quarta-feira, 3 de agosto de 2005

A Rua Cintra

A RUA CINTRA


Descobri a Rua Cintra lá pelos meus 12, 13 anos de idade. Era uma rua que começava no início da entrada do bairro e dava uma volta enorme, desembocando na rua onde eu morava. Comecei a frequentar esta rua por causa de Ana Carla, de quem até já falei neste blog. Branquinha, cabelos negros e sardas. Certa vez a acompanhei quando saía de seu colégio, o Matter Dolorosa, e fui conversando até chegar à rua onde ela morava. Era o começo de uma longa estadia naquela rua chamada Cintra.

Acho que nunca conheci tantas pessoas de uma só vez, nem na rua onde eu morava. Eu vivia por lá, primeiramente por causa da Ana Carla, mas depois pelos amigos e amigas que fui fazendo. Além de Ana Carla, a única que lembro por nome, era uma morena chamada Maria das Neves, que era chamada apenas de Neve. Isso era um problema naquela época, pois passava na TV o comercial do papel higiênico Neve e no mesmo alguém gritava pelo mordomo Alfredo, para que este levasse o dito papel higiênico, assim sendo, os moleques não podiam ver a Neve que não davam trégua, logo gritavam: "ALFREDOOOO". Criança pode ser cruel às vezes.

Ainda cheguei a formar um "clube secreto" na garegem da casa de uns amigos. Onde ficávamos injetando líquidos em insetos vivos, e achando que éramos cientistas. Pensado bem aquilo era repugnante. Só perdia em crueldade para quando arrancávamos as asas das moscas e as colocávamos sobre uma chapa quente.

Na mesma casa onde essa garagem ficava, aconteceu uma festa em que me vi em uma enrascada. Lá estava eu sentado no muro, sozinho (sempre tive mania de ficar solitário em festas), quando se aproximam duas garotas que moram no bairro, na rua seguinte. A menos feia fala comigo sem rodeios, sem pestanejar "quer namorar comigo"? Eu olho para a irmã dela, que naquele momento parecia uma espécie de leão-de-chácara, que estava pronta para tomar alguma atitude se eu dissesse não. Assim sendo, como eu não tinha o mínimo tesão na menina, eu apenas saí tipo, putz, tenho que ir alí, tão me chamando urgente. Essas coisas nunca aconteciam com as garotas por quem eu babava.

Uma outra vez, uma amigo cismou que queria um desenho numa camisa e cismou também que eu devia fazer. Mas como meu irmão sabia, eu pedi a ele que desenhasse o Cíclope na camisa, depois escrevesse "X-MARCOS", o nome do dito cujo. Aliás, todo mundo sabe, na época se falava "Xis Men", então era "Xis Marcos". Aliás foi nessa mesma época, que meu irmão começava a desenhar em tudo, que ele pintou o Lion dos Thundercats na parede de casa. Pensando bem, minha mãe deixava a gente fazer tudo que queria.

Uma coisa que acabava comigo naquela rua é que toda casa que eu fazia amizade, sempre tinha uma garota linda, no mínimo uma. Mas como sempre todas me viam apenas como amigo. Enquanto isso as coisas com a Ana Carla não andavam, na verdade eu nem sei como eu insistia. O pai dela era uma fera. O cara era tão sinistro que eu nunca o via. Eu nunca entrava na casa dela, mas eu sabia que ele estava lá dentro, no escuro. Enquanto a mãe dela era legal demais, o pai parecia o demônio nas trevas. Mesmo assim eu não desistia. Aquelas sardas acabavam comigo.

Enquanto isso eu subia mais a rua. Já tinha amizade em um boteco, com o filho do dono. Sim, ele tinha duas irmãs lindas. Assim como com todos da rua, eu partilhava com eles meus gostos, assim levava meus LPs para escutar lá, gibis para emprestar e, pasmem, até um livro, um chumaço na verdade, de literatura de cordel, que não sei porque, nunca mais me devolveram.

E como tudo na vida muda, a Rua Cintra foi ficando cada vez mais para trás, fazendo parte de um outro tempo, de uma outra época. Fui me distanciando, guardando na memória os beijos de Ana Carla, os quais sempre havia uma vizinho para assistir. Talvez tenha sido quando ela rompeu comigo que eu parei de ir até aquela rua, não sei, não lembro. Mas acho que foi justo, ela foi o começo, ela foi o fim. Eu me distanciei, passei a viver apenas na rua onde eu morava. O tempo foi passando. Assim, até hoje, quando vou até meu antigo bairro, passo ao lado da Rua Cintra, dou uma olhada, ainda sem asfalto, como naqueles tempos, e viajo por uns segundos por tudo isso aqui que escrevi.



segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Titãs

EU NÃO SOU UM BOM LUGAR


Acordei cedo para fazer um bico ajudando na parte de som, na gravação do clip Eu Não Sou Um Bom Lugar, dos Titãs. Subo a "pequena elevação" que vai dar na casa do tal sonoplasta, técnico de som, ou seja lá como se chama alguém que trabalhe na filmagem de um videoclip. Quando chego lá, me deparo com um cara que parece tudo, menos alguém que trabalhe com algo tão... interessante. Tudo bem, acho que as aparências enganam. Quando vejo o veículo que levará o material de som, chego a conclusão que as aparências não enganam: uma Kombi ou pelo menos o que sobrou dela. Quando ele abre a garagem para pegar a aparelhagem, me sinto como se estivesse em Brazil - O Filme de Terry Gilliam. Não, isso não é um elogio.

