quinta-feira, 27 de abril de 2006

O Cinderelo Trapalhão

O CINDERELO TRAPALHÃO


Minhas memórias se formariam a partir dali.

A fila do cinema era enorme. Minha mãe levou todos nós quatro. Era a primeira vez que íamos ao cinema. A não ser, claro, que minha mãe tenha ido ao cinema alguma vez comigo ainda bebê. Eu não conseguia me conformar com o tamanho daquela fila. Era simplesmente assombrosa. Sendo o mais velho, eu tinha que ficar calmo, para dar o exemplo para os outros três. A minha irmã caçula estava no colo de minha mãe. Estávamos ali em Duque de Caxias, indo ao Cinema Paz, para ver, pela primeira vez, com nossos próprios olhos, uma tela de cinema. Bom, na verdade eu não sabia o que esperar. Nem mesmo sabia o que seria exatamente um "cinema".

Eu tinha 9 anos, e fazia um ano que meu pai havia ido embora de casa. Talvez minha mãe quisesse apenas seguir em frente, e isso significava que não precisávamos de mais ninguém, a não ser dela mesma, para irmos até mesmo a um cinema que, com certeza ficaria lotado. Mas minha preocupação com a fila ainda era enorme. Estávamos no meio da Praça do Pacificador (onde hoje há uma construção muito estranha, um teatro, eu acho) e o cinema era lá, bem lá na frente.

Mas tudo bem, era por uma boa causa. Minha mãe estava animada pois, mesmo com todos nós quatro à tiracolo, ela estava ansiosa para ver o filme, que era O Cinderelo Trapalhão, e ela adorava Os Trapalhões. Talvez fosse por isso que a fila estivesse tão grande, afinal eles eram bem queridos.

Em dado momento minha mãe começou a arrumar meu cabelo que, na verdade, não estava bagunçado, isso era apenas uma coisa que ela fazia quando estava ansiosa demais. Eu, sabendo que era isso, deixava ela "arrumar" sem reclamar, afinal acho que aquilo a acalmava.

Por fim a fila começou a andar. Parecia uma procissão, só que com as pessoas um pouco menos sisudas. Olhei pra minha mãe e notei que ela estava meio pensativa. Quem sabe pensasse no meu pai, quem sabe pensasse em nosso futuro. Ou quem sabe pensasse apenas que queria esquecer das preocupações durante aquela hora e meia de fantasia. Ela percebeu que eu a obervava e sorriu, como se tentasse dissipar qualquer preocupação minha.

Quando entramos no cinema eu pensei que havia entrado no inferno ou algo parecido. Simplesmente não havia mais lugares para se sentar. Na verdade, quase não havia lugar nem para se ficar em pé. Nos embrenhamos pela sala de cinema, até que chegamos a um lado da parede, onde havia uma porta fechada. Sentamos na beirada dela, todos nós. Totalmente apertados.

Mas todo desconforto foi embora quando a tela se iluminou e o filme começou. Era como estar em um outro mundo. As cenas ainda hoje pipocam em minha mente, e eu me sinto naquela sessão de cinema. Renato Aragão correndo com uma tábua pregada nos braços, derrubando pessoas por onde passa. Alguém indo experimentar o "sapatinho" nele, que coloca um enorme pé falso e tudo mais que eu veria várias vezes nas Sessões de Férias da Rede Globo, mas que nunca seria como estar num cinema superlotado, apertado ao lado de meus irmãos e de minha mãe.

Minhas memórias se formariam a partir dali.


LEI DE MURPHY PARA QUADRINHOS


01 - Dez minutos após você encontrar e comprar aquela HQ rara, que você levou anos procurando, e de pagar um preço obsceno por ela, alguém vai aparecer e te dizer que ela acabou de ser relançada.

02 - Se você gosta do personagem, vão matá-lo. Se você não gosta, ele vai ganhar revista própria. E será boa!

03 - Sempre faltará um número para você completar sua coleção

04 - Sabe aquela série que você adora? Espere até o John Byrne colocar as mãos nela!

05 - A continuidade que você conhece não existe mais. Espera um instante! Existe sim! Não, não existe de novo! Que merda!

