segunda-feira, 28 de junho de 2004

Divagando

DIVAGANDO

Lá estava eu, novamente entregue aos meus próprios pensamentos. Pensava muito sobre o passado, mesmo meus problemas estando no presente. Ali de cima daquela pequena elevação que ficava no quintal da nossa casa, eu observava a rua logo abaixo. Pra dizer a verdade, podia-se ver boa parte do bairro, mesmo não sendo tão alto assim. Eu e meus pensamentos.

Logo me sentei e abracei os joelhos. Eu realmente estava distante. Os pensamentos desordenavam-se. Por entre fantasias em que eu era algum personagem de quadrinhos, com superpoderes, eu contemplava a vida, pensava em meus sentimentos, tentava adivinhar o meu futuro. Mas o que eu estava fazendo mesmo era apenas me isolando. Não estava a fim de companhia. Eu queria aquele momento pra mim.

Olhava para um futuro e tentava acreditar que nele, mais do que dinheiro, mais do que uma carreira, eu encontraria algo que a alma humana, a minha alma sempre necessitou: amor verdadeiro. Não, não como o amor da minha mãe, que está lá dentro de casa agora. Este é verdadeiro sim, sempre será. Eu pensava no amor que faria com que toda a vida valeria a pena. O amor que faria tudo aquilo fazer sentido.

Por vezes contra-argumentava comigo mesmo, ali sentado, que isso nunca aconteceria. Que era tudo ilusão, que amor não existia. Mas na mesma hora o "eu" advogado de defesa, surgia. Ele "falava" eloqüentemente na minha cabeça que sim, ele existia. Podia estar distante, podia estar muito adiante na minha vida, poderia até mesmo acontecer de eu me desencontar dele mas sim, ele existia. As vezes meus pensamentos podiam ser bem convincentes.

Eu apertei mais os joelhos, abraçando-os com mais força, apertando-os contra mim. Suspirei. Era de manhã ainda, e aquela hora passei a pensar se tal amor ainda estaria para surgir, ou quem sabe, se estaria talvez até mesmo, para nascer. A idéia foi engraçada: amor para nascer. Comecei a pensar se de repente, além de estar longe em termos de distância, tal amor também estaria longe... de nascer. E se eu só a encontrasse quando eu tivesse quem sabe, 20 anos?! Parecia muito tempo para se esperar. E se então ela fosse muito jovem?

Eu começava a sentir uma leve dor de cabeça. Eu penso demais, pensei eu comigo mesmo. Mas ali, parado, era só o que eu podia fazer. Puxei uma haste daquele troço que crece junto com o mato, e que eu nunca soube o nome. É composto de várias outras hastes como um esqueleto de guarda-chuva virado para cima e tem um monte de grãos, também verdes, nestas outras hastes. Fiz o que faço sempre que as pego. Vou retirando cada uma daquelas hastes, como uma espécie de bem-me-quer mal-me-quer. No fim só fica a haste principal. Não sei porquê isso me acalma.

Amor verdadeiro... Sorrio sem saber porque penso estas coisas assim, sem mais nem menos. "Corto" o vento com a haste, ouvindo o barulho que ela produz. Tento fugir de meus pensamentos. Mas eles não se vão assim tão fácil. Resolvo que está na hora de entrar. Quem sabe eles ficam lá fora, pelo menos por enquanto. Afinal tenho 8 anos, e muito tempo para esperar... o amor verdadeiro.


domingo, 27 de junho de 2004

Mil Vezes

MIL VEZES

Quando eu partí mais de mil vezes, você sabia
Sabia que eu retornaria
E te chamaria de meu bem, como nunca
Nunca chamei ninguém

Ficaria em seu colo, você alisando meus cabelos
Como só você sabe fazê-lo
E eu, num arroubo de carinho, te amaria mais
Mais do que sou capaz

Te beijaria, num beijo eterno e surreal
Mas não um beijo banal
Seria beijo com uma palavra nova, abstrata
Beijo de vida que a saudade mata

E na tua janela aberta, onde tu estás
Eu te esperaria chegar
Então uma flor eu jogaria
Flor com aroma de poesia

sábado, 26 de junho de 2004

Conto de Um Olhar

CONTO DE UM OLHAR

Havia um certo carinho em seu olhar. Um sorriso complacente. Eu devolvi-lhe o sorriso, tentando ser o mais simpático possível. Me sentia bobo, meio infantil. Ela não falava nada. Seu sorriso permanecia. De repente ela falou algo, citou meu nome. Creio tenha sido uma pergunta. Tento lembrar agora o que foi, mas não consigo. Prestava atenção demais ao seu rosto. Tanto que tentei responder qualquer coisa. Responder a pergunta que não lembro qual foi. Talvez eu nem tenha realmente a escutado. Lembro que eu balbuciava, e não saía realmente nenhuma palavra inteligível.

