segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

A Pedra

A PEDRA

Sentado sobre a pedra, eu olhava a praia lá embaixo, com suas ondas que, daqui de cima, pareciam tão silenciosas. O cheiro do mar ainda me alcançava e me fazia sentir saudades, mas não sei exatamente por quê, já que nunca vivi assim, tão perto do mar. Algumas pessoas insistiam em estar na praia naquela manhã, mesmo tendo chovido bastante na noite anterior e agora estar um pouco frio.

Daqui de cima a praia parecia um grande lago infinito. Um cão brincava com algumas crianças, e latia tão alto que o eco de seu latido ainda me alcançava, mesmo eu estando tão longe. Daqui tudo parecia terrivelmente mais simples e mais distante, como se eu estivesse fora do mundo. Sendo apenas um observador. Ao longe um navio se distanciava, indo embora sabe-se lá para onde. Um velho navio. Parecia seguir tão preguiçosamente seu caminho, que de repente me espreguicei. Minhas juntas estalando.

Me debrucei sobre a amurada, sentindo um sono, que as ondas lá embaixo, compassadas, pareciam aumentar. Poucas pessoas arriscavam um mergulho, e imagino como a água devia estar fria. Se apenas o vento já estava frio, imagine a água lá embaixo. No entanto, uma mulher se atirou nas águas e, nadando através das ondas, parecia estar competindo contra si mesma. Batia as pernas e os braços e seguia adiante. Fiquei ali, hipnotizado, observando-a se distanciar da praia, nadando, com seu maiô vermelho. Por um instante achei que ela se virou e acenou na minha direção. Quando percebi que eu nem estava piscando mais, automaticamente pisquei... e ela sumiu. Devia ser efeito do sono restante da noite anterior, e da saudade. Um vento frio cortante surgiu do nada e se foi.

Encostei na parede de pedra e passei a olhar o céu. Tão azul que doía nos olhos. Respirei fundo e expirei o ar bem devagar. Parecia que ficar ali para sempre seria um boa idéia. Mas eu precisava voltar. Descer para minha vida, novamente. Comecei a descer as escadas de pedra, saindo daquele mundo de brisa e cheiro de mar. Descia sem pressa de chegar lá embaixo. Numa curva vi a sombra de uma pessoa subindo, e me encostei na parede para dar passagem. Era uma mulher de maiô vermelho. Passou e acenou para mim.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Você Viu o Crime?

VOCÊ VIU O CRIME?


Eu nunca gostei de religião, desde criança. Se eu acreditava em alguma coisa, era mais por medo do que por fé, amor e tudo mais. Talvez eu fosse indiferente com a religião porque eu, quando criança, sempre era arrastado para igrejas, centros espíritas, centros de umbanda, entre outras coisas, e via que religião era algo tão bagunçado, estranho e/ou maçante. Mas o peixe morre pela boca.

Quando estava com meus 20 anos, peguei emprestado uns livros das Testemunhas de Jeová com um amigo, que nem mesmo era da religião, apenas comprara os livros. Peguei como distração para ler no ônibus, ao ir trabalhar. Um deles era "provando" que o Homem fora criado, e não havia evoluído, como a ciência dizia. O livro trazia "provas" científicas disso. Inclusive dizendo que os tais "seis dias" de criação era apenas uma metáfora para milhares ou milhões de anos. Parecia bem coerente em algumas coisas, ou talvez eu estivesse apenas lendo com sono.

Outro livro era uma interpretação do Livro de Apocalipse (Revelação a João). Na verdade, o que se dizia nele, não era coisa com coisa, mas como era bem escrito, parecia estar sabendo do que falava. Mas relembrando hoje, era apenas como pegar e tentar ler um livro de Física Quântica, e achar que estava entendendo, quando na verdade, não se estava entendendo nada.

Um terceiro livro, era apenas de "conselhos" para os jovens. Alguns realmente bons, outros eram apenas "não faça isso porquê isso é feio e vai desagradar a Deus". Bom, só sei que depois de ler os três livros, encasquetei que ia estudar com as Testemunhas de Jeová. Assim, fiz o caminho inverso a que elas estão acostumadas: em vez de elas baterem à minha porta, eu fui até uma delas, uma amiga de minha mãe, que se tornara TJ. Eu a parei na rua e disse que queria estudar. Ela me arranjou um instrutor homem. Que puxa!