06 - Só serão canceladas as séries que você gosta.

07 - E se você gosta muito, mas MUITO mesmo. Cancelarão também. Mas quando estiver na metade!

08 - E se você gosta MUITO, MUITO, MUITO, MUITOOOOOOO. Vão cancelar do mesmo jeito. Quando estiver na metade. E DUAS VEZES!

09 - A permanência de uma equipe criativa é inversamente proporcional ao quanto ela é boa.

10 - A combinação de seu personagem preferido com seu roteirista preferido e seu desenhista preferido nunca aconteceu. E nunca acontecerá!



domingo, 23 de abril de 2006

Onde Crescer Era Apenas Viver

ONDE CRESCER ERA APENAS VIVER


Era engraçado morar naquela rua, mas não fazer parte dela. Nossa casa ficava (e ainda fica) numa elevação onde havia nada mais que outras três casas, até então. Parecia que não fazíamos parte da rua, ou mesmo do bairro. A escada, por muito tempo de barro, nos levava até minha casa, uma meia-água de telhas. Pensando hoje, ela não era muito grande mesmo, mas na época parecia enorme. Quando chovia, era um desastre que chegava a ser divertido, aquele corre-corre para "capturar" as goteiras. Quando chovia mais forte, uma tempestade amedrontadora, a idéia que passava era que a casa desceria com a força da chuva, lá para a rua. Afinal havia, alguns metros a frente, um "pequeno" abismo que só era disfarçado pelo matagal.

Havia uma outra saída para uma outra rua, menos, digamos, inclinada. Era por onde saíamos para ir à escola. Já descer a escada de barro, depois de uma chuva, era o mesmo que fazer esqui na lama. Sem esquis, é claro, só com a lama. Era uma queda na certa. Alguns anos depois um dos vizinhos resolveu fazer uma escada de concreto.

O chão da casa era de cimento liso, e "lustrado" com o famigerado "vermelhão", o qual toda semana minha mãe encerava com cera da mesma cor, é claro. Isso quando não Sobrava pAra nós, encerar aquilo. A única diversão era calçar meias e deslizar sobre o chão encerado recentemente.

Certa vez, não sei como, minha mãe deixou meu irmão pintor um Lion (aquele dos Thundercats), na parede da varanda. Ele estava começando a desenvolver seus dons de desehista. Aquilo ocupou um bom espaço da parece, e lá ficou por um bom tempo, antes que a parede fosse pintada novamente. Acho que como todo mundo sabia que nossa família era meio aloprada, não estranhavam aquilo desenhado na parede.

Em frente a casa (que na verdade ficava de lado) ficava o poço do qual obtínhamos a nossa água. Poço que devia ter uns 20 metros de profundidade, e que eu tinha pesadelos em que caía dentro dele. Quando se retirava a tampa e se olhava lá dentro, mal se via o reflexo da luz na água, de tão distante que ela estava. Na verdade eu nunca soube realmente quanto aquele poço tinha de profundidade. Parecia mais um portão para o inferno. Puxar água era nosso exercício diário. Isso gerava algumas rixas entre eu, meu irmão e minhas irmãs.

O que eu mais gostava dali, na época, era como não nos preocupávamos muito em se a porta estava ou não trancada, na hora de dormir. Nunca acontecera nada demais, exceto por alguma rixa entre vizinhos. Podíamos sair pelas imediações e deixar a casa sozinha, sem trancar, que nada acontecia. Isso parecia deixar mais evidente a sensação de distanciamento da rua lá embaixo.

Éramos felizes e, eu pelo menos, gostava da casa como ela era. Mas, assim como nós estávamos mudando, a casa também começou a sofrer alterações. Até que por fim, não era mais a mesma casa. Claro que ficou melhor e, assim como as recordações de uma infância que ficou para trás, a casa também havia ficado no passado. Assim como os moradores ela cresceu, mudou.

