quarta-feira, 31 de maio de 2006

A Queda

A QUEDA

O moleque estava enchendo a paciência no bar que eu trabalhava. Ele não parava de pertubar. Fui obrigado a falar sério com ele, dar uns gritos. Nisso, me distraí, achando que ele tinha entendido a mensagem. Não deu tempo de fazer nada. Quando percebi, era tarde demais. Ele pegou um taco de sinuca que estava à mão, e com a parte mais grossa do taco, acertou a minha cabeça. Tudo se apagou.

Acordei anos depois, na casa de um amigo, na época que eu era Testemunha de Jeová. Havia chovido. Uma chuva fina. Me despedi de todos e, mesmo sem guarda chuva, resolvi ir embora. Quando saí da varanda e coloquei o pé na calçada, não percebi que ela era lisa e, além disso, recoberta por um limo escorregadio. Não deu outra, escorreguei com tudo e bati a cabeça, com toda força, na quina da escadinha de dois degraus da varanda. Não vi mais nada.

Quando abri os olhos, mais tarde, eu estava no vestiário da Piraquê, onde trabalhei muito tempo. Estava escovando os dentes e tendo minha primeira crise de Transtorno do Pânico, sem nem mesmo saber o que eu estava tendo. Tentei falar, pedir ajuda e a voz não saía, ou melhor, eu não conseguia articular as palavras. Eu cambaleei para trás, perdi o equilíbrio e caí. Consegui acertar a cabeça na beirada da pia onde escovava os dentes. Já não sentia mais dor.

Quando voltei, estava em um apartamento. Me dei conta de que estava casado e morando ali. Mas, estava só. E estava tendo minha última crise de pânico. Era noite, ninguém no apartamento. Entrei em desespro, andei na direção da janela, tentei respirar fundo. Quando a crise se completou, eu apaguei. Totalmente. E devo ter caído como uma pedra. Batendo a cabeça novamente.

Acordo como se estivesse dormido horas. Mas não dormi. Na verdade, sou criança novamente. Estou na varanda da casa onde eu cresci e um dos meus tios, que ainda é um garoto também, diz que vai me carregar nos ombros. Subo no muro, ele me coloca nos ombros dele. Sou pesado demais mesmo para ele. Ele me deixa cair, e cair para a frente. Bato com a testa na calçada de concreto. Tudo escurece.

Quando dou por mim, tenho 11 anos e estou no fundo de um poço que está sendo escavado para se obter água. Ele está seco ainda. Estou estatelado no fundo dele. Lembro o que aconteceu. Eu estava lá em cima, brincando de Tarzan, pulando de um lado para o outro, sobre a boca do poço, segurando a corda, que na verdade era feita de náilon. Minhas mãos suaram e escorreguei da corda. Meu irmão estava junto e foi chamar alguém. Mas tento subir por mim mesmo, usando os buracos cavados nos lados do poço. Quando chego ao terceiro, escorrego e volto a cair, batendo forte a cabeça.

Abro lentamente os olhos e, estou em frente a tela do computador. O dia é hoje. Me esparramo na cadeira, coloco os pés na mesa. Quando faço isso vou para trás para tentar me acomodar, as rodas da cadeira giram e ficam em uma posição que faz a cadeira ir toda para trás. Caio da cadeira, bato a cabeça na parede e fico preso entre a parede, a cadeira e o rack.

Não apago, mas tenho um ataque de riso.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Professores

PROFESSORES

Todos nós, durante a nossa vida estudantil, temos aqueles professores mais memoráveis, por um ou por outro motivo. Muitas vezes é a arte de ensinar, de conseguir nos fazer entender uma matéria que até mesmo não gostamos, ou de como tal professor se importa de verdade com cada aluno, mesmo que seu salário não peça e nem mesmo dê para isso. Ou, às vezes, não é por nada disso e, sim, por ele ou ela serem muito, mas muito engraçados, querendo ou não.

No primeiro ano do segundo grau tivemos uma professora temporária, de Português, que era engraçada, mas de uma forma meio trágica. Eu ria para não chorar. Tudo bem que nós, alunos, na maioria das vezes não queremos nada com as aulas, mas algumas vezes queremos estudar de verdade, por incrível que pareça. Só que com ela, isso não era possível. Ela gostava de dar aula apenas oralmente. Acho que aí estava seu maior erro.

