quinta-feira, 29 de junho de 2006

Cabeças Vão Rolar

CABEÇAS VÃO ROLAR
(Um Conto Baseado em Lendas Reais)


Eu corria o mais que podia, afinal eram três no meu encalço. Se me pegassem eu nem imagino o que fariam comigo. E nem queria imaginar, só queria correr.

Tudo começou naquela maldita festa de aniversário, da filha de um casal amigo meu, para qual eu fora convidado. Estava na minha, quando um moleque idiota começou a tirar sarro da minha cara, do nada. Eu tentei aguentar bem. Afinal estava na casa de amigos meus, mas estava cada vez mais difícil. Ele tentava fazer as pessoas rirem às minhas custas, e estava conseguindo. Meu sangue fervia. Foi quando ele cometeu um erro.

Eu não acreditei quando ele veio fazer gracinhas na minha cara. Se ele estivesse bêbado, eu até entenderia, mas o desgraçado só queria atenção mesmo. Quando ele abriu a boca para dizer mais alguma coisa, meu punho vôou sobre seus dentes. Ele cambaleou para trás e caiu, esbarrando em uma mesa, derrubando cadeiras. Por um segundo tudo ficou naquele silêncio do tipo "que porra, tá acontecendo?", até que eu vi, pelo canto do olho, três caras se aproximando de mim. Eram os primos dele.

Empurrei algumas pessoas e saí desabalado pelo portão. A noite estava fria, mas eu me sentia quente. Quando olhei para trás eles já começavam a correr na minha direção. Eu comecei a correr sem saber muito bem para onde ir. Mas eu tinha apenas que correr. Minhas pernas chega doíam do esforço. Saí na rua do Posto de Saúde e entrei por uma viela onde achei que podia despistá-los. Desatei por uma subida e desci desabalado até a rodovia.

Parei pra respirar, sentindo meus pulmões arderem com o ar frio da noite. Achei que tinha conseguido confundí-los quando vi que eles vinham pela outra saída da rua do Posto de Saúde. Comecei a correr de novo, aproveitando a vantagem que eu tinha. Atravessei a rodovia e fui na direção de um descampado que é usado como como campo de futebol. Havia uma passagem que dava para várias ruas, criando um labirinto, seria fácil entrar lá e sumir da vista deles. Parecia que eu estaria livre. Pelo menos era o que parecia.

Para chegar ao labirinto de ruas eu tinha de atravessar o campo, que era bem escuro por sinal. Um breu. Além de ser sinistramente deserto. Eu estava à toda, sentindo as pernas doerem consideravelmente, quando estaquei, e me joguei ao chão. Num canto do campo, num dos mais escuros, três homens rodeavam um quarto que estava ajoelhado. Os três apontavam o que deviam ser armas, já que da distância que eu estava, eu não conseguia ver. O que me escondia era apenas um montinho gramado. Por um instante esqueci dos primos corredores, que vinham bem atrás de mim. Quando vi que estavam perto fiz sinal para se abaixarem. Os idiotas andavam na minha direção rindo. Então fiz sinal de arma na cabeça e apontei para a frente. Quando entenderam se jogaram no chão ao meu lado. E me esqueceram completamente. Estavam vidrados na cena adiante. E tremiam.

E nessa hora o homem ajoelhado gritou algo que não entendi, mas acho que devia ser por estar amordaçado. Mas parece que os homens entenderam, pois gritou de volta que ele devia ter pensado nisso "antes de estuprar a fulana de tal". Merda, era uma execução. Eu tinha ouvido boatos sobre um estupro nas cercanias. E que a menina era muito nova e não estava nada bem. No meu caso estou me lixando para a sorte do desgraçado, mas não queria estar ali para ver aquilo. Os três panacas ao meu lado estavam de boca aberta. Mas não soltavam um único som.

Pensei em tentar me levantar e ir embora, mas o medo congelava minhas pernas. Medo, principalmente, que eles me percebessem, e quisessem fazer queima de arquivo. Ou apenas matar para se divertir mesmo. Esses caras não eram justiceiros. Matavam por prazer. Alguns deles eu até mesmo conhecia de vista mas, assim como todo mundo, fingia que não sabia de nada do que eles faziam. Minha esperança é que assim que terminassem o "serviço", entrassem no carro, que estava a alguns metros, e fossem embora. A estrada de saída do campo não passava por nós.

Foi quando, falando em carro, um deles foi até lá e tirou algo do porta malas. Eu não conseguia ver direito, mas um dos idiotas ao meu lado disse "puta merda, é o maior facão que eu já vi". Levou tanto tapa, dos outros dois que me deu pena. O silêncio ali era importante. Estaríamos fritos se nos pegassem. Mas o que tiraram do carro parecia ser mesmo um facão. E o cara ajoelhado também percebeu, pois começou a gritar tão horrivelmente que eu quase comecei a chorar. Um grito sinistro, abafado pelo pano que o amordaçava. Dava pra perceber que ele pedia misericórdia, perdão, chorava...

Foi quando eu escutei um barulho seco. Era o facão no pescoço dele. Mesmo sendo grande, parece que o facão não arrancou sua cabeça de uma vez, como se vê em filmes. Ele se calou, os três homens também pararam, como se esperassem alguma reação, e aí o corpo caiu para o lado. Os três começaram a rir alto. E um deles soltou um "merda, não foi de primeira, tá me devendo uma cerveja". Então, um outro pegou o facão e disse algo como, deixa eu terminar o serviço. E com mais três golpes... arrancou a cabeça.

Eu estava com taquicardia. Parecia que eu ia ter uma crise de asma, ou algo assim. Ao meu lado, os três estavam com os olhos esbugalhados. O do canto de lá, começou a chorar baixinho. Os outros não ligaram. Um deles falou em começar a correr. Não deixaram. Enquanto isso, lá na frente, as coisas ainda não tinham terminado. Para meu espanto e dos meus "amigos" comigo, os caras começaram a - inacreditável - jogar futebol com a cabeça do morto.

Pareciam três crianças se divertindo. Gritavam e riam, a cada gol que um fazia, com a cabeça do estuprador. Se a cena não fosse tão bizarra, seria até engraçada. O chorão começou a rir. Estava tendo um ataque de riso por nervosismo. Os outros dois o estapearam, mandando parar com aquilo. Um deles disse que se ele não parasse ele ia ser a próxima bola. Eu prestava atenção na briga deles, quase rindo, mesmo muito nervoso, quando ouvi um barulho de alguma coisa rolando. Um barulho que ia aumentando, aumentando até que....

Quando olhei pra frente, eu não pude acreditar: a cabeça estava rolando na nossa direção. NA NOSSA DIREÇÃO!!! Ela rolou, rolou, rolou, e parou bem no montinho gramado. Parou olhando para nós três. Virada de lado. Os olhos estavam virados pra cima, e parecia nos encarar, mesmo assim. Eu me sentia anestesiado de medo, pavor, terror, horror, tudo mais que se podia pensar. Nenhum de nós três conseguíamos nos mover. Mas esqueçemos de uma coisa. Eles estavam vindo buscar a "bola".