Em apenas seis meses eu já estava entrosado. Eu já havia feito amizade com metade do Salão do Reino (como se chamam as "igrejas" das TJ). Acho que é esse o diferencial das Testemunhas de Jeová, eles fazem você se sentir realmente parte de uma família.

Logo em seguida me batizei, que é por imersão completa, numa piscina. Meu "curso" estava completo. Eu já até mesmo saía de porta em porta, indo "oferecer" as revistas (não se diz vender, pois eles não consideram venda já que, supostamente, as revistas e livros são vendidas a preço de custo). Na verdade, acho que foi um milagre eu fazer aquilo, pois sou péssimo com o público, e nunca seria vendedor de nada. Achei que seria impossível, mas não só consegui falar logo na primeira casa, como fui xingado, mas mesmo assim continuei.

As Testemunhas de Jeová não pregam curas milagrosas, nem pedem rios de dinheiro como contribuição, apenas o suficiente para manter os Salões do reino. Geralmente as contribuições são poucas, e isso só se nota quando alguma reforma é necessária. Mas a editora matriz e as filiais pelo mundo parecem nunca carecer de dinheiro.

As Testemunhas de Jeová acreditam que a Terra em breve será um paraíso, o que se choca com a crença da maioria das igrejas protestantes, que é viver no céu. Elas se apegam a certos textos da Bíblia e interpretam de modos inusitados. Muita coisa que não está escrita, é "criada" por elas. Por exemplo, não se deve festejar aniversários por vários motivos: primeiro por ser uma festa onde se dá honra a uma pessoa específica, honra que deve ser dada somente a Deus; segundo porque aniversários só são mencionados em ocasiões trágicas, na Bíblia, como a decapitação de João Batista, e quem comemorava era o pagão, Herodes; e outras coisas que não lembro agora. Mas as TJ entram em contradição, pois festejam aniversários de casamento. Como se fosse uma compensação por não poder festejar aniversários, Natal e toda e qualquer data festiva "mundana".

O mais polêmico ensino das TJ, a não-aceitação do sangue, vem de uma passagem onde o apóstolo Paulo fala sobre não "comer" sangue. Para ser rápido e objetivo, eles dizem que se uma pessoa não pode comer via oral, a "comida" é introduzida intravenosamente, assim introzudir o sangue seria o mesmo que comer. Eu sei, é uma viagem e tanto. Mas quando se está lá dentro ninguém questiona nada. Esse é outro ensinamento. Quase subliminar, às vezes, e às vezes bem explícito: não se deve questionar!

As decisões sobre os dogmas da religião são tomadas por um chamado "Corpo Governante", composto de uns 12 homens, que vivem na editora matriz, em Nova York. Esses homens são "especiais" no sentido de que estão entre as 114.000 pessoas escolhidas para viver no céu, e governar a humanidade na Terra, no reino que é citado no Pai Nosso: "Venha a nós o Teu Reino". Esses homens não se auto-proclamam com dons especiais de comunicação direta com Deus, não têm visões, não fazem curas milagrosas, não soltam raios pelos olhos, nem nada. Mas, então, o que faz deles "especiais"? Praticamente nada. Eles apenas... "são" especiais e pronto. Quem vai questionar?

A maneira como se sabe quem é do céu e quem é da terra é, mais ou menos, a seguinte: lá por março ou abril, todas as TJ comemoram o que eu já esqueci o nome agora, e passam pão ázimo (sem fermento) e vinho entre elas. Maaaassssss... só quem pertence ao céu é que pode beber. Como a pessoa sabe disso? Não me perguntem. Eu não sou do céu e nunca bebi o vinho e nem comi o pão. Mas há toda uma explicação envolvendo o ano de 1914, o livro de apocalipse, as pessoas que estavam vivas naquele ano e estão vivas até hoje, O Reino de Deus, a Volta de Cristo (que aconteceu naquele ano, segundo as TJ) e outras coisas que, como eu disse, são como Física Quântica e seria impossível explicar num post só. Quanto menos se entende uma coisa lá, menos se deve perguntar sobre ela.