Lembro que ela deu uma pequena risada. Não me senti envergonhado. Ela não estava debochando. Notei que tudo ela fazia era extremamente angelical. Até mesmo quando riu de minha confusão em responder-lhe. Seu rosto era de uma beleza infantil, seus traços denotavam uma tranquilidade e ao mesmo tempo uma sagacidade que me deixava meio inquieto. Na minha confusão, acabei resolvendo não tentar falar mais nada. E ela apenas sorria, agora com um olhar meio tímido. Havia apenas um silêncio. Mas não era daquele constrangedor. Era um silêncio recíproco.

Então passei a reparar-lhe no meu silêncio, enquanto ela mantinha os tímidos olhos distraídos de mim. Tinha aquele ar de quem sabia tanto, mas queria aprender sempre mais. As macãs de seu rosto eram salientes. Macãs era realmente aplicável, meio avermelhadas que eram. Me perguntava se era a timidez que causava aquilo ou se era o natural dela. Seu queixo era pequeno, combinando com seu rosto miúdo. Fazia um conjunto interessante com sua boca, de lábios que não eram grossos, mas também não tão finos, apenas delicados.

Os olhos que agora eu não conseguia ver, mas que me lembrava bem, eram de uma placidez que me fazia pensar em águas calmas. Olhos negros. Águas profundas. Seu cabelo curto, também era negro. Foi daí que notei como ela era delicadamente pequena. Nem mesmo me dera conta disso, tanto que eu apenas reparava seu rosto. Neste momento, como que escutando meus pensamentos, ela levantou os olhos para mim, e perguntou algo novamente. Desta vez, apesar de estar encantado com o brilho de seus olhos, eu escutei:
- Quem está sonhando? Eu ou você? - foi o que ela perguntou.

Fiquei confuso com a pergunta e então percebi que aquela situação era bem estranha. Eu não conseguia definir onde estava, não lembrava como fui parar ali. Eu... eu estava sonhando? Não podia ser. Estava confuso. Ela estendeu a mão para tocar a minha e uma lágrima escorreu-lhe do rosto. Ela disse:
- Tenho de acordar...

Eu só tive tempo de dizer:
- Não por fav...

...

sexta-feira, 25 de junho de 2004

Teu Sorriso/Vida

TEU SORRISO

Dizem que 'mais do que mil palavras
Vale apenas uma ação'.
Então quanto vale o teu sorriso
Que diz tanto ao coração?

É sincero, carinhoso, espontâneo e casual,
Apertando os teus olhos,
Lindos olhos cativantes
Neste rosto angelical

Teu sorriso é pura alegria
Que explode em sentimento
Iluminando a nós todos
Fazendo a noite um claro dia

Como a flor que vai se abrindo
E como o sol num dia frio
Teu sorriso se abre na hora
Deixando tudo mais lindo

Assim neste sorrir você me leva
A percorrer a criação
E afirmar que tal sorriso
Só pode pertencer a Eva


VIDA

Todo dia eu me pergunto: O que é a vida?
Então a resposta vem: A vida é amizade
Não importa a distância ou se está de partida
Não importa a cor, raça ou mesmo a idade

Não importa o tempo que tenha decorrido
Não importa o quanto tenhamos andado
Não se liga se as vezes foi tão sofrido
Ou que tudo pareça um pouco abalado

A vida ainda te dirá: precisa de amigos
Amigos garimpados em minas escondidas
Onde os encontrará, preciosos ouvidos
Diamantes, pedras de altor valor, polidas

Então essa resposta me enche o coração
Passo a entender que a vida passa a ser
Melhor a cada dia, sentindo que aqui estão
Amigos prezados assim iguais...A VOCÊ!!!!!!

****************


Blog acrescentado aos blogs açucarados: KDO Blog

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Vício

VÍCIO


Minha força de vontade escapa diante de teu olhar
Tomo um gole da bebida da qual decidi me abster
A fumaça do teu sorriso em meus poros está
Estou impregnado, totalmente viciado em você

Eu, que de vícios estou tão livre, me entrego
Ao som da tua voz que de longe escuto
Como ao som de uma música viciante, me apego
E repito o refrão vez após vez, nem reluto

Viciado que não encontra desintoxicação
Nem mesmo sabe se a deseja
Se é o vício de amor no coração
Que pode matar o viciado, que assim seja

Se preciso parar, se preciso de ajuda
Só se for ao te encontrar, vício delirante
Com tua mão firme então me acuda
És minha cura, vício desintoxicante


terça-feira, 22 de junho de 2004

Dead Man's Party

DEAD MAN'S PARTY





Ele saiu do trabalho e foi com um amigo dar um passeio por Madureira. Sempre ia até lá, fosse para comprar LPs, fosse para ir aos cinemas onde chegou até mesmo a assistir De Volta Para o Futuro 2 por lá. Passeava pelo recém construído shopping, e pelas lojas do bairro. Fazia uma verdadeira jornada, geralmente sozinho, depois que saía do trabalho. Mas neste dia, foi com um amigo. Talvez ele nunca tivesse feito o que fez se não fosse o tal amigo. Na verdade, apenas um conhecido de infância, do bairro onde ele morava.

