segunda-feira, 31 de julho de 2006

Luzes Que Se Apagam

LUZES QUE SE APAGAM


O mundo inteiro estranhou quando as luzes começaram a surgir nos céus. Não havia um lugar da Terra que não as avistassem. Apareciam e desapareciam em questão de segundos. Em certas áreas elas eram em maior quantidade. Nunca vinha no mesmo formato, e o mais estranho, não apareciam em filmagens e nem mesmo em fotografias. As pessoas estavam apreensivas, pois nenhum cientista de nenhum país conseguia explicar o que era aquilo. As teorias eram muitas, mas as respostas práticas eram nulas.

Então, no dia seguinte às aparições das luzes, começou o pior. Pessoas desparecidas, por todo o mundo. As notícias pipocavam. Algumas vezes famílias inteiras. Tudo era deixado para trás. Não era preciso ser gênio para ver que tudo tinha relação com as luzes no céu. Todos achavam que era o fim do mundo, e que a Humanidade finalmente estava condenada. Achavam que as luzes eram um aviso, e que as pessoas desaparedas, ou eram escolhidas e arrebatadas para algum lugar melhor, ou era o começo do desaparecimento de todos.

Tudo isso, porém , foi desmentido quando as TVs de todo o mundo começaram a transmitir a imagem de uma garota de uns 13 anos, que começou a explicar tudo sobre as tais luzes e o segredo das pessoas desaparecidas. Ela não movia os lábios, no entando, cada pessoa, em cada parte do mundo, a ouvia, dentro de suas cabeças, na sua própria língua. E ela dizia:

"Habitantes da Terra, não viemos fazer-lhes mal algum, ao contrário, viemos salvar seu mundo. O motivo é que perdemos o nosso, nas mesmas condições que vocês agora estão perdendo o seu: guerras, poluição, ganância, violência, e tudo mais que vocês possam imaginar. Por fim, nosso planeta não suportou tanta degradação e entrou em colapso. Os governos não mais tinham como nos salvar, e então os principais cientistas tomaram a frente e, como não havia chance de reverter o quadro de destruição iminente, procuraram encontrar um lugar onde pudéssemos recomeçar e não entramos em extinção.

Encontramos a Terra. Um planeta habitado, e o único em que podíamos sobreviver. As medidas de escape foram providenciadas e os que acreditaram em nossas terorias, de que somente viajando entre as dimensões chegaríamos aqui, aceitaram tentar. Foram poucos, já que nosso mundo, como aqui, abrigava bilhões como nós. Além disso, na viagem nem todos sobreviveram. Mas os que chegaram aqui já sabiam que perderíamos nossos corpos, no entanto nossa essência teria alguns segundos para encontrar um hospedeiro. Isso é temporário. Não havia outra forma.

O que temos em mente é usar o corpo dessas pessoas, ajudar a todos aqui, com a tecnologia que desenvolvemos nos nossos últimos dias de vida de nosso planeta e procurar salvar o de vocês. Depois de colocar seu planeta a salvo, usaremos tecnolgia de replicagem, que leva mais tempo e necessita mais cuidado, para replicarmos corpos para nós, os sobreviventes, e encontrarmos nosso lugar em seu mundo, com a permissão de seus governos e do povo comum, até que possamos colonizar algum dos planetas deste ou de outro sistema solar.

Enquanto essas notícias são absorvidas por vocês, estamos em uma base secreta, criada muitos anos antes, por alguns de nós que sacrificaram suas vidas para construí-la, desenvolvendo as medidas que farão de seu planeta um lugar melhor. Devido ao esforço em conjunto dos nossos melhores cientistasjá temos tecnologia suficiente para acabar com os combústiveis fósseis e substituí-lo por combustível não-poluente, produzir água doce em uma quantidade inimáginável, produzir vacinas contra todo tipo de vício maléfico à saúde e/ou doença incurável cohecida, acabar com as guerras, oferecendo aos governos as alternativas viáveis, e as devidas vantagens disso.

Usando os recursos deste planeta maravilhoso, ainda podemos desenvolver uma qualidade de vida melhor, até mesmo aumentando a expectativa da mesma, cada vez mais conforme nossas..."

Não se sabe como, mas de repente o sinal foi perdido, e a programação voltou ao normal. As pessoas não entenderam, mas se aquilo era verdade tudo poderia vir a ser uma verdadeira utopia concretizada. Mas por que se perdera o sinal?

Os dias seguintes foram mais estranhos ainda. As notícias que se recebiam via jornais do mundo inteiro, era que os governos já estavam tomando providências para exterminar essa odioda tentativa de domínio da humanidade. Um conglomerado envolvendo quase todos os governos do mundo, mesmo aqueles que ninguém nunca imaginaria de se unir para uma causa em comum, estavam lá. Haviam rumores de que havia apoio da indústria petroleira, de fabricantes de armas e muitas outras empresas que perderiam se as medidas dos visitantes fossem levadas a cabo. Passavam para a população que aquilo tudo era um engodo daqueles a quem eles chamavam de "invasores".

Por mais que a opinião pública dissesse que confiava nos visitantes, a alta cúpula mundial resolveu, sem se preocupar com as repercussões, exterminar os "invasores". Ingênuos que eram, não se deram conta de que podiam ser encontrados rapidamente se todas as agências do mundo reunissem forças. Mas o pior estava por vir. A população queria saber como agiriam, já que as pessoas que eram hospedeiras deles, não tinham culpa do que estava acontecendo. Não pediram para estar naquela situação. Nenhuma agência deu uma reposta coerente a isso.

Diziam apenas que tratariam do assunto sem danos para os hospedeiros, mas não diziam como. Ao que se sabia o esconderijo já havia sido encontrado, e um ataque estava para ser deflagrado. Mas não se explicava mais nada à população. As Forças Mundiais sabiam que os invasores já tinha alguma tecnologia com eles, e talvez tivessem até mesmo alguma arma. Também deduziam que os invasores poderiam tomar os corpos dos soldados antes que esse tivessem chance de chegar à base. Calculavam que quase um milhão de pessoas haviam sido possuídas de várias partes do mundo, de acordo com relatórios de pessoas desaparecidas no dia seguinte às luzes.

A tragédia que se seguiu, não houve como abafar. Uma bomba atômica foi lançada sobre a base subterrânea dos "invasores", no deserto de Mojave. Atirar primeiro e perguntar depois, era o lema dos governos mundiais. O "plano maléfico" dos invasores virou poeira atômica, assim como as pessoas inocentes que eram seus hospedeiros. A população mundial se revoltou com tamanho absurdo.

Uma guerra entre populações de vários países e seus governos se seguiu a isso, devido ao que fizeram com pessoas inocentes, sendo que não houve nenhum sinal de agressão por parte dos visitantes. Ao contrário, ofereciam algo que nunca imaginaram que o mundo pudesse conseguir: uma vida pacífica. Mas tudo era em vão, o mal estava feito. Depois de muita revolta, as pessoas foram tentando voltar às suas vidas.

Os interesses imediatistas dos governos não viram com bons olhos essa "terrível" possibilidade, a de um mundo sem eles e suas fábricas de morte. Depois das mortes no deserto, e das mortes nas revoltas populares, o mundo apenas chorou por seus inocentes e seus governos disseram que tudo que foi feito, foi para a segurança de todos. Apareceram "provas" de um "plano maligno", mas ninguém deus atenção. As pessoas estavam cansadas de tantas mentiras.

Caisy desligou a TV exatamente quando começou mais uma dessas ladainhas. Caisy era uma garota comum, que viu a última das luzes estranhas no céu, quando naquela noite, onde tudo começou, olhando as estrelas, com seu cão, Donnie. Caisy agora dividia seu corpo e mente com o último dos visitantes. Apesar de não ser de seu planeta, ela sentia uma sensação de profunda tristeza, pois os sentimentos do ser que estava nela se misturavam aos seus, e ela se sentia mais solitária do que nunca se sentiu em toda sua vida.

Enxugando as lágrimas, Caisy foi flutuando para sua cama. Só queria dormir.


sexta-feira, 28 de julho de 2006

Meu Nome é Jerusalem Jones

MEU NOME É JERUSALEM JONES


Jerusalem Jones estava lavando o rosto à beira de um rio, e sua mente começou a vaguear para o passado, quando era um garoto ainda. Lembrou de quando perguntou ao seu pai por que diabos ele escolhera esse nome, Jerusalem. Shamus respirou fundo, sentado à mesa, descansando depois de trabalhar muito na construção de uma nova ferrovia. Ganhava uma miséria, mas era o que tinha para sustentar seu filho e sua mulher. Suspirou fundo mais uma vez. Shamus McMurray Jones tinha essa mania. Como isso habitualmente era sempre logo após a alguma pergunta, Jerusalem suspeitava que ele estava apenas ganhando tempo.

"Meu filho", começou ele, "quando você nasceu, foi um verdadeiro milagre na Terra. Sua mãE e eu não tínhamos mais esperança de ter filhos, pois a gente vinha tentando há muito tempo, e nada de a gente ter nosso herdeiro, ou mesmo herdeira, eu não era exigente. Então, uma noite, antes de sua mãe e eu trep... nos deitarmos pra fazer amor - como já te expliquei antes, aquela história das abelhinha - eu fiz uma promessa pra Deus. Na minha promessa eu disse que se a gente tivesse um bebê, eu daria o nome a ele, da Terra Santa, Jerusalem.

"No dia seguinte, quando eu fui trabalhar, um homem que eu nunca vi na cidade, começou a me acompanhar. Ele tinha uma roupa bonita, branca, uns revólver reluzente, parecia de prata. Eu não entendia como a roupa dele conseguia ser tão branquinha nesse lugar tão poeirento. Eu quase perguntei que sabão que ele usava pra deixar a roupa com aquele branco radiante. Ele foi puxando conversa, e do nada, ele disse que a Beth tava prenha. Eu saltei pro lado e agarrei o colarinho dele, perguntando logo o que diabos ele tava querendo dizer com aquilo. Daí, ele segurou minha mão e disse para eu ficar calmo, que minhas preces iam ser atendidas e eu ia ganhar um garoto forte e sadio. E seu nome seria Jerusalem. Jerusalem McMurray Jones.