E, sim, eu engoli tudo isso durante sete longos anos. E eu gostava de lá. Não dos ensinamentos em si. Pois era muita coisa que não era explicada, e ficávamos naquela bruma, sem poder questionar, pois questionar significava que você estava indo contra o próprio Deus. Você era logo chamado de apóstata, ou seja, alguém que estava se desviando do ensino "verdadeiro" (aliás é mais um dogma das TJ, apenas o ensino deles é o ÚNICO e VERDADEIRO, isso é inquestionável, também).

O que foi me desanimando, foi justamente o que me segurou lá. Melhor explicando, as minhas maiores amizades por lá começaram a se mudar para outros lugares do RJ, mais distantes ou para outros estados. Eu ia ficando meio sozinho, sem ter para onde ir. Sair de porta em porta já era algo mais do que irritante, pois eu tinha de falar com as mesmas pessoas semana após semana. Cada vez eu diminuía mais isso, e para eu "crescer" lá dentro, isso tinha era de aumentar. Assim eu nunca chegaria a ANCIÃO (como se chama o "pastor" lá). E na verdade eu nem queria aquilo. Mas era meio que obrigatório. Mas fazer discursos e tudo mais, não era minha praia. Ah, e não é remunerado.

Assim, mesmo eu indo visitar muitos de meus amigos, as coisas estavam caminhando para um fim. E eu sabia o que aquilo significava. Um dos ensinamentos básicos das Testemunhas de Jeová é que se você for desassociado (eufemismo para "expulso") ou se dissociar (eufemismo para "dar o fora por conta própria") do grupo, você será execrado. Ninguém mais poderá falar com você (baseado na Bíblia: "se aquele não vier com este ensino não converse com ele, nem tome refeição com ele", mais ou menos isso). Ou seja, eu ia perder de vez os amigos que fiz. E eu sabia bem como era aquilo. Já tinha visto pessoas que foram expulsas tentando voltar a frequentar. A pessoa passa por um teste de seis meses, indo ao Salão do Reino, sem ninguém falar com ela, se ela quer mesmo voltar, ela vai aguentar até o fim. Eu sabia que se eu saísse, era mesmo para sempre. Pois não ia aguentar aquele vexame.

Assim, certo dia escrevi um bilhete, deixei na casa de um "ancião" e fui embora. Eu estava fora, depois de sete anos. Foram à minha casa, tentaram me dissuadir. Mas fui veemente. Não ia voltar. Eu saí por vários motivos. E ainda assim acreditava dentro de mim, que estava fazendo algo que era errado. Isso até que dois anos depois eu comecei a acessar a Internet, e pude ver sites de ex-Testemunhas de Jeová, e ver que muita coisa não é "ensinada" no tal curso. Muita coisa é omitida. E que não há isso de "religião verdadeira". Isso foi de muita ajuda.

Conheci, pela Internet, outras pessoas que foram, ou pessoas que ainda eram Testemunhas de Jeová, e tinham dúvidas, mas que não conseguiam coragem para sair. Muitas alegavam estar sofrendo de problemas psicológicos, mesmo depois de ter saído. O caso mais triste que vi foi de uma mulher, que era casada, e tanto o marido quando os filhos eram TJ, e ela também era, até que resolveu sair, depois de ver que estava desperdiçando sua vida. E, assim, o tal "ensinamento" sobre execrar quem deixa de ser TJ tinha esse problema: e se a pessoa fosse um parente? Bom, aí ficava à escolha das pessoas falar com ela ou não. E a mulher dizia que havia dias em que os filhos e o marido falavam com ela direito, e dias que não falavam, tratando-a como uma desconhecida. Depois de algum tempo ela sumiu da lista. Acredito que não aguentou a pressão e voltou. Ou coisa pior.

Eu também acabei por sair da lista de e-mail sobre esse assunto. Estava acabado para mim. Até mesmo falar sobre aquilo era perda de tempo. Hoje eu acredito apenas em uma coisa, que estou vivo. Se existe algo mais, não é da minha conta.