Talvez fosse o fato de ter 18 anos, talvez fosse o fato de que nunca desafiara o perigo, talvez tenha sido apenas o amigo que o tenha instigado, ou quem sabe ainda, ele gostasse muito do Oingo Boingo. Vai saber. Sabe-se apenas que ele entrou numa dessas lojas de departamentos e foi até a seção de música. Comprou um LP qualquer que foi colocado num saco plástico. Daí ele viu que seu grupo predileto, Oingo Boingo, lançara um álbum duplo. O dinheiro não dava. Talvez até desse, mas ele já metera na cabeça que ia levar o álbum duplo... sem pagar. Só precisava de um incentivo.

Cláudio, o tal amigo, começou a fazer seu papel de instigador, quando ele apenas falou-lhe da idéia meio idiota que tivera. Não precisou que Cláudio falasse muita coisa. Ele já estava decidido. Ia levar, só não sabia como... ainda. Mas a idéia foi logo amadurecendo. Era só abrir o saco plástico que envolvia o LP comprado e arrastar o outro LP para dentro do mesmo. Não havia câmeras, nem alarmes naquela época. Pelo menos, não que ele soubesse.

E lá foi ele, fazendo exatamente como planejara. Abriu o saco plástico e arrastou o álbum duplo para dentro. Ele só fazia aquilo porquê para valer a pena estar quase tendo uma síncope, tinha de ser um álbum duplo e do... OINGO BOINGO!!! Senão nem mesmo cogitaria. E, também, pela aventura. Sua vida tão pacata e tediosa ganhava um pouco mais de emoção. Claro que estas emoções poderiam aumentar muito mais, se ele fosse pêgo. E era nisso que ele pensava e ao mesmo tempo procurava não pensar.

Seu amigo estava tranquilo, não era ele que teria de passar pelos seguranças com o pacote. Sua garganta parecia que ia fechar, seu coração pulava tanto que a camisa parecia estar se mexendo ao ritmo do mesmo. Tudo parecia mais lento, mais demorado. A saída parecia mais longe. Quando, enfim saiu para a luz do sol, não respirou aliviado ainda. Foram em silêncio até a próxima curva que os deixaria longe da loja. Ao deixarem a loja para trás, começara rir nervosamente. Acabou. Simples assim? É. Mas ele pensava, "nunca mais, nunca mais eu vou conseguir fazer isso de novo!".

Moral da história: Ladrão que rouba ladrão, pode ter um ataque do coração!

Perdão

PERDÃO

Perdão por ter acendido uma chama incontrolável
Nem mesmo tinha como mantê-la acesa
Não havia como tornar a chama palpável
Sem queimar toda e qualquer certeza

Perdão por te deixar em total desolação
Não se deixe levar por tal sentimento
Não fique aí, escondida na escuridão
Todos precisam de tua alegria, não lamento

Perdão por ser apenas quem eu sou
Lembre-se apenas do eu anterior
Que um dia teu olhar singelo admirou
Aquele que nunca te trouxe dor

Perdão por palavras que se tornaram vazias
Foram ditas sinceramente, no coração
Tantas palavras e tantas delas poesia
Sobrando apenas agora uma que pede... perdão.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

Cheiro de Asfalto

CHEIRO DE ASFALTO

Até que enfim! Estamos em 1982 e finalmente vão asfaltar este fim de mundo. Depois que colocaram as pedras de brita por todo o bairro, eu achei que seria só aquilo e pronto. Afinal isso aqui parece meio esquecido. Pelo menos agora os patinetes poderão descer a ladeira sem cair nas valas abertas pelas chuvas fortes. Não que eu ande de patinete, não gosto.

O bairro inteiro está presente em todas as ruas. Isso aqui tá atraindo mais atenção do que a Copa do Mundo desse ano. Aliás ontem consegui entender como funciona aquele esquema de eliminatórias. Afinal, na última copa eu tinha 9 anos e não entendi nada do que estava acontecendo. A única coisa que lembro é de umas tampinhas de refrigerantes com coisas relacionadas àquela Copa. Este ano eu estou me acabando no chiclete, para completar um álbum com todas as seleções.

Mas voltando ao assunto. O sol está a pino. O cheiro do piche que é derramado está forte, mas não incomoda. Não hoje. Já vi na outra rua o Marcos e ele está com aquela camisa maluca. Ele soube que meu irmão desenhava alguma coisa e pediu que ele desenhasse o rosto do Cíclope numa camisa e escrevesse "X-Marcos". Não entendi, ele nem é fã dos X-Men.

Um rolo compressor passa por cima do asfalto já colocado em uma parte da rua. Eu faço um tour por todas elas. Nunca lembro o nome de todas, apesar do bairro se razoavelmente pequeno. Passo pela Rua Cintra, onde o asfalto não vai chegar ainda. Só lembro o nome dela porque é onde mora a Ana Carla. Aquela que já citei aqui. Pele branca, cabelos negros. Sou apaixonado por ela. As irmãs menores dela são hilárias. Eu chamo a Cristina de Coristina. Elas não estão em casa. Passo direto.