E lá vinham eles, na nossa direção. Eu só tive tempo para pensar numa coisa. Uma coisa que eu não tinha tempo de pensar em fazer, mas apenas fazer. Agarrei a cabeça, me levantei e a joguei, com toda a minha força, para trás deles, o mais longe que pude, e gritei:

- CORREEEEEEEEEEEEEEEEE!!!

Os três se levantaram, eu me virei, e começamos a correr. Não olhamos para trás, para ver se vinham nos pegar. Eu só esperava começar a ouvir as balas zunindo. E uma me acertar as costas. Mas isso não aconteceu. Viramos na primeira casa que ficava de frente para a rodovia. E continuamos correndo. Íamos os quatro correndo junto. Até que depois de uns minutos, paramos.

Paramos, nos encostamos em alguma parede, respiramos. Eu me sentia um lixo, e minhas pernas doíam horrores. Os três não estavam muito diferentes. Me virei para eles, e disse:

- E agora?

- Agora, o quê? - Disse um deles, quase sem conseguir falar, de tão cansado.

- Hmm... nada... esquece!

Parecia brincadeira, mas eles haviam esquecido que estiveram querendo me encher de porrada. Olhei minhas mão, e elas estavam sujas de sangue. Não conseguia sentir nada com relação àquilo. Nem mesmo náuseas. Estava cansado e apavorado demais. Mas ainda me lembrava do porque tudo aquilocomeçou.

Olhei para a camisa de um deles, e reparei que era daquelas bem caras. Então me despedi, batendo nas costas desse com a camisa.

- Bom, pessoal, então eu vou pra casa. A minha é logo aqui perto. Querem um conselho, para evitar o caminho do campo, sigam aqui por esse atalho, e vocês chegam à casa do primo de vocês, onde rolou a festa de aniversário, que a esta hora já deve ter acabado.

Soltaram uns "aham,,, tá... certo... hmmm... ok". Ainda estavam desnorteados. Alisei bem a palma da mão nas costas da camisa dele num gesto de amizade e conforto. E segui em direção à minha casa, pensando comigo mesmo:

- Viados filhos-da-puta!

domingo, 25 de junho de 2006

As Lembranças Voam

AS LEMBRANÇAS VOAM





Olhei embaixo da cama e, sim, haviam algumas memórias jogadas ali. Memórias esquecidas. Peguei-as de onde estavam, tirei a poeira, que não era pouca, e comecei a separar as mais importantes. Coisas que realmente mereciam ser lembradas, polidas e guardadas. Algumas estavam tão envelhecidas, tão apagadas, que eu tive de manusear com muito cuidado. Outras eu não conseguia mais distinguir o que eram. Podia apenas deduzir.

Me sentei, com todas elas espalhadas ao meu redor, e comecei a colocá-las em ordem, o que não era nada fácil. Peguei uma das primeiras e olhei com cuidado. Não que não fosse uma boa lembrança. Era de certa forma marcante, mas não de um jeito muito bom para todos os envolvidos. Ela é assim...

Lá na rua, o garrafeiro grita que troca garrafas por picolés ou por pintinhos. Minha mãe leva alguns cascos (garrafas vazias) e troca por um único pinto, que se torna o xodó de minha irmã do meio. A fascinação de todos nós por aquela criatura é grande. O problema é que o bicho é muito pequeno e está sempre pela casa. E como caga!. Minha irmã se apega à ele de uma maneira incrível. Eu logo esqueço.

Tudo estaria bem se terminasse por aí. O problema é que eu sempre fui desastrado. Nunca fui de olhar muito por onde ando, então... é, exatamente isso que vocês pensaram. Minha irmã quase teve um troço. Chorou muito. Mas foi um acidente! Eu não planejei aquilo. Hoje, quase 30 anos depois, ainda sou lembrado disso, sempre que há uma reunião, em que essas memórias são compartilhadas.

Coloco essa bem guardada na pilha do lado esquerdo, com um sorriso meio triste, e pego a memória seguinte a ela. Mais uma de vendedor de rua. Então eu começo a lustrá-la com cuidado...

Novamente na rua, avisto o vendedor de algodão doce. Nunca mais vi algo como aquilo, em toda minha vida. Era um senhor, bem idoso, que vinha com uma espécie de carrinho, que ele empurrava. Mais ou menos no formato daqueles carrinho de sorvete, só que parecia ser feito de alumínio ou algo assim. E dentro dele, acontecia a mágica do açúcar (e sei lá mais que ingredientes) virar algodão doce.

Me pergunto se eu corria para comprar, pelo algodão doce em si, ou apenas para enfiar a cara e olhar o algodão ser feito. Era algo imperdível. Ele girava uma manivela ao lado da pequena carroça, e dentro um um grande circulo, como uma panela, com uma haste no meio, girava também. O algodão começava a "nascer" vindo sei lá de onde. Começava a aparecer, aos poucos, vinha das paredes da "panela" e ia se colando à haste. Eu sentia o calor no meu rosto e escutava o barulho que o girar fazia. Era hipnotizante. O calor, o girar, e o barulho... vrummmm.... vrummmm... vrummmmm...!

Quando eu menos esperava, ele metia um palito dentro da "panela" e, num movimento rápido, retirava o algodão, e me entregava. E eu subia as escadas, correndo, já pensando em quando ele voltaria.

Junto essa memória a anterior e quando pego a próxima, uma estranha coincidência... mais um vendedor!?

Dessa vez eu não vejo, apenas escuto. Placplac placplac placplac placplac! É o som de um pequeno "aparelho" que um outro vendedor usa para anunciar sua chegada. Um pedaço de madeira quadrado, com algumas coisa de ferro pregada nela, de forma que balançasse. Assim quando ele movia o pedaço de madeira fazia esse barulho e todo mundo sabia quem era ele quem estava chegando.

Ele trazia consigo, no ombro, como se portasse uma bandeira, uma haste com uma placa de madeira na ponta. Placa essa toda perfurada, e nos furos estavam o objetivo dessa história, pequenos pirulitos em forma de guarda-chuva fechado. Não lembro que sabor tinham, mas era outro de nossos vícios de criança.

Lembro que, algum tempo depois, apareceu um comercial sobre alguma pasta de dente ou outro produto dentário, em que a cena era um pirulito daqueles perfurando um dente com aquela ponta, que realmente era bem fina. Só de ver aquilo, me doía até a alma. Nunca mais vi daqueles pirulitos pra vender. Mas se visse, só conseguiria me lembrar do comercial e dele perfurando meu dente.

Junto essa memória às outras, e vejo que ainda tenho muitas para serem catalogadas. Mas o sono bate. Os olhos pesam. Resolvo colocar as que faltam de volta pra baixo da cama, afinal estavam ali por tanto tempo. Volto a elas uma outra hora.

Quando as empurro de volta... uma mão sai debaixo da cama me agarra o braço e me puxa...!!!

Ok... era só pra ver se vocês estavam acordados. Até mais!


sábado, 24 de junho de 2006

A Garota Mais Bonita

A GAROTA MAIS BONITA DA CIDADE


Os dois se aproximaram do cemitério, e estavam decididos a levar a aposta adiante, por mais que suas pernas discordassem disso. Eles se consideravam corajosos e, se fosse uma noite como outra qualquer, provavelmente eles não teriam problema nenhum em estar ali, no cemitério, quase à meia-noite. Mas aquela não era uma noite qualquer.