Todas as vezes que ela começava com sua aula, ela ia bem até um certo ponto. Então, em algum ponto que eu nunca conseguia "enxergar", saíamos da matéria e, de repente, estávamos adentrando a vida pessoal dela. Era praticamente um tempo de aula e um tempo de vida particular. E quando falo vida particular, é vida particular MESMO!

Eu me recostava na parede, cruzava os braços e por pouco não colocava as pernas em cima da carteira. Esperava até que a aula recomeçasse, entre uma risada e outra. Mas tudo bem, apesar de tudo isso, ela era uma boa professora, eu acho.

Mas, o campeão dos campeões de todos os tempos era, sim, o PROFESSOR DE FÍSICA! Acho que já falei dele aqui. Já relatei algumas peripécias dele, como por exemplo: ir a um lugar de carro e voltar de ônibus, pois esqueceu que havia ido de carro. Ele era tão "famoso" na escola que, mesmo não estando lá no início do meu primeiro ano, ele era sempre lembrado pelos repetentes. Estávamos com uma professora de Física muito rígida e os que estavam repetindo o ano só sabiam dizer "O Farenheit é que era bom!". Ah, para quem não lembra, ele tinha o apelido de Farenheit. Depois que o conheci, deduzi que ganhou o apelido devido a como pronunciava a palavra: "farenáiti".

Então ele substituiu a tal professora, retomando seu cargo de professor de Física, ainda no primeiro ano. Mas foi NESTE terceiro ano que ele atingiu o ápice de sua, digamos, "genialidade" ingênua. Como foi? Pois bem, sentem-se crianças:

Era uma quarta-feira de aulas a noite, como outra qualquer. Havia no ar um clima de greve dos professores. Uma indecisão tomava conta dos mesmos. Recebemos um aviso de que talvez a paralisação começasse naquela mesma noite, mas que ainda estavam resolvendo isso. Foi quando chegou, para sua aula, o professor Farenheit. Mas aí eu já estava em clima de greve. Eu não estava mais a fim de aula. O anúncio de que poderia haver greve me desanimara de estudar e me animara para ficar em casa. Mas o professor queria dar aula. Então, o que fazer?

Eu sabia que o professor tinha uma fraqueza semelhante à da professora de Português citada acima. Eu só precisava fazer a pergunta certa e adeus aula de Física. Ele falava sobre a possível greve, e que como não havia certeza iria dar sua aula. Em meio ao que ele falava, eu de repente perguntei:

- Professor, o senhor já foi hippie?

Como num jogo de sinuca, a pergunta bateu na tabela e acertou outra bola. Não sei como, nem porque, ele relacionou isso a cobras, e começou uma dissertação longa sobre as incríveis qualidades destes seres rastejantes. Sendo um pouco ecologista e um pouco espiritualista, o assunto acabava ganhando mais e mais caminhos (como sempre acontecia com qualquer assunto aleatório abordado por ele).

Parecia que meu objetivo havia sido alcançado: não teríamos mais aula de Física, mas sim de Biologia, ou seja lá o que quer que fosse aquilo de que ele falava. Mas a coisa toda parecia não ter mais fim. Ele falava de tudo que podia relacionado a cobras, e não havia piada de duplo sentido que eu ou qualquer outro fizesse, que tirasse sua concentração ou o fizesse perder o fio da meada.

Nós nunca sabíamos o quanto ele era ingênuo e o quanto ele se fazia de ingênuo. Mas uma coisa era certa, ele sempre era imprevisível. E eu não estava preparado para o que viria a seguir. O tema "Cobras" estava agora em ginásticas baseadas em movimentos reptilianos, ou melhor, no movimento das cobras. Como já disse, ele tinha várias facetas, entre elas, também, uma coisa meio naturalista. Mas eu já estava ficando entediado, e nem mesmo tinha mais pique para piadas de duplo sentido. Na verdade nem mesm para de um sentido só. Comecei a caminhar em direção a porta e quase perdi algo para colocar em minha autobiografia, num capítulo a parte. Só escutei quando ele falou comigo:

- Encosta a porta um pouco!

Não entendi o porque na hora. Mas cabe aqui dizer, que fora eu e mais alguns, muitos estavam dando atenção ao que ele dizia, e isso era o que o empolgava a continuar. Todo mundo sentado em suas carteiras, incentivando-o com olhares curiosos a continuar. E isso fez ele se empolgar de verdade, pois ele agora queria ensinar... A GINÁSTICA DA COBRA!!!!