Numa outra rua, o Roberto, que conserta relógios, assiste ao asfaltamento de sua cadeira de rodas. Mais um para quem o asfaltamento será muito útil. Aceno para ele e continuo andando. Tanta gente. Nem mesmo a vinda do velho circo há uns anos atrás causou tanta comoção. Passo próximo a rua onde começa outro bairro, e noto que ali precisa urgente de asfalto, mas algo me diz que tão cedo isso não vai acontecer.

A rua principal já foi asfaltada. Ela faz um reta do ponto de ônibus até a rua onde moro. Quer dizer, ela continua ao se subir a tal ladeira dos patinetes, ou daí eu viro a esquerda e entro na minha rua, a Rio Tejo. Eu dou uma olhada rápida e vejo que duas pequenas ladeiras próximas a minha rua não serão asfaltadas. Isso é um problema, pois quando chover a lama será arrastada e vai, com certeza, cobrir o asfalto. Eu suspiro e continuo andando.

A rua onde acontece a mais tradicional festa junina do bairro já está completamente asfaltada. O Arraiá da Dona Rosa deve arrasar este ano, já que o pessoal vai poder dançar em cima do asfalto. Eu nunca participo. Nem na escola, nem no bairro. Sou tímido demais para isso. Já fui a alguns ensaios e participei de brincadeira. Mas nunca teria coragem de participar da festa em si.

Foi nesta rua que de certa forma eu conheci Ana Carla. Mais ou menos. Eu estava na casa que minha mãe trabalhava e olhando por cima do muro vi o irmão dela do outro lado. Lembrava dele, e que ele era irmão dela, porque os via passar para a escola, da padaria onde eu trabalhava. Saltei o muro e comecei a fazer amizade com ele. Fomos até a casa dele (meu objetivo) e lá eu a conheci. Daí, quase sempre que podia eu passava o dia por lá. A mãe dela uma pessoa muito simpática, já o pai parecia um zumbi e nunca dava as caras, preferindo ficar dentro de casa.

Acabei por fazer amizade com várias pessoas da rua, inclusive com a Neve - que sofre com as brincadeiras por causa daquele comercial de papel higiênico Neve, e de vez em quando alguém a sacaneia gritando "Alfredooooo" - e sua irmã. Moram no único prédio do bairro, de três andares. E todos esses moram na tal Rua Cintra, que como já disse, não será asfaltada.

Bom, está anoitecendo e é claro que eles não terminarão de asfaltar o bairro inteiro em um dia apenas. Ou mesmo dois. Assim eu resolvo ir para casa. Piso no asfalto recém colocado e sinto o calor sob meus chinelos. Parece haver um significado maior em tudo aquilo e sei que nunca vou esquecer este ano em que o bairro foi asfaltado. Claro que a Copa do México servirá um bocado como referência, e se o Brasil ganhar, mais ainda. Quem sabe ele ganhe. O Zico está muito bem na Copa. Creio eu. Sou péssimo conhecedor de futebol.


sexta-feira, 18 de junho de 2004

Pelo Que Você é

PELO QUE VOCÊ É


O livro é aberto e meu nome é chamado
Serei eu por algum tipo de deus julgado?
Não, é apenas o livro do destino que é aberto
O que está escrito nele não sei ao certo

A águia consegue me levar como sua presa
Serei eu servido à sua selvagem mesa?
Não, é apenas um gesto de carinho
Não sinto medo, não me sinto sozinho

A mão da Morte meu ombro ela toca
Serei tragado tão cedo, minha vida não importa?
Não, é apenas um pequeno aviso
Ela ainda vai demorar, diz ela com um sorriso

Sou levado a um tribunal por um crime que desconheço
Serei condenado por minhas palavras ditas com apreço?
Não, a sentença é dita comigo ali em pé
És livre, não pelo que você diz, mas pelo que você é.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

Andar na Praia

ANDAR NA PRAIA

Desço a passagem subterrânea e saio próximo ao Clube de Regatas Botafogo. Ali começa meu passeio pela praia. Ando um pouco olhando a praia de Botafogo. A areia é suja, a água é muito calma, não forma ondas e não é a praia mais popular do Rio. Ops, estou na faixa para bicicletas, uma quase me acerta. Sigo adiante, olhando o Pão de Açucar, ele me acompanha por todo o percurso. Pessoas passam fazendo seu cooper matinal, outras andando compassadamente. Eu apenas ando. Sem nenhuma pretensão de me exercitar.

A praia não atrai banhistas, mas estão lá alguns pescadores esporádicos. Penso se estão ali por alguma pescaria realmente ou se só pelo prazer. Um senhor lança a linha longe, mesmo ali solitário, parece que a pesca lhe faz companhia. Ando na parte gramada do caminho olhando, ora para a água calma da praia, ora para os prédios e o trânsito ao meu lado esquerdo. Adiante uma mulher idosa coloca comida para gatos que vivem por ali.

