quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

O Armário Amarelo

O ARMÁRIO AMARELO


Lá em casa havia um armário, amarelo, feito por um tio marceneiro, do qual eu simplesmente me apossei. Para um armário ele era bem pequeno. Não posso chamar de baú, já que ele tinha aquela porta e coisa e tal. Além, claro, de ficar em pé, e não deitado. Tomei-o para mim, e para minhas revistas em quadrinhos.

Em pouco tempo ele estava zoneado por dentro, cheio de coisas coladas. No fundo, eu colara um desenho do Spectreman. Na porta, por dentro, colei um recorte da revista A Espada Selvagem de Conan, que era uma carta minha que havia sido publicada. Também colei o desenho que meu irmão fez para Arte dos Leitores, que foi publicada em alguma Novos Titãs, e que já falei dela por aqui.

No armário também tinha colado um pequeno espelho quadrado, que era para me lembrar das burradas que eu fazia, toda vez que olhasse para ele. É que certa vez cismei de comprar um dos produtos que sempre anunciavam nas revistas em quadrinhos. Esse, no caso, era um "aparelho" que fazia com que ficasse mais fácil copiar certos desenhos, por um jogo de espelhos. Preenchi o cupom, e enviei. Mas só pagaria ao retirar no correio. Passou uns 8 MESES e eu já nem lembrava mais do assunto, quando recebi um aviso do correio, para ir buscar a parada. Nem acreditei. O mais interessante é que o preço continuava o mesmo, mesmo com a inflação galopante daqueles dias. Ou seja, eu ia pagar uma mixaria. Fui ao correio peguei a caixa e abri em casa.

Não acreditei no que vi. Uma tralha, que ao se montar, não fazia nada do que se comprometia, nem por um milagre. Um espelho quadrado foi tudo que sobrou depois que eu desisti de tentar, e joguei tudo fora. Colei o espelho no pequeno armário, como um lembrete.

No armário eu acumulava cada vez mais e mais HQs, até que não cabia mais. Era chato, mas eu precisava de um lugar maior, apesar de não querer me separar do meu armário de estimação. Mas não teve jeito. Afinal, eu não parava de comprar mais e mais gibis, de mais e mais títulos. Então me apossei de uma parte de um outro armário enorme, branco, que ficava na sala também. Ali eu fazia várias pilhas de revistas e tinha bastante espaço, mas este um dia ia acabar também.

Ainda sinto saudade do pequeno armário amarelo, do qual nem sei mais o que foi feito. Mas, a vida continua...


terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Amigos e Loucos

AMIGOS E LOUCOS

Ainda hoje me pergunto se tudo aquilo aconteceu realmente:

A verdade era que eu e Robson éramos apaixonados por Delma. E, também, eu e Robson éramos os melhores amigos um do outro... e de Delma. Acho que nos conformávamos que ela não queria nada conosco. Comigo eu até poderia entender o porquê, mas o Robson, coitado, até que tinha alguma chance. Mesmo assim Delma cismava em ser apenas a nossa melhor amiga. Talvez flertar com os dois, juntos ou separados, fosse mais divertido.

Eu e Robson, éramos como irmãos. A afinidade que nunca tive com meu irmão de verdade, eu tinha com Robson. Talvez isso aconteça muito por aí. E, é óbvio, um sabia que o outro estava apaixonado por Delma. Talvez para tentar minimizar o fato de que nunca teríamos Delma, eu e ele ficávamos a falar de seus defeitos, de seus erros e etc. Este é o ponto nesta história.

O tempo foi passando e a família de Robson resolveu se mudar para Volta Redonda. Eu não fiquei nem um pouco achando, com isso, que teria mais chances com Delma. Ela era osso duro de roer. Bom, Robson e sua família estando mais distante, comecei a escrever cartas para ele. Não, não existia e-mail ainda!

Então, em uma das cartas, Robson, que não era muito de gostar de escrever, sugeriu que em vez de carta, ele enviasse uma fita cassete. Eu concordei, claro. Então, passado alguns dias, chegou a tal fita. Peguei na caixa do correio e, em vez de subir e escutá-la, eu ainda fui andar. Péssima idéia. No meio do caminho encontrei Delma, encontrei Delma no meio do caminho. Quando ela viu a fita, tomou da minha mão. E quando viu escrito Robson, quase pulou no meu pescoço. E disse que queria porque queria, escutar a fita na casa dela.

Um dos problemas com Delma era que dificilmente ela aceitava um não. Eu não sabia qual o teor da fita, mas mesmo assim, meio receoso, acabei tendo que concordar. Delma era maior que eu.