Antes que alguém pense sacanagem, não é nada disso. Mas ele disse que ia mostrar como fazia a ginástica baseada nos movimentos de uma cobra. Eu fechei a porta, mas não acreditava no que eu achava que ele ia fazer. Eu estava boquiaberto, mas sim, aquele professor de meia-idade ia mesmo... nossa! Ele pulou sobre sua mesa, e deitou nela de bruços. Ele girou na mesa, como aqueles dançarinos de break. E, de repente, começou a ondular o corpo, sobre a mesa, se apoiando nas mãos! ELE IMITAVA UMA COBRA!!!!!

A sala quase foi abaixo! Aplausos, assovios, gritos, histeria em massa. Ele se apoiou sobre as mãos, balançou o corpo como um pêndulo, e pulou da mesa em uma saída triunfal. Eu, ainda na porta, não acreditava em meus olhos. Eu pensava, "mas eu só perguntei se ele foi hippie, não se ele foi o John Travolta!". Eu ainda estava tentando entender toda a cena, quando o sinal bateu.

No dia seguinte a greve começou...


quarta-feira, 17 de maio de 2006

O Primeiro Sobrinho

O PRIMEIRO SOBRINHO


Meu sobrinho e afilhado, Caio Vinícius, ainda é o único neto que minha mãe tem e, por isso, natualmente é tão bajulado e querido. Ele tem seus 5 anos agora. Mas, mesmo quando estava apenas aprendendo a falar, já dava para perceber qual era a sua paixão: CARROS!

No início parecia apenas como todo garoto, aquele fascínio meio que natural por coisas de quatro rodas e barulhentas. Até que foi ficando mais evidente, de que não era como com as outras crianças. Sem nem mesmo falar direito ainda, ele inventava modos de dizer "caminhão", "fórmula 1" (quando queria dizer carros de corrida), "ônibus", ou simplesmente a cor dos carros.

Percebendo isso, todos se acostumaram a dar de presente a ele, claro, carros, carrinhos e mais carrões de todos os tamanhos, tipo e cor. Mas para ele não importava se era novo, se era mais sofisticado, ou até mesmo se se movia sozinho (aliás, acho que ele detesta que façam isso), o que importava era que fossem... CARROS. Podia ser sem rodas, podia ser o primeiro que ele ganhou há séculos atrás, ou mesmo um de plástico, ele os tratava como iguais. E assim o faz até hoje. Dava pra ver que era uma paixão sem limites.

Mas, nesse domingo útlimo, Dia das Mães, é que realmente me surpreendi. Eu fui à casa de minha mãe, claro, e logo depois chegaram minha irmã e ele. Como sempre ele chega meio arredio, pois a gente não se vê com constância, e ele fica tímido. Ele havia ganho um presente do pai, do qual não se separava: um álbum de figurinhas de...? CARROS! Perguntava, de vez em quando, à sua mãe porque alguns só tinha metade de algum carro. E ela tentava explicar que era por que ainda viria uma figurinha para completar.

A tarde logo passou e eu tinha de ir embora. Minha mãe resolveu acompanhar eu e minha mulher até o ponto de ônibus (sim, para infelicidade de meu sobrinho, eu não tenho carro) e ele pediu para ir junto conosco. Foi quando eu realmente me espantei.

Ele sempre procurou identificar os carros que via, mas sempre vi ele fazer isso meio genericamente: ônibus, fusca, kombi e etc. E ele tinha um hábito de conseguir ver carros onde ninguém mais conseguia, a não ser se parasse e olhasse com muuuuuita atenção. Mas isso já fazia parte dele, e a gente se divertia, mas não se espantava tanto. Isso até aquela tarde...

Íamos por uma rua menos movimentada, mas com alguns carros estacionados ao longo dela. Então,ele segurando minha mão, começou a apontar alguns e dizer a marca deles. Não estava mais sendo genérico. Ele dizia a marca de alguns, e como eu não entendo nada de carro, nem sabia se era mesmo e não parava para conferir. Mas a coisa ficou mais engraçada quando ele disse "aquele é um Palio", e eu pensei, "ah, um Palio é fácil de reconhecer, isso não é nada demais". Ele dizia, esse é um Gol, e eu não parava pra conferir, pois estava meio com pressa, ou a posição do carro não deixava. Até que...