Me pergunto se ela fica nostálgica às vezes.


terça-feira, 11 de abril de 2006

Primeiros Dias

PRIMEIROS DIAS


Meus primeiros dias de Internet foram muito sem sentido. Sem um objetivo claro, como por exemplo, colocar revistas em quadrinho na rede e compartilhá-las. Eu apenas pulava de uma coisa a outra, sem muita lógica.

Eu me connectei as primeiras vezes, quando ia à casa de meu irmão. Então, ficávamos eu, ele e minha cunhada, sacaneando os outros nas salas de bate-papo. Quando eu ficava sozinho no computador, eu fazia uma coisa muito emocionante: listava filmes que eu já havia assistido usando o site All Movie Guide. Eu realmente não sabia o que fazer com a Internet.

Quando tive minha própria conexão entrei nos tais "news groups", ou Grupos de Notícias do UOL. Acessava via Outlook, e recebia, não notícias, mas e-mails das pessoas que participavam de vários grupos. Eram dezenas, ou mesmo centenas de assuntos. Eu entrei no de humor. Logo percebi que o passatempo não era contar piadas, mas ficarem se ofendendo uns aos outros. Aliás, isso parecia ser a regra em todos os "news groups". Se vc era "novato" então, parecia haver uma frente unida pata fazer com que a pessoa desistisse e fosse embora. Ou seja, era algo bem infantil. Mal sabia eu que alguns anos depois eu voltaria aos "news groups", me fixaria ali, no de "Cinema", e ali seria lançada a semente que começaria o RA. As coisas acontecem de forma bem estranha.

Mas, antes disso, eu desisti dos "news groups" e ficava indo às salas de bate-papo da UOL (é, acho que eu era meio fã da UOL), mais exatamente nas de imagens GIFS. Ou seja eu ia pegar imagens bonitinhas e bater papo. Como eu sou "intriguento", eu acabava arrumando confusão. Pra começo de conversa eu sempre odiei qualquer tipo de panelinha, e havia uma óbvia panelinha em que um tal de "Bruxo Velho" e "Butterfly" eram os líderes. O Bruxo Velho, segundo diziam, até mesmo era paraplégico, mas eu não sabia se era verdade. Mas que aquilo me fazia quase ter pena do cara, fazia. Afinal o cara se achava o dono da sala de bate-papo e "protetor" das mulheres que ali entravam. Era meio ridículo. Assim sendo, não fiquei muito tempo por ali.

Eu realmente não sabia o que fazer com a Internet. Minha conexão não dava pra fazer muita coisa. Ou, pelo menos, eu não sabia. A próxima incursão foi ás listas de e-mail. Não sei em que sequência, mas eu entrei em uma de Ex-Testemunhas de Jeová e em uma de pessoas com Síndrome do Pânico. Na de Ex-Testemunhas de Jeová até que correu tudo bem. Calmo. Mas aquilo foi enjoando. Afinal eu havia deixado de ser Testemunha de Jeová, justamente porque estava de saco cheio de ouvir falar sobre... TESTEMUNHAS DE JEOVÁ! Então, não demorou muito, me afastei.

Já na de pessoas com Síndrome do Pânico... nossa! Ter Síndrome do Pânico parecia significar realmente que as pessoas eram loucas. Muito loucas! Para se ter uma idéia, com o tempo comecei a me comunicar com algumas das pessoas da lista por telefone. Certo, certo. Mulheres. Quem quer falar com macho? Eu dispenso. E uma delas, que estava numa crise conjugal, simplesmente me "convidou" para ir à casa dela em São Paulo, para que ficássemos juntos. Eu perguntei "e seu marido?!!". Ela disse: "Não tem problema, você finge que é meu amigo gay". Bom, ali eu vi que devia me mandar da lista, afinal, eu até podia ser louco também, mas passar por bicha não dava. E sabe-se lá o que poderia acontecer depois. Afinal eu só me fodo, como todo mundo que me lê aqui, sabe.