As coisas pareciam que só estavam tendendo a piorar. Chegamos à casa de Delma, e estava na hora do almoço. A família de Delma, enorme, já estava à mesa. Me convidaram para almoçar, e eu acabei aceitando. Para piorar, Delma queria escutar a fita ali mesmo, na sala, com todos presentes. Afinal todos também conheciam e gostavam do Robson. Eu estava com um mau pressetimento.

Delma colocou a fita e veio sentar-se ao meu lado na mesa. Robson começou a falar, na fita. Depois de algumas amenidades, aconteceu o que eu tanto temia: ele desandou a falar de Delma. Começou aos poucos e foi indo para os tons de críticas e fofocas. Todos na mesa ficaram em silêncio. Pai, mãe, irmãs e irmãos. Eu bloqueei tudo. Eu não lembro mais o que foi dito na fita. Nem uma palavra. Só sei que foram ditas coisas ruins. Nada desvastador, mas ruins.

Eu me levantei (sem ter comido nada), peguei a fita do aparelho, e saí. Eu fui pra casa, e no meio do caminho atirei a fita em um buraco qualquer.

Poucos dias depois me encontrei com Delma, e a família dela. Não parecia ter acontecido nada. Estavam normal comigo. E tudo me levava a pensar se o que foi dito não fez diferença para ela e eles, pois já seria normal. Ou se eu apenas maximizei o problema, pois tenho essa mania. No final ficou tudo bem.

Tempos depois fui à Volta Redonda e contei o acontecido ao Robson que, depois do susto inicial, quase se mijou de rir do meu aperto. Só disse a ele uma coisa: fitas cassete nunca mais.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Steinbecker

STEINBECKER

O sol queimava sobre a cabeça de Steinbecker, que já andava por algumas horas sem saber mais para onde ia. O calor estava absurdo. Steinbecker estava num caminho onde o solo parecia ter sido crestado. Ele sabia que tinha de continuar andando, só não sabia se queria isso. Indicaram esta direção a ele e disseram para andar em linha reta até que fosse preciso parar. Parecia piada, pois ele queria muito parar, mas sentia que ainda não era a hora certa. Por isso continuava, debaixo daquele sol escaldante, a andar quase sem rumo. Na verdade ele nem mesmo sabia se sua "linha reta" fora tão reta assim. Mas Steinbecker tinha um problema sério: quando começava algo ia até o fim, e era curioso também.

Tudo começara com um papo entre amigos de jogo de cartas, que falavam de uma certa lenda urbana, criada naquela região, de que as pessoas que se aventuravam pelos caminhos inóspitos em que agora Steinbecker se encontrava, jamais voltavam, jamais eram vistas novamente. Steinbecker ria de tudo aquilo, pois ele não lembrava de nada disso, de nenhum desaparecimento. Foi quando os amigos começaram a enumerar nomes de pessoas que Steinbecker conhecia apenas de nome, ou que vira uma vez ou outra. Eles não podiam provar que essas pessoas estavam desaparecidas. Mas até aí, Steinbecker também não podia provar que não estavam. Bobagem, tudo bobagem.

A verdade, porém, era que, desde criança, Steinbecker sempre tivera arrepios só de pensar em andar por aqueles lados. Chegara mesmo a ir, mas o lugar parecia nunca ter fim. Nunca encontrava nada, a não ser voltando de onde viera. Era um deserto. Mas um deserto mais estranho que a maioria dos desertos. Mas Steinbecker não fora muito longe, talvez não tão longe a ponto de desaparecer.

Quando encontrou com seu amigos no dia seguinte, a conversa veio novamente à tona, e começou o velho costume entre eles: o momento em que tudo termina em uma aposta. Steinbecker estava tentando se mostrar descontraído com o assunto, mas desde que parara para pensar, na noite anterior, que nunca mais vira certas das pessoas citadas na conversa sobre os desaparecidos, ele não estava mais tão confiante em que tudo fosse uma lenda, uma historinha para assustar crianças.

Sem saber por que, ele aceitara a aposta, sem nem saber o que estava em jogo, se ganhasse. Ele apenas tinha de ir o mais distante que conseguisse, e apenas seguir em linha reta e andar até que sentisse que precisava parar. Ele achou que eram instruções meio aleatórias, e vai ver eram mesmo. O problema era que ele não conseguia parar de andar, mesmo querendo isso. Isso começou a acontecer logo depois que ele passou do limite até onde fora quando ainda era apenas um garoto.

Steinbecker parou.

Olhou para trás e notou que não dava mais para divisar a cidade. Ele... ele.. não lembrava mais porque estava ali. Qual o motivo dessa caminhada tão longa. Olhou para adiante e viu um grupo de pessoas acenando, perto de um velho trailer. Era engraçado. Elas e o trailer ali, no meio do nada. Devia haver uma meia duzia de pessoas mais ou menos. Sentadas em volta de uma fogueira apagada. Steinbecker não se sentia muito bem, mas foi em direção a elas. Pedir alguma informação, quem sabe. Ao se aproximar, Steinbecker começou a divisar alguns rostos... quem diria, eram...