"Quando ele falou aquilo eu quase caí pra trás. O troço devia ser algum tipo de coisa divina, sei lá. Um anjo, querubim, ou outra coisa dessas que o padre Caffey falava nas missa. Só sei que depois disso eu prestei mais atenção no que ele dizia. Ele disse que meu filho ia ser grande e que eu escolhera bem o seu nome. Que ele ia ser lembrado pelos seus feitos, e os Jones iam se orgulhar de serem lembrados através dele. E depois de dizer isso, ele tirou aquele chapéu dele, branco que nem neve, fez um cumprimento, eu senti o sol me ofuscar, e ele sumiu. Nove meses depois você nasceu."

Jerusalem Jones olhou para o pai, deu uma fungada, e ficou em silêncio alguns segundos. Tomou um gole de seu café que tinha esfriado, enquanto ele escutava a história que seu pai contara. Shamus olhava para Jerusalem com uma cara engraçada e, então, Jerusalem disse: "Pai, fala sério, poxa!" Shamus deu uma gargalhada, daquelas que só ele sabia dar, bateu na perna, e disse, "tá certo, tá certo, tu é danado de esperto, garoto. Você é meu filho mesmo! Pra dizer a verdade, quando você nasceu, tua mãe queria te chamar de Jerome. Eu disse, tudo bem. Ela não podia levantar ainda, pra ir ao cartório comigo, então eu te peguei, e fui te registrar. Só que no caminho eu parei para te mostrar pros amigos, e conversa vai, conversa vem, eu tomei umas e outras, e cheguei ao cartório, digamos, em um estado meio interessante", e dizendo isso, gargalhou de novo, e bateu na perna, "então, eu... como vou dizer isso, eu esqueci o nome que sua mãe falou. Eu só sabia que começava com J, mais nada.

"Eu esperei pra ser o último. Deixava todo mundo passar, pra poder lembrar o raio do teu nome, mas não conseguia. O tabelião me chamou, e eu fui, sem saber que nome que eu ia te dar. Eu estava sem saber o que fazer. Pra tentar a sorte, eu perguntei qual era o nome dele, do tabelião. Ele disse que era David. Eu fiz uma cara feia, que acho que ele percebeu. Mas aí eu pensei, 'David?! Rei dos Judeus?! Cidade Santa?! Jerusalem! Era esse o nome que A Beth falou. Eu tinha toda certeza do mundo. E, depois de um pequeno arroto, eu disse "Jerusalem McMurray Jones, pode escrever aí.

"Quando cheguei em casa, ainda sob efeito da maldita, sua mãe te pegou do meu colo, colocou no berço com cuidado. Depois, mesmo não estando muito bem, ela jogou quase tudo que tinha na casa em cima de mim. Minha sorte é que a gente sempre teve pouca coisa.

"Com o tempo ela me perdoou, mas só te chama de Jerry até hoje, como você bem sabe. Eu prefiro Jerusalem Jones, acabou ficando bonitão, né não, meu filho?"

Jerusalem sorriu, afinal era impossível levar seu pai a sério. Ele era um homem honesto e trabalhador, que gostava de tomar umas e outras de vez em quando. Nunca fez mal a ninguém. Jerusalem enxugou o rosto, e viu o mesmo refletido nas águas que corriam na direção de Terence Falls City, a qual ele dera as costas, depis que viu aquela aberração indo na direção dela. Aquela... Tanya.

Jerusalem pensava nisto a dois dias. Para desencargo de consciência ele relatou o caso ao xerife de Battle City que, é claro, riu na sua cara. Jerusalem não era muito digno de crédito por aquelas bandas, ainda mais contando uma história daquelas. Quem iria acreditar em explosões após tempestades esquisitas, e em uma mulher que comeu a perna de um estranho que saiu do centro da tal explosão. Quem iria acreditar que ela, provavelmente corria mais que um cavalo. Ele sentiu que, pelo menos essa parte, ele devia ter omitido.

Nesses dois dias ele só pensava em Betina e nas garotas do bordel, as únicas pessoas que valiam alguma coisa naquela cidade inteira. Jerusalem podia não ter muita consciência, mas ele sabia o que era amizade. Mas que fazer? Provavelmente o que tinha de acontecer, já havia acontecido.

Jerusalem lembrou das palavras que o estranho da lorota que seu pai contou, disse: " ele ia ser lembrado pelos seus feitos". Jerusalem sorriu ao lembrar do pai e de como ele era bom com histórias. Sua mãe que o diga. Mas ele sabia que as palavras que seu pai disse, era um desejo genuíno, mesmo que a história não fosse verdadeira. Mas ele não nascera para ser herói. Jerusalem bufou, meio puto consigo mesmo, montou seu cavalo e disparou em direção a Terence Falls City. Ele precisava saber como estava Betina e as garotas. Elas eram sacanas, mas pelo menos era no bom sentido.

Sem Jerusalem saber, alguém observou sua partida.




quinta-feira, 27 de julho de 2006

Boxleitner

AS ESTRANHAS AVENTURAS DE BOXLEITNER


Boxleitner não gostava nem um pouco de sua vidinha monótona. Seu trabalho era tão insípido. Arquivista. Ele odiava ser arquivista. Mas era a única coisa em que conseguiu trabalhar. Talvez porque combinasse com o tédio que era sua vida. Boxleitner nunca se casou e as namoradas que teve eram tão monótonas quanto sua vida. Ele lembra de cada uma delas, e de cada defeito que fazia com que ele sentisse vontade de esganá-las, ou mesmo de se matar. Morando sozinho, não tinha nem mesmo um animal de estimação. Na verdade, ele chegou a ter um gato, mas ele fugiu, depois de dois dias. Provavelmente por causa do tédio que era a vida e tudo mais à volta de Boxleitner.

A vida de Boxleitner sendo como era, fazia com que ele não se surpreendesse com nada e, foi com essa visão da vida, que ele se deparou, enquanto dirigia em uma estrada deserta e mal iluminada, com as típicas luzes piscantes, objeto estranho não-identificado, e tudo mais a que estamos acostumados, mas que nunca em nossas vidas temos a chance de presenciar durante um contato imediato do terceiro grau. Tudo bem, passado sabe-se lá quanto tempo, Boxleitner também não lembrava mais do que havia presenciado e seguia normalmente, sem saber que havia sido abduzido e passado por algumas experiências bem estranhas, e que iriam mudar um pouco sua vidinha.

Para entendermos melhor os acontecimentos a seguir, temos de conhecer Adrielle, a vizinha de Boxleitner, que só sabe da existência do mesmo porque este faz questão de olhar para seus peitos toda vez que ela tem o desprazer de encontrá-lo. Tudo bem, nada demais. Todos olham para seus peitos. O problema com Boxleitner é que ele era asqueroso. Ela tinha certeza que já o vira babando. E quando ela dava as costas para ele, ela sentia seus olhos pregados em sua bunda. Adrielle adorava atenção masculina, mas detestava a atenção que lhe era oferecida por Boxleitner. Foi pensando nisso tudo que ela percebeu que o objeto de seu asco chegava em seu carro, justamente quando ela também estava chegando do trabalho.

Boxleitner manobrou para entrar em sua garagem que abriu via controle remoto. Viu que sua vizinha gostosa estava fazendo o mesmo. Que peitos! Mesmo àquela distância Boxleitner conseguia apre... hmm... de repente começou a se sentir estranho. Ele estava sentindo uma sensação esquisita desde que passou por aquela estrada deserta e mal ilumidada. Os olhos de Adrielle cruzaram com os seus, e ele sentiu que, de alguma forma... oooh, droga!

Boxleitner conseguiu ver seu carro entrando na garagem de forma desastrada, batendo lá no fundo. Ele não estava entendendo nada. Até que se viu no espelho retrovisor do carro em que estava: Boxleitner estava no corpo de Adrielle. Ele não pôde conter um grito estranho que saiu das cordas vocais da mulher mais gostosa que ele já vira em sua vida, e em quem agora ele habitava, como se fosse uma espécie de demônio possuidor de corpos. Ele sentiu em seu grito de mulher uma estranha excitação , como se já estivesse analisando todas as possibilidades.

Boxleitner não parava de tremer. Ou melhor, o corpo de Adrielle não parava de tremer. Ele saiu do carro e foi correndo até o dele. Deduziu que se ele estava no corpo dela, ela devia estar... não, não estava. Viu seu corpo inerte sobre o volante do carro. Onde estaria Adrielle então? Não importava. A mente de Boxleitner comandava aquele corpo, e sem nem mesmo querer saber se ele tinha como sair dali quando quisesse, Boxleitner subiu para seu próprio quarto e já sabia tudo o que queria fazer para aproveitar essa chance única na vida. Depois ele poderia até morrer, que morreria feliz.

Boxleitner/Adrielle acendeu a luz de seu quarto. Foi ao pequeno banheiro e se olhou no espelho. Os cabelos loiros abaixo dos ombros, os olhos de um castanho claro. Boxleitner sentia seu coração bater e seus (novos) peitos balançarem. Ou era apenas impressão? Fez o que sabia que jamais poderia fazer se aquilo tudo não estivesse acontecendo, segurou as duas tetas com força, por cima do vestido e as acariciou. Quando ia abaixar alça do vestido, notou que seu espelho seria pequeno demais para tudo que tinha em mente. Por um estranho sexto sentido, ele soube que na casa da dona do corpo teria, sim, um espelho bem maior. Correu para lá.