Durante o dia, acontecera o enterro de Geiza, a menina mais bonita que os dois já conheceram. Quer dizer, conheceram é maneira de dizer. Eles nunca nem sequer trocaram um bom dia com ela, mas sempre a viam andando pela cidade, naquele seu jeito, como dizer, leve de andar. Geiza parecia sempre vestir roupas brancas, pelo menos era o que eles dois percebiam. E nunca era vista com nenhum namorado. Morava sozinha, com a avó, num canto mais retirado, numa casa que, o povo dizia, era mal-assombrada.

Geiza tinha uns traços quase orientais que, ao que parece, eram herdados da mãe que nunca conhecera, nem tampouco as pessoas da cidade. O pai morrera quando ela tinha 10 anos e ela foi morar ali, com a avó. As duas moravam lá, sem perturbar ninguém, até que a velha aparecera na cidade, coberta de sangue, dizendo coisas sem sentido, até que entenderam que a sua neta, Geiza, havia sido morta, na velha casa em que as duas moravam. A garota mais bonita da cidade, com seus cabelos negros, um pouco curtos, que franzia o nariz ao sorrir para as pessoas, agora estava morta.

Alguns homens acompanharam a avó até a casa, e os dois, de gaiatos que eram, conseguiram ir junto, pois na confusão, ninguém notara os dois, ou estavam preocupados demais para se importarem com eles. Quando lá chegaram, e abriram a porta, a coisa toda não era bonita de se ver. A garota mais linda tivera uma morte horrível. Quando os dois tentaram olhar lá dentro, levaram um safanão, e foram mandados embora.

Ficaram sabendo depois que tiveram de juntar pedaços dela, e que quase não sobrou nada para o enterro. Por mais que perguntassem a avó o que havia acontecido ela, que já não era muito boa da cabeça, dizia coisas que não faziam o mínimo sentido: "Botes, cataram, pelizorentes, marca, sorenes, sorenes, quer, levaram Geiza, levaram Geiza, levaram... Geiza!".

As autoridades desistiram, e apenas providenciaram que internassem a velha. E, também, a cidade se mobilizou para que o enterro de Geiza acontecesse. Foi tudo muito bem organizado. Os cidadãos recolheram doações e o enterro acontecera naquela tarde. E agora era noite. A noite após o enterro de Geiza. A garota mais bonita da cidade.

Os dois começaram com uma conversa besta de quem seria corajoso suficiente para ir ao cemitério e e ir até a cova de Geiza, uma garota que morrera de forma estranha, numa casa que era considerada mal-assombrada, e sem nenhuma pista do que acontecera. Era apenas brincadeira, mas acabou que nenhum dos dois queria dar o braço a torcer de que não teria coragem. E foram. E estavam ali agora.

Conforme combinaram, tirariam cara ou coroa, para ver quem iria primeiro. Enquanto o outro esperaria lá fora a sua vez. A prova de que estivera lá, seria trazer alguma das flores do túmulo que, com certeza, era as únicas mais frescas do cemitério.

E assim foi, deu coroa e um deles, tentando manter a pose de coragem, adentrou o cemitério. Os barulhos, que antes ele nem notava, agora pareciam estar em todo lugar, e os mais fantasmagóricos possíveis. Mas ele não podia parar, não podia perder a aposta. Era aquilo, ou colocar um vestido, se maquiar e dançar forró com o Tião, no meio da pracinha.

Ele já estava chegando. Nunca vira uma noite tão escura, mesmo assim avistou as flores no túmulo. As pernas pareciam de manteiga, e ele começou a sentir uma vontade desgraçada de mijar. Graças a Deus ele já estava quase terminando aquilo. Pegou uma das flores... ah, melhor pegar mais de uma, pra garantir. Quando se virou para ir embora, ele só viu aquele rosto quase colado ao seu, dando aquele sorriso e franzindo o nariz. Ele sentiu o líquido quente descer por suas pernas, molhando seu short.

... ... ... ...

- Acorda, cara! Vamos se mandar daqui. Merda! Acorda
- Hã! Geiza...?
- Que Geiza o quê? Eu fiquei com um medo desgraçado de ficar lá fora sozinho. Você tava demorando, eu vim atrás. Quando ia falar você se virou, olhou pra mim, se mijou e desmaiou. Mas eu to com tanto medo de continuar aqui que nem vou te sacanear por isso. Vambora!
- Era a Geiza, cara! Eu vi.
- Tá, seja o que você quiser, agora levanta dessa poça de mijo e vambora.


Quando ele se levantou, os dois ouviram uma risadinha feminina. Pararam no mesmo lugar. A respiração quase parando. Se eles pudessem se ver, achariam suas poses ridículas. Os dois meio acocorados, com as mãos espalmadas para a frente, olhando ao redor sem mexer o corpo. Esperando que acontecesse alguma coisa.

Então ouviram a risadinha de novo. Daquelas em que a garota coloca a mão sobre a boca timidamente. Mas naquele lugar aquilo era tudo, menos bonitinho.

Queriam correr, mas as pernas pareciam travadas. A risadinha de novo. Mais perto. Eles estavam de costas para o túmulo de Geiza e, mesmo sabendo o que os esperava, olharam para trás. E, sim, ela estava lá, sentada sobre o túmulo, com um daqueles vestidos brancos que costumava usar.

- Vocês são bobos, garotos. Vê se não vão correr, ou vocês nunca vão saber o que aconteceu comigo. - Disse Geiza, através um sorriso deformado , metade do lado da cabeça faltando, todo o seu interior à vista, pelo vestido rasgado, e segurando uma machadinha que tinha pedaços de carne, sangue, e cabelo colados nela.

Ela deu a risadinha de novo.

E eles correram. Correram mais do que suas pernas podiam. Mais do que sabiam que podiam correr. E nunca mais voltaram àquele cemitério. Na verdade, nunca mais voltaram àquela cidade.

Tião está esperando até hoje para dançar um forró com um de seus amigos vestido de mulher.


domingo, 18 de junho de 2006

Dr. Imperius

DR. IMPERIUS

Era mais uma daquelas batalhas apocalípticas e eu já estava lutando a horas com o Dr. Imperius. Metade da cidade já estava destruída e, mesmo assim, nem eu, nem ele dávamos sinais de que a luta estava perto de acabar. Ele usava todas as suas máquinas criadas com seu gênio criminoso. Sim, um verdadeiro gênio que poderia salvar a humanidade milhares de vezes, se usasse sua genialidade para o bem. Enquanto que eu passei no vestibular a muito custo. Superpoderes não vêem, necessariamente, acompanhados de uma grande inteligência. Aliás, eu estava indo mal na faculdade de Jornalismo, e não era por causa de minha vida de super-herói.