PARA SABER MAIS:

Testemunhas de Jeová - Página Oficial
Ex-Testemunha de Jeová
As Verdades sobre a "Verdade"
A Formação de uma TJ


sábado, 21 de janeiro de 2006

Odisséia Eletrônica

ODISSÉIA ELETRÔNICA


Eu nunca fui muito fã de tecnologia. Quer dizer, de ter que lidar com ela. Assim, computadores não me enchiam os olhos pois eu sabia que eram como carros, se dessem defeito, eu teria de saber alguma coisa mínima que fosse, nem que fosse trocar um pneu... do carro, não do computador. Assim sendo eu apenas gostava de ver as empreitadas de meu tio quando ele se metia com algum tipo novo de computador, mas me mantinha longe de tentar lidar com eles. Me irritavam.

Certa vez até cheguei a pedir emprestado um, que era apenas um teclado que podia se ligar à TV e, escrevendo alguns códigos, fazer alguma coisa boba, como números aleatórios para a Loto. Coisa besta! Se eu tentava copiar um código maior, sempre errava alguma coisa e nunca funcionava. Ou seja, eu nunca fui nenhum amante da eletrônica e da computação.

Quando a Internet apareceu pra valer, eu estava muito aquém dela. Meu tio falava sobre e-mails, arrobas e etc, e u não fazia a menor idéia do que ele estivese falando. Ele mesmo não tinha Internet e, devia estar falando de quando acessava no trabalho, ou algo assim. Mas ele continuava com seus computadores. Acho que ele teve todas as versões, menos o ENIAC.

Acabou que meu IRMÃO obteve acesso a Internet, em casa (dele e da esposa dele), antes mesmo do meu tio. Assim foi meu primeiro contato. Usando um McIntosh. Eu não fazia nada demais. Só ficava de bobeira. Por ser uma novidade, acabava ficando muito tempo, mas sem muito o que realmente saber o que ver. Talvez por não ser meu mesmo, aquilo era meio entediante. Internet minha mesmo talvez eu nunca viesse a ter tão cedo, se não fossem os acontecimentos seguintes.

Meu irmão tinha um 486 encostado, e deu ele pra mim. Acabou que ele apenas ficou encostado lé em casa, também. Afinal, o máximo que eu podia fazer era digitar algum texto no Word. Eu não tinha paciêcia para os joguinhos. Na verdade eu não gostava de computadores pelo mesmo motivo que não gostava de videogames, sempre que se ia fazer alguma coisa, eram vários comandos que se tinha de aprender. Assim, ele ficou paradão lá, na casa de minha mãe, onde eu morava. Até que...

O irmão de um amigo meu comprara um modem, mas estava esperando a instalação do telefone, que naqueles dias demorava mais um pouco, ou talvez fosse apenas a localização... o cu do Rio de Janeiro. Bom, ele soube que eu estava com um PC em casa e que lá tinha linha telefônica e ele queria testar o modem. Assim ele foi lá em casa, e instalamos a bagaça. Assinamos o UOL para teste gratuito e, assim, eu estava com INTERNET EM CASA. Era outra coisa não estar na casa de meu irmão.

Ficamos navegando sem destino, por horas, até que ele disse que ia embora. Sem pestanejar, perguntei se ele podia deixar o modem comigo até que a linha telefônica dele chegasse. Ele consentiu na hora. E eu estava oficialmente no mundo virtual. Mais livre. Assim foram horas e horas em salas de chat do UOL, até enjoar, grupos de notícias, lista de e-mail sobre Síndrome do Pânico, Ex-Testemunhas de Jeová e etc. Cheguei até mesmo a ir a um churrasco, na Gávea, promovido pelo pessoal de Síndrome do Pânico, onde 98% eram mulheres. Eu tinha jeito para o mundo virtual. Pelo menos parecia ter.

As contas de telefone vinham altas, é claro. Mas eu estava mais do que viciado. O barulhinho da conexão era minha cachaça. Instalei ICQ, e pude conversar com muita gente, muita gente mesmo. Mesmo depois que o rapaz levou o modem dele, eu logo dei um jeito e comprei um ,para poder continuar navegando. Eu já havia sido infectado, não havia mais volta. Mas as mudanças prometiam ser mais radicais.A Internet prometia afetar minha vida mais do que eu esperava.

Eu tinha uma mania de, quando não tinha ninguém pra conversar no ICQ, fazer busca por apelidos e conversar com alguns daqueles que estivessem on line. Num sábado, em meados de 2000, eu digitei "lindinha"... cliquei em uma que estava on line e... bom... a gente se encontrou três dias depois, assistimos a um filme chamado SANTITOS no cinema Estação Botafogo (não me pergunte sobre o que é o filme, não sei até hoje) e eu me casei com ela, Eliane Honorato, dentro de 6 meses. Isso em menos de um ano usando a Internet.

