segunda-feira, 31 de maio de 2004

Memória Recente

MEMÓRIA RECENTE

A criança sorri pelos campos nos quais corre
Pula obstáculos e continua correndo
O mundo é tão imenso, inimaginável
Assim, mesmo nas lágrimas a criança sorri.

Cabelos negros, olhos de um profundo perscrutar
Seu sorriso se desfaz para pensar algo distante
O futuro
E pára sob uma árvore, e senta debaixo dela

O futuro distante agora tão próximo,
Mas apenas em pensamentos,
A criança dorme
E sonha com a realidade

O pai que se vai, ela não entende
A mãe que fica , como uma vencedora
Irmãos dos quais ela toma conta
Mesmo que eles não saibam disso

A criança debaixo da árvore, sonhando
Sonhando com a realidade, se remexe
Ela passa a crescer frenéticamente
Ela muda, o mundo muda, sua vida muda

No sonho ela pára diante de um pequeno arbusto
Retira de dentro uma pequena fruta
Fruta num arbusto?
O cheiro é bom, ela abocanha.

Seu mundo... muda.
Já não é mais criança, agora é adulto
E aprendeu muito da vida
Viveu muita coisa, mas se dá conta, de repente
Mesmo adulto, ainda é criança

Não sabe onde está a linha reta
Não sabe andar pelas estradas sem tropeçar
Tropeça e levanta, mas tem medo
O medo se dissipa num sorriso

Sorrisos que bailam
Como o do gato de Alice
Mas não assim maliciosos
A criança adulta atravessa outro mundo

Se vê andando sem rumo, mesmo com rumo certo
Não sente tristeza
O sonho sob a árvore continua
E ela quer sonhar, saber

Se vê diante de uma nuvem incerta
Ela quer descrevê-la e não consegue
E mais adiante, ele percebe
É o seu futuro

Mas futuro que não se sabe
Ela não consegue moldar a neblina
Tenta e não consegue, tenta e erra
A neblina foge de qualquer tentativa

A criança acorda, com os pingos de sol
E percebe em sua ingenuidade
Que no futuro sonhado
No futuro aguardado

Ela terá de lutar , contra algo terrível
Lutará e será vencida, várias e várias vezes
A criança pequena, em sua lucidez
Percebe que a luta será algo cansativa

Um monstro terrível que a rondará até lá
Uma competição de apenas um que participa
Ela mesma, ela sabe
Lutar contra si mesma, contra a terrível apatia.

Mas ela vê coisas boas, lembra o que sonhou
Lembra de escrever, e de saber disso tudo
E lembra o que terá de fazer
A criança diz: seja forte... eu vou ser.

sexta-feira, 28 de maio de 2004

Meio Sorriso

MEIO SORRISO

Ela está lá, com seu olhar e um meio sorriso
Sorriso misterioso, olhar de encantamento nebuloso
Não diz uma palavra, não emite um aviso
Me inquieto, com seu sorriso incompleto, curioso

Alarde em silêncio, seus lábios pouco se mexem
O sorriso é um aviso de um espírito inquieto
Não se completa, mesmo que seus olhos se fechem
O sorriso ainda é meio, em lábios quase retos

Um enigma para a mente que não se contenta
Interpretar tal gesto sutil, talvez ardiloso
Será que a há malícia ou está isenta?
Será um sorriso de alegria ou nervoso?

O lado obscuro da sala não me deixa ver
O véu do seu rosto não deixa escapar
A intenção daquele sorriso que pode ser
Invadir, desarmar, vencer e conquistar

Meio sorriso, meia palavra, beleza inteira
Meia noite eu passei mergulhado
No sorriso de uma boca matreira
Tentando não ser por ele tragado

Quado estou já meio desiludido
O sorriso se completa
Tenho a resposta em meu ouvido
"Meio sorriso, alegria repleta".


quinta-feira, 27 de maio de 2004

Santo Graal

SANTO GRAAL


Deslizo pela neve mantendo os braços estendidos
O vento gelado pouco me incomoda
Estou em uma busca sagrada
Nada mais importa

Chego ao fim da descida e perco o equilíbrio, caindo
Não há mais neve, nem nada remotamente parecido
Apenas um caminho a ser seguido
Sem perguntas

Estou numa busca, e nem mesmo sei o que procuro
Uma nuvem parece indicar o caminho
apenas ela está lá
Esticada como um sinalizador

Eu caminho na direção, onde não há mais neve
Ou nada remotamente parecido
Não há mais frio
Caminho agora a passos largos

Não há caminho, não há direção
Apenas tenho de chegar
Pois a busca é sagrada
Não posso questionar

Do meio do nada onde eu estava
Saio diante de uma enorme rocha
Quase da minha altura
Ela não tem sinais aparentes

Não sei porque, resolvo tocá-la
Com a mão aberta, bem espalmada
Assim que retiro minha mão da pedra fria
Um trovão se ouve ao longe

Um sinal
O fim da busca? Não
De repente sou envolvido pela rocha
Estou dentro dela

Não vejo nada, a escuridão toma conta
Fecho os olhos, num movimento inconsciente
Percebo que não busco, sou buscado
A palavra... ela me encontrou.


quarta-feira, 26 de maio de 2004

Chove Lá Fora

CHOVE LÁ FORA





Alguns acontecimentos na vida (pelo menos na minha) depois de um tempo, quando paro para relembrar, são tão surreais quanto o mais louco dos sonhos.

Era um sábado a noite. Chovia muito. Lá estava eu no meio de uma chuva pesada, vestindo um paletó azul marinho, os sapatos sujos de lama, muita lama. Os caminhos que eu percorria eram bem íngremes as vezes e... cheios de lama. Eu estava indo buscar um estudante da bíblia, que era como chamávamos as pessoas que as Testemunhas de Jeová catequizavam. Era um senhor, meu único estudante. Uma "boa" Testemunha de Jeová tem de ter vários estudantes para que demonstre que sua "obra" está de acordo com sua fé.

Bom, ele nunca fora a nenhuma reunião, e aquele dia era especial para as Testemunhas de Jeová, uma espécie de Natal, mas comemorado em seu local de reuniões e sem o clima de festa. Então, eu resolvi ir buscá-lo, mesmo na chuva, mesmo estando sem guarda-chuva. Assim, lá ia eu passando por lugares sem iluminação, com meu terno pingando, totalmente encharcado e com uma pasta marron na mão. Eu imaginava se a água já teria conseguido atravessar o fecho da pasta.