Perdido nesses pensamentos, me distraí da luta, deixando que o Dr. Imperius abrisse um rasgo considerável em meu peito. Ele estava vestindo uma armadura em que uma das garras era feita de um material raríssimo, que atravessava minha invulnerabilidade, apesar de não tirar meus poderes, nem essas coisas que se costuma ver em quadrinhos. Provavelmente o Dr. Imperius - que na verdade se chamava Astolfo, fazendo eu preferir chamá-lo Imperius mesmo - acabara com sua fortuna novamente, na compra desse material raro. O problema é que ele sempre conseguia se reeguer financeiramente. O mais estranho é que não eram com negócios escusos, mas honestos. O seu prazer era mesmo tentar me destruir, talvez apenas para mostrar que podia. Ou quem sabe esse desgraçado precisasse de mim, para preencher sua vida vazia. O problema era que pessoas se machucavam nessa brincadeira.

Eu não estava conseguindo me concentrar na luta. Recebi várias descargas de uma arma que ele chamava de Buraco Negro. Eu não sei do que ela era feita - já disse que essa coisa de super-heróis ser gênio é só nos quadrinhos - mas ela estava começando a abrir um buraco no espaço-tempo a minha volta e aquilo cismava em me sugar. Se o que diziam sobre buracos negros era verdade, seria realmente o meu fim se eu não arrebentasse aquele troço.

Foi quando a arma parou de disparar sozinha e o tal buraco se fechou. Ouvi ele gritar algo sobre uma maldita bateria de terílio 9, que teria comprado de alguém não muito honesto, mas não eram bem essas palavras que ele estava usando agora. E, ao que parecia, sua armadura era alimentada pela mesma bateria, pois começou a pipocar, sacudir, engasgar, parecendo um automóvel velho. Porém, antes que a bateria pifasse de vez, ele consegui disparar uma rajada do tal Buraco Negro. Mas se eu ia a algum lugar, ele ia junto. Agarrei o seu pulso - ou melhor, o pulso de sua armadura - e, quando fui sugado, levei-o junto.

Senti um empuxo no meu estômago, como se ele tivesse sido sugado por um aspirador de pó e depois senti ele ser atirado para a frente, como se batesse em uma parede de concreto. Dr. Imperius nã estava melhor que eu. Ele vomitara dentro do capacete de sua armadura. Estávamos flutuando no espaço em um ponto que não conhecíamos. Pelo menos EU não conhecia. Eu podia ficar sem ar por algumas horas. Mas e o Imperius?

Ele apertou algum botão no peito de sua armadura e o vômito foi aspirado de seu capacete. Não era algo bonito de ser ver. Vômito flutuando pelo espaço. Aquilo parecia ter tirado sua vontade de lutar. Ele me jogou alguma coisa e me apontou a boca. Era um aparelho para colocar sobre a boca. Não era um respirador, pois ele sabia eu que não precisava, pelo menos não por enquanto, de ar. Era um comunicador. Ele queria conversar:

- Hehehehe! Estamos mortos. Eu sei que você pode ficar horas sem respirar. Mas você não vai conseguir achar nenhum planeta com atmosfera respirável antes dessas horas acabarem. Eu não tinha planejado vir junto quando construí o Buraco Negro, mas... merdas acontecem... heheheheeh! Minha bateria acabou, não tem como me levar de volta.

- Então temos tempo apenas para eu saber de você o porque disso tudo, Astolfo!

- DR. IMPERIUS!!! DR. IMPERIUS!!!! ODEIO QUANDO VOCÊ FAZ ISSO, SEU DESGRAÇADO!

- Hehhehehe! Eu sei...

- Tá certo. Você quer saber o motivo de meu ódio. Tudo bem. Estamos naquela cena clássica em que o vilão revela seus motivos e blá blá blá. Tudo bem. Como você não vai sair vivo dessa mesmo, não vai poder contar pra ninguém o que vou te dizer. Isso vai morrer aqui, literalmente falando. Pois bem, eu te odeio por causa da minha esposa.

- Como assim, sua esposa? Nem sabia que você era casado! O que tenho a ver com ela?

- Eu estou contando, tem como esperar eu chegar lá? Porque a pressa? Vai a algum lugar? Eu e minha esposa éramos o casal perfeito. Nem parecíamos casados há mais de 20 anos. Parecíamos amantes. Nossa vida era perfeita. Mas no sexo era onde nós nos dávamos melhor ainda. Todas as nossas fantasias realizávamos sem medo ou pudor. Todas, se é que você me entende. Tudo ia maravilhosamente bem em minha vida. Eu era milionário e tinha a esposa perfeita.

Até o dia que você apareceu, sabe-se lá vindo de onde. Tudo começou com um pedido que achei inocente da parte dela: ela queria que eu me fantasiasse de você. Estávamos acostumados a brincar com nossas fantasias, coisas comuns como ela de enfermeira, eu de policial e coisas assim. Eu tentei ver aquilo de forma prática e tentei - eu juro que tentei - levar na boa. Consegui quem me fizessem um uniforme idêntico, tão ridículo quanto o seu.

- Ei, pera lá...

- Cale a boca! Estou falando! Então eu consegui o tal uniforme. Tudo em nome da felicidade de nosso casamento. Na noite da estréia do uniforme, ela estava mais sensual que nunca. Cada poro de sua pele exalava sexo. Eu até mesmo esqueci que estava vestindo aquela roupa vergonhosa. Preferia estar vestido de Bozo. Mas tudo bem.

Avancei em direção a ela, nua e linda, e a abracei. Começamos bem, mas eu tinha de tirar aquela coisa, para poder consumar o ato. E quando tentei isso, a capa esroscou no pescoço dela. Não sei como aquilo aconteceu, mas eu caí da cama e só escutei um estalo. A capa havia não só a estrangulado, mas quebrado-lhe o pescoço.

Eu gritei com todas as minhas forças. Tentava ressuscitá-la, mas eu sabia que não era mais possível. E só uma pessoa era culpada disso: VOCÊ!!!

- M-mas que diabos eu fiz? A culpa não foi minha!

- Claro que foi! Se você não tivesse aparecido. Se a mídia não tivesse inundado a cidade e o mundo com suas "façanhas", ela não teria adquirido esse fascínio por você e por seu uniforme brega!

O fato foi que, com minha influência, consegui me livrar de qualquer problema com relação à morte dela. Até mesmo apaguei da minha vida que fui casado, mas dentro de mim, ardia a vingança. Eu tinha de vingar minha amada. Por isso me tornei o Dr. Imperius, e ia destruir você. Como finalmente eu consegui. Não faço questão de viver. Minha missão foi cumprida.

De repente, num clarão súbito, desaparecemos do lugar onde estávamos e reaparecemos onde estávamos lutando antes. O mesmo efeito devastador no estômago se fez sentir.

- Não. Não acredito. O efeito da arma Buraco negro era... era... TEMPORÁRIOOOOO! NÃAAAOOOO!!! - gritava Imperius, e desmaiou.

Agora era só levá-lo preso. Mas sabia que assim que ele escapasse, como sempre fazia, ia começar tudo de novo. Eu tinha que pensar em algo, já que eu sabia coisas que não sabia antes. Tirei todo seu equipamento, deixando-o só de sunga, para não correr nenhum risco. Ele começava acordar. Olhei para meu cinto e tive uma idéia:

-Hãaa.... m-mãe... quero meu Nescau... hã... FILHO DA PUTA! PORQUE ESTOU DE SUNGA???