Boxleitner pegou a chave na bolsa que ficara no carro, entrou e achou o quarto bem facilmente, como se morasse ali a vida inteira. Estava trêmulo ainda, pela excitação do que pretendia fazer. Quando entrou, viu o enorme espellho que Adrielle tinha em frente à sua cama e logo deduziu todas as utilidades dele. Boxleitner jogou aqueles sapatos de salto alto longe e se perguntou como alguém poderia usar aquilo nos pés. Se posicionou diante do espelho e começou a fazer o strip tease mais desajeitado do planeta.

Não precisou ir muito longe. Debaixo do vestido, Adrielle não usava nem sutiã, nem mesmo calcinha. Putinha, foi o pensamento que perspassou a mente de Boxleitner. Mas deixou isso de lado, para começar a fazer aquilo que sempre quis: tocar Adrielle por todo seu corpo. Tocava os mamilos, descia a mão entre as pernas e sentia os pêlos bem definidos num corte excêntrico, que Adrielle fazia. Quando tocou dentro de Adrielle, Boxleitner sentiu uma vertigem, quase caiu e sentiu algo que já sentira antes, só que de um modo muito diferente. Ele tinha acabado de gozar, como mulher. Suas pernas tremiam.

Seus desejos masculinos estavam muito fortes, dentro de um corpo feminino. Boxleitner sentiu a tontura novamente, sem nem mesmo se tocar. Era o tal orgasmo múltiplo de que tanto elas falavam. Boxleitner estava começando a pensar se queria sair dali de dentro algum dia.

Aos tropeços, deitou o corpo nu de Adrielle na cama mais gostosa que já deitara. Ele sentia que toda sua vida vazia estava sendo recompensada de alguma maneira, agora. Era muito mais que sexo consigo mesmo. Ele conseguia gozar como se estivesse possuindo-a de alguma forma. Então, ele decidiu ir fundo, literalmente falando. Deitou, viu que uma das unhas de Adrielle era bem mais curta e Boxleitner se pôs a fazer sexo com aquela mulher que ele só tinha em pensamentos promíscuos. Ele perdeu as contas de quantas vezes gozou. Tantos e tanto orgasmos que ele se sentia como um drogado que queria mais e mais. Chegava quase a ter alucinações. Boxleitner deve ter experimentado mais posições que a própria Adrielle nem mesmo deve ter jamais pensado. Foi quando ele ouviu passos se aproximando. Lembrou, então, que na pressa, não fechara a porta. Se desesperou, mas era tarde.

Ele entrou. Boxleitner não acreditou quando viu a si mesmo entrando quarto adentro. Quer dizer, seu corpo. Viu que seu rosto havia chorado muito, e tremia, quando falou:

- S-seu... tarado... doente... maníaco. Como você fez isso? O que está fazendo com meu corpo? - sim, era Adrielle. Aparentemente seu corpo perdera os sentidos, mas Adrielle estava nele sim.
- Me devolva... - Adrielle/Boxleitner se afastou e foi até uma gaveta e pegou uma arma pequena, dessas de mulher. Boxleitner, no corpo de Adrielle, nu, ficou em pânico.
-E-eu... eu não sei como se desfaz isso, mulher! EU NAO SEI!
- Eu... eu vou atirar...
- Sua louca, vai atirar em seu próprio corpo? - Era terrivelmente estranho ouvir ver seu próprio rosto, e ouvir sua própria voz ameaçando-o de morte. Também era visível que a mente dentro de seu corpo estava descontrolada. Não soube lidar tão bem quando ele com tudo aquilo.
- Eu vou ati... - e BAM! Adrielle disparou. Boxleitner encolheu seu corpo feminino, mas não sentiu dor alguma. Quando abriu os olhos, viu Adrielle caída, morta. O revólver havia explodido e a bala abrira um buraco em sua cabeça.

Boxleitner ficou parado alguns minutos tentando entender a situação, tentando avaliar o que devia fazer. Bom, em primeiro lugar "ela" era inocente, o corpo morto no chão havia cometido invasão de domicílio. Boxleitner levou seu corpo esguio até o telefone e ligou para a polícia. Estava conseguindo se acalmar. Pegou um cigarro da putinha e acendeu. Foi até a janela, abriu-a e olhou para a rua. Viu que a vizinhança parecia não ter se dado conta do barulho. Então um carro passava na hora. Boxleitner achou que fosse um astro conhecido de cinema. De repente, o cara olhou na sua direção, e o corpo de Adrielle desabou.

Boxleitner estava agora na estrada. Olhou-se no espelho retrovisor, ajeitou seu novo cabelo, e ficou pensando, enquanto dirigia, o que aquele jovem astro de cinema ia pensar quando acordasse no corpo de uma mulher. Bom, provavelmente ele já fez algum filme com essa temática. Acho que ele vai ficar bem, pensou Boxleitner... e acelerou.



quarta-feira, 26 de julho de 2006

Gostas de Chuva

GOTAS DE CHUVA NÃO PODEM ME MACHUCAR


Desde que me tornei super-herói tenho visto as coisas, literalmente, de outro ângulo. Desde que aquela fissura dimensional se abriu e todos os átomos de meu corpo foram reconfigurados, e eu ganhei poderes inimagináveis, desde então, eu tenho vivido quase como um deus, e isso me coloca, às vezes, às portas da loucura. Principalmente quando descubro que, apesar disso tudo, eu não sou, nem nunca serei um deus. Minha superforça, por mais ilimitada que pareça, ainda mostra as minhas fraquezas e transparece quem eu realmente sou. Um ser humano.

Quando voei pela primeira vez, além da atmosfera terrestre, senti o frio do espaço sideral e vi que a Terra, à distância, parecia ser um paradigma de minha vida comum, sempre distante daqueles a quem eu realmente deveria salvar, os que sabem quem eu sou, e como sou. Na minha identidade secreta, não escondo apenas meu alter-ego superpoderoso, mas tudo que sempre escondi em minha vida, meus medos, preconceitos e falta de capacidade de lidar com minhas emoções. Posso voar à velocidade do som, mas não consigo escapar dos traumas que carrego comigo. Posso enxergar a estrutura atômica de qualquer tipo de matéria, mas às vezes, não vejo o óbvio ululante à minha frente. Salvo o mundo, mas ainda machuco pessoas.

Os supervilões não são nada comparados aos fantasmas que carrego comigo, para onde quer que eu vá. E nem todas as medalhas do mundo conseguem cobrir as minhas derrotas. O espírito humano é nobre em primeira instância, e eu sempre vou lutar pela justiça e pela liberdade, enquanto meus poderes assim o permitirem, mas nada que eu fizer, mudará aquilo que alguns parecem se empenhar em construir, um mundo em pedaços, dilacerado de ponta a ponta por guerras e corrupção. Às vezes me engano, ou apenas sou enganado, pois posso enxergar até mesmo através do chumbo, mas não sei discernir o que se passa no coração humano. Mesmo podendo ler os pensamentos de cada um deles, quando necessário, ainda assim, o mal parece sempre saber se dissimular, e ninguém está livre de ser atingido por ele.

Quando eu ainda era um novato neste mundo de super-poderes, e nem mesmo acreditava que me acostumaria a usar este uniforme que parecia tão ridículo à primeira vista, eu acreditava que poderia salvar o mundo, no sentido mais amplo da palavra. Mas com o tempo, descobri que sou apenas mais uma peça num planeta que tende a seguir suas próprias tendências, sua própria evolução. Posso desviar meteroros, mas não mudar o curso da humanidade e de sua História. Faço parte dela, não sou maior que ela, por mais poderes que eu tenha.

Sinto a chuva me ensopar o uniforme, mas não quero sair daqui. Quero ficar e pensar. Talvez eu encontre uma resposta, talvez eu encontre algo em meio às poças que se formam a minha volta que me dê a resposta para todas as minhas perguntas e que me digam em alto e bom som porque as coisas acontecem como acontecem. Mas eu não posso ficar. Tenho trabalho fazer. Mesmo que meus olhos ardam com as lágrimas que se misturam à chuva, tenho que me levantar e fazer o que posso, já que não cheguei cedo o bastante para fazer o que eu queria.

Tenho de enterrar essas pessoas mortas.



terça-feira, 25 de julho de 2006

Jerusalem Jones e a Tempestade

JERUSALEM JONES - TEMPESTADE


Jerusalem Jones acordou, como se saísse de um poço de areia movediça. Olhou para o lado, na cama, e fez uma careta. Era sempre assim quando ele bebia demais, acabava na cama com uma mulher que poderia muito bem sair no tapa com um urso... e vencer.

Procurou, então, sair de fininho, mas o barulho do ronco era tão alto, que ele nem mesmo precisou de muito esforço. Tremia ao imaginar o que ele teria feito para que ela dormisse com tanta satisfação e com aquele sorriso - onde faltavam vários dentes - estampado na cara. Jerusalem espantou esses pensamentos da cabeça e resolveu ir embora. Estava no bordel que sempre frequentava e, se acabara com aquilo lá na cama, devia ser mais uma peça que Betina, a dona do local, lhe pregara. Ela adorava fazer esse tipo de coisa com ele.

Quando desceu as escadas, as poucas garotas que já estavam acordadas ficaram dando risinhos e cochichando entre si. Ele procurou não dar atenção e foi ao bar, pedindo alguma bebida, para curar a ressaca. Betina estava servindo, e apenas sorriu para Jerusalem, como quem dizia que ele mereceu tudo pelo que passou. Depois de beber, mandou pendurar - coisa com que Betina já estava acostumada - e saiu.

Jerusalem tinha alguns negócios em Battle City, e estava querendo apenas resolvê-los, pegar a grana e se deitar com a mulher mais gostosa que ele conseguisse, para pode esquecer de vez o episódio desta noite. Montou em seu cavalo e foi em direção ao norte à toda velocidade, mesmo com sua cabeça explodindo devido à ressaca.

Viajaria de dia mesmo, sem paradas e sem esperar que a noite chegasse, pois os últimos acontecimentos, lá no deserto, ainda estavam frescos em sua mente. Rezava - sabe-se lá para quem - para que nada de estranho acontecesse desta vez. Mas, parece que seus pedidos não iam ser atendidos, pois uma tempestade parecia estar se formando, e era das grandes. Ele tinha de se apressar. Já bastava a dor de cabeça, ficar ensopado seria mais uma coisa para irritá-lo.