Uma coisa puxou a outra e eu acabei aqui, com um blog mais ou menos conhecido, escaneando HQs e escrevendo abobrinhas. Tudo isso detestando tecnologia. Imagine se eu gostasse!



quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Amigos

AMIGOS

Eram quatro da madrugada quando acordei. Eu nunca vou me acostumar a esse horário do cão. Me arrumei, tomei café e fui embora. Desci as escadas, sonolento e, quando cheguei à rua que era uma reta longa, eu simplesmente dormi andando. Tropecei no paralelepípedo e caí... acordando. Levantei e comecei a andar de novo, e não aguentei e dormi de novo, em pé, andando. E, claro, caí de novo. Pelo menos era um mico que eu estava pagando sem platéia. Àquela hora não havia uma viva alma sequer na rua. Apenas eu, dormindo andando.

Cheguei ao ponto de ônibus, que logo chegou. Ainda bem que sempre dá pra ir sentado. Aleluia, irmãos! Nem bem me sento e já caio no sono. Não demora muito e acordo com o vidro da janela explodindo em mil pedaços em cima de mim. Estou com tanto sono que não consigo entrar em pânico. Ninguém sabe o que aconteceu. Devia estar podre ou algo assim. Me limpo dos cacos de vidros, que são redondinhos e não cortam, ainda bem. Mas vou ter de sair dali e ficar em pé. Tem muito vidro.

Fico em pé virado para a traseira do ônibus, encostado no vidro, descansando. Estou distraído e nem noto que à minha frente está sentado um garoto, e seu pai ao lado, lendo jornal. Eu não acredito quando o garoto lança um jato de vômito amarelado contra a minha perna, sujando toda a minha calça jeans. O pai do garoto, na mesma hora, sem saber o que fazer, enrola o o jornal e começa a limpar minha perna, pedindo mil desculpas. Eu estou tão sedado de sono, que digo que está tudo bem , que não foi nada. Com a calça daquele jeito, eu desço e vou pegar o segundo ônibus.

O ônibus está saindo, eu corro para pegar, e caio na besteira de segurar com a mão esquerda, o ônibus dá um arranco e me puxa, e eu me esparramo sobre o asfalto, num tombo monumental. A vontade que tenho é de ficar ali mesmo, deitado e dormir. Acho que não vou chegar inteiro ao trabalho hoje. O que mais falta acontecer? Ah, não! Colegas de trabalho no ponto do ônibus.

Quando entro, não consigo passar pela roleta, e fico lá atrás com eles, que dizem que dessa vez eu vou ter de dar calote junto com eles. Eu argumento que não gosto de fazer isso, e coisa e tal. Conto tudo que já me aconteceu até ali, e que não estou num dia muito bom, e mesmo mostrando o estado da calça, eles não se comovem e dizem que vou ter de dar calote no trocador, junto com eles. E pior que não vejo como escapar. Assim que chegamos ao nosso ponto, a algazarra é total. Um monte deles salta por trás, e quando eu vou pagar e passar, eles me agarram e me puxam pela porta traseira do ônibus. Num movimento que ne sei como fiz, eu pago a passagem e giro a roleta com a mão, antes deles me arrancarem porta afora. Eles não viram o que eu fiz. E acham que conseguiram o seu intento. Eu deixo eles pensarem assim.

Já de saco cheio de um começo de dia tão miserável, eu corro para o vestiário. Quando abro meu armário para pegar meu uniforme, cai um monte de areia de dentro dele... e uma cabeça humana!!! OK... é brincadeira essa parte. Um dia não pode começar tão horrivelmente assim.



segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

No More, Mr. Nice Guy

NO MORE MR. NICE GUY


"Eu só gosto de você como amigo, Eudes!". Era Delma quem falava. Eu sentado ali, naquele sofá, em frente a ela, escutando aquilo, viajei numa espiral descendente ao passado, caindo, como naquela cena de Um Corpo Que Cai, entre vários outras respostas iguais, que recebi no passado... e não foram poucas: "Eu gosto de você como amigo!". Provavelmente isso vai estar escrito na minha lápide: "Aqui jaz Eudes Honorato, que não podia passar de um amigo."