- Seguinte, Imperius: mesmo sem saber se eu sobreviveria, eu gravei nossa conversa em vídeo - apontei para meu cinto!

- Seu canalha, mentiroso de uma figa, você não tem tecnolog...

- Certo. Você vai pra cadeia e vai cumprir sua pena, seja ela qual for. Mas se quiser fugir e pagar pra ver, uma boa edição de vídeo pode mostrar que você gostava de se fantasiar de Bozo na hora de fazer sexo. Como ficamos?

- ... .... ... AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!! MALDITOOOOOOOO!

E foi assim que pude ir pra casa, descansar, feliz de ter esse cinto com essa fivela estravagante. Presente de mamãe.



quarta-feira, 14 de junho de 2006

Dias de um Futuro Distante

DIAS DE UM FUTURO DISTANTE

Acordei sobressaltado, no meio da madrugada. Tive um sonho muito esquisito, provavelmente por ter ficado lendo gibi até tarde, pra pegar no sono. Me levanto e vou ao banheiro. Acho que perdi o sono. Eu devia escrever isso, senão eu vou esquecer. É louco demais para que eu esqueça de contar a alguém. Pego a pesada máquina de escrever antiga, que ganhei do tio Gerardo e vou lá pra varanda, torcendo para que o barulho não acorde ninguém. Nossa, como faz frio. Volto e pego meu cobertor, me cubro e me preparo para escrever. O sonho foi algo mais ou menos assim...

Eu estava morando em um apartamento na Zona Sul, em Botafogo - engraçado, poucas vezes fui a Botafogo, nem gosto de lá - e estava casado. Eu não vejo minha mulher no sonho, não sei como ela é. Estou só no apartamento. Estou em um quartinho, sentado em uma cadeira dessas com rodinhas e, na minha frente, tem o que se parece com um daqueles computadores que o tio Sálvio me mostrou uma vez, só que parece ser mais sofisticado. Estou conversando com pessoas através dele. Esquisito, isso. Eu converso com elas, escrevendo na tela do computador. Estou falando sobre revistas em quadrinhos. Eu sabia que era culpa de ter lido gibi até tarde.

Forço a memória para lembrar de mais detalhes. Uma das pessoas que converso me diz que vai enviar alguns gibis pelo computador. Eu balanço a cabeça sorrindo comigo mesmo. Nossa, eu sonhei com algum tipo de paraíso onde eu não preciso pagar por gibi. A coisa vai ficando mais engraçada ainda. Eu recebo o gibi que a pessoa envia, e começo a ler página por página na própria tela. Então a pessoa do outro lado, escreve que também quer que eu envie um gibi qualquer. Eu digo para esperar que eu vou fazer.

Fazer? Vou ser desenhista de gibi? Do jeito que eu não sei desenhar uma linha reta, acho difícil. O sonho continua. Eu pego uma revista numa estante atrás de mim (agora quero ver, vou enfiar pela tela adentro?) e abro algo que está ao lado da tela do tal computador. Parece ser uma espécie de máquina de xerox muito compacta. Levanto a tampa e, no interior, ela se parece mais ainda com uma máquina de xerox, pois tem uma superfície de vidro. Eu abro a revista, mas ela não fica direito lá dentro. Parece não caber, sei lá.

Então, no sonho ainda, pareço procurar algo pela mesa. Encontro. É uma espécie de navalha. Meus Deus! Eu recorto as páginas do gibi e vou colocando uma a uma na máquina que parece de xerox! Só em sonho mesmo para eu cortar gibi. Que coisa mais louca!

Lembro agora que as páginas passavam da máquina de copiar, para o computador. O sonho adianta um pouco e já tenho a revista toda dentro do computador, sem saber exatamente como. Olho na telinha menor (sim é uma tela dentro da outra) em que converso com a outra pessoa e digo que só falta contratar...? compactuar...? concatenar...? Não lembro a palavra, só sei que faço algo que faz com que as páginas se juntem em uma coisa só e envio a revista pela pequena tela, para a pessoa do outro lado, de quem só vejo as palavras.

O sonho adianta mais ainda e eu agora estou com dezenas de revistas ao meu redor, e a maquininha de "xerox" trabalha sem parar. No computador há uma imagem... não, na verdade, várias imagens, bem definidas (não como aquelas do computador do tio Sálvio) e a imagem que mais se destaca é de um círculo onde está escrito duas letras, um R e um A. Uma sigla, obviamente, mas de que? Roedores Anônimos? Rimas Abstratas? Rodízio Amarelado?

Não sei o que tudo aquilo significa, mas me parece que não envio mais os gibis a uma só pessoa, mas sim para várias ao mesmo tempo, através daquela... coisa, com aquela sigla. Como? Aperto um botão... aliás, devo dizer que é muito estranho. O computador, no sonho, tem um troço com dois botões apenas, separado das teclas. Aperto um dos botões dele e aparecem algumas coisas escritas numa outra telinha. Reconheço que são várias pessoas pedindo mais gibis por ali, umas agradecem pelas que já foram enviadas, e junto há umas mensagens sem sentido como "Primeiro de novo", "Mais uma vez no pódio", "Amo-vos". Mas o que eu poderia esperar de um sonho desses? Coerência?

A memória começa a querer apagar o sonho, mas consigo me lembrar um pouco mais. Talvez a parte mais bizarra. Estou no apartamento, quando recebo em casa um jornal com duas páginas, frente e verso, repleto de matérias sobre o estranho processo de envio de gibis copiados por computador. Ah, isso, os gibis são copiados, agora entendi, como em uma máquina de xerox mesmo. Mas lembro que ainda ficavam coloridos. E sim, um jornal com duas páginas elogiando e... nossa, me entrevistando. Isso já não é mais sonho, é delírio mesmo.

Não consigo lembrar de muita coisa mais. Sei que sempre sonho com gibis, isso há um bom tempo. Mas, geralmente, sonho que estou em um sebo ou banca de jornal vendo alguma revista que não posso comprar. Esse, com certeza foi o mais estranho de todos. No caso, eu não precisaria mais trocar gibi com ninguém? Só os copiaria e os mandaria pelo computador? Nem posso imaginar como seria feito isso. Entraria no computador e a revista viajaria até a outra pessoa pelo ar? Por fio de telefone? Antena UHF? Não faço idéia.

- Eudi, o que tu tá fazendo aí nesse frio a essa hora da madrugada?! - Ah, minha mãe.
- Nada mãe, fiquei com insônia. Já vou dormir.
- É bom mesmo.

Eu guardo a máquina de escrever, e o texto eu coloco na estante. Tudo isso me deu fome. Vou até a geladeira ver se tem algo pra comer. Quando abro só vejo um pedaço de rapadura que a mãe trouxe de viagem. Mas... hmm... RA de rapadura? Que besteira! As duas letras não começam uma palavra. Tenho certeza que são uma sigla. Ademais, quem seria tão idiota a ponto de colocar o nome de alguma coisa de "Rapadura"?