Jerusalem Jones cavalgava e sentia que a tempestade que iria desabar a qualquer momento, adquiria um aspecto muito estranho. O céu estava ficando num tom meio avermelhado, e os relâmpagos parecia emitir um som estranhíssimo, como o de metal sendo raspado por metal. Aquilo estava deixando-o louco. Chegou a pensar se não era coisa de sua imaginação, ou simplesmente da ressaca que ainda não estava curada.

Olhou para trás e a cidade de onde acabara de sair estava com o céu límpido sobre ela. Aquilo quase o fez cair do cavalo. Jerusalem Jones começou a pensar se ele não atraía esse tipo de coisa. Sua mente vagueou e começou a lembrar de quando era garoto e presenciava as coisas mais estranhas, ou simplesmente estava no meio delas. Lembrou de quando sua mãe saiu correndo para fazer o parto de Patty O'Malley e ele foi junto. Quando chegaram por lá, era tarde demais, a criança já havia nascido. Ou melhor, algo havia nascido. Aos pés de Joe O'Malley estava algo que parecia ter saído do próprio inferno, com um ancinho fincado no meio do peito. Ele vomitou tanto nesse dia, que parecia que ia colocar as tripas para fora. Alguns dias depois, Patty e Joe se suicidaram.

Um relâmpago mais forte faz com que o cavalo de Jerusalem quase o derrubasse. Assim, ele acha que o melhor a fazer é parar por ali e procurar um abrigo. Logo encontrou uma caverna não muito funda , na qual entrou e colocou seu cavalo. A chuva começou a cair forte logo em seguida. parecia que o mundo estava ganhando outro dilúvio. Foi quando Jerusalem escutou um som de explosão. Olhou na direção do som e viu, ao longe, uma bola de fogo se formando no deserto, em meio a tempestade que caía.


Era uma explosão, obviamente, mas uma que Jerusalem nunca tinha visto. A chuva foi diminuindo e a curiosidade de Jerusalem Jones aumentando. Logo ele se pôs a cavalgar na direção de onde ele avistou a bola de fogo. Jerusalem se sentia estranhamente vivo. Cavalgava com rapidez e logo pôde ver escombros de algo que ele, tinha certeza, nunca vira por aquelas bandas antes. Quando se aproximou mais, viu algo bem estranho. Um homem com roupas estranhas vinha em sua direção, usando algo como bengala, pois lhe faltava uma perna. Aliás, ele tinha feito um torniquete bem esquisito nela. Jerusalem vendo o homem naquele estado sabia que não precisava temê-lo, assim pensava ele. Quando este chegou mais perto, começou a falar como um louco:
.
- A explosão... o laboratório... a tempestade! Um vórtex temporal. Criou um vórtex temporal. Em que ano estou... em que ano estou. Você é um cowboy? Estou no Velho Oeste? Em que ano estou? A tempestade criou um vórtex temporal e a explosão me lançou para o passado, junto com tudo mais. Eu consegui escapar dela.... consegui escapar dela... dela...

- Hmmm... é... dela quem, meu camaradinha? - Perguntou Jerusalem, sem ter certeza se queria mesmo saber.

Então, o homem apontou para adiante e disse:

- Tanya!!!

Jerusalem olhou e viu uma mulher com uma roupa parecida com a do homem, com sangue na boca, parada a alguns metros deles. Dava para ver que ela não era uma mulher comum. Jerusalem lembrou do bebê dos O'Malley e seus estômago embrulhou.

Ela olhava para eles dois, e respirava como se estivesse cansada. Parecia estar tomando uma decisão. Ela olhou para longe, na direção da cidade que, na verdade, não dava mais para ser vista dali de onde estavam, mas ela estava olhando na direção correta. Ela cheirou o ar, soltou uns grunhidos horrendos e, de repente, começou a correr na direção da cidade.

- O que é aquilo e o que ela está fazendo, meu camaradinha? - Perguntou Jerusalem Jones ao estranho.

- E-ela... ela... está com ... cof, cof... ela está com fome!

E, dizendo isso, o estranho desabou na lama. Parecia estar morto por perda de sangue. Jerusalem olhou a coisa correndo na direção da cidade, como ele nunca vira algo correr. Provavelmente corria mais que seu cavalo. A chuva já havia parado por completo. Jerusalem olhou para a perna do estranho, e entendeu como ele a perdeu. E entendeu também o que ia acontecer na cidade.

Foi nessa hora que ele sentiu o que devia fazer... e fez. Esporou seu cavalo e saiu galopando a toda, na direção contrária.


quinta-feira, 20 de julho de 2006

Protocolo Beta 77

PROTOCOLO BETA 77



O dia estava escuro e ainda era o meio da tarde. A chuva cairia em breve. Eu ouvia alguns trovões ao longe, e tudo aquilo tornava aquele dia mais sinistro, mais pesado. Eu olhava para o deserto adiante, a perder de vista, e sentia uma angústia na alma, angústia essa que eu não conseguia identificar exatamente a causa, afinal de contas eu sabia tudo que devia fazer. Nada do que acontecera fora por acaso. Tudo foi planejado. Até mesmo os erros do projetos não foram surpresas. Todos sabiam o que estava em jogo, e resolveram se arriscar, sabendo que os benefícios poderiam ser infinitos para a humanidade. Nesse ponto, eu quase solto uma gargalhada. "Benefícios para a humanidade". Todos estavam ávidos de enriquecer tanto quanto eu.

Um clarão de luz atravessa as nuvens negras, muito longe ainda, e segundos depois, ouço a resposta de um trovão, como se fosse um presságio das coisas que ainda estão por vir. Eu escuto o som a que me acostumei, nos últimos dias, vindo do freezer. É Tanya. Não tive coragem. Depois que as coisas ficaram mais sérias entre nós, deixamos de ser apenas um par de colegas, para nos tornamos amigos e amantes. Quando tudo deu errado, eu consegui fazer aquilo para o qual fui treinado caso tudo desse errado, como estava previsto nas projeções. Injetei a única unidade de antídoto em mim mesmo, e matei todos os outros, antes que tudo passasse da linha-limite. Mas não consegui eliminar Tanya. Tanya de quem agora escuto os grunhidos vindos do freezer.

Tomo um gole do café frio que tenho comigo, e volto a encostar a cabeça na vidraça que dá para o deserto. Depois que o prazo final para nos comunicarmos chegar ao fim, os militares virão com tudo para cá e, provavelmente bombardearão o laboratório, e só depois farão as perguntas. Eu já devia ter me mandado daqui. Mas eu não consigo deixar Tanya. Não consigo. Uma ironia e tanto, já que nosso projeto não estava nem aí para os humanos envolvidos, que eram tão descartáveis quanto se provaram ser. Os cientistas envolvidos não sabiam que eles mesmos eram as cobaias, e que os animais que usamos para testes eram nada menos que um showzinho para distraí-los. A droga não fazia o efeito desejado neles. Ela fora desenvolvida para seres humanos. Disso eles sabiam. Que bando de ingênuos. Vou te dizer, foi muito bom estourar a cabeça do Paul Bryan, depois daquelas piadinhas infames sobre meu... ah, porra, melhor esquecer isso. Esse assunto está morto e .....hahaha...HAHAHAHA...AHAHAHAHAHAHA... ai, ai... enterrado. Ou quase.

Sou despertado para a realidade por um grito mais agudo de Tanya, seguido por gorgolejos horríveis. É sinal de que ela está se alimentando. Acho que ela já consumiu quase todo "alimento" que deixei no freezer junto com ela. Se tudo aqui fosse ilegal, seria um bom modo de eliminar as provas. Mas tudo aqui foi patrocinado pelo governo e as experiências tinham um objetivo prático, pelo menos para eles. Eu aceitei porque, além da fama e fortuna, eles disseram que teria aplicações humanitárias também, e não só militares. Não sei se acreditei, ou se apenas quis acreditar que era verdade. Mas, excetuando-se o caso da minha querida amada, lá no freezer, tudo valeu a pena. Aprendi coisas que eu não aprenderia em 100 anos, literalmente falando. Mas tudo tem seu preço, aqui não seria diferente. Não sou tão ingênuo assim.

Eu preciso ir embora. Informar aos militares para que limpem a área. A chuva começa a cair pesada. As gotas parecem bombas quando atingem o chão. O cheiro de terra molhada atravessa as paredes. Preciso ver Tanya uma última vez. Sei que não deve ser uma visão das mais agradáveis, mas eu devo isso a tudo pelo que passamos. Devo acabar com seu sofrimento e partir. As tentativas que fiz de reproduzir o antídoto foram em vão. Não há salvação para a mulher que amo.

Bom, melhor parar de protelar e fazer a ligação para os militares, acabar com o sofrimento de Tanya e partir desse cemitério no meio do deserto.

Pego meu celular e teclo um número secreto. Alguém com uma voz muito impessoal atende, eu digo apenas "Protocolo Beta 77", e ouço um "entendido" do outro lado da linha. Desligo o celular e levo um susto quando vejo que a o laboratório está escurecendo e não é por causa do tempo lá fora. O laboratório está sendo lacrado. Que diabos! Eu não sabia desse procedimento. Malditos! Fui ingênuo em achar que eles deixariam alguma testemunha. Sou tão descartável para eles quanto todos os outros. Que devo fazer? Sentar e morrer?

O laboratório é lacrado completamente. Logo tudo ali vai ser mandado pelos ares. Deve ser questão de minutos até que os bombardeiros cheguem. Engraçado, estou tentando lembrar algo importante. Nossa! É isso! O freezer! Existe material explosivo dentro do freezer, mantido a baixa temperatura. Foi usado em algumas experiências de outro bloco. Acho que posso usar para escapar. Hã... a porta do freezer... está aberta?! Desde quando? Diacho, há um temporizador na porta. Estava marcado para abrir automaticamente...