Não me lembro agora o nome do homem, um senhor de uns 60 e poucos anos, vivendo solitário, numa casa de pau-a-pique, num lugar afastado, quase dentro do mato, mesmo estando a pouca distância do asfalto. Eu ia lá toda semana e tentava passar para ele o que passaram para mim, tentava convencê-lo do "caminho da salvação", mas a verdade é que ele gostava mesmo era da companhia.

Estranhamente não estou apreensivo por estar passando por lugares que a noite se tornam totalmente tenebrosos e que, com a ajuda da chuva e da falta de iluminação, se tornam aterrorizantes mesmo. Está impossível de enxergar através dos óculos molhados, mas se os tiro não enxergarei nada mesmo. Prefiro permanecer com eles. Mais uma subida à frente. A chuva parece que nunca mais vai terminar.

Várias vezes que eu fui à casa daquele senhor e ele me ofereceu sua hospitalidade, de muito mais bom grado que muita gente que tem mais que ele já me ofereceu. Eu tomava o café feito no fogão a lenha. Ele já notara que eu gostava bastante de café. Entre uma "palavra do Senhor" e outra, ele me contava sobre sua vida. Talvez por isso eu preferisse ir sozinho e não com um parceiro, como é o costume das Testemunhas de Jeová. Eu não me importava de me desviar do "assunto".

Agora entro na rua que leva em direção à casa dele. Meus sapatos parecem agora ter saltos altos, de tanta lama. Retiro os óculos um instante, para "limpar" um pouco o rosto. Começo a pensar no porque daquilo tudo, e chego a uma conclusão. Continuo caminhando. O matagal logo atrás da casa dele está sendo agitado pela chuva. Bato palmas. Começo a tossir. Bato palmas, mas parece que com aquela chuva ele não vai escutar.

Sei que nossos estudos não vão fazê-lo se "converter". Talvez eu nem mesmo queira isso. Só estou fazendo o meu "trabalho". Tenho de mostrar serviço, afinal já sou Testemunha de Jeová há bastante tempo. Talvez por isso eu tenha resolvido enfrentar a chuva e levá-lo atá a reunião, como eu prometera a ele que faria. Mas porque faço aquilo tudo realmente?

A chuva não pára. Continuo batendo palmas. Daí eu penso que, mesmo sendo apenas 8 horas da noite, uma pessoa solitária, que não tem uma televisão, só estaria fazendo uma coisa: dormindo. De repente eu sinto um sufoco, um nó na garganta. Pego minha pasta marron, meu terno azul marinho encharcado e meus sapatos enlameados e começo a fazer o caminho de volta. A escuridão e a chuva continuavam a não me preocupar. Eu tinha preocupações mais importantes na cabeça. Eu achava que estava fazendo algo por ele, mas na verdade era apenas por mim mesmo. Eu estava tentando me convencer de que eu acreditava em tudo aquilo. A chuva se confunde com minhas lágrimas.

Ainda faltava muito tempo para eu sair da chuva e da escuridão...



terça-feira, 25 de maio de 2004

Momentos Guardados

MOMENTOS GUARDADOS EM PAPEL CELOFANE




IMPELIDO

Como as folhas secas, do outono, jogadas ao ar
Que o vento carrega, fazendo-as dançar
Como o riacho que não pára, não pára e nem dorme
Suas águas atravessando distâncias enormes
Sou impelido

Assim, semelhante ao cometa que rasga o espaço
Viajando solitário, sua luz deixando um traço
Como o atleta que se lança para tentar a vitória
Desejando a cada impulso buscar a sua glória
Sou impelido

Como a semente plantanda tentando nascer
Procurando o sol, jurando ascender
Tal qual um falcão em busca da presa
Mergulhando no ar, em sua pungente beleza
Sou impelido

Como o trem que atravessa o mundo
Numa viagem que dura apenas poucos segundos
Idêntico ao sangue que me corre nas veias
Transformando em emoção alegrias alheias
Sou impelido

Como a paixão que faz perder o bom senso
Queimando os sentidos de modo intenso
Como o poema que insiste em aqui ser escrito
Com palavras resvalando, formando um grito
Sou... impelido.




DELAS

Pelas ruas, circula a beleza
Numa destreza de passos que não se acompanha
Centenas de centelhas
Espocando a cada distância caminhada
Lânguidos olhares, bocas desenhadas
Apressada beleza, ainda assim, destreza

Pelas ruas, o que se vê pode enganar
Mas elas estão lá
Misteriosas aos olhos passantes
Olhos que procuram reter
A feminina arte de ser

Pelas ruas, beleza exterior
Pelos recônditos de sentimentos
Beleza que não se vê
O passante vê, mas não sente
Sente, mas não sabe

Várias almas num balé de perfumes
A mulher, a menina, a criança que exala
Todas apenas uma
Sorrisos misteriosos
Vozes nem sempre ouvidas

Tente entender a diferença
Beleza insolente, carente, até mesmo cândida
Caminhando chama atenção por uma linguagem
Que não usa palavras
Muda

Muda a todo instante, e o passante emudece
Ante a beleza, se entrega e contorna
Reparando apenas o casulo da alma
Ela sabe e deixa a natureza oposta
De olhos vidrados, os desola

Ela é mais, mas não sabe
Ela é mais e descobre
Descobre e desaba
Pois o mundo vê beleza
Mas o mundo não é nobre

Múltiplos espíritos em formas diferentes
No balanço do corpo
Na medida do consciente
Enfeitam as ruas, saboreiam olhares
Ofuscam o mundo com desejo ardente.

segunda-feira, 24 de maio de 2004

Por Todos os Lados

POR TODOS OS LADOS




Olhar eterno sobre o infinito

Estou olhando para o infinito, talvez até mesmo mais além
Estou refletindo minha imagem do alto de uma sacada
Estou impaciente pelo retorno deste eu ou de alguém
Estou rememorando o futuro de forma meio embaçada

Jogo cartas de baralho ao vento, que faz o seu próprio jogo
Recito a letra de uma música que nunca foi escrita
Retiro uma jóia sem igual do fundo daquele lodo
Ela brilha sobre meus olhos parecendo meio aflita

Reencontro paixões antigas, que eu sempre amarei
Repasso todos os beijos, até mesmo os perdidos
Da boca de tantos amores, que jamais esquecerei
O beijo roubado, ousado, descarado e o beijo que foi cedido

Revejo amigos antigos que estão aqui presentes
Reconto velhas histórias como se fossem todas novas
Cada rosto, cada pessoa, uma saudade diferente
Saudade que o tempo não mata, pois resiste a toda prova

Reescrevo minha história numa pedra incandescente
Para mandá-la ao infinito que agora observo
Pois estarei lá esperando, esta pedra referente
Descrevendo o infinito eu, que agora é eterno.

quinta-feira, 20 de maio de 2004

Em Suas Mãos

"EM SUAS MÃOS"




Entre um pensamento e outro ela passou. Nem notei, pensei eu. Na verdade o seu cheiro ficara. Ela continuou andando, cabelos negros, esvoaçantes. Espírito esvoaçante. Por um instante, ela olhou para trás. Algo vôou e ela se voltou. Foi um laço, um pedaço de pano, não sei. Ela ia agarrar, mas eu a estava observando. E ela deixou o laço (ou pedaço de pano ir embora). Por um tempo eu pensei que ela estava olhando para trás de mim. Mas não era. Numa questão de segundos, percebi tudo. Mas era tarde...

