segunda-feira, 27 de março de 2006

Sortilégios Paramentados

SORTILÉGIOS PARAMENTADOS


Estou num sonho que não é meu. No entanto, nada no sonho me faz identificar a pessoa de quem eu invadi o sonho.

Não sei o que causou isso, mas lembro que fui dormir com uma forte dor de cabeça. Mas não uma dor de cabeça comum. Além da dor, minha cabeça parecia estar oca e pesada, um pouco parecida com as ressacas que eu tinha quando bebia. Ao dormir, senti um frio terrível e mergulhei numa escuridão sem fim. Como percebi que dormi eu não sei. Apenas percebi.

E "acordei" aqui, no sonho de outra pessoa. Eu estava sentado à beira de um precipício, mas a ação se passava à minha frente, sem que eu interferisse nela. Pelo menos por um tempo.

Ali, na minha frente, uma mulher de cabelos com uma cor indefinida - talvez por ser um sonho - e olhos brilhantes, estava correndo num deserto de areias vermelhas. Apesar de estar com um vestido longo e esvoaçante, e de seus pés afundarem na areia quente - pés descalços - ela conseguia correr numa velocidade razoável. Não estava fugindo de ninguém. Corria como quem quisesse chegar a algum lugar, pois olhava para frente, como se olhasse para o infinito.

Tão logo ela parou de correr, o cenário mudou para uma cachoeira, na qual ela, nua, mergulhou e emergiu com um peixe dourado nas mãos. O peixe criou asas e voou e, ao voar, se tranformou em uma centena de outros peixes dourados alados. Ela não ficou triste, apenas sentou em uma pedra e ficou a observar o céu, e os peixes alados se distanciando.

Isso poderia ser um sonho meu mesmo. Mas, de algum modo, eu sabia que eu estava no sonho de outra pessoa, e esta pessoa era ela. Senti uma tontura. O cenário havia mudado novamente, e a mulher era quem voava, com asas flamejantes, com chamas de cor acentuadamente laranja. Suas asas eram fortes, e saíam diretamente de suas costas. Ela continuava nua.

De repente começou a chover e a chuva foi apagando suas asas bem lentamente. E ela foi aterrisando suavemente. Foi quando senti que havia algo errado. Na verdade, muito errado. Eu também estava molhado pela chuva. Ela me percebeu. E percebeu, também, que eu não fazia parte do sonho dela, do mesmo modo que eu sabia que eu não estava em um sonho meu.

Ela me encarou. Me senti desconfortável. Por alguns segundos ela parecia estar tentando tomar alguma decisão. Então entendi, pelo seu olhar, o que estava acontecendo. Eu estava morto. A estranha dor de cabeça. Eu morri ao dormir. De alguma forma invadi o sonho mais, digamos, próximo. Não sei exatamente como isso aconteceu. Ela sabe disso tudo, e também não sei como ela sabe.

Agora que tudo estava às claras, era meio óbvio, acho. Se ela acordar, eu me vou para sempre. O que há além do sonho dela? Paraíso? Inferno? Um grande nada? Nossa! Como segundos podem durar tanto tempo?

Escutamos uma voz:

- Sophia! Acorda!!!

Ela se apavora, e...

Estou em outro sonho, que não é meu...


quarta-feira, 22 de março de 2006

Solidão Enquanto Filosofia

SOLIDÃO ENQUANTO FILOSOFIA


Já havia vários ciclos que eu vinha visitando este planeta, conforme foi estipulado em minha missão de relatório círculo-efetivo. Isso queria dizer que eu estava designado ao planeta 1147B até o fim de meus serviços dentro do Setor de Relatórios Planetários. Este setor era parte de algo maior e mais complexo, mas que não nos era permitido saber exatamente do que se tratava. Em resumo, fazíamos os relatórios dos planetas, mas não sabíamos com que objetivos seriam usados. Talvez fosse para uma futura invasão ou, quem sabe, para um novo jogo de perguntas e respostas a ser lançado no mercado. Não importava. Éramos apenas uma engrenagem.

Não que eu esteja reclamando. Eu gosto do meu trabalho. E, posso até mesmo dizer, gosto deste planeta. Os humanos o chamam "Terra".

Quando preciso vir aqui, na maioria das vezes eu não me deixo perceber. Sim, fico invisível. Ou as vezes assumo uma forma humana não muito chamativa, o que me deixa praticamente invisível também. É incrível como se pode passar sem ser notado, mesmo num aglomerado de humanos, estando na forma do ser humano adequada. Eu estava usando uma dessas formas quando a avistei.