Sinto uma dor imensa na perna direita e tudo escurece.

***

Que... hã... que... que sonho estranho. Tanya, querida, você está aí? Tá escuro aqui e frio, e que cheiro horroroso. Que diacho? Onde estou? Não é a cama. To congelando! Parece que tô no free... droga um interruptor, enfim. Luz. Hã... Tânya... que, onde estamos? Que há com você? Porque estamos no freezer? O que você está comendo? Isso é uma perna, Tanya? Oh, meu deus... minh... aaaaaaaaaaaahhhhhhHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!


Ao longe uma bola de fogo se forma no deserto, em meio a tempestade que cai.




quarta-feira, 19 de julho de 2006

A Solidão de Anfrew Oaks

A SOLIDÃO DE ANDREW OAKS



Andrew Oaks acorda com os raios de sol entrando por sua janela de vidro, no décimo oitavo andar do prédio na Emperor Street. Há tempos ele não se sentia tão feliz consigo mesmo, apesar de estar acordando sozinho em sua cama, todos os dias, desde que Lisa deu-lhe um chute na bunda. Foi nesse momento que Andrew, um físico renomado, decidiu que ele não ia sofrer sozinho, como fez a sua vida inteira. Depois que Lisa foi embora, sem a mínima explicação, nem mesmo dizendo se era por outra pessoa, ou por estar cansada de Andrew, foi que ele decidiu que ia colocar em prática algo que vinha matutando há alguns anos. Ele ia provar, com uma equação, que Deus não existia.

Ele levou meses trancado em seu apartamento, pedindo comida por telefone, e vestindo as mesmas roupas sujas. Mas, chegou onde queria. Andrew já tinha aquilo tudo na cabeça há muito tempo, ele só precisava passar para o "papel". Foi um choque para o mundo quando ele apresentou sua equação a qual ele chamou de Lei da Não Existência de Nenhum Deus. Andrew não ia mais sofrer sozinho, como fazia desde que era um moleque, e todos sempre o faziam sofrer de uma forma ou de outra. Religiosos, cientistas criacionistas, crédulos, todo aquele que tivesse um mínimo de fé em um deus, seria afetado por ele, e sofreria assim como Andrew sofria a sua vida inteira. Teriam seus sonhos ridículos de vida eterna destruídos, assim como Andrew tinha seu sonho de uma vida minimamente feliz, destruído todos os dias desde que se entendia por gente.

Andrew sabia que os fanáticos continuariam acreditando, por mais provas que sua equação pudesse mostrar. Mas ele se rejubilava dentro de si mesmo, ao saber que a semente da dúvida lançada, sempre crescia, mesmo que vagarosamente. O que ele mais curtia, a partir de então, eram os debates na TV. Ele fazia pipoca, comprava refrigerante, sentava-se no chão e assistia, às gargalhadas, os debates entre os religiosos e os apoiadores de sua equação. Geralmente terminava em socos e pontapés. Ele não se divertia tanto desde que Jerry Springer foi preso ao vivo.

O Vaticano estava lançando chamas do próprio Inferno sobre seu nome. Exigiam uma retratação e a retirada dos artigos - que consideravam pseudo-científicos - de circulação, e que fossem até mesmo banidos da Internet. Se isso acontecesse, tudo bem para Andrew, ele já fizera a sua parte. O mundo estava como ele queria, sofrendo juntamente com ele.

Claro que Andrew sofreu alguns atentados à sua vida, coisa que já era de se esperar. Escapou de todos e - sorrindo ele pensava - não foi graças a Deus. Andrew era um suicida em potencial, morrer para ele não era o maior dos problemas mas, sim, viver. E já que estava condenado a passar ainda mais uns 30 ou 40 anos sobre esta Terra, ele faria com que as coisas fossem do seu jeito.

A súbita notoriedade dera-lhe o que todo homem almeja: dinheiro e sexo, sem necessariamente com isso, felicidade. Esta ele já estava acostumado a não ter, e fora isso o estopim de toda essa história. Sim, Andrew, em seu interior continuava vazio e infeliz, mas não iria deixar que o mundo soubesse disso. Ele iria até o fim.

Cada dia mais o mundo entrava em colapso, com a pessoas cada vez mais aderindo ao fato de que sua equação era verdadeira. A violência aumentava gradativamente, assassinatos, estupros e etc. A perda da fé, era a perda do pouco de moral que restava no mundo. Se você não tinha que se reportar a alguém ao morrer, você não tinha nada o que temer. A mentalidade do mundo estava subindo essa ribanceira e parecia que quando chegasse ao topo, iria se jogar de lá.

O telefone tocou e a alma de Andrew gelou, pois um pressentimento dizia que era sua mãe, que ele havia esquecido por completo durante esse dias turbulentos (no bom sentido, pelo menos para ele). Ele atendeu sabendo o que viria:

- PORRA, ANDY!!! Eu preciso marcar hora pra falar contigo? Caramba, meu filho! O que você anda fazendo da merda de sua vida??? Você foi criado como católico a vida inteira. Eu e seu pai te levávamos à Igreja, até que você cresceu e resolveu esquecer Deus. O que você fez, meu filho? Se eu morrer por aqui, vítima do ódio dos meus vizinhos a culpa vai ser tua. Teu pai deve estar se revirando para todos os lados no túmulo dele, que já é meio apertado!

Andrew resolveu fingir que a ligação estava com problemas e desligou, fazendo parecer que a ligação tinha caído, e tirou o telefone do gancho. Ele sabia que aquilo duraria horas se ele deixasse. E, na verdade, sua mãe era um dos motivos fortes pelo qual ele fizera tudo isso. Não se arrependia. Afinal, por tudo isso é que agora havia uma mulher gostosa na sua cama, dormindo, e que lhe dera o melhor sexo de sua vida, pelo menos até a próxima trepada. Ele já perdera a conta de quantas supermodelos como aquela, ele já comera nos últimos meses. Essa, mesmo sendo estrangeira, soube se comunicar muito bem. E aquela pele morena? Nossa!

Foi quando, de repente, a mulher acordou, puxou uma arma estranha de sua bolsa que estava no chão, gritou algo como "INFIEL", e acertou Andrew Oaks, no meio da testa, com um tiro que se alojou dentro do seu crânio. Depois, um zumbido veio de dentro da cabeça de Andrew, já morto, e a explodiu em mil pedacinhos, espalhando cérebro por todo apartamento e em cima da suposta modelo, que se retirou para o banheiro para tomar um banho.

Já Andrew estava, digamos, em outro lugar. E ele estava detestando toda aquela clichezada pela qual estava caminhando. Um lugar cheio de fumaça branca, deserto, com uma luz muito branca lá na frente. Andrew sabia que estava morto, e esse era um problema sério, já que segundo a sua equação, se não havia um Deus, não havia, logicamente, vida após a morte.

Ele devia estar em coma, ou algo assim. Provavelmente a bala se alojara em algum canto de seu cérebro. Talvez ainda pudessem tirá-la de sua cabeça. E isso tudo deviam ser alucinações provocadas pelo seu estado entre a vida e a morte. Já que estava ali, ia seguir em frente até a tal luz ofuscante.

Chegando lá, Andrew encontrou o que já sabia que iria encontrar, um velho de barbas brancas, sentado em um trono dourado. Na mão direita havia um cetro bem pomposo. Andrew estava se divertindo com a ironia. Resolveu entrar na brincadeira e perguntou:

- Então o Senhor é Deus?

O velho suspirou, meio condescendente, como se fosse um pai olhando para um filho que havia terminado de cometer uma travessura. Alisou sua barba branca pensativo, olhando para Andrew como se estivesse tomando alguma decisão importante, ou estivesse pensando bem na pergunta que Andrew fez. De repente seu rosto adquiriu uma expressão estranha, ele deu um sorriso malicioso para Andrew e disse:

- Não, Andrew Oaks, eu não sou Deus - e apontou para trás de Andrew, que se virou, e soltou um grito tão alto e arrepiante, que foi ouvido em todas as galáxias desta e de outras dimensões. Depois, apenas silêncio. Para sempre.



segunda-feira, 17 de julho de 2006

Sondando

SONDANDO ABAIXO DA SUPERFÍCIE


Bascombe, que era da guarda real, recebera a notícia de que sua esposa estava morta. Fora atacada em plena luz do dia na Rue des Marchands. O assassino fugiu em meio à multidão que nada fez para tentar capturá-lo ou mesmo para ajudar Jeanette. Morreu por perda de sangue. Bascombe não sabia como ia dar a notícia a Jean-Luc e Marise. Mas sabia de uma coisa, o assassino já estava morto, só não sabia disso ainda.


A tribo dos Atekaê estava em desvantagem nesta guerra, que durava anos, com os Semuânes. Mas, quem sabe, a situação estivesse prestes a mudar, pois um dos atekaê, o bravo Katamã, encontrara o Ídolo Marcanti, do qual dizia-se que seu possuidor poderia ganhar qualquer guerra em que estivesse. Katamã entrara naquela caverna apenas para tomar fôlego, pois era o único sobrevivente do seu grupo de ataque. Mal pôde acreditar quando pôs os olhos sobre o lendário ídolo. Quando estendeu a mão para tocá-lo, sentiu seu corpo ser consumido por chamas e uma dor inominável. Katamã nunca foi encontrado. Sua tribo perdeu a guerra.


A Rua do Orvalho amanheceu em polvorosa com a chegada de um caminhão na porta da casa de Dona Betina. O boato que todos ouviam era que ela havia comprado uma TV. O povo todo estava de olho no caminhão, quando de dentro saiu aquele aparelho que parecia um enorme rádio, mas com uma tela de vidro. Alguns não se conteram, e foram oferecer para "ajudar" os homens da entrega. Eles queriam apenas que alguém chamasse a Dona Betina, pois haviam tentado, e não obtiveram resposta. Um menino disse que ia tentar pelos fundos e, depois de uns poucos minutos, apareceu o moleque correndo e gritando, dizendo que Dona Betina estava morta. Daí aconteceu algo que ninguém entendeu, por alguns segundos, a TV ligou sozinha. Os homens quase a largaram de susto. E o povo ficou pensando se aquilo funcionava daquele jeito mesmo. Josué, vizinho de Dona Betina, não conseguiu dormir pensando nas imagens que vira naqueles poucos segundos.