Começo a ter um ataque de riso.


segunda-feira, 12 de junho de 2006

Fatos Fictícios

BASEADO EM FATOS FICTÍCIOS

Eu estava trabalhando em Ipanema, quando estreou o maldito do Titanic e, sim, eu confesso, fui assistir. Mas não me envergonho, afinal eu faria algo bem pior mais tarde: compraria o filme, naquela caixa cheia de frescura, quando do lançamento em vídeo. Mas o terror aqui não é esse. O terror é outro...

Eu saí do trabalho, já meio tarde. Peguei um ônibus e fui até a Cinelândia, assistir no cinema de lá, que no momento esqueci o nome. E, entretido (ah, vai, a parte do naufrágio tem seus méritos) não vi que já era bem tarde. Muito, mas muito tarde da noite. E eu estava sozinho.

Para quem conhece o Centro do Rio de Janeiro, sabe como aquilo parece um formigueiro durante o dia, e era assim que eu estava acostumado. Nunca tinha visto o Centro como um deserto. Nem podia imaginar como seria, nem nos meus piores pesadelos. Nunca parara para pensar nisso. E agora não precisava pensar, eu estava lá, vendo exatamente como era.

O Centro estava completamente vazio, e devia ser mais de meia-noite. Muito mais. Eu estava sem relógio. Não sabia se eu estava imaginando coisas ou se realmente aquilo estava tão deserto quanto parecia. Eu ainda morava na Baixada Fluminense na época, e precisava chegar até a Central do Brasil, para pegar um outro ônibus e ir embora. Só que não passava nenhum ônibus pra me levar até a Central!

Eu nunca devia ter ido assistir ao maldito Titanic tão tarde e tão só. Eu estava no início da Avenida Rio Branco e não aparecia um maldito ônibus sequer. Então eu resolvi que ia a pé. Era melhor andar do que ficar ali parado, imaginando mil coisas. Quando eu me virei para ir embora do ponto do ônibus, passou um a toda velocidade. Eu não vi de onde veio aquele filho da puta. E não deu sequer pra tentar correr.

Não parei pra pensar nisso e continuei andando. Os prédios que de dia pareciam inofensivos, agora escondiam um ar sobrenatural. Minha garganta estava seca de tanto medo, e eu detestava aquele silêncio o qual eu nunca escutara ali no Centro. Se bem que silêncio a gente não escuta mesmo. Ah, eu não estava pensando direito mesmo. Ainda estava longe da Avenida Presidente Vargas, de onde eu seguiria reto até a Central.

Toda vez que tinha de passar entre dois prédios eu... De repente, vindo de detrás de um dos prédios alguém me agarrou e me puxou. Me deu um soco no rosto, fazendo meus óculos voarem longe. Eu tentei me desviar de qualquer outro golpe sem conseguir ver o agressor, quando levei um segundo soco no estômago. Quase vomitei, não sei por causa do soco ou por causa do medo. Fui atirado contra a parede, e senti sua mão me apertando o tórax, como se quisesse me manter longe e imóvel. Eu não conseguia ver quem era, e varria o chão tentando ver onde meus óculos caíram.

Quando vi onde estavam, tentei me livrar da mão que me empurrava contra a parede e levei outro soco no lado do rosto. Tão forte que senti o rosto ficar dormente e inchar. Enquanto a mão continuava a me empurrar contra a parede a outra vasculhava meus bolsos. Chegou a rasgar o da minha camisa. A figura nada dizia, só ofegava e tentava me manter quieto com aquela mão no meu peito, que parecia ter uma força sobre-humana.

Eu estava tremendo de medo, nervosismo e raiva. Eu não conseguia falar nada, estava começando a entrar em choque ou acho que ia desmaiar. Meu rosto parecia estar do tamanho de uma bola de futebol. Foi quando o fulano conseguiu arrancar minha carteira. Ali, na escuridão, eu notei que ele vacilou ao conseguir pegá-la. Acho que entendi, ele sabia que ia ter de me largar para ver o que tinha na carteira. Foi quando ele disse ameaçadoramente:

- É só sua imaginação, cara!

Toda vez que tinha de passar entre dois prédios eu criava toda essa situação horrível em minha mente. Quase tão real quanto se acontecesse de verdade. Eu precisava chegar rápido pelo menos à Presidente Vargas. Apertei o passo, tentando esquecer a escuridão, o silêncio, a minha imaginação. Fui andando tão rápido quanto podia. Eu, que já ando rápido sem estar com medo.

Desemboquei na Presidente Vargas, mais ampla, menos escura. Respirei fundo e fui em direção a Central. Logo cheguei e entrei no Central/Parque São Vicente. Seria uma longa jornada até em casa. Eu estava cansado. E não queria pensar em mais nada. Foi quando entraram dois assaltantes no ônibus...

... Eu balancei a cabeça fortemente, vi que no ônibus só havia eu, mais uma pessoa, o trocador e o motorista, que começava a arrancar com o ônibus. Mandei minha imaginação para a puta que pariu, encostei a cabeça no vidro e dormi.


sábado, 10 de junho de 2006

Cordel

A CHEGADA DE LAMPIÃO AO INFERNO

Mesmo quando eu era criança ainda, uma coisa era evidente a todos: eu gostava de ler. Eu lia qualquer coisa que me caía nas mãos. E as pessoas gostavam de me dar coisas para eu ler. Minha mãe mesmo percebia isso, ou eu fazia questão de que ela percebesse, e estava sempre me dando trocados para que eu comprasse algum gibi. Lembro de uma vez em que estávamos esperando o ônibus e ela me deu umas moedas e eu comprei uma Pato Donald, que era o que dava. Tudo bem era fininha, eu iria devorar em segundos, mas era minha.

Depois que meu pai deu no pé, minha mãe teve alguns namorados, afinal ela é filha de Deus, também. E era incrível a minha capacidade de fazer com que eles pagassem gibi pra mim. Um deles até mesmo gostava de lê-los e de comprar. Eu acabava catando pra mim. Algumas vezes eu não tinha pena do bolso do cidadão. Eu sabia que o gibi mais caro era o Disney Especial, e era o que eu pedia.

Um dos que sofreu muito com isso, e que tinha um nome muito peculiar (Daguiberto), acho que tentou minimizar esse tipo de prejuízo que eu lhe dava. Começou a me dar livros. Todo tipo de livro. A maioria deles, acho que era algum tipo de refugo, coisas que ele não queria mais. Ele me encheu de vários volumes de uma tal de O Livro de Cabeceira do Homem que eu detestava. Mas um dia ele chegou com um livro que eu não esqueço até hoje.

Ele chegou e me entregou um livro, sem capa, grande e pesado. Parecia uma Bíblia de tantas páginas que tinha. Um verdadeiro chumaço. Pensei comigo "mais uma bomba!". Mas eu estava enganado. Não lembro o nome do dito cujo, infelizmente, mas ele era todo, todas aquelas centenas de páginas, só de cordel. Ou seria uma coletânia de Literatura de Cordel.

Eu não sei quanto tempo passei lendo aquele livro. Mas sei que... bom só tem um jeito de contar o resto dessa história...