É gostoso o caminho da praia de Botafogo. Não reparo muito nas pessoas. Estão tão perdidas em seu próprio mundo. Fico lembrando de um texto onde descrevia-se as qualidades dos cariocas e falava como os cariocas cumprimentavam-se sem nem mesmo conhecer as outras pessoas. O pouco que reparei nas pessoas não vi isso acontecer. Daí, parei de repará-las. Fiquei com a paisagem.

O ar continua frio, mas não me incomoda. Chego ao caminho de terra que vai me levando em direção à Praia do Flamengo. Passo por um canal, atravesso uma pequena ponte e estou lá. Estão desarrumando o palco e tudo mais que estava relacionado a passagem da tocha olímpica. Nota-se que tudo está devagar, talvez por ser ainda cedo. Há uma preguiça coletiva. As ondas fazem um barulho bom, hipnótico.

Chego até o caminho de asfalto, onde as pessoas caminham sozinhas, com seus carrinhos de bebês, com outras pessoas ao seu lado. Sigo para o caminho que fica mais perto da praia. Vejo o palco do show do dia anterior. Ainda está muito longe de ser desarmado. Vejo algumas cabanas armadas de atendimento médico. Penso comigo como se dá uma atenção detalhada a essas coisas, como se gasta dinheiro nisso, e penso nas pessoas que estão dormindo a noite, no frio. Noto que são várias as cabanas de atendimento médico. Só posso pensar. O barulho do mar afugenta meus pensamentos.

Resolvo que já andei o bastante. Dou meia-volta inicio meu retorno. Um rapaz sentado olha para mim, se levanta e vem na minha direção. Um outro com uma câmera fotográfica também vem. Ele começa a dizer que está fazendo uma enquete. Detesto essas coisas. Não sei o que dizer, fico enrolado. De repente o rapaz me pede desculpas e diz que precisa fazer a enquete com uma pessoa que está passando ali, pois ela é uma personalidade. É o Nílton Santos. Eu penso, ufa! Salvo pelo Nílton Santos. Tento me lembrar quem ele é, fico sem lembrar direito se ele é ex-jogador de futebol ou se tem algo a ver com a ditatura... minha memória é péssima.

O rapaz sai dizendo que depois fala comigo. Eu sorrio comigo mesmo, afinal eu estou andando e não vou ficar ali esperando. Entro numa curva para sair logo dali. Refaço meu caminho. Ando calmamente em direção a Botafogo. Vejo o Pão de Açucar de mais um ângulo diferente. Uma equipe de fotógrafos está lá adiante, claro, aproveitando o cartão postal do Rio de Janeiro. É um espaço onde também muitas pessoas estão fazendo exercício ou estão com seus cães brincando. Há uma churrascaria Porcão ali. Passo, gostando daquele pedaço que tem o chão de terra batida. Lembra minha infância.

Chego a parte calçada e minha jornada de volta está quase completa. Apenas caminho, sem pretensão nenhuma de me exercitar. Ando com calma.

quarta-feira, 16 de junho de 2004

Através

ATRAVÉS

Condição de urgência esta gratidão que sinto
Eternal turbulência se manifesta em cada gota
Presente entregue num passado longínquo
Através de palavras escritas de maneira afoita

Na tarde que o dia trouxe um pouco mais cedo
Dedilhando palavras numa partitura musical
O grito que ouvi foi alegria, não de medo
Através da vastidão distante, felicidade imortal

Emoção lançada pelo prazer da reciprocidade
Abraçando o livro guardado na caixa de madeira
Onde estão as jóias de grande valor, sem igualdade
Através de um amor que perdura a vida inteira

Enevoando o horizonte no contorno da pintura
Vejo a chuva cair como brincos numa elegante moça
A torrente de água chora com beleza e candura
Através dos céus a tempestade cai com toda sua força

Signo da sorte num horóscopo secreto
Avisando sobre o futuro ao solitário incauto
Com lábios recitando um antigo dialeto
Através de uma voz que me toma de assalto

Vejo que o tempo desalinhou seus cabelos
Mas o vento subsequente tratou-os com carinho
Encenando um aviso de que poderia tê-los
Através de um poema escrito, também, em completo desalinho.

Era Uma Vez... ou Duas

ERA UMA VEZ... OU DUAS

Estranho que parando para pensar um pouco aqui, no que escrever hoje, eu comecei a me lembrar de que fui uma criança um tanto quanto séria e precoce, agindo como um adulto em miniatura. Eu vivia com o que se chama "cenho franzido", pensativo. Minha mãe achou que eu tinha problemas com o sol e logo cedo eu comecei a usar óculos com lentes de grau dessas que escurecem, como é mesmo o nome? Caramba, esqueci! Bom, só sei que são as lentes que uso até hoje. Me pergunto se meu jeito de encarar a vida, quando era criança, acabou fazendo com que eu usasse óculos desnecessariamente. Não sei.

Claro que eu não era sério 24 horas. Eu era alegre, nossa família, meus tios e tias por parte de meu pai (por parte de minha mãe eu só conhecia um tio e uma tia que via muito pouco) sempre foram alegres por natureza, e não era diferente comigo e meus irmãos. Mas, eu sempre estava pensando na vida, desde que me entendo por gente. Na sala de aula juntava-se isso a minha timidez e eu era como um túmulo. Quase não falava. Ganhava status de aluno comportado.