Gatchenko, o cão da família, estava inquieto já havia um tempo, desde que seus donos saíram. Ele andava de um lado para o outro, olhando para o horizonte, como se procurasse algo, com uma certeza instintiva de que algo estava para acontecer. Estar preso ali, atrás dos portões parecia estar sendo mais angustiante do que nunca. Ele queria sair, ir atrás do que quer que fosse, encontrar e, se possível, estraçalhar. Gatchenko sabia que a segurança de seus donos dependia disso. Ele chegou mesmo a se enfiar pelo meio das grandes, passando a cabeça e tentando passar o corpo e, naquele momento, amaldiçoava ser um cão que comia tanto. Quando ia retirar a cabeça da grade escutou um silvo agudo e Gatchenko ganiu, antes de morrer.


A espaçonave vagava pelo espaço com seu tripulantes mortos há vários meses. A base de operações não via sentido em uma missão de resgate da nave, pois sairia mais caro do que a mesma. As causas da tragédia eles só podiam especular. Então, procuraram esquecer isso, depois de avisarem as famílias, e pagarem as devidas indenizações, é claro. Mas o que não sabiam, é que a nave rumava sem destino, apenas deixando o acaso guiá-la, para um planeta onde seus habitantes eram seres malévolos, mais ou menos como se fossem a verdadeira essência do mal. Só não podiam fazer mal a ninguém porque não tinham corpos nem meios de se locomoverem dali. Mas isso iria mudar, pelo menos para quatro desses habitantes de Katernal, assim que a nave entrasse em sua atmosfera.


segunda-feira, 10 de julho de 2006

JJ: O Deserto Te Chama

JERUSALEM JONES: O DESERTO TE CHAMA


Jerusalem Jones estava num daqueles dias em que nada dava certo para ele. Nada mesmo. Depois de ter perdido todo aquele ouro para um maldito pele-vermelha, o que ele menos queria na vida era ver outro índio pela frente. Provavelmente ele atiraria no primeiro que aparecesse, só para tentar fazer passar a raiva que sentia.

E era pensando nisso que Jerusalem cavalgava em direção ao Norte, para Birconal City. A noite já estava avançada e ele não ia querer atravessar o deserto à noite. Estava na hora de apear, fazer uma fogueira, comer alguma coisa e dormir. Estava para fazer isso, quando viu um clarão mais adiante. E um defeito que Jerusalem Jones detesta em si mesmo, é a sua maldita curiosidade. Invariavelmente ela o coloca em alguma espécie de enrascada. Mas ele precisava ver o que era o clarão, que estava lá a frente. Montou no cavalo, e disparou naquela direção.

Quando se aproximava, logo percebeu que a coisa não era nada agradável. Logo percebeu que era uma caravana que havia sido atacada. O clarão era do fogo que vinha das carroças incendiadas. Naquela escuridão da noite o espetáculo era algo assustadoramente hipnótico. Porém, chegando mais perto, era óbvio que a cena era muito mais aterradora: corpos de pessoas espalhados para todo lado. Jerusalem desceu de seu cavalo, passou com cuidado entre uma das carroças que pegava fogo e começou a andar entre a tragédia. Sua mente gananciosa só pensava em encontrar alguma coisa de valor que tivesse ficado para trás.

Enquanto examinava os corpos, sentindo o calor das chamas que parecia não diminuir nunca, percebeu que as carroças pegando fogo, faziam um círculo perfeito em volta dos corpos. Poderia ser uma manobra para se proteger do ataque, mas alguma coisa não estava certa. Ele só não entendia o que. Foi quando percebeu que as pessoas no chão, todas mortas, também estavam dispostas em uma ordem. Aquilo fez um arrepio percorrer todo o seu corpo. Nem mesmo a forma brutal com que foram mortas, algumas até mesmo decapitadas, mas com a cabeça ainda junto ao corpo, fez Jerusalem sentir tanto incômodo ou, como ele não queria admitir para si mesmo, medo.

Parece que estava na hora de Jerusalem Jones deixar o local, pois de valor ali, não havia nada. Também seria bom cavalgar mais para longe e descansar em outro lugar. Estava pra sair quando o luar fez reluzir algo dourado embaixo do corpo de uma menininha loira, que fora degolada. Ele se abaixou e puxou com força e era um cordão com um pingente estranho. Uma estrela de cinco pontas, com várias algumas inscrições em uma língua que, com certeza ele, que era quase analfabeto, não conhecia. No reverso haviam desenhos bizarros, que mesmo minúsculos dava para ver que era coisas que pareciam ter saído do inferno. Jerusalem escutou um uivo de lobo bem distante. O que era comum naquelas paradas. Mesmo assim outro arrepio percorreu seu corpo.

Bom, o que importava era que aquele cordão era pesado, e era de ouro. Jerusalem não queria saber como aquelas pessoas foram massacradas. Provavelmente fora algum bando de saqueadores sádicos, já que não havia sinal de tiros. E índios também não foram, pois não havia uma flecha sequer por ali. Se foram ladões, estranho terem deixado o cordão para trás. E estranho terem apenas estripado e degolado aquelas pessoas que pareciam não fazer mal a uma mosca.

Jerusalem levantou olhou mais uma vez para a estrela e depois para os corpos espalhados no chão e levou um susto. Chegou mesmo a se engasgar com a própria saliva. Tossindo ele saiu do meio das carroças em chamas, sentindo o vento da noite ficar mais frio. Olhou ao redor e viu uma elevação. Correu na direção dela e subiu até seu topo. Por sorte, da elevação dava para ver os corpos todos dentro do círculo flamejante. Jerusalem tremia. Os corpos. Ele levantou a estrela e, fechando um olho, sobrepôs à imagem dos corpos. Sim, eles estavam dispostos no mesmo formato da estrela de ouro.

Foi quando Jesrusalem Jones ouviu o grito mais aterrador de toda sua vida. Como se mil demônios gritassem numa única voz. Como se as portas do inferno se abrissem. Um grito que rasgava a alma em tiras. Jerusalem se desequilibrou e rolou da elevação, caindo lá embaixo, aos pés de alguém. Ele viu pequenos pés descalços e brancos como neve. Quando olhou para cima, era a menina da qual ele tirou o cordão de debaixo do corpo. A menina loira. com seu vestidinho branco. Não estava mais degolada, nem mesmo suja de sangue. Parecia estar preparada para ser posta na cama. Olhava para Jerusalem caído ao chão, com seus olhinhos de criança e um sorriso incômodo. Ela estendia uma das mãos e apontava para a estrela. Ela a queria de volta.

Jerusalem não sabia o que fazer. Sua ganância superava seu medo. Medo esse que não era pouco. A menina apontou novamente para a estrela na mão dele e fez sinal de que a queria de volta. Seu sorriso desaparecera. Jerusalem hesitava em entregar. Sentado no chão ele começou a se arrastar para trás, para longe dela, devagar. A menina andava calmamente em sua direção. Seu rosto se transfoformara numa máscara de fúria contida. Ela apontou mais uma vez para a estrela e fez sinal com a mão para que ele a devolvesse. Sem perceber, Jerusalem fez que não com a cabeça. Nessa hora a menina deu um grito gutural ensurdecedor e pulou na direção de Jerusalém, que segurou a estrela com força e acertou a cabeça da menina com uma das pontas.

Ela caiu e começou a entrar em convulsões violentas, soltando gritos terríveis, tanto que Jerusalem Jones tapou os ouvidos pois parecia que iriam endurdecê-lo. Quando terminou, o que restou foi um monte de estrume seco, no lugar onde antes havia uma menininha. Jerusalem quase riu daquilo. Estrume seco e fumegante. Ele meteu a mão nele e puxou a estrela de ouro. Quando olhou na direção do massacre, as carroças estavam apagadas, restando muito pouco delas.

Ele nem havia notado, mas o dia estava amanhecendo. Jerusalem sentia algo estranho dentro de si, e acabou fazendo algo que nem ele mesmo acreditou depois que parou pra pensar, mais tarde. Conseguiu o máximo de pedras que podia, e deu um enterro cristão àquelas pessoas. Armou cruzes e fincou em cada um dos montes de pedras. Treze pessoas no total, contando com o estrume que um dia foi a menininha. Sentia como se a estrela esquisita de ouro fosse seu pagamento por aquilo tudo. Quase se sentia honesto.

Ele não sabia o que aconteceu ali, nem fazia questão de saber. Ele queria apenas chegar o mais rápido possível em Birconal City e se livrar daquele cordão pelo melhor preço que ele pudesse conseguir. De preferência antes da meia-noite.


quinta-feira, 6 de julho de 2006

Resolvendo um Caso

RESOLVENDO UM CASO EM DOIS TEMPOS

Havia sangue no chão, mas o corpo do morto estava na cadeira. O sangue não devia ser dele. Então de quem era?

Tudo parecia uma coisa saída de algum livro de detetives. O físico famoso fora morto em seu apartamento. Anotações importantes foram roubadas. Pesquisas que poderiam dar-lhe o Prêmio Nobel. Segundo alguns jornais mais sensacionalistas, o homem estaria envolvido em pesquisa sobre as teorias de viagem no tempo. Até aí tudo bem, de teorias o inferno está cheio. Mas corriam boatos de que o "cientista maluco" estaria tentando colocar isso em prática. Juro que, durante a investigação, não vi nenhuma máquina do tempo pelo apartamento. Claro que eu não procurei as passagens secretas que se abriam ao puxar o livro de H.G. Wells. Na verdade, eu estava tentando ver graça em tudo aquilo.