Eu estava estudando mais dos litorais do planeta, e procurava os mais desertos. Mesmo assim a presença humana é uma constante e estou acostumado a isso. Mas quando avistei aquela fêmea olhando ao horizonte, me pareceu que havia algo diferente em toda aquela cena. Ou, talvez, fosse algo novo apenas para mim. Uma configuração inovadora, diria meu superior.

Eu procurava interferir o menos possível durante minhas visitas à 1117B. E nunca, realmente, acontecera algo desastroso. Me orgulhava disso. Alguns efetivos não tinham o mesmo profissionalismo, por assim dizer, e acabavam inoperantes.

A fêmea emitiu um som vindo das narinas. Uma espécie de jato de ar sonoro. Suave ao mesmo tempo. Com objetivo de entender o que ela fazia ali, me aproximei. Tentei não chamar atenção, mas nem precisava me preocupar, ela parecia bem distante, olhando o horizonte. Havia em seu rosto aquilo que os humanos denominam "lágrimas". As emoções ainda eram algo inerente aos humanos. Não que não sentíssemos nenhuma. Elas só não eram tão importantes a ponto de nos isolarmos como aquela fêmea estava fazendo. Nos isolávamos por outros motivos mais, digamos, práticos.

Quando ela notou que eu estava próximo fiquei apreensivo. Ela poderia se assustar e os humanos tem uma tendência irritante a gritos. Mas não foi o que ela fez. Ela apenas emitiu um conjunto de palavras:

- Todos eles se foram.

Será que ela estava assim por que seus entes queridos haviam viajado? Bom, me parecia, como nós de nosso planeta dizíamos "uma situação maximizada demais para um conjunto tão simplista". Se viajaram, hão de voltar. Mas a sensação de dor que ela passava, parecia exprimir algo mais profundo. Passei a pesquisar nos arquivos sensoriais as nuances do conjunto de palavras emitido. Depois de alguns segundos o que parecia mais satisfatório para o caso era "eufemismo para morte".

Resolvido a questão e saciada minha curiosidade, comecei a ir embora quando, de repente, a mulher sacou uma arma de dentro de uma pequena bolsa e disparou dois projéteis diretamente onde, nos humanos, seria o cérebro. No mesmo instante abandonei a forma, que se desintegraria depois de algumas horas. Ainda pude escutar a mulher repetir.

- Todos eles se foram.

Acréscimo ao relatório/pesquisar: assassinos seriais. Recordatório: evitar lugares excessivamente desertos.


sexta-feira, 10 de março de 2006

Superstições

SUPERSTIÇÕES


Quando moleque, nos cinemas poeiras que eu ia, passava um desenho animado de curta-metragem, nacional, que falava sobre superstições. Era bem engraçado, pelo menos na época. Era uma voz em off, creio que com sotaque caipira, que enumerava algumas superstições. Por exemplo, em certo momento a voz dizia: "Se um homem e uma mulher passarem embaixo de um arco-íris, o homem vira mulher e a mulher vira homem. Isso é... superstição!" Daí, do nada, vinha voando um negão vestido de super-herói e a voz gritava:

- EU FALEI SUPERSTIÇÃO E NÃO SUPER-TIÇÃO!!!

Eu nunca esqueci o desenho. Afinal falava de algo com que eu convivia no dia-a-dia e que minha mãe sabia cultivar bem em cada um dos filhos, fazendo que nós seguíssemos à risca cada uma delas, afinal a maioria delas envolvia morte. Algumas das que mais me lembro são:

- Não deixar os chinelos virados. A mãe do dono do chinelo morreria. Hoje em dia não sei mais se ando desvirando chinelo porque não gosto de bagunça, ou se é um medo irracional de algo que foi cultivado desde a infância.

- Se alguém passar por cima de você, você não vai mais crescer. Isso era um problema, pois sempre estávamos deitados pelo chão vendo TV, e sempre alguém queria passar. Se passasse por cima tinha de "despassar". Ou "despassava" ou saía porrada.

- Não se podia deitar e colocar os braços apoiando a cabeça. Adivinha o que aconteceria? Sim... morria. Era bom ter sempre um travesseiro ou almofada por perto.

- Abrir guarda-chuva dentro de casa. Alguém morreria.

- Não era bom abrir uma tesoura usando as duas mãos. Isso era mortal. Se não morria na hora, pelo menos um tapão da orelha levava.