Percebo em várias fotos minhas quando criança, que eu estou ali como se não estivesse. Pensando apenas. Lembro de uma em que eu era muito, muito pequeno, estou num velocípede, apenas de short, entre alguns tios que estão em pé. Eu olho para a câmera como quem a está repreendendo, como quem não está nem um pouco contente. Se não fosse as gordurinhas que aparecem devido a eu estar sentado no velocípede e aos meus tios sorrindo, eu diria que seria uma foto bem séria.

Com o tempo e a idade parece que eu fui "desamadurecendo". Passei a encarar a vida com cada vez mais humor, ceticismo e sarcasmo. Apesar de a timidez ser grande ainda, eu agora sabia rir da vida, rir com a vida. Lembro que a vida foi ficando cada vez mais "engraçada" a medida que eu crescia. Eu me desapontava com as coisas, sofria, mas no fim de tudo, demorasse o que demorasse, eu ria.

Isso acabou me transformando no inverso do que eu era quando criança. Me tornei um adulto que no fundo é uma criança. Foi como um crescimento ao contrário. A medida que eu crescia em tamanho, toda aquela seriedade diminuía. Claro que assim como eu não era sério 24 horas quando criança, não sou um palhaço 24 horas. Apenas sou sério quando preciso ser. Se ainda fecho a cara para pensar, volto à imagem daquele menino sério, mas quase sempre estou sorrindo. Não porque a vida se tornou melhor, apenas porque não adianta chorar.

Lembro de um episódio em que esse meu jeito sério de ser confundiu alguém. Eu devia ter uns 13 anos. Trabalhava numa padaria pequena, sozinho. Estava lendo as tirinhas de um jornal qualquer na parte baixa do balcão. Chegou um cara, um vendedor, ele vendia revistas pornôs, de piadas e etc. Era estranho, eu não lembro de ter conhecido nenhum outro vendedor de revistinhas pornôs. Bom, só sei que ele as vendia como quem vendia um tônico fortificante, mostrava o produto, falava pelos cotovelos, e eu só o encarava. Na verdade, eu estava em outro mundo, no meu mundo. Pensava nos meus problemas, e só o olhava, não olhava para as revistas. De repente ele parou. Pegou suas coisas e ao sair disse: "Desculpe eu não sabia que você era crente".

Eu sempre acho graça quando lembro disso. Pois eu não disse uma única palavra. Eu estava apenas pensativo, longe do que ele estava dizendo. Acho que meu jeito sério deu a ele a impressão errada. Mesmo que eu quisesse as revistas, não tinha dinheiro para ficar com elas. Não estava prestando atenção em nada do que ele dizia.

Se fosse hoje em dia... eu apenas começaria a me segurar para não rir da cara dele.


terça-feira, 15 de junho de 2004

Caminho de Terra

CAMINHO DE TERRA


Saio do asfalto e entro no pequeno caminho de terra
Deixo quem eu sou para trás
Avanço pelo estreito caminho relembrando o passado
Quem eu sou agora está mais a frente
Piso no chão de pés descalços, ando devagar

O caminho, o pequeno caminho de terra me leva
Eu agora não sei mais aonde vou
Estreito, longínquo, uma vereda sem fim
Não posso mais voltar
O caminho de terra surge cada vez mais

Desacostumado que estou, meus pés se machucam
Mas a dor é pequena, sou quem eu sou
A curva adiante parece nunca chegar, caminho de terra
Me acostumo com o novo lugar
Meio caminho andado, meio tempo passado
Vejo que há alguém adiante

O caminho de terra se estende, caminhos dentro de caminhos
Passo por você e toco seu braço
O caminho parece infinito e, sim, talvez seja
Você passa a trilhar o mesmo caminho
Mas sendo longo o caminhar passo a recitar

O poema do caminho de terra
Você sabe um poema, um poema antigo
Não paro mais para pensar, nem descansar
Sua poesia é mais do que posso merecer
O caminho agora é apenas o que tenho a percorrer

Na sua cantiga você fala de um caminho e estou nele com você
Então não paro mais de deixar minhas pegadas
Você me conta ao ouvido o segredo da distância
O caminho e a poesia agora são um só
Sei agora, eu sou a terra e você meu caminho.

segunda-feira, 14 de junho de 2004

À Beira da Praia


O HOMEM À BEIRA DA PRAIA


Sentado a beira da praia, olhando a vida, percebo você
Ao longe, tão distante que meu coração fica agitado
Sozinho na praia, onde não posso realmente te ver
Te imagino vindo a mim num barco mistificado

Você está agora comigo, na beira da praia
Nada fala, pois não é preciso, apenas fica comigo
O vento remexe teus cabelos e agita tua branca saia
Parece que tudo é uma pintura de um belo quadro antigo