Minha cabeça estava explodindo de dor. Me designar para aquele caso não foi uma boa idéia do comissário. Eu sabia que aquilo ia demorar mais do que eu queria. Não havia muito por onde começar. Ele fora morto com um tiro na cabeça, e havia sangue no chão que, provavelmente não era dele. Ele bem que poderia ter escrito alguma posta com o filete de sangue que saía de sua testa, ou quem sabe deixar pistas pelos quadros baratos que enfeitavam seu escritório. Se uma francesinha aparecesse eu não iria reclamar, também.

Suspirei, irritado comigo mesmo. Os outros policiais já haviam terminado seu serviço de recolher pistas e evidências. Eu disse que ficaria mais um pouco. Dentro em breve levariam o corpo e eu, então, tomaria meu rumo, passando na delegacia e depois iria pra casa. Mas antes queria tentar ver se achava alguma coisa que me ajudasse nas investigações. Ou estava apenas adiando minha chegada ao inferno que era meu lar.

Tentava não tocar em nada que comprometesse a cena do crime. Olhei mais uma vez para o corpo que estava sentado atrás da mesa do escritório, com a cabeça inclinada para trás, se apoiando no espaldar da cadeira, como se tirasse um cochilo. O sangue era bem pouco. Dei uma espiada no rosto e ele tinha uma expressão espantada nos olhos abertos. Talvez conhecesse a pessoa que o matou. Bom, na verdade era bem possível, afinal só assim para entrar ali, tão facilmente.

O pessoal estava demorando a vir buscar o corpo. Fui na direção da porta, quado senti uma espécie de eletricidade no ar, e um gosto salgado na boca. Atrás de mim senti um repuxo e quando eu olhei, mal acreditei no que vi. Aparecendo ali no meio da sala, o físico morto, como se saísse de uma porta invisível. Mas isso não era tudo. O mesmo estava vivo na cadeira. A cena parecia um filme e eu o espectador. Nenhum dos dois parecia se dar conta de que eu estava ali.

O físico na cadeira estava estupefato com o fato dele mesmo aparecer do nada à sua frente. Mas, mesmo estupefato, notava-se que era como se ele soubesse que isso poderia acontecer, mesmo achando aquilo assombroso. Me veio à mente as matérias que li nos jornais sobre suas teorias de viagens no tempo. Pensava nisso quando o que acabara de chegar falou para o sentado:

- Não somos deuses, Eron. O protótipo foi roubado e o futuro está ameaçado. As coisas que podem acontecer se quem roubou viajar para o passado, para qualquer época do passado, podem ser desastrosas. Não me orgulho do que vou fazer agora, mas é o único jeito de impedir os acontecimentos futuros.

O físico tirou uma arma da cintura. Mas antes que pudesse usar, uma segunda pessoa entrou pela passagem invisível e voou em cima dele:

- Idiota! Se pensa que vai impedir que a máquina do tempo seja criada matando a si mesmo aqui no passado está enganado. - disse o homem pesado, agarrando a mão com a arma e tentando puxá-lo de volta através do porta invisível.

Enquanto isso eu continuava sem ser notado. E eu não achava que pudesse interferir em nada, nem tentei. Toda a cena era meio etérea, irreal. O físico do presente olha a si mesmo se engalfinhando com alguém que, aparentemente, ele não sabia quem era. Foi quando a arma saltou da mão do físico do futuro e parou na mesa do físico do presente. Ele pegou a arma, e apontou para a própria testa. Os dois que lutavam pararam e olharam pare ele. O agressor ia tentar fazer algo, quando o físico disparou. Mas não contra a própria cabeça, e sim contra o agressor, matando-o.

O seu eu do futuro respirou aliviado. Colocou as mãos nos joelhos, descansando. Quando ia falar algo, recebeu um tiro na testa. E caiu morto, claro. Minha boca devia estar no pé. O físico do presente trocou de roupas com seu eu do futuro e o ajeitou na cadeira em que antes ele estava sentado. Pegou suas anotações, algumas coisas no cofre, e entrou pelo portal invisível, levando consigo o corpo do agressor morto.

Quando ele sumiu, tudo voltou ao normal ali, no escritório. Não entendi porque a cena se repetiu para mim, ali. O que teria feito tudo aquilo acontecer de novo, como um espetáculo só pra mim? Eu estava nessas indagações quando o ar novamente ficou elétrico e um gosto salgado veio a minha boca. Meu Deus! A cena estava recomeçando. O físico do futuro (que vai morrer), entra de novo pelo portal invisível e fala com seu eu do presente que vai matá-lo. Só que a cena está mais rápida agora, quase como aqueles filmes mudos de comédia. Sinto uma sensação estranha na boca do estômago.

Vejo tudo até o final, e logo em seguida recomeça, só que dessa vez ainda mais rápido que antes. Não espero terminar, eu abro a porta e saio dali correndo. Tenho um pressentimento estranho. Corro pra sair do apartamento. Vou pelas escadas mesmo. O ar vai ficando mais elétrico, a minha boca mais salgada. Desço as escadas voando, sentindo atrás de mim um caos inexorável. Corro desesperado. Sinto como se algo me agarrasse a alma. Saio correndo do prédio e sinto um empuxo e depois um empurão às minhas costas, me lançando longe. Caio esparramado no chão.


Demoro a me levantar. Na verdade quero ficar ali para sempre, deitado, longe dos problemas. Mas me levanto. Olho em volta e penso que estou num sonho. Que diabos está acontecendo? Tudo está imóvel. Carros, pessoas, até o ar parece não se mover. O que acontece? Oh, droga! Aquilo tudo lá, aquela experiência idiota daquele físico maldito, de alguma forma me afetou. O tempo está passando de forma diferente pra mim. Mais devagar. Bem mais devagar.

Volto correndo para o prédio, entro no apartamento do físico e no escritório as coisas parecem ter voltado ao normal. A cena do crime está como quando cheguei. A não por um pequeno artefato que está do lado direito da mesa. Me abaixo e o pego. É como um pequeno bastão com números e uma tela, como se fosse uma calculadora em forma de cilindro.


Deduzo que caiu da mão do agressor quando o físico atirou nele. Existem duas datas digitadas. Uma de dez anos no futuro e abaixo a mesma data, mas no ano em que estamos, o presente. Não posso mais ficar por aqui mesmo. Então mudo as datas de posição e aperto o botão na cabeça do bastão. O portal se abre na minha frente. Eu tenho um assassino para capturar. Certo, tecnicamente ele é um suicida, mas no meu ponto de vista, ele é um maldito cientista maluco homicida.

Vou em direção ao portal, e sou sugado. Sou jogado dez anos à frente. Quem disse que a vida não é uma aventura?


JJ: O Ouro e o Tolo

JERUSALEM JONES: O OURO E O TOLO

Aqueles eram dias estranhos. No entanto, Jerusalem Jones estava feliz, pois ganhara "honestamente" todo o ouro de Billy "Sem Pescoço". O que ele podia fazer se Billy era tão bronco? Achava que jogar cartas era uma diversão como outra qualquer. Jerusalem ficou realmente chateado quando Billy tentou atirar nele. E ficou mais chateado ainda de ter que abrir uma saída de ar na sua cabeça. Sério. Chateado mesmo. Afinal eles eram amigos de infância. Fora Jerusalem quem lhe dera o carinhoso apelido de "Sem Pescoço", que Billy aceitou prontamente, depois de os dois rolarem no chão, numa briga que deve ter durado umas três horas. Jerusalem admite que levou uma bela surra, mas era tarde demais, Billy continuou "Sem Pescoço".

Jerusalem não era homem de guardar rancores, e não foi por causa disso que jogara cartas de forma é... hmmm... "diferente", com Billy. Não. Era porque ele era desonesto mesmo. Estava em seu sangue. E ao ver Billy com aquela "montanha" de ouro, propôs logo um joguinho de pôquer. Diacho! Ele nem mesmo sabia que Billy tinha se tornado mineiro. Mas, para sua felicidade, ele se tornara sim. E continuava o mesmo bronco que era quando criança.

Billy contava suas aventuras em busca de ouro, as quais ele devia engarrafar e vender como xarope contra insônia. Seu entusiasmo em contar suas histórias ia diminuindo ao passo que ia perdendo mais e mais do ouro que tinha consigo. Até que, finalmente, as histórias acabaram junto com o ouro. Foi aí que Billy lembrou que tinha uma arma. Péssima idéia, Billy. Legítima defesa.

Quando Jerusalem saiu para a rua, com o sol forte batendo em seu rosto, ajeitou o chapéu e foi em direção a seu cavalo, para guardar a pequena sacola de ouro. Foi nessa hora que viu as iniciais P.S. bordadas, e não entendeu, e nem fez questão de entender. Mas deveria. Quando ia montar, um homem vestido bem até demais para o estilo decadente de Bether City, passou por ele e entrou no bar de onde acabara de sair. Jerusalem olhou para trás e percebeu que o homem pedia informações e que o barman apontava para Billy, morto na mesa e para ele, em resposta. Jerusalem suspirou. Pensou em montar e desaparecer, mas sentiu um frio na espinha ao ver que o homem já estava praticamente em frente a ele.

- O senhor está com algo que me pertence, Sr. Jones.
- Qual seria sua graça?
- Peter Shepherd - disse o homem apoiando a mão sobre o cabo do revólver mais reluzente que Jerusalem já vira em sua vida.

Por alguns segundos ele amaldiçoou o "Sem Pescoço" em sua mente. Mineiro coisa nenhuma. Apenas um ladrãozinho de merda. E ainda inventando histórias enfadonhas sobre sua vida nas minas. Deveria ser escritor, o desgraçado. Se bem que seria um fracasso de venda. O que fazer? O que fazer?

O homem tinha um olhar congelante. Como diabos o "Sem Pescoço" conseguiu roubar esse cara? Isso tudo era uma confirmação de que os dias andavam muito estranhos. Como se as coisas estivessem fora do lugar. Jerusalem estendeu a sacola, com todo aquele ouro que ele nunca vira em toda sua vida. Que para alguns gananciosos poderia ser pouco, mas que para Jerusalem poderia significar o fim de uma vida desonesta. Bom, não vamos exagerar.