Bom, até que ele disse: "Esse aí é um renô (renault)!". Eu olhei pra ele e quis cair na risada, pois achava que ele estava apenas chutando. Tá, aquilo era demais. Se eu não o conhecesse, eu diria que ele estava tirando sarro da minha cara. Fui até a traseira do carro e lá estava escrito: RENAULT!

Meu queixo caiu. Comecei a pensar se era eu que não conhecia nada mesmo de carro que até mesmo uma criança sabia mais do que eu, ou se, sei lá, eu estava de mãos dadas com um anão e não com meu sobrinho.

Comecei a pensar e não imaginava o pai dele ensinando as marcas de cada carro que via, pelo menos não tantas vezes a ponto de ele gravar, creio que era apenas uma questão da memória dele ser muito boa. Não sei. Mas fiquei embasbacado. Talvez não seja nada demais e eu seja apenas um tio/padrinho coruja.

Chegamos ao ponto de ônibus, entramos no primeiro que apareceu, dei adeus aos dois, ele e minha mãe. E, desde então, essa história não me saiu mais da cabeça. É o tipo de coisa que não vou me cansar de contar para os amigos. Ou até mesmo contar em meu blog, qualquer hora dessas!


sábado, 13 de maio de 2006

Sentado à beira do Caminho

SENTADO À BEIRA DO CAMINHO


Eu estava sentado embaixo daquela árvore, no pátio da escola, como eu sempre gostava de fazer. Escutava todos os outros conversando, observava todo mundo. Observava a tudo.

Corria, então, a história da mulher de branco que, variando de pessoa para pessoa, era sobre uma loira que ficava nos banheiros, vestida de branco, com algodão no nariz. Quando não era isso, era a Kombi Branca que raptava crianças, ou o Mão Branca, que era um grupo de extermínio. Engraçado como, pelo menos nessa época, o branco estava associado a tanta coisa ruim. Estando eu na segunda série, qualquer coisa assim me impressionava. Mas não lembro nunca de ter ido ao banheiro e ficado com medo de que alguma mulher de branco saltasse de uma Kombi branca e pusesse sua mão branca no meu ombro.

O que eu mais gostava na Escola São Cosme e São Damião, quando estava na segunda série, era da professora Celina. Eu lembro que ela gostava mesmo de mim. Tanto que ao final do ano, quando fui aprovado, ela me deu um caminhão de brinquedo. Nossa! Eu nunca tinha ganho nada igual. Era tão grande que eu cabia dentro. Ora, como eu sabia disso? Entrando dentro dele, é claro. Na caçamba. Ou ele era muito grande, ou eu era muito pequeno. Minha mãe fez questão de retribuir ao presente, e só lembro dela me arrastando até a casa da professora, para entregar-lhe um presente. Um abajur, se bem me lembro.

Sentando ali, embaixo da grande árvore, eu observava a tudo e todos e me lembrava de tudo isso. Afinal não fazia tanto tempo assim. Um local meio que místico, para mim, era a cantina. Nossa, quando eu podia comprar algo, com dinheiro que minha mãe me dava, era como estar obtendo o Santo Graal. Imagine bem, sempre fomos pobres, e três de nós já estudavam no mesmo colégio. Minha mãe nos criando sozinha. Dinheiro para merenda era mais raro que o último episódio do Pinóquio (aquele do "vovozinhoooooo!"). E aquela Coca-Cola pequena? Não a média, a pequena! Nossa, aquilo sim era um tesouro.

Logo construíram uma quadra com arquibancadas de concreto. E eu deixei a árvore pelas arquibancadas. Era divertido ver o pessoal brincando na quadra até começarem a caírem no tapa. E eu gostava da terceira série, tanto quanto da segunda série. Havia a Valéria e sua irmã Raquel. Pareciam pequenas Valquírias, mesmo que eu só viesse a descobrir o que eram Valquírias anos mais tarde. Por causa de Valéria eu fiz o impensável: aceitei ser o príncipe, na Festa da Primavera, só porquê ela seria a princesa. Talvez eu nunca tenha pago um mico tão grande quanto esse. Eu, o mais tímido dos tímidos. A roupa - se é que aquilo podia se chamar de roupa - era a mais ridícula das ridículas. Com direito a uma coroa dourada. Lembro que minha mãe procurou alguém para tirar uma foto minha e não encontrou. Respirei aliviado.