Aos olhos das pessoas que passam, pareço estar sozinho
Mas tua presença se faz sentir em todo redor
Sinto teu beijo suave, no meu rosto, com carinho
Sinto meu mundo, fora do mundo, um mundo melhor

Por um instante, volto a estar na praia, apenas eu
Você se foi, mas voltará, garante um sussuro do mar
Mesmo sozinho estou feliz, não sei dar adeus
E as águas da praia farão você retornar.

sexta-feira, 4 de junho de 2004

Olhar ao Longe

OLHAR AO LONGE


Ela fita a distância num olhar mudo, ela fita o mundo
Impossível distinguir o que somente ela vê
Num olhar de um azul do mar profundo
Olhando pelas janelas de sua alma
Focaliza algo num ponto qualquer
Ela vê algo oriundo
Do seu espírito mulher

Os cabelos esvoaçando ao vento, nos seus olhos
São como a dança de algo perdido no tempo
Roubando o cenário, não deixando espólio
Ela gesticula fazendo um desenho no ar
Um círculo num gesto de magia
Aponta algo que não sei onde está
Ela sorri da minha mente tardia

Olho na direção de seus olhos incrustados
Vejo a linha fina do horizonte quente
Uma ilusão de ótica, o que vejo mudado
É algo que parece meio inconsequente
Um óasis talvez, uma cidade quem sabe
Tento decifrar o que ela me revela
Parece que saber, no entanto, não me cabe

Quando retorno meu olhar para seu rosto pacífico
Noto que ela não está apontando distância nenhuma
Que não há nenhum ponto específico
Sem fôlego, entendo encabulado
Todo o ritual de seu olhar incidental
Ela olha, então, para onde estou, ao seu lado
E seus olhos revelam o segredo final

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Poesia Perdida

POESIA PERDIDA




Parar para expressar o que sente e perder
Num pequeno lapso, num pequeno erro
O poema se foi, como a te desobedecer
Te fazendo entrar em desespero

Palavras perdidas, sentimentos perdidos
Jóias retiradas do fundo do poço, coração
Cada pensamento registrado, derretido
Como ouro, logo roubado por vil ladrão

Poema inacabado, poema não publicado
Sede não saciada, romance não estabelecido
Viagem interrompida por algo inesperado
Susurros perdidos por um surdo ouvido

Poema evanescido pela corrente de ar
Levado por um erro fatal
Inspiração da alma que procurou se elevar
Para escrever algo tão vital

O sono dominou a minha mente
A madrugada levou algo singular
Palavras que viajam ao sol nascente
Fazendo uma poesia surgir para aquela relembrar.

terça-feira, 1 de junho de 2004

Duelo

DUELO


A poeira é levada pelo vento quente,
Ao longe nada se vê além dos casebres mal acabados
Mas no meio da estrada que leva até eles
Em pé, olhando na minha direção, está meu algoz

Eu não tenho armas, eu não tenho nada
Eu tenho a roupa do corpo que de nada me protege
Ele tem armas de fogo
Suas botas se arrastam na poeira, ao longe

Eu não posso fugir, tenho de enfrentar
Só não tenho a mínima idéia de como será
Sinto sede, a garganta seca arranha
Meu suor escorre e sinto o gosto salgado

Ao longe, ele não se move, a fumaça de seu cigarro sim
Ele saca e dispara um unico tiro, e erra
Foi proposital, um aviso
Apenas para se divertir

Não consigo lembrar por que chegamos a essa situação
Morrer, eu não sabia que seria tão dramático
Sem chances, tão covardemente
Sem direito a defesa, morrer como um cão

Ouço o segundo tiro, e sinto-o logo em seguida
Minha roupa se mancha de vermelho
Na altura do peito
A cor parece tão significativa

Eu caio, de uma única vez
O estranho se aproxima, posiciona sua arma
Na direção da minha cabeça
Pergunto o seu nome

DESTINO, ele diz, e atira.
Nada acontece... ainda estou vivo.
O estranho ainda está lá e diz:
"Vá embora, seu lugar não é aqui"

E, cambaleando, eu sigo em frente
Tendo em mente que estou vivo
Apenas porque o Destino quis
E que o deixei para trás.

Frias Manhãs

FRIAS MANHÃS DE TERÇA-FEIRA




Sou despertado do sono por um leve empurrão no ombro. Tenho de levantar, fazer a coleta de sangue para exame marcada para hoje. Estou desde ontem, 19:00 hrs, sem comer nada. Estranhamente não sinto fome. Mas minha cabeça dói. Ela dói desde ontem a noite. Por um instante esqueço e pego um comprimido e tomo. Logo depois penso que não devia ter tomado, devido a coleta do sangue. Mas já é tarde demais.

Saio com um casaco pesado e, na rua, noto que o frio não é tanto para um casaco tão pesado. Saio da Voluntários da Pátria e entro na parte final da Praia de Botafogo, onde fica o prédio da VIVO. Vejo uma garota colocar o cabelo para trás da orelha e penso o quanto acho esse gesto bonito. Fico lembrando de cabelos, muito cabelo, cabelos negros, pele branca, alva, como Ana Carla, por quem me apaixonei aos 15 anos.