Estávamos agora próximos um do outro. Perguntei o seu nome, ela respondeu. Meu coração batia forte, descompassado. Ela segurou minha mão, e todo meu corpo esquentou. As pontas dos dedos das mãos ficaram dormentes por uns segundos. Não estávamos mais na rua. Era um quarto. Com desenhos fortes e singulares na parede. Pareciam arte abstrata, mas não muito colorida. E eu os entendia.

Ela ainda segurando a minhã mão se virou em minha direção. Seus seios encostando em meu peito. Seios a mostra num decote farto, que ela não parecia se importar de eu estar fitando. Ela falou algo, em uma outra língua, de um outro tempo. Além das pinturas nas paredes, e uma janela que dava para uma praia, lá fora, não havia mais nada no quarto, além dela e eu.

De um movimento brusco eu fui beijá-la, mas ela já vinha me beijar. Nossos lábios se juntaram, e nossas línguas pareciam ferozes dançarinas. Nós segurávamos nossas mãos, como se fossemos quebrá-las. Era um beijo ofegante, que não queria ter fim. Revolvíamos nossos rostos de um lado para o outro, em um beijo infinito. Nossos corpos tremiam. Não estava frio, mesmo sendo noite.

Fui descendo com meu beijo e beijei-lhe entre os seios. Ela acariciava meus cabelos e suas mãos eram tão macias, dificil de achar com o que comparar. Ao mesmo tempo ela me guiava, para onde eu deveria ir. Beijar seu seio, já desnudo, com o vestido, semi-caído. Seios arfavam, subiam e desciam num ritmo insconstante. Ela falou meu nome, foi o que eu entendi. E eu já não apenas beijava os seus seios, mas estava totalmente inebriado neles. Num movimento que não senti, que não percebi, eu estava com ela no chão. Minha língua desenhava círculos em volta de cada seio, e parava bem no meio, onde minha boca ficava e não parava de sugar, num beijo mais íntimo, mais insano.

Eu já estava explodindo, mas sua selvageria, que era calculada, me fazia ter paciência, e enfrentar cada etapa. Ela me puxa para sua boca e me sorve mais um beijo. Mesmo no beijo, pareço escutar suas palavras num dialeto susurrado. Deslizo pelo seu corpo e beijo sua barriga, depois de terminar de desabotoar o vestido. Ela agora está ali, apenas se guardando por um tecido fino, branco e rendado. Como se não soubesse se tinha sua permissão, olhei para seus olhos. Ela não disse nada. Nem precisava. Retirei do meu caminho, o tecido que faltava.

E, como amante embevecido, a beijei. Beijei e ela falava, em seu idioma nativo. Pois meu beijo obsceno, para ela era sagrado. O beijo a contorcia, de prazer, e loucura. Um beijo profundo, que buscava encontrar o seu segredo e fazê-la me contar. E num grito abafado, com suas mãos repuxando meus cabelos, senti que o beijo chegara e fora inteiramente aceito.

Ela disse, e agora eu entendi, encontre a minha alma. E eu, ali, percebi que já há muito, eu estava sem minhas roupas, me deitei sobre ela, com carinho, sem muita pressa, sua suavidade me acalmava e eu sabia que não precisava ficar afobado. Eu então a senti ao meu redor. Era luxúria, era sonho, realidade. Em movimentos aos quais ela ainda me guiava, em sua arte milernar, eu e ela nos conjugávamos. Os movimentos eram perfeitos, mesmo que, para alguém de fora, parecêssemos tresloucados. Eu a sentia em mim, ela me sentia em si. Eu a beijava, ela me beijava. O chão, o quarto, a praia que lá fora rugia, tudo parecia agora uma pintura, como aquelas das paredes. E nós no meio de tudo nos movíamos.

O tempo se perdeu, não sei quantas vezes a vi entrar em delírio, até que ela recitou um mantra ou algo parecido. Como se me liberasse, me deixasse completar , aquele ritual de amor puro e sensual. Então num momento eu não estava mais em mim. Fechei os olhos e meu êxtase, me tranportou para dentro dela. Naqueles segundos, que pareciam uma eternidade, eu pude ver a sua alma. Etraena, Etraena. Esse era o seu nome. Etraena. Regozijado abri meus olhos, e descobri algo, que nunca havia experimentado.

Mas ao abrir meus olhos, um pano os cobria. Fui retirar, e lá estava eu na rua, novamente, segurando o que era um lenço. E ela veio, e estendeu a bela mão. Era o lenço, com seu cheiro que ela pedia. Eu notei em seu olhar, que ela sabia de tudo. Eu devolvi-lhe seu lenço. Ela sorriu, aquele sorriso que compartilhei, abriu seus lábios sedosos e me agradeceu. Eu não entendi e perguntei o que ela havia dito. Ela repetiu:

- Etraená! Etraená!

E ela se foi e eu sorri... Etraená!

O Homem Que Se Despede

O HOMEM QUE SE DESPEDE...





Já se despediu de alguém? Provavelmente sim. Pois bem, vou contar uma história de um homem que teve de partir logo após ter chegado a uma cidade. Ele chegou sem ser convidado. A cidade até o conhecia, mas ele mesmo não conhecia a cidade. E ele, ainda assim, adentrou-a, sem pedir permissão. Tão logo pode, ele conquistou a simpatia e o carinho, que a cidade já nutria por ele. Mesmo sem ser convidado, foi bem recebido. Foram dias de festas, de risos.