O problema, evidentemente, estava em mim. Tímido demais para jogar qualquer conversa que denotasse o que eu sentia de verdade, eu acabava por travar uma amizade com a menina, sendo legal o bastante para que ela me quisesse sempre por perto. E, geralmente, elas queriam. Isso sempre se voltava contra mim mais tarde. Como agora, alí, com Delma diante de mim.

Inacreditavelmente ela estava namorando o Aurélio, e a única maneira de fazer ela voltar a si da merda que estava fazendo era dizer o que realmente eu sentia. Mas de pouco adiantou. Claro que eu sabia porque ela estava namorando ele. Eu só não conseguia acreditar que isso fosse possível, afinal ela desprezava o cara, e sempre deixou isso claro, quando conversava comigo.

Aurélio era um tipo repugnante que se esforçava para "conquistar" amigos. Fazia de tudo que estivesse ao seu alcance, monetariamente falando, para manter as pessoas por perto. Já Delma era expontânea demais, de uma natureza incontrolável. Mas o impossível acabou acontecendo. Ela estava namorando com ele, por ele ser "um bom partido". E aquilo me fazia refletir que ser um "cara legal" só me trazia este tipo de problema. Me perguntava se não era melhor ser desprezível como o Aurélio.

Ser legal deveria ser algo bom, mas acabava sendo um entrave nas minhas relações. As garotas acabavam me vendo como se eu fosse uma delas. Se eu fosse viado isso seria normal. Viados é que andam cercados de mulheres, sem querer comer nenhuma, mas, provavelmente de olho nos namorados de algumas delas. Não era a toa que alguns caras acabavam achando que eu jogava no outro time, simplesmente porque eu estava sempre no meio delas... quero dizer no meio delas, mas não literalmente falando.

Sentado ali, olhando para uma Delma sem graça, diferente da que conhecia, eu pensava nisso tudo. Pensava que eu devia mudar, que até não precisava ser desprezível, mas que eu devia parar com isso de ser o "amiguinho", afinal aquilo não me levava a lugar algum. No final das contas eu estava sempre sozinho mesmo. As companhias eram temporárias e sem, digamos, nenhum dos acompanhamentos.

Me levantei, e fui embora. Delma disse um "tchau" meio sumido. No fundo ela sabia que havia se vendido. E eu decidira que não ia mais me machucar. Pelo menos eu achava que não ia mais...



segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

A Origem

A ORIGEM

Depois de ser mordido (porque essa coisa de levar picada é meio gay) por um scanner radioativo, vindo de um planeta que se auto-destruiu a si mesmo, Eudes Prado adquire super-poderes, entre eles o de cortar revistas sem remorso para escanear, pois seus instintos de colecionador nerd foram alterados pelos raios gama, que o scanner de outro planeta adquiriu, quando passou pelos raios cósmicos da Zona Fantasma.

Adquirindo o codinome de OutsiderZ, ele partiu para sua primeira missão: escanear Camelot 3000. Não foi um bom começo, e os vilões Weblogger e Kit.Net não deram-lhe descanso, fazendo aprender que "com grande arquivos, vêm grandes dores de cabeça". Tendo seus arquivos de scans apagados vez após vez devido à maldita vilã Taxa de Transferência de Download, OutsiderZ procurou sempre uma nova base de operações, que sempre era invadida e saqueada pelos vilões da Liga da Injustiça Inc.

Logo se juntou a ele seu parceiro-mirim Garfield, que depois de bons serviços prestados pela batalha dos scans, foi para o lado negro do scanner, montando uma corporação que quer fazer o que agora ele tenta fazer todas as noites: DOMINAR O MUNDO... ou pelo menos 80% dele. Depois de muitas batalhas contra o Garfield do Mal , OutsiderZ resolve que não havia porque ficar dando murro em ponta de chifre e resolveu trilhar seu caminho seguindo os preceitos da Grande Rapadura Açucarada: quem com PDF fere, com conversor de PDF será ferido.