Mas minha cabeça ainda dói, parece que há alguém batendo um enorme gongo, dentro dela. Entro da Avenida Pasteur. O sol começa a dar o ar de sua graça. De repente me lembro que tive vários e vários sonhos e que não consigo lembrar de nenhum. Mas num estalo (estalo, não estralo... afinal não é beijo estralado... ah, esqueçam) eu me lembro do último, pouco antes de ser acordado.

Eu estava num bar, trabalhando nele, quando alguém pergunta se pode beber uma garrafa de água mineral que está lacrada. Eu digo que não, não pode. A pessoa, um rapaz, ainda assim abre a garrafa e bebe. Eu fico muito chateado. Mas em vez de brigar, eu só digo: "Essa água está envenenada". Como é um sonho, o cara acredita. Acredita e entra em desespero. Então aparece um amigo seu com um bloco de notas, com várias coisas rabiscadas, vários textos, muito mal escritos. Nos textos ele sabem que há um antídoto para o veneno (veneno este que não existe). Quando param na página para "Antídotos para veneno em água mineral" (Eu não vi isso escrito, ma imagino que tenha sido isso, pois eles param numa página lá) começam a ler apressadamente. Mas quando se dão conta de que o que se pede para fazer é impossível. Ir a lugares distantes procurar tais ervas e etc. Impossível, ele vai morrer. Eu olho aquilo tudo e fico sorrindo, pensando como alguém pode ser tão ingênuo.

Foi quando fui acordado. Não procuro significado para o sonho. Não acredito nisso. Foi apenas um sonho que teve a sorte de ser lembrado, entre tantos sonhos esquecidos.

Saio da Av. Pasteur e entro na Av. Venceslau Braz, onde fica o shopping Rio Sul, um dos mais conhecidos do Rio de Janeiro. Mas estou longe dele. Eu estou dentro da hora, por isso não me apresso. Chego ao lugar que abriga, não só o local que onde vou tirar sangue, mas o Hospital Phillipe Pinel (que quando o vi pela primeira vez, foi que me liguei porque chamam uma pessoa louca de "pinél", é um hospital para doentes mentais). Do lado direito fica um hospital para problemas neurológicos, que me foge o nome agora. Frequentei-o algumas vezes, quando só se diagnosticava a eplepsia.

Mas meu destino é mais adentro. O IPUB (Instituto de Psquiatria Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas não vou me consultar, só coletar sangue. Entro na área em que ficam vários prédios diferentes. O pátio é agradável. Muitas árvores, algumas enormes. Viro a esquerda e entro na área perto do manicômio (não sei se chamam assim, mas várias pessoas com sérios probelas mentais estão internadas por lá). Entro e vou ao corredor em que o laboratório se localiza. Entrego minha ficha e espero. Mais 12 pessoas estão na minha frente.

Levei um livro, mas não consigo ler. A dor de cabeça não deixa. Ando pelo corredor. Olho alguns quadros. Fico pensando se são de pacientes internados ali. Um deles é meio perturbador, parece realmente representar a loucura. Tento gostar do quadro, mas não consigo, me lembra o que sinto numa crise de pânico. Me afasto dele.

As pessoas, principalmente senhoras, aproveitam para conversar. Alguns homens de meia-idade também esperam na fila. Demora um pouco e logo é minha vez. É a segunda vez que vou àquele laboratório. A enfermeira que vai tirar meu sangue tem um ar calmo. Se preocupa em que aquela borracha que aperta o braço não me machuque. Coloca-o por cima da manga da camisa. Ela procura a veia, por um bom tempo, sem pressa. Noto que meu ante-braço está levemente roxo. É o frio.

A mão dela desliza tentando encontrar a veia. Parece que ela tem todo o tempo do mundo. Ela então enfia a agulha, e retira um tubo de sangue. Depois outro tubo um pouco menor, e outro mais fino, porém, mais comprido. Lembro que da outra vez foram apenas dois tubos. Quase disse, tentando ser engraçado, se ela não ia deixar nenhum sangue pra mim. Mas estava tudo tão tranquilo. Por uns instante acho que quis ficar ali, tirando sangue o dia inteiro. Quando ela terminou e eu fui na direção da porta, ela disse "vai com Deus". Engraçado, não lembro do rosto dela. Devia lembrar, foi agora há pouco.

Saio, tento marcar o eletroencefalograma que a médica pediu, mas não consigo. Tudo fechado, ninguém chegou. Decido ir pra casa. Quando vou na direção da porta, várias estudantes estão perto da área do laboratório, com uniformes escolares. Saio para o pátio e coloco o pesado casaco de novo. Lá fora está frio. As vezes alguns internos rondam por ali, perdidos no seu próprio mundo. Hoje não vi nenhum.

Começo a fazer o caminho de volta. Na minha frente uma moça caminha. Ela tem o cabelo comprido. De repente, ela faz o movimento. Pega o cabelo com a ponta dos dedos e o leva para trás das orelhas. Cabelos negros, como os de Ana Carla...

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