A História do Livro de Cordel:

Não parava mais de ler
Nem de noite, nem de dia
Até andando eu já lia
E ninguém conseguia entender
Qua diabo eu tanto fazia
Não brincava, não corria
"Esse minino vai morrê"

Pra onde fosse eu levava
Até na rua andando
Pros amigos ia mostrando
E as coisas que me agradava
Do livro eu ia contando
O cabra ia escutando
Mas logo ele cochilava

E eu pensava assim comigo
Será que esse povo não vê
É só pegar o livro e lê
E vai ver nele um amigo
Algo que não vai esquecer
Por mais tempo que se dê
Por mais que se fique antigo

Pois assim comigo se deu
E uma história não esqueci
Uma que gostei quando li
Que se tornou algo meu
Mesmo depois que cresci
Da mente nunca perdi
Com o tempo nunca morreu

Falava de Pedro Malasarte
E de como um rei poderoso
De um reino muito famoso
Chamou Pedro a parte
Prometendo ser generoso
Se Pedro (um mentiroso)
A doença do reino curasse

Todo o povo gemia
Todo mundo doente
E Pedro chamou, ei gente
E todo o povo ouvia
O que Pedro tinha na mente
Pegar um daqueles doente
E fazer a cura que prometia

O povo já estava com tédio
E Pedro falou mais devagar
Um de vocês vou pegá
E fazer desse o remédio
Sim, eu vou cozinhá
Pois só assim vou curá
Essa praga, ou eu alejo!

E cada um foi saindo
Quando Pedro pra ele apontava
Já estou bom, assim falava
Outro pulava sorrindo
Já outro as muletas jogava
O povo Pedro "curava"
E o rei pagou ao minino

E do livro tenho boas lembranças
Aquele antigo presente
Que me fez ver diferente
O meu tempo de criança
E de um modo inocente
Emprestei para alguém mais carente
E no mundo ele faz sua andança.


Pois é, me empolguei. Mas essa é mais ou menos mesmo a história desse livro que ganhei de presente e que, sim, acabei perdendo pois emprestei pra alguém a quem fui mostrar. Se bem me lembro era uma menina de quem eu gostava e que adorou o livro. Bom, acabei ficando sem o livro e sem a menina. Mas tudo bem, eu já havia lido e relido, só sinto por eu não saber guardar minhas coisas, relíquias do passado.

Só as guardo na lembrança.




P.S.: Enquanto eu dava uma pesquisada no Google sobre cordel, achei um site com uma proposta interessante, mas que me parece, não foi adiante, já que está sem atualização desde 2004: é o MANGÁ DE CORDEL. Pena que o projeto parece não ter seguido adiante.


quinta-feira, 8 de junho de 2006

Memórias

MEMÓRIAS

Quando eu via aquelas propagandas do Exército, sobre completar 18 anos, eu simplesmente tremia nas bases. Aquilo era me soava como quando minha mãe ficava irada comigo - ou com qualquer um de nós - e gritava: "EU VOU TE MANDAR PARA UM COLÉGIO INTERNO!!!". Acho que, na verdade, ela nunca nem vira um colégio interno, e muito menos nós, ainda crianças, sabíamos exatamente como era um. Mas se ela falava aquilo com tanta veemêcia e gritando, só podia ser algo muito ruim. Mas, enfim, eram apenas ameaças. Mas o Exército não, o Exército era bem REAL.

Meu medo era por vários motivos. Em qualquer lugar que eu chegava, onde havia um grupo de garotos, eu era o motivo de chacota, apelidos e, às vezes, violência por parte dos mesmos. Geralmente pelos caras mais fortes, como é comum. Me imaginar num lugar cheio deles, me apavorava. Sem contar o fato de eu ser tímido, sem jeito e franzino. E, como contavam, teria de ficar pelado junto a um monte de homens, durante a seleção. Isso era o fim da picada. Eu queria que meus 18 anos não chegassem nunca. Mas eles chegaram...

Eu com 18 anos, mais magro que nunca, quase voando, tinha de ir me alistar. O dia parecia o mais negro de todos os dias. Acordei de madrugada e fui para uma parte de Duque de Caxias que eu nunca vira antes. Um lugar cheio de matagal em volta, no fim do mundo. A fila do lado de fora era enorme, e minhas esperanças estavam justamente aí: sobrar por excesso de contigente - acho que é assim que se diz.

Eu nem encarava ninguém, apenas amaldiçoava a demora que não acabava nunca. O portão não abria, ninguém chamava. Não acontecia nada. Até que alguém, enfim, abriu o portão e nos mandou entrar. Entramos num pátio amplo, e nos mandaram esperar mais ainda. Eu quase xinguei todos os parentes do soldado que disse isso. Quase, só quase.

Depois de muita espera, nos mandaram formar fila e entrar na sala de seleção. O pior momento se seguiria: ficar pelado junto de um monte de gente desconhecida. Eu, que não consigo nem mijar em banheiro público, com alguém perto de mim.

Então seguimos em fila indiana. Nos mandaram tirar a roupa, mas não toda. Devíamos ficar de sunga. Eu nem acreditei. Dei graças ao santo protetor da nudez alheia, fosse lá quem ele fosse. Tirei a roupa, inclusive meus óculos, ficando só de sunga. Seguimos em frente, preenchemos tudo que tínhamos que preencher. Mas, claro, eu teria de ficar nu para o doutor. Foi algo bem rápido. Vapt vupt. Acho que para avaliar o funcion... ah, sei lá. Eu dei graças que tinha acabado. Ou quase. Eu ainda estava com o coração na mão, sem saber se ia ser selcionado ou não. E parece que a decisão era agora.

Ele me pediu pra ler aquelas letras, naqueles cartazes de exame de vista. Comecei bem, e preferi não tentar mentir fingindo que não conseguia ler aquele A enorme. Fui lendo até onde eu realmente conseguia, o que acho que deu até a quarta linha, se bem me lembro. Parece que aquilo não o deixou muito satisfeito. Perguntou se eu usava óculos. Eu disse que sim. Ele pediu pra ver. Tirei da sacola e entreguei a ele, que o colocou no rosto e tirou rapidamente. Escreveu alguma coisa e disse: "dispensado (do serviço militar"). Credo, meus óculos não são tão fortes assim, nem chegam a fundo de garrafa.

Que preconceito contra nós, quatro-olhos!

domingo, 4 de junho de 2006

Aqueles Olhos

AQUELES OLHOS

Olhos tristes. Era uma tristeza tão grande que não pude deixar de notar. Havia um silêncio em seus lábios que dizia muito mais que qualquer palavra sobre sua tristeza. Eu estava sentado um pouco mais distante, e ela estava ali à minha frente, apenas triste. Seu namorado, ou o quer que fosse estava de costas para mim, e olhava para o lado, como se procurasse fugir de seus olhos tristes, de sua boca muda, de seus cabelos negros. Eu me perguntava o que faria alguém abandonar alguém tão.... tão... expressiva.

Eu podia enxergar em seus olhos que ela fora abandonada. As dezenas de pessoas em volta continuavam suas vidas, conversavam, sorriam, falavam alto. Mesmo assim, mesmo com todo aquela enchente de vozes à minha volta, no rosto dela, o mundo parecia silencioso. Sua pele clara, seu cabelo negro, eram a imagem de uma história que chegara ao final.