Sentado na arquibancada eu via o tempo passar, e eu chegar à quarta série, que seria meu último ano naquela escola que eu, mesmo sem saber, tanto amava. Tanta coisa eu já havia passado ali. Namorado Elisângela, perdido ela por causa de Raquel (outra Raquel); vi com meus próprios olhos o álbum de figurinhas de Superman - O Filme; achei um gibi tão diferente naquela mesma arquibancada, perdido; perdi meus óculos; achei meus óculos; dei minha lancheira a um colega que não tinha...

Agora não estou mais na arquibancada. Nem na escola. Apenas a vejo sempre que passo de ônibus. Cada vez mais o tempo passa e o ônibus também. Até que a escola não existe mais. Foi derrubada e construíram um conjunto habitacional no lugar dela. Ficaram as lembranças...


quarta-feira, 10 de maio de 2006

Barulho de Chuva

O BARULHO DA CHUVA


Havia o barulho bom das gotas de chuva naquele telhado de alumínio. Balançando na rede, bem devagarinho, eu fechei meus olhos. E sonhei...

Havia um parque de onde se ouviam as risadas das crianças e a música que se sobrepunha alegre. Uma cascata de felicidade que meus ouvidos captavam. Era noite, luzes em volta. Era um sonho de que não me lembro.

Comprei um ingresso e, mesmo sozinho, entrei ali, na roda gigante. Aquele frio no estômago, aquela sensação de liberdade, de imensidão. Tudo ao mesmo tempo, tudo a seu tempo. As pessoas se "apequenando" cada vez mais, a música e as risadas se distanciando. A chuva fina recomeçou, vinha bem sei de onde. De um sonho que não me lembro. Senti as gotas tão finas, tão frias, fechei os olhos. E sonhei....

Era uma praia, imensa e branca. Sim, areias brancas. Poucas pessoas ali, meio a toas. Uma brisa suave, um sol mais ainda. Algumas na água, algumas na areia. E eu a andar, andar pela beirada, beirada da praia. Pensei em nadar. Atravessar as ondas, e ir além-mar. Pois foi o que fiz. Braçadas constantes, sem nem me cansar. A água era um mundo onde eu habitava. Mas então, a chuva fina veio, nem bem sei de onde. Era um sonho de que eu não lembro.

Então mergulhei, e as gotas lá em cima, eu não vi mais. E dentro do mar, fechei os meus olhos. E sonhei...

Estava num porto, esperava um navio. Não sei em que ano, não sei em que tempo. Só queria que a embarcação chegasse, para nela partir. O porto fervilhava, gente por todos os lados, indo e vindo, voltando e partindo. Não havia tristeza e lágrimas, só de alegria. Parecia um sonho de que não me lembro. Ao longe eu vi meu navio chegando, singrando o mar, se aproximando. Parecia tão perto, como se pudesse tocar, mas ainda estava distante, e eu querendo zarpar. Foi então que a chuva começou a cair. Abri então meu guarda-chuva e logo o som dos pingos batendo nele, me distraiu. Fechei, então, os olhos. E sonhei...

Mergulhava em direção ao solo. Estava em queda-livre, com o vento violento quase arrancando meu rosto. Mesmo assim, me sentia calmo, sabendo onde ia e como ia terminar, por um instante pensei, ela já já vai chegar. E não deu outra, começou a chover. A chuva que sempre parecia um sonho de que não me lembro. Ela caía junto comigo, eu acompanhando os pingos muito rentes a mim. Parecia uma corrida para o solo refrescar. Meu pára-quedas se abriu, muito antes do tempo, e o barulho da chuva, sobre ele, me fez os olhos fechar. E eu sonhei...

"...Vastos dias a contento
Perdura a vida qual firmamento
Empoeirando os móveis da sala
A eternidade nestes resvala..."

Era eu um poeta, de pouca sabedoria, tentando concatenar versos que nem eu mesmo conhecia. Parecia um sonho de que não lembro mais. Era algo sobre chuvas, barulhos, parques, praias, portos e saltos. Não havia como pôr tudo isso no papel. Então eu apenas fechei os olhos, me precipitei em gotas de chuva e...sonhei!


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