Entramos na Kombi e me pergunto onde está o resto dela. O cara parece mais ou menos aquele faxineiro dos filmes do Harry Potter, Filch, Finch, sei lá. As filmagens são no centro do Rio. No caminho encontramos uns caras filmando um comercial de algum carro novo. Quando a Kombi pára, alguém da filmagem se aproxima e conversa com o "patrão". Realmente o cara é conhecido nessa área de filmagens, por mais incrível que pareça.

Chegamos no "set" de filmagens, um pátio de um complexo de prédios que, aparentemente estão abandonados. Armamos a aparelhagem. Todos os técnicos parecem estar lá. Não consigo definir quem é o diretor. Parece que vai demorar bastante a começar a filmar. Todo mundo conversa, passa o tempo. É nessa hopra que chego a conclusão que meu "amigo" é totalmente pirado. Eu simplesmente não consigo acreditar em certas coisas que ele fala com o pessoal. Certa hora, em que estamos numa roda com algumas pessoas, ele solta essa: "Hoje tá tudo ao contrário. Os filhos são caretas e os pais avançados. Se meus filhos quisessem, eu arranjava da boa pra eles." O pessoal em volta fica em silêncio, naquele estilo peido no elevador. Ninguém sabe o que dizer, porque todo mundo sabe que ele tá falando sério. Há uma debandada discreta.

Começam a armar um trilho circular. Outro pessoal traz um ventilador enorme que fica bem atrás do som. Depois de tudo armado chega o Tony Belotto, que fica em cima de uma plataforma no centro do trilho circular. O chefe entra em ação. A máquina de vento também. Playback e ventania. O pessoal começa a jogar papel picado, jornal, copos plásticos, tudo no vento que segue na direção do Belotto, que dubla a música e "toca" uma guitarra. CORTA!!! Acabou o lixo e a música não acabou. Inacreditavelmente não se encontra o que jogar no cara cantando. A solução? Ir até a banca e comprar jornal para rasgar e jogar. Isso vai demorar. Bem que a Malu Mader podia aparecer.


Depois de muito tempo, conseguem terminar a "cena do lixo". Chegou a hora do almoço. Agora descobri pra que serve esse caminhão enorme parado aí na frente: comida. O Belotto não fica pro almoço. O Paulo Miklos e Charles Gavin já chegaram para suas cenas e almoçam por ali mesmo, nas mesas armadas. Depois da digestão, começa a odisséia para montar a cena com Charles Gavin na bateria. A "cena da chuva".

Canos e mais canos. Caminhão-pipa. Vai começar... eu acho. Playback... "chuva". Bateria. Saiu errado. Isso vai demorar. Depois de algumas tomadas... tudo bem, depois de muitas tomadas, eu simplesmente não suporto mais escutar a música. Já sei de cor, de trás para frente, pulando as vogais, sei até em aramaico. O Gavin está tremendo de frio. Provavelmente xingando a décima geração de quem teve aquela idéia. Sorte dele que hoje não está frio. Mais uma tomada... o prato da bateria cai. Arrumar prato. Secar bateria. Parece que eles dão mais importância a bateria do que ao Gavin. Enquanto isso ao meu lado, o chefe diz que é um feiticeiro, e que vai enganar a morte. Penso se ele tá com alguma "da boa" na cabeça. Depois de bastante tempo a "cena da chuva" termina. Fico sabendo que outras cenas serão filmadas em um outro prédio. Vejo o pessoal fazendo a tampa de um bueiro falsa, para esta outra filmagem. Mas aqui ainda falta uma cena, com o Paulo Miklos agora, é a "cena da teia".

Parece que mesmo começando a escurecer não vão parar. Arrumam um local com um monte de entulho e o Miklos senta, se encostando na parede. Aí é que começa o sofrimento dele. Ele tem que ficar imóvel, só podendo mover a boca para poder dublar o playback. Isso até o pessoal dos efeitos especiais o cobrirem com algo parecido com uma teia. O problema é que isso tem que ser gradativo. Ele canta um pouco, e a teia vai aumentando, até formar quase um casulo em volta dele, e nesse tempo todo ele não pode se mover. Realmente, o cara é profissional. Playback... canta... pára... "teia"... playback... canta... pára... "teia". Isso vai demorar. Tô com pena do cara.

As esposas e filhos dos outros integrantes estão por perto desde a "cena da chuva". As crianças tiram fotos. Por fim, a filmagem termina por aqui. A equipe vai para o interior de outro prédio, mas lá não somos necessários. O chefe "feiticeiro" levanta acampamento e nós vamos embora. Foi tudo bem legal. Sempre gostei dos Titãs, mas não pedi autógrafo de ninguém, acho isso muito mico. Pelo menos vou ter algo pra escrever no blog quando faltar assunto.



Business

category2