segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Nelson Sargento

ENCONTRO COM NELSON SARGENTO

Estou sentado na lanchonete onde trabalho, e não há ninguém para atender. Quer dizer, quase ninguém. Um senhor de cor, deve ter lá seus 60 anos, está falando comigo, e eu não sei mesmo se estou ouvindo. Minha mente vagueia. Não sei se tenho muito em que pensar aos 15 anos de idade, ainda assim ela vagueia. Geralmente vai para a menina que trabalha no armarinho ao lado. Mas ela gosta do sobrinho da dona aqui do bar, que é até um cara legal pacas, que veio da Bahia, operar um tumor na cabeça.

O senhor continua falando e está visivelmente bêbado. Este é mais um dentre tantos tipos de bêbados, este é aquele que fica nostálgico. Mas já vi outros mais divertidos, como um que começou a xingar em "castelhano" e que, mesmo a dona sempre tão séria, não se conteve e caiu na gargalhada.

O homem não pára de falar, eu realmente não sei o que ele está dizendo. Quando me ligo à realidade começo ralmente a ouvi-lo,. ele está falando algo sobre ter sido famoso e gravado muitos discos. Eu o reparo nele por um instante, um senhor de cor, magro, alguns dentes faltando, ele tem uma espécie de gingado ao falar, mesmo estando bêbado. Seu rosto está marcado pela idade.

"Eu vou pegar meus discos pra você ver." Acho que ele se ofendeu, achando que eu duvidava. Eu não consigo perder essa mania de vaguear e olhar para as pessoas com a mente em outro lugar, isto lhes dá uma impressão errada do que estou pensando. Eu balbucio alguma coisa, tentando dizer que acredito nele, mas eu nem sei o que estou tentando dizer. Acho que acredito, afinal não é tão difícil gravar um disco, eu acho. Mesmo que pela aparência, ele não pareça ter tido em alguma época poder aquisitivo pra isso. mas elas enganam.

Ele simplesmente me diz que vai buscar os discos. Eu concordo, tudo bem, pode ir. Provavelmente vai cair na cama e dormir, como ele tá precisando. Volto a vaguear em meus pensamentos. Um dia monótono, a não ser pelo senhor dos discos que... nossa! Ele voltou mesmo!

Trouxe os discos sim. Uma meia dúzia deles. Não posso dizer que aquilo não me pegou de surpresa. Todos possuem sua foto e seu nome. Puxo pela memória, para ver se reconheço, mas aos 15 anos e só escutando música pop e/ou brega desde que nasci, fica difícil pra mim reconhecer o nome dele, que pelos discos é um sambista. Acho que agora entendo a ginga no modo de falar. Acho que ele gosta de me ver espantado.

A única coisa que me passa pela cabeça é: porque alguém que já foi famoso está morando aqui num bairro esquecido, que nem nome direito tem. Todos chamam de Vasco , mas na verdade é Parque Veneza. Não é por ser na Baixada Fluminense, é por ser em lugar nenhum... um lugar esquecido.

E acabei não conseguindo lembrar quem ele era. Afinal de samba eu nunca entendi nada mesmo. Não me lembro como, anos depois eu consegui ligar o nome a pessoa e saber quem era NELSON SARGENTO.


Eu saí do bar, e não ia muito ao bairro que ele morou. Mas acho que devo ter visto na TV, em algum lugar, alguma citação sobre ele, e até mesmo sobre ele estar fazendo algum tipo de show, de apresentação, e até mesmo gravando CDs, e ter pensado, nossa, é aquele coroa! Nelson Sargento. E eu imaginava aquilo meio surreal. Ele bêbado, falando de seu passado de glória e me mostrando seus discos, e eu envolto em meus próprios problemas. No fundo saber que ele estava de volta, me fazia bem, sei lá exatamente por que. Acho que ele inspirava simpatia, com aquele seu jeito gingado de falar.

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