- Não se podia chamar relâmpago de "raio", pois atraía o mesmo.

- Se um garfo caísse, era porque estava para chegar um homem.

Essas e muitas outras que encheriam um livro. Hoje em dia eu sou mais cético com as coisas, então... hmmm... droga... tem um chinelo virado ali. Daqui a pouco eu volto.


domingo, 5 de março de 2006

Um Post do Passado

UM POST DO PASSADO


Eu estava naquela casa, tão vazia quanto possível, num dia de um sol preguiçoso. A casa era nada mais que uma única sala, com janelas abertas, por onde faixas de luz do sol entravam, e por onde podia se ver a poeira dançando, uma dança também preguiçosa. Aquilo tudo era tão onírico. Eu não sabia por que estava ali. Não sabia em que época eu estava. Eu desconfiava que era minha infância, mas não tinha absoluta certeza.

Uma esteira no chão era a única coisa dentro da casa. Sem móveis, sem cortinas. A cor das paredes era apenas um azul pálido e, mesmo assim, já descascando em várias partes. O mais estranho era que, apesar de saber tudo isso, eu mesmo não parecia estar na casa. Aquilo me incomodava a ponto de embrulhar meu estômago.

Lá fora havia uma cerca de arame farpado, cercando toda a casa. Uma cerca tão frágil, que parecia piada ela estar ali. O portão de madeira era tão mal feito que dava pena. Ele pendia aberto.

Quando olhei para o lado, uma criança tomava banho dentro de uma bacia. Aquelas bacias de alumínio, antigas, que nem sei se alguém ainda usa aquilo. O menino, um bebê ainda, gorduchinho, brincava na água, se divertindo, mas não havia ninguém tomando conta dele.

De repente, acima de mim, um relâmpago explodiu - KRAKALAKA BOOOOMMMM - e eu me encolhi de susto e de medo. Meu coração batia tão acelerado que doía dentro do peito. Olhei para o céu, e estava quase limpo. Azul, com algumas nuvens brancas, finas. Nada que denotasse uma tempestade a vista. Aquilo tudo me dava uma estranha sensação de dèjá vu (ou seja lá como se escreve isso). Sim, desde o início.

Notei que eu estava perto do arame farpado, e estremeci só de pensar em um raio me atingido por eu estar perto daquilo. Daí, lembrei do garoto na bacia de alumínio, e pensei no pior. Mas não havia mais garoto. A bacia estava encostada numa parede, perto de um velho tanque de concreto.

A casa, o sol atravessando a janela, o arame farpado, o garoto na bacia e o raio ("não chama de raio menino, que faz mal! É relâmpago!", dizia minha mãe), tudo aquilo parecia fazer parte de alguma coisa que eu não fazia idéia do que era. Eu me sentia um fantasma naquela cena toda.

O chão de barro era agitado por uma brisa e levantava uma poeira seca que, ao ver, senti minha garganta secar também. O que foi feito da criança? Achei engraçado o garoto ser gordinho. Me fazia lembrar o quanto minha mãe cismava em me contar como eu era obeso quando criança, e que quase morri por causa disso, sendo salvo por um farmacêutico, conhecido apenas por Seu Pimenta. Ela diz que eu ia morrer com "gordura no coração". Eu nem faço idéia de quem diagnosticou isso pra ela.

Me sentia tão sozinho. Onde estava todo mundo afinal?

Acho que a casa era de meus pais. Mas onde estavam eles? Porque ela estava tão vazia? E a criança na bacia era eu mesmo? Senti um solavanco no coração. Sim, aquela foi a primeira casa onde meus pais moraram quando chegaram aqui no Rio de Janeiro, comigo.

Eu lembrava das faixas de luz de sol entrando pelas janelas, e da poeira dançado nelas. Eu me lembrava do banho na bacia de alumínio e da história que minha mãe contava de um menino que havia sido morto por um relâmpago por estar perto de uma cerca de arame farpado. Mas eu devia ter o quê? Um ano de idade, ou menos. Como podia me lembrar? Não sei.

Ia saindo pelo portão aberto, quando olhei mais uma vez para a casa e daqui de fora podia ver bem lá dentro. Tão vazia. Parecia o símbolo de como eu me sentia naquele momento. Não sei se por estar ali preso ao passado, ou se por estar com medo de voltar ao presente.

Fechei o portão atrás de mim, que voltou a se abrir, e fui embora...



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