Os cidadãos o homenagearam, as crianças o abraçaram, parecia até mesmo que o sol se tornara mais forte e o céu mais azul. Mas uma coisa a cidade esqueceu, ele entrou sem permissão. Claro, eles abriram suas portas, sim, mas ainda assim, ele chegou sem aviso, chegou num lugar em que ele não podia ficar. E os conquistou, e foi conquistado. Não parou pra pensar que a cidade não era dele, nem nunca seria. Por mais que ele se esforçasse, por mais que ele amasse cada centímetro do lugar.

Mas o homem, quando pensava nisso, procurava logo esquecer, entrava num bar da cidade, contava piadas, histórias, e todos sorriam e ele esquecia-se de que não pertencia àquele lugar.

Até mesmo deram a ele, lhe emprestaram um cantinho, um lugarzinho para ele morar, cultivar a terra e, assim, tentar se estabelecer. Daí, ele foi dormir. Entrou na sua casa humilde, mas que para ele era uma mansão, pois estava ali, no coração da cidade, que ele amava de paixão. Dormiu um sono profundo. Um sono de três dias. Ao acordar, com o cantar do galo, se espreguiçou, se lavantou, lavou o rosto e escovou os dentes. Depois de tudo foi passear. A cidade era igual, mas parecia diferente.

Não, nada mudara. Era o mesmo lugar. Ele sabia. Mas percebeu que dormira demais, e ao acordar, despertou para a realidade que ele não queria enxergar. A cidade não era seu lar. Então ele foi... sim foi arrumar as suas coisas. Mas pediu permissão para partir, mesmo sem ter pedido para entrar. Os cidadãos entristecidos e até indgnados, disseram para ele ficar, pois ele sempre seria bem-vindo. O homem que tentava se despedir, perguntou então ao prefeito, se ele podia ali se estabelecer, até mesmo ali viver não apenas numa pequena casa, mas ele mesmo contruir algo seu, para ali ficar até morrer.

O prefeito não entendeu, pois disse que ele já tinha o bastante. Não precisava se preocupar. Ele tentou argumentar, mas acabou convencido, e voltou pra sua cabana, assim um pouco esmorecido. Ainda tentava cultivar a sua terra, mas sabia que a ele, a terra não pertencia. E ele, indignado com aquilo, com aquela situação, acabou por destruir o que com tanto carinho cultivara. Se estava para nascer, não deu tempo de crescer, pois na sua indignação, o broto ele não pode ver.

E passou-se aquele dia. Ele acordou muito cansado, olhou a cidade triste, e ficou desconsolado. Ainda era a mesma cidade, o mesmo lugar que amava, mas ao tentar permanecer, viu que se distanciava. O homem então, arrumou as suas coisas, escreveu uma carta bem tristonha. Aproveitou, que a cidade dormia, foi-se embora e não queria se despedir, mas a carta em sua mão, que não o deixava mentir, ele afixou lá no portão e pôs-se, então, a ir.

E andando ele encontrou, um rapaz com uma mochila, que ia na direção da cidade donde o homem partia. Perguntou para o rapaz para onde ele iria, o rapaz disse, para a cidade onde o som de um violão ele, de longe, ouvia. O homem o aconselhou, meu rapaz saiba o que faz, pois nem sempre se deve ir atrás de uma doce melodia, quem sabe se você é capaz de ouvi-la e acompanhar, quem sabe se ela está sendo cantada para você? Meu rapaz seja sensato, não vá aonde não é chamado, só por ouvir um belo toque de um violão bem dedilhado. Mas não fique assim, com essa cara amuada, pois eu aprendi que não resolve. Siga o seu caminho, para onde desejar, mas saiba se ao fim do caminho, alguém está a te esperar.

Os dois seguiram adiante, retomaram outro caminho. Quem olhava assim distante, via apenas um sozinho. E a despedida tão difícil, como toda despedida é, tornou- se a despedia de duas pessoas diferentes, do homem que esteve lá, naquela cidade presente e do rapaz que seguia o som do violão ao longe, plangente.

Não olharam para trás, pois a dor os consumiria, enquanto andavam cada vez mais... a cidade então... SUMIA.

quarta-feira, 19 de maio de 2004

Enquanto Te Esperava

ENQUANTO TE ESPERAVA

Enquanto te esperava...

... eu sonhava.
Que a realidade deixava se ser
Minha prisioneira
Que meu sonho realizava
A realidade inteira

Pois eu passava a viajar
Através das brumas celestes
Para chegar à tua boca
Num beijo
E nesse encontro ficar
Depois de tanto ensejo
Somente a te beijar

Pensava nos teus nomes,
Nas formas que eu te dei
No sorriso que imaginei
Nas poesias que recitei
Sem regras, apenas sentimento
Poesias de sonhos
Poesias a todo tempo

Subi e te levei comigo
Para um beijo num abrigo
Abrigo da realidade
Que na sua insanidade
Não me deixa te tocar
E meu beijo completar

Assim, enquanto te espero
Me esmero em recitar
Palavras que vão ao teu encontro
Para fazê-la cantarolar
Nosso amor, que não tem ponto.

Ponto de partida sim,
Mas o de fim nunca terá
Passa pelo impossível
Até mesmo inadmissível
Que é o jeito de amar
Dos amantes agraciados
Com caminhos tão pontilhados
Por um destino que não tem fim.




Peguei uma mochila, um dia desses, e comecei a caminhar. Pra dizer a verdade não lembro o que havia na mochila, acho que dizer que "peguei uma mochila" foi somente para começar este texto. Ou pode ser que a mochila tenha algum significado místico, psicológico, ilógico e eu não saiba. Afinal, eu não sei nem o que vou escrever, só sei que eu sabia que começaria com "peguei uma mochila", para onde vou daqui com ela, vou saber agora.

Peguei uma mochila , um dia desses e comecei a caminhar. Não gosto de usar boné, mas coloquei, para que combinasse. Acho que mochilas e bonés combinam, creio eu. Mas também por causa do sol forte que fazia. Então resolvi pegar o caminho, a estrada. Ia andar sem rumo, como esse texto. Entrar em qualquer caminho e ver onde ia sair, onde ia terminar, ou começar, o que fosse, o quer que seja.

Talvez eu tivesse um destino em mente, mas não sei se eu chegaria lá. De repente sinto um déja vu (ou seja lá como se escreve isso), e tenho aquela sensação, por alguns segundos de que já escrevi esse texto antes, de que já estive nesse mesmo caminho. Passa rápido. Continuo caminhando. Entro numa estrada com árvores dos lados. O chão não está marcado, como se nunca ninguém tivesse transitado ali. Provavelmente não mesmo. Eu caminho sozinho.

