeno ia mandar todos ali pelos ares. Ninguém se mexia, que inferno! Ninguém parecia querer ser salvo. Que se danem todos.

dois...

Ele agarrou Betina pelo vestido...

três...

Notou que Tanya já se refazia da confusão...

quatro...

Arrastou Betina pelo buraco afora e sentiu uma mão agarrar sua camisa por trás...

cinco....

Ele conseguiu empurrar Tanya para dentro e puxar Betina, correndo para longe da Igreja...

BUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!

Pedaços de madeira voaram para todos os lados e, claro, pedaços de pessoas vieram junto. Jerusalem Jones segurou Betina de modo a protegê-la. Viu Búfalo Pequeno correndo em sua direção. Tudo dera certo.

- Betina, Betina! Conseguimos!!!.

Quando olhou Betina, sentiu um vazio estranho em seus olhos. Ela parecia normal, mas seus olhos estavam mortos. De repente Jerusalem Jones notou uma mordida profunda em seu pulso, muito infeccionada, ou ao menos era o que parecia:

- Fome, Jones, tô com fome - disse Betina, e avançou no pescoço dele.

Por instinto Jerusalem Jones sacou da arma e atirou várias vezes em Betina. Mas Betina não morria, e continuava avançando. De longe Búfalo Pequeno gritou:

- NA CABEÇA! ATIRA NA CABEÇA!

E foi o que Jerusalem Jones fez. Betina estrebuchou e caiu.

- Como você sabia disso?
- Eu não sabia, só achei que era uma opção mais viável.
- Diacho, detesto quando você quer aparecer falando difícil.

Jerusalem Jones levou a mão ao pescoço e sentiu que Betina conseguira cravar os dentes, mesmo que não profundamente. Sentiu a área coçar e pensou que precisava de um curativo urgente.

- Será que todos eles estavam na igreja, Jones? - Peguntou Búfalo Pequeno.
- Eu não sei dizer, e nem mesmo vou me dar ao trabalho de procurar. - respondeu, olhando na direção da igreja. - Mas, apenas para ter certeza, pega mais um bocado de dinamite e joga nessa porcaria de igreja.

Depois de destroçar o que restava da igreja, Jones e Búfalo enterraram Betina:

- Afinal o que aconteceu aqui, Traseiro?
- Pelo que você me contou, aquela tal de Tanya não apenas comia as pessoas, como passava a maldição dela para quem sobrevivia. Pelo que vimos, ela parecia estar formando algum tipo de exército, sei lá. Acho que sua amiga, Betina, estava pra fazer parte dele, se é que você me entende.

Jerusalem Jones coçou o ferimento no pescoço, o qual havia feito um curativo apressado.

- Ela te mordeu, não foi? - Perguntou Búfalo Pequeno.
- Mordeu sim. Acho que eu estou com um problema do tamanho de um trem, Traseiro Pelado.


Continua...

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