- Eu ganhei isso num jogo honesto, Sr. - tentou Jerusalem, numa última tentativa.
- Sim, ganhou - disse o homem, sem mover um músculo da face, mesmo assim Jerusalem sentiu o sarcasmo.

Quando o homem tomou a pequena sacola com ouro, soltou e deixou cair. Em seguida tombou para a frente quase caindo em cima de Jerusalem que se desviou. Uma faca enorme estava cravada em suas costas e ele estrebuchava no chão. Em pé atrás dele estava um índio. Jerusalem lembrava de tê-lo visto perambulando pela cidade, e parecia bem inofensivo. Pelo menos até agora.

O índio estava como se fosse em transe olhando o corpo de Shepherd que dava suas últimas estrebuchadas. Quando por fim ele parou de se mover, o índio pegou a sacola do chão, segurou a mão de Jerusalem e entregou-lhe o ouro, dizendo:

- Homem do revólver reluzente estuprou filha de Pássaro Triste. E depois matou. Homem feio ajudou a distrair homem de revólver reluzente, então ouro seu. Pássaro Triste agra... - mas Pássaro Triste não terminou a frase, pois os homens do xerife não estavam nem aí para vinganças pessoais e caíram em cima dele, prendendo-o.

Homem feio. Homem feio é o cacete! Não sou tão feio assim. Pensava consigo mesmo Jerusalem.

Quando ia guardar novamente a sacola no seu alforje, Jerusalem percebeu que havia algo errado. As iniciais sumiram. O saco era o mesmo, claro que era. Sem pensar duas vezes, abriu-o, meteu a mão e puxou... pedras. Nada mais que pedras. Num canto do saloon, um velho bêbado ria de se mijar, olhando para Jerusalem. Ainda rindo o bêbado apontou para trás do saloon, e Jerusalem foi olhar e só viu a poeira dos cavalos do índio e dos supostos ajudantes do xerife. Já iam longe. E o bêbado disse:

- Fica felisshh! Eu esshhhcutei que elesshhh iam pegar era vochê, massshhh o almofadinha chegou e elessh mudaru o prano. HAHAHAHAHAHAHA! - e, rindo, o bêbado se mijou.

Odeio gente desonesta, pensou Jerusalem. E montou em seu cavalo.


terça-feira, 4 de julho de 2006

Chuvas de Abril

CHUVAS DE ABRIL


... encontrei uma enxada e ia usá-la, de qualquer maneira, para pular a cerca de arame farpado. Chovia muito e o chão era uma lama imunda. Eu provavelmente ia escorregar e não conseguiria saltar, mas eu tinha de tentar ao menos. Escorregar era o menor dos meus problemas. Eu precisava pular a cerca sem acertar o arame farpado.

Eu estava tão ensopado, que minhas roupas pesavam. Por mais frio que eu sentisse - pois a chuva era gelada - e por mais molhado que eu estivesse, eu sabia que estava suando, também. Eu sentia o gosto, na boca, da água da chuva, misturada ao meu suor e às minhas lágrimas. Mas eu não podia esperar muito. Eu poderia ser descoberto a qualquer momento. Eu tinha de pular.

A cerca nem era tão alta, mas a chuva estava tão intensa, e aumentando cada vez mais, que fazia a coisa parecer mais difícil do que era. Não dava para passar entre o arame, pois não havia espaço entre eles. Pular era possível, e era minha única chance, já que a saída ficava do outro lado e, com certeza, eu não conseguiria chegar lá sem ser notado.

O galo na minha cabeça ainda doía. Bateram na minha cabeça com tanta força que eu desmaiei na hora. Quando acordei, não entendi porra nenhuma. Eu estava trancado num cubículo que mal me cabia sentado. Nem esticar as pernas eu podia. Parecia uma espécie de armário, mas não era. Eu não sabia porque estava ali. Me sequestrar pra quê? Mais duro que pau de tarado. Dava pra ver isso só no meu jeito de vestir.

Eu estava sem meu relógio e não sabia quantas horas se passaram até que alguém abriu uma portinhola acima de mim, e me jogou um pedaço de pão. Tentei gritar para a pessoa que jogou mas, estranhamente, estava sem voz. Era a primeira vez que percebia aquilo. Eu estava sem voz. Isso acontecia quando eu ficava nervoso demais. E, com certeza, eu estava bem nervoso. Achei melhor comer o pão, e esperar para ver o que ia acontecer.

O tempo foi passando e o sono foi chegando. Não sei por quanto tempo eu dormi, mas só serviu para eu acordar todo dolorido, por dormir naquela posição incômoda. Me sentia péssimo. A meus pés havia mais dois pedaços de pão. Tentei falar alguma coisa em voz alta e saiu apenas um sussurro. E mesmo assim era necessário muito esforço.

Senti que já haviam se passado uns dois dias - ou seria mais - eu não sabia ainda porque estava ali. Ninguém aparecia, a não ser o pão que jogavam. Eu estava de saco cheio de comer pão. Foi quando começou a chover.

O chão que eu me sentava era de terra batida, e a água começou a penetrar. O lugar onde eu estava era feito de madeira. Quase como um caixote. A chuva lá fora aumentava e se transformou em uma tempestade. Eu estava com os fundilhos todo molhado, devido a água que penetrava pelas tábuas. Resolvi que era hora de tentar escapar, empurrando as tábuas molhadas com as costas. Empurrei a "parede" da frente com os pés com toda a força. Quando achei que ia fazer um esforço tremendo, a parede de madeira atrás de mim quebrou como se estivesse podre.

Rolei sem direção uma ribanceira toda enlameada, sem conseguir me segurar pra parar. Rolava, escorregava, me enlameava. Parei lá embaixo com a roupa suja de lama, mas que a chuva, de tão pesada, já ia limpando. Olhei para o alto, de onde rolei, e havia um casebre menor que um banheiro, com um rombo na traseira. Desgraça! A droga da madeira estava podre o tempo todo.

Olhei em volta e uma desgraça de uma cerca estava em volta de toda a área. Subi a ribanceira de que rolei, com muita dificuldade, e vi que havia uma saída lá na frente, só que vigiada, claro. Pela primeira vez eu via uma pessoa naquele lugar terrível. Estava em pé, com uma capa de chuva preta, observando a saída, como se esperasse alguém. Desci a ribanceira, escorregando, até voltar ao lugar onde eu estava. Foi quando eu vi a enxada e tive a idéia maluca de pular a cerca com ela.

A chuva estava constante ainda, mesmo que tivesse diminuído. Eu só pensava em como ia saltar a cerca usando a enxada como alavanca. O cabo era mais longo que o comum. A chuva diminuiu mais e vi que era a hora de fazer o que tinha de ser feito. A distância era boa. Peguei a enxada e a segurei como quem vai fazer um salto com vara. A parte de baixo dela poderia me atrapalhar, mas não podia pensar nisso. Eu tinha de sair dali.

Corri na lama, me esforçando pra não escorregar. Apoiei a enxada no chão, empulsionando o corpo por cima da cerca. Parecia que eu ia conseguir sem problemas, quando senti a cerca rasgar a parte de trás de minha calça e perna esquerda. Senti como se minha perna queimasse, e caí do outro lado, machucando o ombro e o braço direito. Fiquei deitado na lama, tentando aguentar as dores da perna e do braço, que parecia estar quebrado.

Quando tentava me levantar, uma mão agarrou meu braço que estava bom, e me colocou em pé, com uma facilidade incrível. Era o cara da capa de chuva que estava vigiando a entrada. Eu não conseguia ver seu rosto direito, pois o capuz da capa de chuva o cobria. E ele usava óculos, que estavam embaçados devido à chuva. Eu não sabia o que fazer, estava tudo perdido.

- Eu já ia te soltar, cara. Nós te pegamos por engano. Como você não viu ninguém, é só seguir por aqui e ir embora. Foi mal aí. - Disse o desgraçado com um sorriso indecifrável.

Eu sentia dores horríveis. Minha perna sangrava e eu segurava meu braço direito contra o corpo. As lágrimas se misturavam à chuva. Eu tinham lama por todos os poros. Eu olhava aquela figura de capuz e com aqueles óculos redondos, ridículos, e meu sangue fervia. Olhei para o chão e via e enxada sem o cabo, embaixo da cerca que eu acabara de pular. Me abaixei, todo ruim, pra pegar.

- Que cê tá fazendo, cara? - Perguntou o idiota da capa de chuva.

- Vou... vou levar de lembrança, posso? - minha voz tinha voltado.

- Cê que sabe. Agora se manda, que é melhor.

Quando me abaixei, peguei a enxada, sem o cabo, e ao me levantar, joguei meu corpo contra o desgraçado, que caiu na hora. Ele meteu a mão no bolso da capa de chuva e percebi na hora que ele ia puxar uma arma. Não dei tempo, levantei a enxada alto e acertei sua garganta, por cima da capa mesmo. Ela parecia bem afiada, pois passou rasgando plástico e garganta de uma vez só. O sangue espirrou e escorreu para a lama.

Percebi que a mão dele ainda estava no bolso. Puxei e segurava o que parecia um cartão de aniversário, ou algo assim, não uma arma. Aquilo me revirou um pouco o estômago. Tirei o cartão da mão e li: "Primeiro de Abril! demorou, mas você caiu, Carlos."

A chuva agora era só um sereno. Fiquei ali parado com o cartão - que estava protegido por um plástico - por um bom tempo. Olhei para o cara morto ali no chão, ainda de capuz e óculos e suspirei. Peguei o cabo da enxada, arranquei a enxada do pescoço dele, e não quis ver quem estava por trás do capuz da capa de chuva e dos óculos. Não havia porquê. Então, fui embora.

Afinal, meu nome é Arinaldo.

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