Mas o Apocalipse de OutsiderZ ainda estava por vir, a Morte do Rapadura Açucarada, em edição especial, papel touché, 1.208.391 páginas, lombada canoa e a um preço módico de 398.000 dólares, pois o mercado de scans não está indo muito bem devido a essas malditas revistas de papel. Sim, depois de morrer e, claro, na tradição das grandes embromations dos quadrinhos, ele ressuscita, mais forte, mais bonito, e em 25 sabores diferentes, incluindo carne seca mentolada.

Assim, em seu V.2, Rapadura Açucarada segue com novos e antigos personagens, cada um com sua parcela de participação, fazendo da "distribuição digital de quadrinhos", a grande aventura a ser trilhada, seja em minissérie, arcos fechados ou encadernada.

Para o alto... e dá START aí!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Um Conto Quase Real

UM CONTO QUASE REAL

Três dias sem meus remédios. Sem minhas drogas lícitas. Resolvi ir novamente ao hospital ver se já haviam chegado. Não é bom eu ficar sem remédio por tanto tempo. Não mesmo.

Saí pela Voluntários da Pátria e atravessei o sinal, lá na frente, perto do prédio da Vivo. Subo a passarela e desço, indo em direção ao túnel, que é meu atalho, principalmente em dias quentes como esse. Ainda bem queo túnel não é muito longo, pois o barulho aqui dentro é insupor.... PUTA MERDA... uma moto passa a toda velocidade, rente ao passadiço onde estou. O motoqueiro acertou meu braço com alguma coisa que eu não vi o que era. Sinto o braço queimar, na mesma hora! Não demora muito e o que eu achei que ia acontecer, acontece... A MOTO CAI!!! O motoqueiro segue rolando no chão algum tempo e pára, mas a moto não! Ela bate na mureta e gira para o meio da pista, um carro pequeno passa por cima dela a toda velocidade... e quase capota. Mas esse quase não adiantou muito... um caminhão vindo logo atrás o acerta. Começa um engavetamento e todo mundo tentando desviar daquilo tudo. O barulho é ensurdecedor. Eu que tava parado, resolvo que é bom começar a correr.

O motoqueiro escapou de tudo pulando para o passadiço onde estou. Está logo a frente caído. Todo mundo começa a buzinar e gritar ao mesmo tempo. Minha cabeça parece que vai explodir. O túnel nunca foi tão longo. Não vai dar pra parar e ajudar o motoqueiro, infelizmente. Eu estou quase tendo um troço. Os carros lá atrás se amontoaram. Ninguém mais consegue passar.

Corro e pulo o motoqueiro, e quando faço isso - não acredito - ele agarra meu pé! E eu caio, machucando o braço, que ainda arde. Ele me puxa pelo pé, não consigo me soltar. Tento chutar com o outro, mas não consigo acertá-lo. Ele leva a mão dentro da jaqueta e puxa... PUTA MERDA!.... uma ARMA! Eu entro em pânico e balanço a perna com tanta força que acabo me soltando. Corro como um desesperado... na verdade eu estou desesperado! Não olho para trás, mas não precisa, eu escuto o tiro, os carros param de buzinar e a gritaria cessa, eu sinto um empurrão nas costas, e caio. Sinto a camisa se molhar, se empapar. Mas não consigo sentir dor. Quando caí bati a testa em alguma pedra no chão. Estou fora do túnel. Não consigo respirar direito. Sinto pontadas quando tento respirar mais fundo.

Sem consciência de se devo ou não, eu me levanto. Um carro passa pelo túnel. Depois outro, e mais outro. Parece que estão conseguindo passar pelo engavetamento. Olho para trás na direção do motoqueiro caído, e não há mais ninguém lá. Nem engavetamento dentro do túnel, nem pessoas buzinando e gritando. Há apenas um trânsito fluindo normalmente.

Então eu entendo tudo: tive uma crise pânico... com alucinações. Nunca aconteceu desse jeito antes. Mas deve ter sido a falta dos remédios. Limpo minha roupa, que sujei na queda. O único sangue é o da testa, que machuquei ao cair. No mais, está tudo bem. Estou a poucos passos do hospital. Olho para trás uma última vez, quando.... o motoqueiro coloca a arma na minha testa e puxa o gatilho.... BLAMMM!!!! Tudo escuro... para sempre...

Acordo em casa...!

P.S.: Essa história é uma ficção. Minhas Crises de Pânico não acontecem assim, em estilo de filmes de ação. Foi mal, Fodaman! Esqueci de avisar.


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