Saio numa auto estrada. Não vou pedir carona, apesar da mochila estar bem pesada agora. Ando pela beirada da estrada. Alguém grita algo de um ônibus, eu olho para trás e ainda vejo uma cabeça para fora, é uma mulher. Ela sorri e acena. Não entendo nada. Continuo andando, chuto uma pedra, mas ela não se move. Droga! Estava presa ao chão. Por pouco não me machuco. Parece que vou demorar a chegar a algum lugar. Pego o fone de um walkman e coloco no ouvido. Resolvo nem pensar de onde ele apareceu. Não estava ali antes, mas tudo bem. A música que toca é em uma voz feminina. Ela canta e toca um violão. Conheço a música.

O sol começa a baixar e eu saio da auto-estrada. Chego a um lugar que faz uma descida suave e tem uma grama fina. Ao longe as montanhas começam a esconder o sol. Tiro a mochila giro o suficiente para que ganhe impulso e jogo o mais distante que posso. Mesmo pesada, ela vai bem longe. Eu começo a correr, pela grama. A mochila parou perto de uma cerca (eu não a vira ali quando arremessei a mochila). Perto da cerca, do outro lado, um velho está mexendo com a terra. Não vejo plantação alguma, mas ele continua lá, como um jardineiro, um agricultor, sei lá. Quando pego a mochila e começo a limpá-la e a coloco de volta nas costas, ele se vira, com um sorriso e diz apenas "eu já estive lá, o caminho não é tão difícil".

Não sei por que eu agradeço, afinal, não sei muito bem sobre o que ele está falando. Talvez por educação. Sigo o meu caminho, mas antes eu me volto para olhar o velho uma última vez, assim que olho para trás ele... ainda está lá, contente, acenando. Me lembrei da mulher do ônibus. Coloco o walkman e a mesma música ainda toca. Estranho, deve ser algum pedido especial, não sei.

Ainda ando muito tempo pela grama. Ainda estou decidindo para onde vou exatamente. Vai escurecer logo. Ao pensar nesse fato, eu pisco algumas vezes, perturbado, pois eu comecei a caminhar e nem mesmo parei para pensar onde iria descansar... só pensei em caminhar. Resolvo que é melhor parar por aqui... estou sem lugar para descansar, é melhor descansar antes de procurar... andar sem destino, escrever sem rumo, dá nisso... Paro e percebo que a mochila sumiu. Não sinto falta, não sei o que havia dentro dela. O walkman sumiu também. As palavras acabaram. Ao longe, escuto o som de um violão...!

Sigo naquela direção...


segunda-feira, 17 de maio de 2004

Fogueiras Ciganas

FOGUEIRAS CIGANAS




Sonhei com fogueiras. Fogueiras ciganas. Numa clareira, uma fogueira ardia, uma cigana dançava. Rodopios hipnóticos e uma música animada. Eu sentado, do outro lado da fogueira, via a cigana através do fogo. Estava ali, com as mãos apoiando o queixo vendo a bela figura rodopiar, guizos e sons, cantorias e alegria em volta dela. Vestido esvoaçante, pés descalços, dançando à luz da da lua, meus olhos atravessando a fogueira, chegando aos seus olhos de fogo, que emanavam o milenar segredo cigano.

Seu nome eu não sabia, as pessoas ali presentes não diziam. Pensava ter ouvido seu nome por um instante, mas foi apenas o sussurro do vento ao meu redor. Ele citara um nome estranho, nome cigano que eu não conhecia. Citara muito baixinho no sussurro do vento, que o levou pelas árvores embora. Mas ela continuava a dançar, sem nome, sem nem pensar em parar. Seus pés levantavam poeira e desenhavam figuras no chão. Pareciam como as figuras na palma da minha mão.

Linha da vida, linha do tempo, linha indefinida. A música preenchia todo o vazio ao redor, seus olhos se cravavam nos meus como adagas furiosas, mas num furor de paixão, de uma cigana misteriosa.

De repente tudo ficou em silêncio, mas a dança continuava, agora mais eloquente. Parecia uma linguagem que traduzia o que a cigana queria dizer sem palavras, pois seu corpo falava o que ela tinha em mente. Uma misteriosa mulher, que muitos assim a viam, parecendo apenas mulher, mas que eu via através da fogueira, na sua dança ininterrupta, seu interior flamejante. Os homens ali, olhavam apenas o corpo, que parecia não cansar, eu olhava além da fogueira, o seu silêncio quebrado.

Ela fala, no silêncio, sem nem seu lábio mover, sobre o interior que ninguém conseguia ver. Passei a dizer para ela, não me lembro muito bem como foi que fiz isso, que a fogueira me mostrara, muito dela, muito mais além. Eu ouvia a sua voz, as palavras de seu interior, que a faziam bela e tão clara, quanto o fogo que a mim queimava.

Acordei do sonho. Sonhei com fogueiras... fogueiras ciganas.

quarta-feira, 12 de maio de 2004

Parábola

PARÁBOLA


Se eu tivesse um barco a vela
Eu iria navegar
Por sua chama bruxuleante
Me lançar ao mar bravio
Com o vento no pavio
Levando meu barco adiante

Seu eu dormisse um sono
Um sono muito pesado
E tivesse um sonho leve
Um sonho com meu passado
Me livraria desse fardo
E acordaria aliviado

Se eu chorasse de alegria
Então riria da tristeza
Que me fez chorar um dia
Tirando da vida a beleza
E traria de volta o riso
O riso, aquele potente
Que de lágrimas me faz
Me faz sorrir contente

Se eu corresse como o vento
Correndo eu me impeliria
Nas correntes de ar sublimes
Onde nada me prenderia
De logo chegar correndo
Muito antes da ventania

Se eu fosse o amor eterno
Viveria para sempre
Buscando ser o sempiterno
Amor sobrevivente
Que na sua eternidade
Duraria uma vida
Amando, o amor de verdade
Que é chama renascida.

Eudes, 12/05/2004
02:04 hrs

segunda-feira, 10 de maio de 2004

Aquele Beijo

AQUELE BEIJO QUE TE DEI...





Bom, cheguei até aqui. Não posso sair dessa sem dar pelo menos um beijo nela. Eu sei, eu tenho 10 anos, ela deve ter uns 9 anos (engraçado, pensando nisso agora, lembro que eu ainda não perguntei a idade dela). Mas foi tudo culpa da minha irmã. Estava eu quieto na minha turma, até que tive que ir à sala dela na segunda série. Entrei lá e uma colega dela me olhou. Elisângela, seu nome. Uma pele morena, como se fosse café com leite, seus olhos pareciam meio hipnóticos. Eu falei algo com minha irmã e voltei para minha sala. Difícil foi tentar entender o que a professora dizia, daí pra diante.