O chão em volta de Steinbecker começou a afundar. Na verdade... se abriu! Steinbecker caiu uns três metros, com a areia caindo a sua volta. Lá em cima, na boca do buraco onde Steinbecker se encontrava, apareceu alguém com o que parecia ser uma espingarda, e disse:

- Ganhei a aposta, Steinbecker. As pessoas nunca voltam!

BLAM!



terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Desespero

DESESPERO

Enchi o copo d'água e tomei os dois comprimidos - acho que estou esquecendo alguma coisa - de um gole só. Saio apressado, já atrasado, para ir até o Catete. Melhor pegar o Metrô que é... não sei o que estou esquecendo, mas sei que estou esquecendo algo. Paro nas escadas que dão para o Metrô e tento me lembrar, forço a mente o máximo que posso, mas não consigo. E a sensação não vai embora. Quase volto em casa. Mas, engraçado, não é algo que eu devia ter aqui comigo, é outra coisa. Aquilo realmente me incomoda. A sensação de estar esquecendo algo sempre é chata, mas desta vez está batendo o recorde. Desisto e desço as escadas. Compro uma passagem e fico esperando, sentado, o trem chegar. Fico esperando...

... Eu dormi?! Não acredito. Eu dormi enquanto esperava. Mas eu nem mesmo estava com sono. Quanto tempo eu...? PUTA MERDA!!!! Eu dormi CINCO HORAS??!! Claro, as pessoas começam a me olhar estranho, afinal eu estou com cara de sono e de desesperado. Agora nem sei mais o que fazer. Vou ainda para onde ia? Volto pra casa? Eu decido que é melhor eu voltar pra casa.

Subo as escadas, passo pela roleta, pego a escada rolante e saio... no Catete?! Mas eu estava em Botafogo! Eu nem entrei no no trem. Como vim parar aqui? Eu só fiz dormir. Aquilo tudo parece ter a ver com o fato de que eu estou esquecendo alguma coisa. Num segundo sinto um dèja vu e quase vomito. Essa sensação sempre me faz isso. Não gosto. Me sento na ponta do degrau da escada, tentando entender o que aconteceu exatamente: Botafogo, Metrô, cochilo de cinco horas, Catete sem entrar no trem. Um ânsia de vômito se apossa de mim novamente. Me dou conta de que minha cabeça lateja de dor (estou esquecendo alguma maldita coisa nessa história toda). Abaixo a cabeça, tentando pensar e fazer a ânsia de vômito passar. Quando levantos os olhos...

... Estou num vagão do metrô. Agora não há o que faça segurar... eu vomito. Meu estômago parece querer sair junto. Sinto todas as náuseas do mundo. Por sorte não há ninguém ao meu lado. Mas os poucos que estão no vagão me olham perturbados e/ou com cara de nojo. Eu não sei o que está acontecendo. Volto a despejar coisas que nem sei se comi no chão do vagão. Seco a boca e olho em volta. Todos me olham mas ninguém se mexe. Isso seria até normal, só que eles não se mexem... MESMO! O vagão se move, mas nada mais se mexe, apenas eu. Não tenho mais o que vomitar por conta disso. Lá fora tudo se move, aqui dentro nada e nem ninguém. Outra coisa que noto, é que desde que estou aqui, não chegamos a nenhuma estação. Sinto um frio passar por todo meu corpo. Evito olhar para as pessoas imóveis. Devo estar sonhando, ou algo pior. Fecho e abro os olhos tentando ver se a "mágica" se repete e eu saio dali pra outro lugar qualquer. Mas nada acont...

... Estou no banco da estação de Botafogo, onde dormi as cinco horas. Alguém se aproxima de mim. Uma garota, adolescente, uns treze ou quatorze anos. Parece que a conheço, mas não tenho certeza. Ela abre a mão e me dá dois comprimidos dos meus. Reconheço-os pela cor de barro vermelho que eles tem. Ela me diz numa voz que parece vior de muito longe: "os comprimidos, você esqueceu dos comprimidos". Então, ela vai embora. Não consigo ver para onde ela vai. Na verdade não consigo discernir muita coisa na estação. E não entendo, eu não esqueci os comprimidos, eu os tomei ao sair de casa.

Olho pra minha mão, e no lugar dos dois comprimidos que ela me deu, agora existem quatro. Agora... agora entendo. O que eu esqueci não foi de tomá-los. O que eu esqueci foi que já os havia tomado, e tomei uma segunda vez. Eu estou tendo uma overdose. A pergunta é: Onde eu estou agora?



Business

category2