Então, como se pode ver, eu demorei muito para encontrar um rumo na Internet. Quando consegui banda larga, fiquei viciado em baixar MP3, depois videoclips. Mas nada daquilo me satisfazia. Até que eu coloquei uma página de gibi, no meu scanner que nunca era usado. O resto... bom, o resto vocês já sabem.


terça-feira, 4 de abril de 2006

Desconhecidamente Famoso

DESCONHECIDAMENTE FAMOSO


Ser reconhecido na rua é coisa de artista. Andar por Ipanema é quase como andar por uma vitrine de atores globais. Chega a ser comum. Mas ser parado ou reconhecido na rua, sem ser famoso, é que é estranho.

Estava eu andando no Leblon, subindo para Ipanema, quando do outro lado da rua, do meio de um agrupamento de adolescentes que esperavam para entrar para a escola, sai um moleque, atravessa a rua a toda velocidade, me pára e pergunta: "Você não é o cara da Terra Encantada?!". Eu fiquei sem saber o que dizer ou fazer de imediato. Mas explicando, não, ele não estava me confundindo com um gnomo ou coisa parecida. Certa vez estava com meu irmão, cunhada e a filha dela, no Parque Terra Encantada, que fica na Barra da Tijuca. Estávamos andando por lá e paramos pra ver um show de palhaços. Por azar meu, eu ria demasiadamente alto. Aliás, a minha risada é escandalosa e feia. Isso acabou sendo usado contra mim. Quando quiseram um "ajudante" para um número logo chamaram, "você aí, da risada esquisita". No meio de dezenas de pessoas a minha risada acabou me colocando numa fria. Sim, fria, pois apesar de, aqui eu ser assim, na verdade eu sou tímido e sem jeito quando colocado em situações em que tenho de me apresentar em público.

Pois bem, eles queriam que, no número, eu jogasse uma "torta" na cara de um dos partipantes. Tá, foi tudo bem. Tudo normal, apesar de eu estar querendo estar em outro lugar. Meu irmão até mesmo fotografou no exato momento em que eu "torteio" a cara do palhaço. Pronto! Saí com vida de mais essa.

Agora, semanas depois, talvez meses, não lembro bem, tá esse garoto aqui, todo feliz por ter me reconhecido de quando me viu lá no Parque Terra Encantada. Achei que ele fosse pedir um autógrafo! Ainda bem que ele não fez isso, mas pela cara dele achei que ele ia fazer. Disse que sim, que eera eu mesmo, ele ficou feliz e deu meia-volta. Muito esquisito. Poxa, engraçado que na foto, olhando bem, depois, tinha gente realmente famosa lá. No meio da multidão estava o Toquinho (aquele da música "numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo..." etc, etc...).

Depois disso já fui reconhecido por causa do Rapadura Açucarada, o que é bem mais normal, já que de vez em quando tem foto minha por aqui. Mesmo assim não deixou de ser meio engraçado. O melhor de todos foi quando eu estava no Botafogo Praia Shopping, numa das praças de alimentação, fazendo um lanche com meu irmão e minha cunhada (apesar de parecer, eu não ando tanto assim com eles dois, é apenas coincidência mesmo), e estava com aquele livro do Alex Ross, o Mythology. Enquanto conversava com eles dois, pelo canto do olho deu pra eu ver que algumas pessoas estavam meio que paradas, como se decidissem se iam falar comigo ou não.

Até que um dos caras disse: "Você é o Eudes? Do Rapadura Açucarada?". O que foi até mais estranho, pois eu pouco usava Eudes por aqui. Pouco mesmo. Me levantei e cumprimentei a todos, que deviam ser uns quatro caras que estavam indo ao cinema. Meu irmão e minha cunhada olhavam aquilo como se fosse a coisa mais estranha que já tivessem visto. O que realmente deveria ser. Como eles não sabem do alcance do blog, para eles era realmente esquisito.

Depois que todos se foram, fiquei pensando comigo mesmo se não me reconheceram mais por causa do livro (com aquele Super-Homem imenso na capa) do que por mim mesmo. Depois disso, só aconteceu mesmo quando eu estava em locais em que isso seria quase inevitável, como a Gibimania.

Um dia desses sigo o conselho de uma amiga, coloco uma estampa do RA numa camiseta e vou a alguma convenção de quadrinhos... levando uma caneta, é claro. Afinal, devem restar uns 2 dos meus 15 minutos.



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