Nos dias seguintes eu estava sempre topando com ela. Já não sabia mais se era ela ou eu quem estava provocando tantos encontros "casuais". A escola era grande. Estou aqui sentado, na casa dela agora. Tudo convergia (ei, eu estou na terceira série, nem sei o que "convergir" significa) para que acabasse me apaixonando por ela. Ela morava a alguns metros da escola. E agora, toda vez que saíamos, eu ia com ela até o portão da casa dela.

Comecei a ir da minha casa até a dela, nos fins de semana. Deitados na grama, conversávamos coisas de criança... ou simplesmente ficávamos ali, olhando o céu. Em algum lugar tocava uma música assim "na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê". Acho que vou lembrar para sempre desse quadro, talvez até escreva algo sobre isso, se minha letra melhorar até lá.

Esqueço da cena de nós dois deitados na grama, e volto ao presente, e estou sentado ali, na casa dela, e não sei o que fazer. Ou melhor, sei, só não sei se terei coragem. Eu preciso beijá-la. Parece tão fácil na televisão. Acho que sinto minhas pernas pesadas, mesmo estando sentado. A garganta seca. Onde está ela? Fico aqui assistindo televisão e ela sumiu. Há um pequeno agravante, que talvez seja o que esteja fazendo minhas mãos suarem: o pai dela está dormindo nesta cama na qual estou sentado. Afinal a casa é pequena e a TV fica no quarto dos pais dela, e eu estou sentado na cama dos pais dela enquanto assisto TV. Mas algo me diz que eu já demorei demais e agora, dane-se "papai"!

Como chego a essas situações? Será que toda minha vida vou me meter nessas enrascadas? Afinal, ficamos de mãos dadas, conversamos tanto que eu não consigo acreditar que duas crianças como nós consigam tanto assunto. Venho à casa delas há muitas semanas. Ela é tão linda e... infantil. Mas eu nunca a beijei. Nem mesmo me insinuei. E justo aqui e agora eu resolvo isso. Mas tenho um problema, quando resolvo algo, tenho de fazer. O pai dela ronca um pouco mais alto. A mãe dela não está em casa.

Muitas vezes eu comprava alguns doces com pequenos brinquedos. Comprei uma caixinha com um anel e dei a ela outro dia. Lembro que ela gritou para alguém, não sei por quê: "Meu namorado é da terceira série". Devo ter ficado vermelho feito um tomate. Eu nunca vi Elisângela triste. Ela parecia que não parava. Percorríamos as proximidades do bairro de mãos dadas. Fugíamos de maribondos das árvores em volta. Éramos o que éramos, apenas crianças.

Ah, até que enfim. Ela voltou, com um copo d'água. Ela senta do meu lado. Bem colada. Põe a mão sobre seus joelhos, olha pra mim e sorri. Seu pai apenas ronca, mas parece um cadáver. Se não fosse o ronco e o movimento das costas (ele está de costas) eu não saberia se estava vivo. Ele não saiu da mesma posição desde que cheguei.

O que está passando na TV eu nem faço idéia. Meu coração parece que vai sair pelos ouvidos, tamanha é a pulsação que sinto nas têmporas (onde eu aprendo essas palavras difíceis?). Mas tem de ser feito. Eu estou com a mão sobre a mão dela. Quase num sussurro eu chamo:
- Lisângela - Ela responde e se vira para mim.

Eu desliguei toda e qualquer racionalidade ou medo, segurei o rosto dela meio desajeitado e colei meus lábios no dela, no meu primeiro beijo. Ela ficou assustada, mas não recuou. Retribuiu do modo que achava que deveria ser um beijo. Quando separamos nossos lábios, nenhum dos dois falou nada. Ela estava sem jeito, mas não tanto quanto eu. Ela olhou para o copo d'água, estava vazio, eu tinha bebido. Ela perguntou se eu queria mais água. Eu disse que sim. Então ela levantou para pegar, e me disse:
- Vamos lá na cozinha pegar. - O pai dela roncou mais uma vez, mas não se mexeu.

Fui com ela até a cozinha e aquele primeiro beijo, no quarto, deixou de ser o único daquele dia.


quarta-feira, 5 de maio de 2004

Reverberando no Vácuo

REVERBERANDO NO VÁCUO




18:47 hs.

Saio para a Voluntários da Pátria, aqui em Botafogo. Por alguns instantes reparo no trânsito. Está intenso como sempre. Neste horário as pessoas ainda estão indo para as suas casas. Mesmo morando aqui há um bom tempo, ainda não me sinto parte disto. Me sinto distante disto tudo, destas pessoas. Vou até a banca de jornal, apenas por ir, sem intenção de comprar nada. Uma linda mulher passa por mim, quase esbarrando. Pressa. Ela e todos os outros a têm.

Da banca vejo o Estação Botafogo. O cinema dos filmes-cabeça. Como Tarantino é "cabeça" para muitos, Kill Bill está em cartaz. Paro para olhar os cartazes, as pessoas passam ao meu redor. Lembro de água e óleo. Sou a água ou o óleo? Não me sinto parte disto. Meu mundo é outro. Mas ao mesmo tempo lembro que eu não tenho mundo. Pelo menos não mais.

Por um instante presto atenção apenas na cor amarela do cartaz do filme de Tarantino. Alguém esbarra em mim e continua andando. E eu nem estou no meio da calçada. A pressa. O cheiro nauseante da pipoca doce, do carrinho de pipocas logo ao meu lado. Alguns garotos de rua passam, com uma lata de refrigerante, com cola dentro, cheirando a mesma. Penso em algo engraçado, na hora: o cheiro deve estar melhor do que o desta maldita pipoca doce.

Não sei quanto tempo estou aqui, olhando os cartazes, mas me pego lembrando de quando assisti Waking Life aqui. Um filme que falava de se estar preso em um sonho. Não como estar preso em um pesadelo, apenas em um sonho. Não é tão desagradável a ponto de se desesperar, mas também não é tão agradável a ponto de se querer continuar nele. O garoto do filme quer acordar... e não consegue.