Quando um amigo dos dois sentou-se ao lado deles, começou a conversar e a fazer algumas piadas, pelo que entendi ele não percebeu nada que estava se passando. Não ouviu o silêncio. Ela sorria, para disfarçar sua dor, sua tristeza. Um sorriso que se misturava à sua angústia.

Seu parceiro, o que deixara seu rosto triste, continuava sem olhá-la de volta nos olhos. Talvez não quisesse se perder na profundeza deles, como eu acabei me perdendo. De fora eu, agora, parecia saber mais sobre ela, do que ela mesma. Por poucos segundos, seus olhos se encontraram com os meus e eu não desviei, não fugi. Deixei-a entender que eu sabia. Tampouco ela desviou de meu olhar.

Alguém esbarrou na minha cadeira e eu me distraí um momento. Eu esbarrei numa tecla do laptop e, sem querer, apaguei o texto. Eu a perdi. Perdi para sempre. Na minha frente não havia mais uma princesa de olhos tristes. Apenas uma tela em branco e um cursor piscando. Tomei um gole do café. Quem estava triste agora era eu. Não conseguiria mais reescrever tudo novamente.

Na cadeira em frente não havia mais ninguém. Na tela do notebook também não. Passei a mão nos cabelos nervosamente. Terminei o café, fechei meu laptop. Desisti de tantar escrever qualquer texto que fosse para o blog. Talvez eu apenas coloque as HQs e nada mais.

Num susto notei que havia esquecido minha carteira lá na mesa. Subi correndo pela outra escada rolante. O coração saindo pela boca. A carteira estava no mesmo lugar. Olhei dentro pra ver se estava tudo em ordem e notei que havia um pedaço de papel rasgado, que eu não lembrava de ter estado ali antes. Abri, com a respiração ofegante e li:

"Meu bem, não esqueça de trazer pão e leite quando voltar".

Suspirei e fui embora em direção à padaria.


sexta-feira, 2 de junho de 2006

Memórias a Mais

MEMÓRIAS A MAIS


Saio para o sol da manhã e me espreguiço. Passo pela rede pendurada no quintal, abro o portão e fico a observar a rua lá embaixo. Sempre tão quieta. Bocejo e me espreguiço novamente. O sol parece querer me empurrar de volta para o meu sofá. Mas eu não estou mais a fim de dormir. Os passarinhos fazem a festa na cumbuca de água com açucar que, pelo jeito, minha mãe deixara antes de sair. Pareciam estar loucos. Calma, pessoal, tem água pra todo mundo. Mas não adianta muito ponderar com eles.

Sinto que eu também preciso beber algo. Vou até a cozinha, pego café na garrafa térmica e volto para onde eu estava. Sento na beirada do primeiro degrau da escada que dá para a rua. Murdock se senta ao meu lado. Ah, Murdock é nosso cão. Na verdade ele era dos vizinhos, mas eles o ignoraram depois que eles cresceu e, então, ele se refugiou aqui. O nome veio com ele. Murdock. Nunca consegui entender porque deram esse nome a ele. Ninguém ali é fã de quandrinhos e não acredito que alguém tenha se lembrado do Esquadrão Classe A. É um bom cão.

Sentado ali, tomando café, com Murdock ao lado, deixo a mente viajar um pouco. Divagar e devagar. Vou me lembrando de tanta coisa que já aconteceu desde que moro aqui, desde que me entendo por gente. Olho para Murdock e lembro que ele é o último de uma "linhagem" de cães que tivemos, que aqui apareceram, assim como ele. E gatos. Sim, gatos também. Sorrio sozinho ao lembrar que minha mãe deu nome de Naninha a pelo menos uns três gatos diferentes. Um após o outros. Mesmo sendo todos machos.

Gosto dessa casa, desse canto do mundo. Por um instante lembro de meu pai. Tento lembrar dele aqui, mas não consigo. Não houve tempo de se criar tantas lembranças com ele aqui. Lembro mais de meu avô, na época que ele morou aqui, na nossa casa, com a família, e nós moramos em uma pequena que ficava lá atrás. Meu avô me ensinou a andar de bicicleta, um dos meus tios me ensinou a ver as horas, minhas tias me ensinaram a ler e a gostar de quadrinhos. Meu pai... meu pai não me ensinou nada.

Droga, não quero pensar nisso. Estragar a manhã. Me levanto e vou até o pézinho de erva cidreira que minha mãe cultiva com carinho. Estranho como não gosto de nenhum tipo de chá, muito menos de erva cidreira, mas o cheiro das folhas é delicioso. Aliás, isso aqui é quase uma farmácia: erva cidreira para... para o quê mesmo? Não lembro agora; boldo ali mais adiante, para problemas intestinais, se é que vocês me entendem e uma arvorezinha de romã; romã é para dor de garganta. "Vai menino, 'gagureja' isso!". Quantas vezes já ouvi isso?

Chego um pouco para trás, para olhar o morro que fica atrás da casa. Íngreme. Quantas vezes eu, meu irmão e minhas duas irmãs subimos até lá, até aquela pedra enorme que fica no topo dele, e lá nos sentamos, sentindo a ventania que nos açoita lá em cima. Por mais cansativo que fosse, por mais que nos machucássemos, não importava, éramos crianças, queriamos estar sempre no topo. Lá de cima podemos ver o "mundo". Num dia limpo, se apertarmos bem os olhos podemos ver o Cristo Redentor bem pequenininho, e olha que estamos a quilômetros dele. Hoje em dia não fazemos mais isso. Somos adultos, agora. Murdock boceja e me olha de um jeito engraçado.

Deixo a mente vaguear mais e me pego lembrando em como essa casa, esse terreno, esse pedaço do mundo já foi abrigo pra tanta gente: meus avós, tios, pessoas que chegaram ao Rio de Janeiro vindo de todos os lugares e não tinham como pagar o aluguel que era cobrado por aí. Olhando para trás vejo que perco a conta dos casais, com ou sem filhos, que moraram ou aqui em casa, ou fizeram uma moradia aqui mesmo no terreno, e lembro como nem todos foram tão gratos. Mas de alguns sinto saudades. Somente agora, relembrando, vejo que minha mãe deveria ganhar algum tipo de medalha ou algo assim.

Me aproximo do muro e o toco, como se tentasse absorver as lembranças deste lugar. Correr, brincar, se machucar, chorar esperando minha mãe chegar do trabalho, brigar com o irmão ou as irmãs, rir com eles, chorar de rir, construir brinquedos de barro, fogueiras, se queimar, pular, cair, acordar, ir trabalhar, voltar, conversar, aprender, aprender, aprender. O latido de Murdock me desperta. Minha mãe chegou:

- Quê que tu tá fazendo? Segurando o muro pra não cair?

- Ré ré! Não, tava tentando empurrar ele mais pra trás.

- Besta! Já tomou café?

- Hmmm! Já que a senhora insiste tanto, eu tomo mais uns três copos.

Ela faz cara feia por eu tomar tanto café, eu a abraço e entramos para esse lugar de tantas lembranças. Esse canto do mundo.

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