Uma garota nova passa fumando. Ela traga, eu suspiro. Já não estou mais olhando os cartazes, estou apenas parado. Talvez seja este o problema. Por um momento um turbilhão de lembranças invade minha mente. Esqueço o cheiro da pipoca, lembro de cheiro de hospital. Lembro de ser levado por minha mãe às visitas de minha irmã caçula, internada, com pneumonia. Tudo me assusta, desde o cheiro, até aquele ambiente asséptico. Me pergunto, naquele momento, por que minha mãe me levava. Qual era a vantagem de eu ir? Eu era tão pequeno. Não podia ajudá-la em nada. Por que ela não leva minha irmã ou meu irmão? Tento responder: companhia, eu acho.

Num instante, lembro de quase todas as vezes que estive num hospital. Nunca fiquei internado. Mas lembro de como as vezes que ia começaram a aumentar. Primeiro por causa dos meus irmãos, depois por causa de meus próprios problemas. Crises respiratórias. Não é nada, senhora. Por fim, aprendi a controlar o medo que as crises respiratórias causavam e acho que era apenas sinusite que me acompanha até hoje.

Me viro para a rua, para os carros em movimento, o trânsito intenso. Lembro de onde minha mãe mora e onde morei. Barulho de carros só de vez quando. Lembro de ficar sentado no muro da varanda, pensando no que viria pela frente, o que eu faria quando tivesse, sei lá, 30 anos! O cachorro está brigando com o gato, mas de brincadeira. Duque e Naninha. No muro, sentado, penso, por que diabos os cachorros que minha mãe tem nomes diferentes, mas todo gato, seja macho ou fêmea tem sempre o nome de Naninha?

Uma buzina me acorda e ainda estou em frente ao cinema, em Botafogo. A pergunta não tem resposta. Nunca teve. Nunca importou. A vida era assim, cheia de complicações simples. Alguém passa a minha frente, rindo. Num instante lembro das nossas risadas, ou então das risadas que causávamos e lembro de minha mãe rindo tanto, que começava a chorar e não se controlava e nós já não sabíamos mais se ela estava rindo ou chorando mesmo. Por alguma razão lembro da risada do meu pai, com mais dois tios meus, num Ano Novo de muitos anos atrás. Eles estavam na rua, altas horas e não sei porque, eu estava junto. Eles cumprimentavam um amigo, que estava bêbado, e uma arma caía. Lembro das risadas cessarem, meu pai apanhar a arma e devolver ao dono. E o dono colocar na cintura. E todos caíam na gargalhada. Eu não estava mais rindo.

Volto para a banca de jornal. Tento me concentrar em alguma coisa na banca, mas é difícil. Na minha mente eu vejo alguém me entregando vários gibis, mas não sei mais de quem é o rosto. Lembro que eu pensei, "mas eu não sei ler"! Mas ainda assim gostei de ter ganho aquelas revistas, que eu nunca vira antes, eram divertidas as figuras. Meus tios que sabiam ler pegam a maioria. Isso me faz relembrar a época em que todos moraram na nossa casa e nós na casa dos fundos. Meus avós e meus tios, todos morando ali, pertinho. Meu avô me ensinou a andar de bicicleta nesta época.

Casa. Lembro como odeio apartamentos. Casa parece ter uma simbologia muito maior para mim. Na Voluntários muitos sem-teto não têm as suas. Minha mente reprime essas imagens. Me envolvo nas lembranças. Casa: ver TV deitado no chão, mudar os canais com pé, tomar café mergulhando o pão com manteiga no café com leite, pular a janela pra não levar uma travesseirada, se esconder no guarda-roupa, pegar baldes para aparar goteiras, escutar a chuva no telhado, ser o mais velho e "chefe"... da casa.

Saio da banca. Tiro os óculos e seco um pouco o rosto, rapidamente. Alguém que passa olha para mim, faz uma cara estranha, de incompreensão e continua. Penso em como eu queria que chovesse naquele momento. Lágrimas do ceú.

Vou na direção do prédio e entro.

20:11 hs.

segunda-feira, 3 de maio de 2004

Eternas Nuvens

ETERNAS NUVENS QUE SE DISSIPAM



O ônibus sacoleja e me acorda. Não consigo mais dormir. Olho o relógio e ainda tenho duas horas até chegar ao meu destino. Que expressão idiota: "meu destino". O que vou fazer agora? Ficar pensando? Contando histórias pra mim mesmo? Estou indo rever amigos, mais que irmãos e amigas por quem seguro a respiração por um curto tempo, quando elas sorriem com seus lábios sinceros.

A paisagem lá fora é a mesma que já vi dezenas de vezes neste percurso. Ela sempre me espanta. Tanto "nada", com tanta coisa. Ficarei alguns bons minutos sem ver casas. Preciso ocupar a mente, enquanto admiro a paisagem. Pensar em quê? Talvez em algo para escrever no blog, quando eu voltar para casa. Algo que eu goste de ler, como se fosse outra pessoa que tivesse escrito.

Melhor pensar, e depois decidir se escreverei. Não sei. Pensar em quê? Lembrar do quê? Parece, as vezes, que a vida está comprimida na ponta de um palito de fósforo, quando estou sozinho com meus pensamentos. Mas quando estou com amigos e começo a relembrar de tudo que passamos, de tudo que enfrentamos e de tudo que achamos graça até o amanhecer, é como se o fósforo acendesse uma enorme fogueira.

Pensar em quê então? Vamos ver...

TV's. Sim televisores com aqueles seletores antigos, que ao girar parecia que estávamos quebrando-o: tum-tum-tum (ou algo assim, não sou bom com onomatopéias). O televisor em preto e branco em que meu pai assistiu a copa de 1978 e a qual eu não entendia nada. Porque ele ficava tão exaltado? Era apenas um jogo! O importante era estar ali, em frente aquela caixa mágica de madeira, literalmente falando. Girar o seletor para consertar o vertical e nos botões que consertavam o horizontal. Mexer na antena e perguntar aos berros: TÁ BOM AGOOOOOORA?

Meu garfo predileto. Minha madrinha me deu. Era meu garfo predileto, me pertencia. Para eu ter algo meu era um verdadeiro feito, já que mesmo os brinquedos eram de todos. Então penso no meu garfo predileto. Meu símbolo de poder! Era meu, ninguém podia tocar. Ele era diferente de todos. Era só meu e de mais ninguém. Abrir a gaveta na hora das refeições e encontrá-lo lá, era como... como... usar a cápsula e me transformar no Ultraman! Era apenas um garfo... mas era MEU garfo. Minha fada-madrinha me dera.

Amores. Porque eu me apaixonaria com oito anos? Eu sabia o que era isso? Eu já ouvira a expressão "apaixonar-se"? Provavelmente sim, mas não sabia seu significado, até então. Ela com sua pele tão clara e seu cabelo tão escuro. E seu sorriso. Eu me sentia tonto e não entendia porque. Estava na casa da amiga de minha mãe e ela era vizinha da mesma. Acabei sabendo que minha mãe soube pela amiga que eu estava apaixonado. Elas se divertiam, pois achavam que simplesmente era impossível. Bom, só sei que eu lembro de cada detalhe do rosto dela, mesmo depois que ela foi embora, há 26 anos atrás.

Aventuras. Pensar em aventuras parece algo tão estranho agora. Não foram muitas, mas as poucas que vivi valeram por uma vida inteira. Descer aquela ribanceira numa bicicleta sem freios, errar a passagem pelo quebra-mola, voar por cima da bicicleta, levantar, limpar a poeira, carregar a bicicleta no ombro e ir para onde estava indo... o trabalho. Montar um clube secreto, numa garagem nada secreta. Subir pelos tantos morros em volta de onde se mora e descê-los... correndo! Ficar bêbado numa festa infantil... com um copo de cerveja e vomitar tudo que comeu na festa, com apenas 9 anos de idade. Escutar LPs de histórias infantis da Disney, enquanto observa seus bonecos girarem em cima do disco. Fazer uma festa junina amadora e "brincar" com de guerra com as brasas da fogueira! Se apaixonar por três irmãs ao mesmo tempo... e ficar a ver navios. Tentar traduzir um gibi perdido do Thor, em inglês, usando apenas um dicionário e o inglês da quinta série. Passear por Copacabana e adjacências, tendo pego dois ônibus para chegar lá, e sem avisar a minha mãe.

Mulheres. Elas estiveram em todo lugar, em todo momento da minha vida. Denise de 18 anos, era apenas minha amiga, e já era muito, pois eu tinha 12 anos e era um moleque para ela. Ela só achava interessante que eu também gostasse de Agatha Christie, assim como ela gostava. Com a Nara Mary eu poderia ficar horas e horas conversando (e ficava) e eu só podia apreciar a sua inteligência dinâmica, num corpo moreno, e num olhar fraternal. Beijei Fernanda na boca, que apenas riu, e continuou a esperar que eu a alegrasse, como eu sempre fazia. Depois de mais de um ano roubei um beijo de Cristina, que aceitou o beijo, mas não se deu por vencida, éramos amigos e ela me amava assim, e me ama até hoje. Delma e eu éramos tão parecidos que eu só podia observá-la, com seu jeito sarcástico de olhar a vida. Poderíamos dormir na mesma cama e apenas conversaríamos e ficaríamos rindo da futilidade de certos aspectos da vida. Vânia era tão alegre e otimista que poucos notariam como sofria por dentro, se não fosse amigo dela. Sua beleza era algo estonteante, mas ela fazia parecer que isso não era nada, pois ela era apenas a Vânia, que tinha uma palavra de consolo para tantos e ao mesmo tempo esperava ouvir o que eu tinha a dizer a ela. E eu dizia. E veio Luciana, Flávia, Giselle... Mulheres, meninas e marcas no meu coração.

... hã! Acho que estou chegando. O ônibus entra na rodoviária. Chego ao fim da viagem. Saio e o sol está começando a baixar. Suspiro e sigo adiante. Sim, avanço sem pensar em nada específico agora. Só... sigo adiante.

domingo, 2 de maio de 2004

A Banca

DUST IN THE WIND




A BANCA

Quando pré-adolescente e adolescente eu comprei gibis numa única banca de jornal. A única que havia no bairro próximo onde eu morava. Ela ficava praticamente no "centro" da "cidade". A banca era a única que havia em quilômetros. Para se ver outra que realmente tivesse algo além de apenas jornais, teria de se entrar num ônibus e viajar uns 20 a 30 minutos. O bairro, chamado Lote XV, era onde eu trabalhava também.

Como eu acordava cedo para ir trabalhar, eu procurava acordar mais cedo um pouco e ir até a banca de jornal para ver o que foi lançado. Certo dia acabei chegando tão cedo que eles ainda não haviam chegado, Acho que eram umas cinco e meia da manhã, não lembro bem, só sei que foi interessante ver a Kombi chegar e eu poder ver, em primeira mão tudo que estava chegando.

Então eu me acostumei a isso, chegava antes deles e esperavam, ou junto com os caras. Nem sempre eu comprava, por falta de grana. Mas não demorou muito para que eu acabasse podendo comprar a "crédito". Eu praticamente pulava dentro da Kombi quando ela chegava, e os jornaleiros (eram dois irmãos os donos da banca) já estavam acostumados com a minha presença.

A banca era um pólo que distribuía jornais por toda aquela área esquecida por Deus. Haviam várias bancas menores, filiais dela, espalhada pelos vários bairros ali por perto. Até mesmo no meu bairro havia uma, mas era apenas para jornal. Lembro que quando eu era bem pequeno essas bancas chegavam a ter gibi. Mas acho que não valia a pena e eles mandavam no máximo as revistas de fofocas.

Era horrível chegar lá, as cinco e meia, seis horas da manhã, e ouvir um deles dizer: "Hoje não tem nada pra você". Eu ia trabalhar (numa padaria próxima) péssimo. O jeito era ler as tirinhas nos jornais velhos que ficavam mofando por lá. No entanto, em certos dias eu saía com a minha conta na banca bem alta. Eu comprava tudo que saía: Disney, Turma da Mônica, MAD, Os Trapalhões (aquele da Bloch) e claro, super-heróis. Com o tempo passei a comprar Tex e Zagor.

Foi nessa época que minha coleção de HQs realmente era uma coleção. Cheguei a 500 revistas mais ou menos. Com o tempo eu saí de onde trabalhava, mas continuei comprando lá, até que fui parando aos poucos, comecei a andar mais, e até mesmo fui deixando e comprar tantas revistas. Hoje em dia a banca ainda está lá, mas não tem a mesma imponência de antes. Não vende mais revistas, apenas jornais. Está velha e corroída. Um terceiro irmão, mais carrancudo é quem toma conta e os outros dois originais não aparecem mais por lá.

Mas ainda é a única banca de jornal daquele lugar esquecido por Deus. Ela parece estar lá, mesmo tão decaída, insistindo em não se dar por vencida. Toda vez que vou à casa de minha mãe eu passo por ela, e do carro eu olho, mas prefiro não parar e ir até lá. É só uma sombra de um outro tempo. Uma curva deixa a banca para trás, mas não as lembranças que aqui relatei.


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